Quinta-feira, 22 de Junho de 2017

O Papa do sorriso

Francisco, o Papa do sorriso, veio a Fátima mostrar como o amor verdadeiro é sempre pessoal, toca a cada um de forma especial, no mais íntimo da pessoa, para curar as suas feridas e fazer vislumbrar novos caminhos.

O Papa da misericórdia, da humildade, conseguiu em poucas palavras ser doce e firme ao falar da fé, essa trave mestra que segura o edifício da vida das pessoas, crentes ou não em Deus, que carregam vidas mais ou menos difíceis, que sofrem ou estão angustiadas sem saber o que decidir, nas encruzilhadas do quotidiano.

Francisco fala de forma direta, mas com suavidade. As suas palavras tocam o essencial, fazem apelo à ternura e à humildade e não à revolta ou à força.

O mundo assiste a profundas mudanças e alguns, perante a dúvida, acham que é varrendo as pessoas indesejadas, maltratando os insubmissos, que se consolida uma sociedade melhor. Esquecem-se, como refere o Papa, que a força é a arma dos fracos. Os fortes, "não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes".

Neste ponto, o olhar do Papa, tal como o olhar de Deus, volta-se para "os deserdados e infelizes a quem roubaram o presente, ou os excluídos e abandonados a quem negam o futuro" e diz-lhes para se (re)erguerem.

O mundo precisa deles. Mas, para que este milagre aconteça, para que todos os que se sentem fracos se ergam, os infelizes voltem a acreditar em si e os excluídos procurem lutar pelo lugar, que lhes é negado, é preciso não ter "qualquer forma de medo ou temor".

A todos os que contribuem para a infelicidade dos outros, que esquecem os mais pobres ou mais frágeis, que abusam e esquecem o seu compromisso de bem-fazer, seja na família ou na empresa, na escola ou em qualquer outro lugar, o Papa lembra que estão sempre a tempo de mudar. Recorda que o orgulho pode distrair os corações e esconder as pessoas "detrás das suas ambições e interesses".

A humildade e a ternura, pelo contrário, fazem baixar o olhar para os outros, sobretudo para os mais pequenos, a quem este Papa faz questão de tocar, abençoar, num sinal de ternura evidente.

O Papa Francisco fala com simplicidade, mas com realismo e veracidade. Ele não maquilha os discursos, nem incensa as palavras. Desinstala o poder eclesial e abana os cristãos, sobretudo os que vivem agarrados a rotinas religiosas, alienados do mundo que os rodeia. O Papa recorda que Maria, que se venera em Fátima, é a mesma que acolheu Jesus e chorou diante da sua morte. Maria é uma figura central, exemplo de disponibilidade ao amor; mulher coragem, que acolhe e entrega, protege sem se apoderar, ama sem cobrar.

Por isso, o Papa alerta para o erro daqueles que se dirigem a Maria, para "negociar" favores "a baixo preço". Ter fé não é ter um cartão de crédito ilimitado, um salvo-conduto para benefícios, uma entrada prioritária no reino do bem ou da graça. A fé fortalece, humaniza, mas não isenta os crentes do sofrimento ou da dificuldade. Não seria humana se tal acontecesse.

A fé qualifica a humanidade, ao fortalecer a vontade e o empenho na construção de um mundo melhor, de paz e alegria.

Sem utopias irrealistas, o Papa Francisco mostra-nos como um simples sorriso pode ser sinal dessa abertura à alegria, que quebra os muros da indiferença ou da violência.

Nas suas palavras o medo e o temor não se coadunam com o amor. Quem ama não tem medo, quem quer ser amado não pode recear a força do perdão.

Diante de atentados contra a dignidade humana, contra a violência, os discursos xenófobos e o desrespeito dos direitos humanos, a fé fortalece quem escolhe o Amor como linguagem de poder, aliando a firmeza à força da alegria, da humildade e da ternura.

Francisco, o Papa do sorriso convida-nos a eleger o Amor como força maior e a construir a Paz, de forma artesanal, com gestos diários.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 16 Maio 2017)

 

 

publicado por sentirailha às 12:14
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