Segunda-feira, 2 de Março de 2015

Romaria interior

Já se ouvem, ao fundo da rua, as vozes que cantam Avé Maria.

São vozes masculinas, habituadas a outras músicas e falas. Vozes que, habitualmente, até não são de frequentar muito os templos, nem se juntam por altura das domingas do Espírito Santo para rezar o terço.

Mas, quando chega a Quaresma, e sabe-se lá porquê, sentem uma vontade de viver a romaria, partilhando em espírito de comunidade uma experiência diferente.

Os romeiros, tal como os conhecemos em São Miguel, são sem dúvida uma manifestação de fé, de profunda relação do homem com a Natureza e com o divino. Aliás, reza a história que terá sido o medo das manifestações da terra que levaram a comunidade, inicialmente de Vila Franca a implorar salvação, por via da oração. E assim nasceu uma tradição, que percorre as capelas e igrejas com invocação a Maria ao redor da ilha.

Romeiros, homens de xaile e lenço, saca ou cevadeira às costas e bordão de ponta dourada numa mão, desfiam contas de um rosário, que é símbolo das suas vidas e de tantas pessoas por quem vão passando.

Eh irmão? Quantos são?

Eh irmãzinha, somos oitenta.

Irmão, peço-vos uma Avé Maria pelo meu filho!

E assim, ao mesmo tempo que se encomenda uma oração, fica a obrigação de rezar tantas avé-marias quantos os irmãos que iam no rancho. Oitenta, pois, é isso, oitenta avé-marias pelo meu filho! Que Deus o proteja por terras do Canadá!

A romaria faz-se em oito dias de caminhada, em redor da ilha de São Miguel. Uma volta que segue sempre o sentido dos ponteiros do relógio. Uma viagem que atravessa todos os concelhos, tocando as famílias que se encomendam aos irmãos romeiros ou que os acolhem para a dormida.

Um alguidar com sal, para descansar os pés; uma refeição quente e uma cama, no melhor quarto da casa, são uma bênção para o romeiro e uma graça para a família.

Antes de partir, ainda o sol não nasceu, o irmão romeiro deixa um terço rezado pelas intenções da família .

Esta não é certamente a melhor forma de conhecer a ilha de São Miguel. A Romaria, no dizer de muitos que a fazem, é sobretudo uma viagem interior, em que se para para pensar, se reavaliam decisões e atitudes e se assume uma condição de simplicidade e sobretudo, de fraternidade.

Durante oito dias, dezenas de homens vivem como uma irmandade. Não há engenheiro ou doutor, pedreiro ou camponês. São todos irmãos, todos iguais, numa relação de aprendizagem e descoberta. À frente, o mestre, um irmão com muitas romarias nos pés, dita as orações e as paragens.

Romaria interior, viagem ao mais profundo do ser, na descoberta do essencial. Afinal, todos nós, vivemos cobertos de vestes que nos escondem, nos fantasiam de pessoas importantes, e nos fazem esquecer o essencial.

Reencontrar o mais importante implica, quase sempre, deixar atrás os títulos, o supérfluo e acessório.

O essencial mora no interior de cada pessoa. E poder refletir sobre isso, numa viagem difícil, por vezes mesmo dura, à chuva e ao vento, pode ser uma experiência intensa e transformadora.

A romaria quaresmal parece ter contagiado outras terras, onde não era a tradição, mas que certamente terão encontrado nesta prática, uma forma de vivenciar a espiritualidade na intimidade de si mesmos.

Talvez porque vivemos numa sociedade pouco dada ao silêncio e à oração, os romeiros são uma demonstração clara, como todos nós, homens e mulheres, precisamos de parar para podermos olhar para dentro e pensar, quem sou eu? O que faço aqui? O que é que me move e dá sentido à vida?

Fazer uma romaria interior é uma viagem à descoberta de respostas, por vezes difíceis de aceitar. Mas é aí que tudo pode mudar, porque só quem conhece pode escolher... só quem sente pode reconhecer....

(texto lido na rubrica "Sentir a ilha" do programa "Entre palavras" de Graça Moniz - Radio Atlantida) 1 Março 2015

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publicado por sentirailha às 00:29
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