Quarta-feira, 6 de Julho de 2016

Santos Populares

Estamos em junho, mês de santos populares, figuras da igreja que se tornaram patronos de festas profanas, onde se enaltece a fertilidade, o amor, a alegria e, sobretudo, se reforça o sentido de comunidade.

As festas dos santos populares, seja o Santo António, São João ou até São Pedro, estão ligadas ao universo da fertilidade. No Santo António são os casamentos, já que o santo é tido por favorecer a felicidade conjugal e ser uma boa influência como casamenteiro, no encontro de namorados ou namoradas, outrora sonhados para serem companheiros de uma vida, hoje para ficarem juntos "enquanto durar o amor". No São João são as "sortes" e o culto do sol, ainda hoje presente na tradição das fogueiras. O São Pedro, menos conhecido em matéria de amor, vê a sua influência ligada às chuvas que ajudam a fertilidade das terras.

Longe vão esses tempos, em que se pedia a intervenção dos santos, para que tudo desse certo. Alguns desses "negócios" misturavam a religiosidade com interesses bem mais terrenos, por exemplo o dote e as propriedades do pretendente.

Afinal, qual é o segredo de Santo António para encontrar um namorado a quem lhe pede? Será o ar de Junho e os dias de sol, ou não serão antes os arraiais e as festas?

Outrora estas eram as únicas oportunidades para o convívio dos solteiros. Entre bailaricos e barraquinhas de comes e bebes, sempre se acabava por encontrar alguém e uma conversa animada acabava por ser o início de uma relação.

O santo até pode ter dado uma ajudinha, mas certamente que essa conversa, os sorrisos e uma empatia imediata, fizeram o milagre.

O casamento é um encontro, um começo de um história a dois. Mas não há santo ou milagre que possa garantir que dure, se não houver diálogo, uma ponta de surpresa diária que faça descobrir quem somos através da relação com o outro. Viver em conjugalidade é certamente uma forma de se conhecer e, compreendendo alguém diferente, descobrir o mundo.

Não há histórias de casais que durem, se o mais importante está num casamento, que junta nomes, bens ou famílias.

Não há santo que valha quando falha a compreensão. Não há almas gémeas! O que conta são duas pessoas diferentes que descobrem, diariamente, que são mais felizes e mais fortes por estarem juntas.

Por estranho que pareça, vivemos numa das regiões do país onde se casa mais, mas também onde é maior e crescente o número de divórcios. Em 2013 por cada 100 casamentos celebrados nos Açores, registaram-se 80 divórcios. Porque falham tantos casamentos?

Casar é criar um "nós", juntando dois "eu" na partilha de um quotidiano comum, nem sempre fácil ou favorável. Quando o casamento não é vivido como se fosse "uma cruz que se carrega", a relação criada nesse "nós casal" supera todas as dificuldades ou contrariedades.

Pode haver quem acredite que foi o destino que os juntou, mas é bom não esquecer que uma relação só dura, enquanto for uma escolha pessoal e diária. Por muito que peçam a Santo António ou até a São Pedro, não há casamento que dure se o mais importante for acasalar. Não há santo que valha, se os casais se esquecerem de falar, partilhar e amar.

Por muito que as sortes de São João ditem o futuro, o melhor é estar atento, porque a sorte é uma oportunidade e o amor uma faísca, centelha que se liberta da fogueira e poe em brasa o coração!

A arte está em mantê-lo aceso, apesar do vento e da tempestade, quando tudo parece acabar, o amor é um tição que teima em não se apagar.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 14 Junho 2016)

publicado por sentirailha às 20:40
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