Domingo, 17 de Agosto de 2014

Entrar na tela

O mundo é uma tela que olhamos à distância sem compreender os detalhes figurativos. Lugares emblemáticos, edificios e monunmentos, paisagens, figuras humanas, tudo nos parece distante, estático, ilustração de um desconhecido que, por nunca termos visitado, se transforma em lugar idílico.

Mas as telas são momentos, retratos estudados para passarem uma imagem, um ângulo, um ponto de vista.  

Quando nos aventuramos a penetrar nessa figuração, qual Alice no país das maravilhas, descobrimos uma realidade bem diferente.

Do lado de fora, tudo parecia retocado, idealizado, as cores eram brilhantes e os personagens estavam posicionados de forma estratégica.

A imagem da tela não parecia ter defeitos ou irregularidades, que só emergem quando nos atrevemos a ver de perto. Os lugares imóveis ganham cheiros, as figuras amontoam-se, as paredes mostram-se desgastadas e os ferrolhos das portas rangem quando as abrimos.

Afinal, o brilho das imagens não é verdadeiro, as purpurinas da tela tornavam novas as figuras desgastadas, e só quando os abordamos damos conta que os vendedores há muito deixaram de ser genuínos comerciantes de produtos locais.

Onde antes as imagens eram de calma e até de romance, a realidade revela ruído, confusão, um lugar que não dá espaço aos afetos, mas afasta as pessoas da autenticidade. É um faz de conta, que se vende, porque poucos são os que procuram a história e a verdade dos lugares. Compram o postal retocado, em vez de tirarem fotografias, levam recuerdos em vez de produtos locais, feitos por mãos experientes de artesãos com histórias para contar.

Num faz de conta, de quem está mais preocupado em colecionar lugares, postais, do que em viver experiências, vão se destruindo identidades, desmoronando histórias, ignorando realidades. Os números de visitantes acumulam-se e isso é que interessa.

Não consigo deixar de sentir o cheiro a esgoto nos canais de Veneza, reconhecer a falsidade nos produtos para turista consumir, ficar surpresa por não encontrar autenticidade no vendedor que me faz crer que um tecido produzido numa qualquer fábrica do oriente, é o resultado da história e da sabedoria locais.

Tudo parece estar invadido por consumidores ávidos de postais, que procuram a imagem da tela, do panfleto, indiferentes ao que realmente faz e representa o mundo que visitam. A tela sobrepõe-se à realidade e quando regressam a casa, pouco importa se sentiram ou não o mundo, colocam uma bolinha amarela na tela, vangloriando-se perante os amigos, de que ali, já estiveram, colecionando viagens, como quem preenche um álbum de cromos.

O mundo não é uma tela, mas um lugar onde aprendemos a conhecer os outros e a nos conhecer a nós próprios, se o que procuramos for a autenticidade do lugar, o caráter genuíno das pessoas.

publicado por sentirailha às 10:34
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