Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

Desistir de estudar

Este é sem dúvida um dos maiores problemas sociais e educacionais que tem marcado a realidade portuguesa.

Durante décadas, pouco exigente em relação à qualificação, o País ainda não consegue evitar que grande parte dos jovens desista de estudar antes dos 18 anos e que muitos o façam aos 16. Atingindo a idade limite da escolaridade obrigatória, os jovens e as famílias entendem ter cumprido com o que a sociedade lhes impunha e abandonam o sistema educativo; em alguns casos, fora da escola, as raparigas aguardam um casamento e os rapazes um “serviço”.

“Desistir de estudar” é um problema social que tem merecido a atenção de investigadores, políticos e professores. Segundo alguns autores, há razões sociais e culturais que condicionam as aspirações dos jovens. Por exemplo, terem pais pouco escolarizados, que foram alunos absentistas; viverem em condições materiais desfavoráveis; não valorizarem a escola, como lugar de aprendizagem e formação cívica.

Para além do contexto desfavorável do ponto de vista económico, para muitos, estudar ainda se resume a saber ler, escrever e contar, competências que uma vez adquiridas são consideradas suficientes. O conhecimento do mundo, das ciências, da História ou da Geografia são considerados dispensáveis, pois em nada parecem mudar o quotidiano dessas famílias.

Combater a vontade de desistir, implica alimentar objectivos, projectos de vida que passem pela formação. Porque, para muitos desses absentistas, a escola não é entendida como um lugar onde se aprende a ser e a conviver, um lugar onde se descobrem potencialidades e se interiorizam regras de convivência. Antes pelo contrário, sentem-se rejeitados, marginalizados e, por isso, entendem que não são bem vindos nesse lugar. Está hoje comprovado que as crianças que são socialmente rejeitadas pelos colegas, ou mesmo esquecidas dos professores, têm maior tendência para desistir dos estudos. Porque sentem mais dificuldades na aquisição das competências básicas, porque não se comportam na sala de aula de forma adequada e só quando chega a hora da ginástica ou das expressões plásticas, evidenciam capacidades e obtêm bons resultados, essas crianças e jovens acabam por desistir, face a uma permanente desvalorização do que não são capazes de fazer, sem nunca receberem um elogio e admiração pelas competências reveladas.

Desistir dos estudos não é uma fatalidade para alguns. É uma solução por vezes desejada por um sistema que lida mal com a diversidade de percursos de vida, e que por vezes se esquece dos que ficam na margem, sejam os que têm mais dificuldade ou mesmo os génios, que escapam à média.

Há que analisar as razões que conduzem à limitação dos percursos escolares de muitos estudantes. Refira-se a propósito que na União Europeia a percentagem de jovens entre os 18 e os 24 anos que não está a frequentar o sistema educativo era de 15% em 2006, enquanto que em Portugal esse valor ascendia a 35%.

Na realidade, o problema no nosso País, e em particular na nossa Região, ainda não está ao nível dessa faixa etária, mas antes com os jovens até aos 15 anos. Procura-se evitar que desistam do sistema educativo entre os 16 e os 18 anos, oferecendo-lhes alternativas escolares.

Apesar dessas estratégias, todos temos consciência que a permanência dos jovens no sistema educativo implica que famílias e, sobretudo os mais novos, entendam que aprender é uma necessidade, e que o ser humano só se realiza se cultivar a vontade de querer saber mais. Para além disso, é importante e necessário renovar o clima relacional nas escolas, melhorar a relação dos jovens entre si e com o corpo docente, fomentando o sentido da cooperação, do entre ajuda e da solidariedade, valores que podem fazer da escola um lugar de afirmação de uma cidadania plural.

(publicado no Açoriano Oriental, 25 Fevereiro 2008)

publicado por sentirailha às 22:56
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Março 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
13
15
16
17
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Um Tempo para meditar!

. Sexismo

. Retrocesso na Rússia

. Uma horta faz bem!

. Retrocesso na Rússia

. Deveres humanos

. Carisma

. Termos de Pesquisa (visua...

. Um inimigo do povo

. Marcas do Tempo

.arquivos

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds