Sábado, 15 de Março de 2008

As mulheres …

São mais de 50% dos habitantes do mundo e em alguns domínios ainda são tratadas como minoria. Veja-se o caso das eleições para a Presidência dos Estados Unidos, onde se analisa, em pé de igualdade o facto de no partido democrático estarem em disputa uma mulher e um negro.

Condicionadas por uma história onde a maternidade foi a sua missão natural, a sociedade reservou-lhes um lugar cativo dentro dos lares, cuidando das gerações mais novas e mais velhas, arredadas do poder e até do espaço público. A rua tradicionalmente pertence ao homem e, por imitação, também pertence aos rapazes. É aí que eles brincam à bola, jogam ao berlinde e ao pião e andam de bicicleta. Por sua vez, a casa, mesmo que se tratem de jovens entre os seis e os quinze anos, é lugar mais adequado para raparigas.

Um estudo de 2002, realizado pelo INE, sobre o modo como as crianças ocupavam o tempo, e que nasce de um outro dirigido aos adultos, revela de forma clara que nessa faixa etária dos adolescentes a ocupação do tempo é já bastante desigual. Questionados sobre o tempo gasto com diferentes tarefas domésticas e a frequência com que as desenvolviam, os adolescentes inquiridos retratam o mesmo mundo desigual dos seus pais: as raparigas ocupam mais tempo com a preparação de alimentos, arrumo e limpeza da casa, lavagem da louça. E, apenas quando se trata de compras, rapazes e raparigas parecem ter um comportamento semelhante.

Estes resultados dão que pensar.

Afinal, os adultos reivindicam uma maior paridade na divisão das tarefas; os casais por vezes desentendem-se porque as mulheres empregadas não têm nos seus maridos, pessoas disponíveis para o cuidado aos filhos, uma ida ao médico ou à escola. E, ao mesmo tempo, ensinam a geração mais nova segundo padrões de referência tradicionais.

“Rapazes, brinquem na rua, joguem à bola e deixem a cama por fazer.

Meninas, em casa é que é o vosso lugar, há louça para lavar, um bolo para fazer e a cama deve estar feita antes de saírem de casa.”

Onde fica a paridade, se a geração que educamos aprende de forma desigual a relação com a casa e com o mundo da família?

Porque, é disso que se trata quando se elege um dia para homenagear as mulheres e lembrar os direitos ainda não respeitados. O que falta é cooperação, é partilha democrática, é respeito pela diferença e exercício da complementaridade. Uma diferença que não pode ser imposta, mas que é reconhecida na interacção entre homens e mulheres, no modo como se entendem e procuram conciliar interesses.

A questão não está em virar do avesso a ordem dos factores desiguais e passarem os homens ou os rapazes a assumirem integralmente o mundo da casa, para deixarem o mundo e o espaço público às mulheres.

A dificuldade está na partilha desses dois espaços, o público e o privado, por ambos, numa relação complementar e cooperante.

Nos últimos anos, muito tem mudado, é certo. Mas, se olharmos com atenção, as mulheres têm ocupado mais o espaço público e demonstrado, em domínios considerados masculinos, que têm um contributo a dar e podem transformar o desempenho de actividades que lhe estavam vedadas, como a medicina, a advocacia, a política ou até mesmo o universo da construção civil, as pescas e a lavoura.

Mas, se as mulheres saem para a praça pública, a inversa é rara. Os homens parecem temer o espaço privado, a relação mais próxima com as crianças, os cuidados diários e as tarefas rotineiras, que asseguram a sobrevivência da família. Falta esta dimensão para que, realmente, a cooperação seja uma realidade e então, deixaria de fazer sentido, um dia internacional para as mulheres.

(publicado no Açoriano Oriental de 10 Março 2008)

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publicado por sentirailha às 17:06
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