Terça-feira, 14 de Julho de 2015

A terra

Cuidar da terra parece simples nos gestos e nos propósitos. Arrancar ervas, cavar ou simplesmente prender umas hastes que teimam em cair, não tem, aparentemente, qualquer ciência, mas exige sensibilidade e arte, porque significa cuidar da vida.

Não é por acaso que jardinar é, para muitas pessoas, uma forma de descomprimir, relaxar e sobretudo, repor energias.

Cuidar das plantas, das flores ou da horta é muito mais do que uma atividade física, representa uma experiência emocional e até pode ser uma aprendizagem não apenas sobre natureza, mas sobre o comportamento humano. Desde logo, tal como as pessoas, as plantas reagem ao toque, à emoção, à dedicação de quem as cuida.

Um jardineiro arranca ervas, plantas "daninhas" que crescem onde não foram plantadas e prejudicam as culturas. São como certas pessoas, insinuam-se e fazem-se passar por imprescindíveis, apesar de nada valerem. Encostam-se aos feijoeiros e deixam que estes se prendam nelas em busca de suporte, ou então, confundem-se com as plantações a proteger vivendo na sombra e à custa da sua energia.

Libertar uma plantação das invasoras que se alastram de forma rápida é um processo necessário para quem cuida de quintais ou de hortas. Fazê-lo é, sem dúvida, uma aprendizagem sobre a forma como organizamos o quotidiano. Nada nunca está concluído. Todos os dias é preciso fazer escolhas, decidir o sentido a dar ao que fazemos, evitando ir ao sabor do que os outros querem fazer de nós, para não correr o risco de perder força. Não é fácil! Há muitas dessas plantas invasoras que, apesar de não darem fruto, tem muita rama e são vistosas.

Temos de cuidar do que é genuíno, do que é nosso, libertando a natureza das invasoras, algumas trazidas por alguém que as achou bonitas numa qualquer parte do mundo.

Cuidar das plantas é fazer escolhas, entre o que vale a pena preservar e o que são meros interesses de ocasião, e isso pode significar ter de podar o que não interessa ou põe em risco o futuro da planta. Podar é uma escolha, que ajuda à concretização do sentido ou projeto de uma espécie. Afinal, retirar um galho que seca ou um ramo que se torna pesado demais é ajudar a árvore a crescer de forma equilibrada.

Fazer escolhas pode ser doloroso, mas é fundamental para termos consciência do que é essencial aos bons resultados.

Apesar da terra ser fonte de sabedoria, trabalhar no campo foi durante demasiado tempo visto como uma profissão pouco exigente, pouco valorizada socialmente. Mal pagos e pouco reconhecidos, muitos foram aqueles que voltaram costas à agricultura.

Felizmente hoje assiste-se ao reencontro com o valor da terra, por necessidade ou por consciência e, aos poucos, se vai retomando o gosto pela produção de hortícolas como profissão ou lazer.

Passou a ser moda ou desejável comer produtos frescos, sem químicos, de produtores que se conhecem.

Numa terra como a nossa, rica, fértil e amiga das plantas, reencontrar o valor do trabalho agrícola e revalorizar a produção de produtos locais pode ser extremamente importante para a nossa economia, a criação de emprego e, sobretudo, para dignificar a relação com a natureza que nos acolhe, tão necessária à sobrevivência como à afirmação da identidade insular.

Cuidar da terra é cuidar de nós...

(texto publicado no Açoriano Oriental de 14 Julho 2015).

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publicado por sentirailha às 23:41
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