Domingo, 12 de Abril de 2015

Projeto de vida

Esta é uma expressão que se ouve a propósito, por exemplo, de jovens "ditos difíceis" ou com problemas de orientação. Imaginemos o caso do João, um jovem que faltava à escola, que não conclui o 9º ano e que, com 18 anos, é encaminhado para um curso profissionalizante, de uma área que ele até não gosta, mas que é a única disponível na escola da sua zona. Assim, pode concluir o 12º ano, uma das metas por que passa o "projeto de vida" que alguém delineou para ele.

Jovens com o João que, aparentemente, não sabem o rumo a dar às suas vidas, estão perdidos, incapazes de fazer escolhas ou de reconhecer aquilo que os realiza como pessoas.

No entanto, o mais importante, que falha nessas histórias, difíceis, não é tanto a falta de rumo ou a desorientação, mas as relações afetivas em que vivem mergulhados. Ninguém os ama a sério, os pais vivem noutro mundo e deixam os filhos por sua conta, cedo de mais; estes jovens são obrigados a fazer muitas escolhas sozinhos e habituam-se a fazer apenas, ou quase sempre, o que lhes apetece... quando lhes apetece.

Falar de projeto de vida a um jovem nessas circunstâncias é confuso e quase impossível. Falta-lhes um fio condutor!

Quando uma história é feita de pedaços soltos, aparentemente sem sentido, o mais importante é ajudar a encontrar esse fio condutor, um traço por vezes impercetível que se esconde entre pedaços de uma história, feita de abandonos, sofrimentos e ausências.

Há sempre um eixo que estrutura a vida. E, só a partir daí, se pode perspectivar o futuro, pensar um projeto de vida.

Não há projetos de vida à venda na farmácia ou nos gabinetes de orientação psicológica. E, ninguém, por mais complicada ou difícil que tenha sido a sua vida, é um caderno em branco, onde se pode começar a escrever, passados quinze, vinte ou cinquenta anos.

A vida faz-se com laços, com relações, com acontecimentos.

É nessa base relacional, que se enraiza e toma forma esse fio condutor que explica a vida de cada pessoa e a torna capaz de viver ou perspetivar acontecimentos, que até julgava improváveis: emigrar, mudar de profissão, fazer um curso, apaixonar-se ou descobrir prazer numa atividade que experimenta pela primeira vez.

A vida faz-se de encontros e os projetos que se tornam objetivos de vida, só conseguem vingar quando se enraizam no que somos.

Só quando nos assumimos, com capacidades e defeitos, com o que sentimos de forças e fraquezas, podemos pensar no que ainda não fizemos e queremos ou gostaríamos de atingir.

Ninguém, em bom rigor, pode delinear um projeto de vida para outros. Não pode. Não tem esse poder. Só o próprio o pode fazer. Mas precisa de ajuda de alguém, antes de mais, para se encontrar consigo e descobrir quem é, e depois para encontrar esse tal fio condutor, mesmo que o tenha de procurar no meio da violência, da instabilidade, das faltas de amor que marcam a sua história.

Depois disso, ficará muito mais evidente qual a etapa seguinte, o tal projeto de vida, o futuro que quer concretizar, o caminho seguir e as escolhas que isso implica.

Não será, por ventura, obrigando um jovem a frequentar um curso que ele não quer, que o fará descobrir o rumo certo, como não é levando um sem-abrigo a tomar um banho ou a fazer a barba, que o faz deixar a rua.

A vida de cada um de nós é um projeto em permanente construção, mas quem o desenha da forma mais adequada somos nós próprios, com a ajuda dos outros é certo.

Para alguém descobrir o seu projeto de vida, o seu "eu", tem de viver num "nós", ou seja tem de partilhar a sua vida com os outros.

(texto lido na Rádio Atlantida a 12 Abril 2015, no programa "Entre palavras" de Graça Moniz).

publicado por sentirailha às 20:57
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