Domingo, 4 de Setembro de 2016

Regressar

Só regressa quem parte.

Regressar é voltar a um lugar que se conhece, um ponto no mapa, uma referencia pessoal e familiar.

Apesar de o dicionário dizer que "regresso" é antónimo de "progresso", regressar não significa deixar de progredir, não é sinónimo de retrocesso, mas antes é recuperar o fio condutor que dá significado ao curso da vida.

Agosto é conhecido, sobretudo no continente, por ser o mês dos regressos à terra. São milhares de emigrantes que cruzam as fronteiras do país, trazendo no coração memórias que esperam reencontrar na comunidade onde nasceram e na vida quotidiana dos que aí ficaram.

Regressam às aldeias, em geral quando todos se preparam para as festas e, por isso, encontram fartura, convívio, amigos de infância e divertimento, uma animação que, em algumas terras, contrasta com o resto do ano onde apenas a população mais velha teima em ficar.

Mas agora o tempo é outro. Há música no café, as portadas de muitas casas estão abertas e o sol vai aquecendo as almofadas que cheiravam a mofo, guardadas em naftalina à espera do verão.

Este é o tempo para se viver intensamente, recordar o passado e atualizar o presente. Saborear as comidas que ficaram na memória e reencontrar a infância à mesa e nos amigos. Recuperar velhos hábitos e rotinas que tiveram de ser esquecidos para se poder viver o quotidiano noutras paragens do mundo, longe da família e da terra natal.

(artigo publicado no Açoriano Oriental a 9 de Agosto 2016)

Regressar a casa é sempre regressar a si mesmo, à pessoa que fomos e que não deixamos de ser, porque a vida transforma mas não apaga. Somos sempre nós mesmos, aqui ou noutro lugar. Mas, sempre que regressamos, retomamos os fios que tecem a vida e que fazem sentido na identidade que transportamos.

Quando acontece deixarmos de regressar, vai se apagando do mapa um lugar, perde-se o colorido das memórias e uma parte da história fica esquecida. Há quem prefira assim, fazer de conta que nada mudou e longe da vista, longe do coração, guardam na memória um postal desatualizado.

É bom regressar ao que somos, conscientes que entretanto o tempo alterou o lugar que deixamos.

Alguns regressam à procura do que deixaram, um cenário onde em tempos viveram que gostariam de ver inalterado, como se as pessoas que aí ficaram não vivessem, também elas, mudanças.

O tempo está sempre ligado ao espaço e não há como separar estas duas dimensões. Afastamo-nos de um lugar, das pessoas e não podemos evitar que o tempo as altere e modifique o que julgávamos eterno.

Vale a pena partir só para poder sentir a alegria do reencontro com esse lugar que distinguimos no mapa das nossas vidas.

São cheiros, aromas e sabores, cores e sensações. É como se de repente pudéssemos respirar melhor e nos sentíssemos como "peixe na água".

Regressar é alimentar quem somos, reencontrar pessoas, lugares ou até detalhes, como dormir na cama da casa de família ou sentir a densidade do mar abraçar o corpo numa sensação única de prazer.

Regressar pode ser um remédio d'alma que nos reconcilia com a vida.

É tão importante esse reencontro que, em cidades como Londres, Paris ou Boston, se constroem quarteirões ou apenas algumas lojas, onde as comunidades emigradas conseguem regressar sem sair do local, ouvindo falar a língua natal, comem pastéis de bacalhau, enquanto comentam os últimos resultados no futebol português.

Regressar! Este é o mês dos regressos, para alegria dos que chegam e dos que cá ficaram.

Sejam bem-vindos! Já tínhamos saudades!

Só espero que na hora da partida, levem no coração a vontade de regressar, assim fica mais fácil esperar.

Voltem sempre.

 

publicado por sentirailha às 21:27
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