Quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

Este parte, aquele parte....

Cresci ouvindo esta canção e sempre que alguém trauteava esta música ao som de um violão, sentia uma tristeza imaginando ranchos de pessoas caminhando por campos de trigo, de sacas às costas, arqueadas com o peso dos haveres, chorando... Via lenços brancos acenando de longe... e aquela mancha de pessoas perdendo-se no horizonte.... partindo em busca de melhor vida.

Partir ... é um verbo doce amargo, que traz consigo viagens com e sem regresso... despedidas e abraços sentidos... dedos que se desligam até não poderem se tocar.

Partir recorda-me barcos a vapor abandonando o cais, levando militares para África, famílias inteiras que rumavam para um Novo mundo, estudantes em fim de férias... acenando do cimo do convés ou da porta de embarque do aeroporto. Partida é aquele último olhar no retrovisor onde se destacam as figuras daqueles que deixamos ao portão em fim de férias. Até para o ano, até Deus querer, até sempre...

Este parte, aquele parte e todos, todos se vão....

É uma canção datada, que recorda a emigração de milhares de pessoas dos campos, que procuravam nas cidades a felicidade, a fartura, o futuro dos filhos.

Emigrar, emigrantes, eram palavras que tocavam as vidas de muitas famílias e marcavam o calendário das chegadas, quando desciam as escadas do avião... era dia de festa. A família toda reunida à espera de reconhecer os rostos alterados pelo tempo, endurecidos pelo trabalho nas fábricas.

Como mudaste, estás bonita, ele está tão grande, quem o viu partir....agora é um homem.

As cartas de chamada e as sacas de América, eram sinais de que o sucesso era possível, mesmo que poucos adivinhassem a que preço. Mas havia abundância, trabalho, e o que estas realidades permitem ter, uma casa, um carro e roupas novas.

O tempo foi passando, as vidas foram ficando melhores e aos poucos os números da emigração foram baixando até serem residuais. As vozes diziam, satisfeitas, que já não era preciso emigrar, temos quase tudo o que a América oferece. Os frigoríficos cheios, os supermercados com variedade, as roupas de marca e uma qualidade de vida invejável.

Crescemos a distanciamo-nos da emigração que afetou a juventude dos nossos pais e retirou ativos de muitos concelhos. Aos poucos parecia que retomávamos o equilíbrio, vendo nascer e crescer as crianças na terra, criando empregos e fixando famílias. Algumas, poucas, até regressavam da emigração, para investir na terra que lhes serviu de berço, porque nunca esqueceram as raízes.

Agora, pensávamos nós, cabe-nos a vez de receber outros povos que buscam melhorar as suas vidas, imigrantes de países de leste ou africanos.

Mas, apesar de termos vivido na pele a saída de tantos, nem sempre soubemos acolher da melhor forma os que procuraram ajuda nas nossas terras.

Talvez porque a emigração era assunto do passado, agora era tempo de partilhar negócios, promover viagens e transações, sobretudo com emigrantes de sucesso. Passaram-se mais de cinquenta anos. Até há bem pouco tempo, a emigração era um problema histórico e demográfico que tinha afetado a pirâmide etária no século passado.

Mas de novo, a música regressa e “este parte, aquele parte e todos, todos se vão....

As palavras pesadas desta letra ressuscitaram, ganharam vida para a geração dos jovens, os nossos filhos, aqueles que criamos na certeza de que o mundo ia ser diferente...

Hoje não são os campos que se esvaziam, mas os jovens qualificados rumam a outras terras à procura de trabalho.

O país fechou as portas para balanço, emperra-lhes o futuro, como se eles pudessem esperar, e aguardar por melhores dias, sentados, com o diploma nas mãos ...

Aguardem, não tarda muito vamos ter uma retoma! Vejam! O desemprego até está a baixar!

O futuro não se congela, para mais tarde retomar o seu curso. Hoje, vivemos o futuro de ontem e cada dia que passa é tempo desperdiçado, é futuro comprometido, sobretudo quando deixamos jovens à margem, à espera... sem resposta.

Não há criação de riqueza sem investimento no capital humano, não há crescimento da economia sem a participação das pessoas. A economia mesmo que cresça não gera desenvolvimento se não for pensada com e para as pessoas. Mas será que isso interessa a este país? A esta região? Para onde vamos? O que queremos fazer das qualificações que instamos as famílias a proporcionar à geração mais jovem?

Este parte, aquele parte, e o país fica mais pobre porque dispensa, desiste de investir nos seus membros.... e manda-os aguardar...

Tarde de mais.

Alguns já foram.... e muitos mais irão.....Portugal ficas sem filhos que possam cortar teu pão.

 

PD, 28 Agosto 2014

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publicado por sentirailha às 13:28
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