Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

Educar não é domesticar

Os estudiosos da educação definiram de um modo geral três estilos educativos: o autoritário, o negocial e o “deixa andar”. Na prática, um educador utiliza os três estilos em momentos diferentes, perante pessoas ou circunstâncias diferentes.

No entanto, se analisarmos o recurso de um educador aos estilos possíveis, há sempre um que é mais utilizado. Pais ou educadores autoritários têm muita dificuldade em negociar. Estabelecem com o seu educando uma relação de domínio, poder, condicionalismo e dependência.

Pais ou educadores que preferem um estilo negocial avaliam mais frequentemente a realidade do educando, as causas que explicam o seu comportamento; escutam o seu ponto de vista; procuram descodificar o modo como ele vê a realidade e o significado que lhe atribui. Um pai, mãe ou professor que negocia, orienta mais do que impõe, responsabiliza mais do que culpabiliza.

Finalmente, o estilo do “deixa andar” nem impõe regras, nem negoceia opções; depende da disposição e sobretudo, não é firme no controlo, raramente define regras e quando o faz, esquece-se de as fazer cumprir. No estilo desleixado do deixa andar, não há uma aprendizagem de modelos parentais positivos; todos podem ser referências e muitas vezes são os outros, os não educadores que ensinam.

Qualquer um destes estilos até pode ser eficaz, se ajustado à realidade do momento, se adequado aos educandos. Mas o mais certo é que o recurso sistemático a uma única forma de educar não é eficaz, porque há horas em que a negociação deve dar lugar à firmeza inflexível ou a inversa. Há momentos em que é preferível não intervir e “dar corda” para ver até onde o outro é capaz de ir, por sua conta e risco.

Educar não é fácil e encontrar um estilo adequado ainda é mais difícil. Quantas vezes se utilizam estratégias que foram eficazes com um filho mais velho, mas que se revelam ineficazes para com o mais novo. Ou então, procura-se adoptar os modelos com que se foi educado e se conclui que nem tudo é aplicável, porque os tempos são outros e a geração dos filhos tem de ser educada para viver no seu tempo.

Encontrar o modelo educativo mais correcto é um processo contínuo de aprendizagem com os educandos, porque não há doutoramentos em educação de filhos, mas antes uma experiência acumulada, uma atenção refinada que se constrói de pequenos detalhes. Um bom educador antecipa o comportamento do seu educando, reconhece o seu modo de agir, mesmo quando ele não está presente: “isto é obra de fulano”. Aos poucos aprende a sintonizar e a comunicar de forma simplificada e, tal como um oleiro, ajuda a moldar o barro do seu ser de forma suave, fazendo soltar o ser único que nele habita. Um bom educador sabe que não há modelos que sirvam a todos.

Ouvem-se os professores queixarem-se da indisciplina, do palavreado dos alunos, da falta de educação. Do seu lado, os pais sentem-se impotentes para controlar todas as influências que afectam o comportamento dos filhos.

Entre professores e pais, as crianças e os jovens procuram referências sólidas, firmes, que os ajudem a balizar a vida; modelos para copiarem ou para contrariarem; portos de abrigo que sejam refúgios quando perdem o norte. Afinal, como é que eu faço? O que é que está certo?

Quando um educador, seja ele familiar ou professor, desiste de ser um modelo para os mais novos e não é capaz de afirmar e defender aquilo em que acredita ou, pelo contrário, julga-se o único detentor da verdade e procura impor um modelo à força, esquece-se de que educar não é domesticar, mas ajudar a libertar a individualidade e fazer despertar o melhor de cada um.

(publicado no Açoriano Oriental a 18 de Fevereiro 2008)

publicado por sentirailha às 16:23
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