Terça-feira, 5 de Setembro de 2017

O género da polémica

Que a natureza integra o feminino e o masculino e que estas duas dimensões estão na origem do processo reprodutivo, de quase todos os seres vivos, ninguém o nega. Mas, que essa diferença, complementar, se transforma em desigualdade social, nem todos o admitem. A desigualdade de género, não sendo natural, acaba por ser ensinada desde o berço e infiltra-se nas relações e no quotidiano, de tal forma, que dificilmente nos apercebemos o quanto está impregnada nas nossas vidas.

É preciso olhar com detalhe, rever comportamentos habituais para reconhecer o modo como, ainda agora, se educam os meninos e as meninas de forma tão diferente. Uma diferença que está para além da questão sexual, mas que determina os papéis que lhes atribuímos. Seja nos brinquedos ou nas brincadeiras, nas tarefas domésticas ou na decoração dos quartos, há uma imagem fabricada e reproduzida, do azul e cor de rosa, dos carrinhos e das bonecas, do futebol e do ballet.

Mais do que imagens, que dividem materiais escolares, pintam as capas dos cadernos e separam os brinquedos dos catálogos comerciais, o que constrói a desigualdade são as relações entre homens e mulheres e o modo como estruturam a identidade dos jovens, que não tardam a ser adultos.

É importante que nos preocupemos com essa educação, com o facto de o ensino secundário ser frequentado por mais raparigas do que por rapazes, e as universidades estarem dominadas por estudantes do sexo feminino.

Olhemos o modo como alguns pais "castigam" um filho, que "não dá nada na escola", "é preguiçoso" ou "voltou a chumbar", com um trabalho de verão, "para aprender o que custa a vida!"; enquanto se for uma filha, impõem-lhe as limpezas da casa.

O mundo da casa e os cuidados à família continuam a ser ensinados como "obrigações" femininas, enquanto os jovens rapazes são orientados para empregos "com barba", longe das preocupações familiares.

O género está demasiadamente impregnado na língua portuguesa, para que o combate à desigualdade se possa vencer com debates a propósito de "cadernos de exercícios, azuis e cor-de-rosa" ou do recurso à designação "chefe de família" de uma candidata autárquica.

A paridade não se alcança nesses debates de pormenor, nem o conceito de género alguma vez significou anulação de diferenças.

A questão central reside no facto de a condição biológica, de quem nasce masculino ou feminino, não determinar as ambições pessoais ou sociais, nem definir graus de inteligência ou aptidões.

Os exemplos são cada vez mais frequentes, sobretudo, porque os lugares onde se investe nas competências, escolas e universidades, estão a ser deixados às mulheres. E isso não é salutar, nem positivo, sobretudo, quando há quem considere a qualificação no feminino "complementar", desvalorizada no acesso ao mercado de emprego, enquanto no masculino continuar a ser um "passaporte" para empregos de sucesso, bem remunerados.

Uma sociedade que promove igualdade de género dá espaço aos jovens, rapazes e raparigas, para que se descubram como pessoas, pouco importa se é cor-de-rosa ou azul, e possam livremente escolher áreas de formação e empregos, ditos de homem ou mulher.

A reflexão que importa fazer e a mudança a concretizar, estão na forma como bloqueamos a livre expressão e realização do ser humano, reféns de modelos acabados, inadequados e impostos, do que "deve ser" um homem e uma mulher.

Enquanto pensarmos que a vida social se determina à nascença, a injustiça associada à desigualdade de género será uma realidade e as relações entre homens e mulheres serão palco de conflitos, tensões, porque incapazes de harmonizar a diferença num projeto comum.

 (artigo publicado no Açoriano Oriental de 5 Setembro 2017)

publicado por sentirailha às 11:47
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Ruby Bridges

. Escárnio e Maledicência

. O género da polémica

. Pobreza e Desigualdade

. Simone Veil

. Igualdade para fazer a di...

. Uma mulher condecorada

. O Papa do sorriso

. Um Tempo para meditar!

. Sexismo

.arquivos

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Escárnio e Maledicência

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds