Quarta-feira, 4 de Maio de 2016

Capítulos da vida

A maioria de nós não é escritor ou romancista, nunca publicou uma novela e não sabe como se escreve um enredo. Mas, apesar disso, a vida de cada um de nós é uma história única, cheia de peripécias, recheada de momentos dramáticos, uns tristes, outros mais alegres. São inúmeros os acontecimentos, encontros e  desencontros que podíamos contar. Por isso, quando ouvimos a história de alguém é como se folheássemos um livro apaixonante, um romance que não queremos acabar de ler.

Mas, há um dia em que a história de alguém, que conhecíamos de perto, termina. Cala-se para sempre o texto que, sem nos darmos conta, estava na conclusão. Nessa hora sentimos que se fechou um livro, foi posto um ponto final numa narrativa, onde também nós éramos personagens.

Mesmo reconhecendo que aquela história teria de chegar ao fim, há uma enorme tristeza quando somos confrontados com a página em branco que encerra o último capítulo. Sabíamos que podia terminar, mas ficamos sempre à espera de partilhar mais umas páginas ou pelo menos ler mais algumas linhas.

A história da vida não tem o número de páginas que se quer, mas aquelas que correspondem à missão de cada um.

E é um facto, que fechar o livro da vida de alguém, com quem nos habituamos a viver e que fomos aprendendo a conhecer, é sempre encerrar um capítulo da nossa própria vida.

São etapas, capítulos que terminam que fazem recordar o passado e relembrar o essencial de tantas memórias.

Quando mais nada há para dizer, recorre-se à expressão, "É a vida!", frase feita que nos relembra que é o fim do último capítulo. Resta virar a página e recomeçar, desta vez sem todos os personagens que faziam a história, mas retomando as referencias que ficaram da sua passagem. Não esquecemos que partilhamos com eles vários dos nossos capítulos e também com eles aprendemos a ser quem somos.

Capítulos da vida são etapas que se sucedem, umas mais ou menos longas, mas sempre encadeadas num mesmo fio condutor. Aos poucos a história ganha sentido e tudo se encaixa como se tivesse sido planeado.

A vida vai fluindo e aqueles com quem nos cruzamos vão entrando e saindo nessa história, deixando marcas e memórias indeléveis.

Recordo a persistência no trabalho e o carinho pela terra, a arte de cuidar da vinha e a alquimia do vinho, um néctar que fazia da adega lá de casa um lugar de romaria.

Recordo a sinceridade no elogio e o silêncio no desagrado. Nunca passava sem a sesta a meio da jornada de trabalho e o gosto de voltar a casa, cansado depois de labutar. No final, quando as forças falharam, ficou o silêncio da aceitação, a ternura de um último olhar e a despedida tranquila de quem escolheu o momento para nos deixar.

Foi um livro que se fechou, mas não foi uma história escrita em vão. Das páginas que pude ler, ficaram lições de sabedoria, exemplo de uma história feita de renúncias e vitórias, uma vida de humildade e tenacidade de quem sabia o que queria, sem se revoltar, de quem sonhava mas era capaz de abdicar.

A vida é feita de capítulos, que nunca se repetem. E todas as páginas contam nessa história, que não conhecemos como nem quando termina.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 4 Maio 2016)

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publicado por sentirailha às 16:58
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