Quarta-feira, 20 de Maio de 2015

Livre

O sentimento de liberdade é subjetivo, interior, imaterial. Mas, nesse quadro de referencias tão pessoais, tudo é relativo. Livre em relação a quê, a quem? Livre de quê ou de quem?

Dificilmente o ser humano se liberta de algo, sem logo a seguir se ligar a outra realidade, seja pessoa, hábito ou ideal.

Libertei-me do tabaco, mas agora não consigo passar sem umas pastilhas elásticas. Libertei-me do emprego, mas preciso de um horário para me organizar.

Realmente o que nos torna livres não é estarmos desligados dos outros ou do mundo, porque ninguém consegue ser livre sozinho. Nem tão pouco a liberdade se concretiza porque não temos compromissos, como poderá pensar o reformado que voluntariamente antecipou a sua saída do mundo do trabalho. Não tardou muito, comprometeu-se com outras realidades. Dirá que o fez sem ser por obrigação, desses compromissos não depende a sua sobrevivência, mas são compromissos na mesma. Alguém, na associação onde é voluntário, no curso que resolveu frequentar, passou a contar com ele, e isso compromete, é uma obrigação e a demonstração do seu sentido de responsabilidade cívica.

Livre mas ligado, talvez essa seja a fórmula humana de viver feliz.

Ligado aos outros, por afetos, por projetos. Ligado ao mundo, na procura de respostas e/ou de soluções. Ligado aos que ajudamos, de forma espontânea ou por sentido do dever.

Ninguém é livre, se estiver desligado, sozinho ou isolado.

Duvido que a liberdade acabe onde começa a liberdade do outro! Dessa forma não haveria sobreposição de espaços, de vidas e a minha liberdade seria mensurável.

A liberdade é sempre relacional, constrói-se sempre com um outro, por isso, nunca acaba nem começa, entrecruza-se. Mas perde-se, isso sim, quando destrói o outro, quando dessa relação resulta sofrimento, violência, desrespeito pela dignidade, humilhação. E quem assim age, deixa de ser uma pessoa livre, porque destruindo o outro, destrói-se a si mesmo, magoando a dignidade de alguém, perde a sua própria dignidade.

Aprender a gerir o livre arbítrio, como refere o código penal, é saber escolher e não poder fazer o que apetece, como se o mundo começasse e acabasse em mim.

Porque a liberdade faz-se com os outros, como o ser pessoa também.

Ser livre é procurar a dignidade, a humanidade no outro e, com isso, sentir-se mais digno e mais humano.

Livre para pensar, refletir o mundo e devolver imagens que possam ajudar alguém, que faça pensar ou "sair da caixa", como agora se diz. Porque não é livre quem se fecha num mundo acabado, sem futuro, sem horizonte, por medo, para se defender do confronto de ideias ou opiniões.

Não é livre quem apenas se preocupa com as aparências e as circunstâncias, quem passa a vida no jogo de cintura, sem dar conta que anda à roda sobre si mesmo e pouco ou nada consegue avançar.

Só é livre por dentro quem é capaz de se comprometer e de construir, sem ficar dependente ou se apoderar da obra que constrói. A liberdade abre o espírito à diferença e, tal como no Pentecostes, desbloqueia amarras, abrindo os porões ou portões do medo e da angústia.

Ninguém é livre se ficar encerrado num mundo de conveniências, sem se atrever abrir as portas do pensar e do sentir.

Tal como a ilha se liberta na espuma do mar, o ser humano é pelo espírito que descobre o mundo que o rodeia.

(texto publicado no Açoriano Oriental, 19 Maio 2015)

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publicado por sentirailha às 10:54
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