Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2015

Saudade

A palavra saudade é um luto, uma aflição, é um cortinado roxo que cobre o coração. Assim reza a canção que marca a identidade açoriana, cantada em quase todas as ilhas.

Estamos ligados pela saudade e irmanados nesse sentimento num país que fala português. Até na canção se pergunta, "quem seria que a inventou" essa palavra saudade?

Saudade é muito mais do que uma emoção, do que um sentimento, é sobretudo uma memória, uma recordação e uma atitude.

Os portugueses alimentam a saudade, cuidam dela como se fora herança de família, património nacional.

Cantam o fado e recordam a história das descobertas, que contam aos jovens como prova do que fomos, do que fizemos, do que demos ao mundo.

Memória de um tempo longínquo, a saudade é também memória de um presente.

Temos saudades de nós mesmos, desse português heroico que hoje raramente se afirma ou bate o pé, por ser estruturalmente obediente, cumpridor, bom trabalhador, diligente, disponível.

Vivemos com saudades de nós mesmos, desse português de sucesso, e festejamos os feitos de jogadores, que ganham milhões em clubes estrangeiros, ou de treinadores que dão conferencias de imprensa em línguas estrangeiras, escondendo no sotaque as suas origens.

Temos saudades de nós mesmos, por isso, os nossos governantes na república ficam ofendidos porque a Grécia conseguiu negociar sem perder a sua identidade, perante a imposição de países mais fortes, mais ricos e poderosos. Afinal, era possível reagir e reivindicar e não se agachar diante da austeridade imposta. Bastou que um dos países fundadores deste continente europeu fizesse braço de ferro, para que Portugal reagisse, qual menino bem comportado que vê o reguila obter favores da professora.

Temos saudades, quase em permanência, do passado, de sermos um povo de brandos costumes, que chora e canta a desgraça. Não nos libertamos do que fomos e isso impede-nos de afirmar o que queremos ser.

Aos empreendedores temos dificuldade em dizer, "fiquem, mudem este país, façam diferente". Aos jovens, criamos problemas, desconfiamos da sua competência, das suas ideias, e dizemos-lhes com a superioridade típica de velhos do Restelo, "hás de lá chegar um dia, mas primeiro vais receber o salário mínimo, num emprego provisório, pouco importa se és licenciado ou mestre, se tens o doutoramento ou uma especialização, tens de saber o que custa a vida".

Inchados de orgulho, nem reagimos a tantos que partem com um nó na garganta. Hoje dez, amanhã vinte, vão procurar outros lugares onde não se sofra deste mal, onde se olhe mais o futuro do que o passado.

A saudade é traiçoeira. Enquanto nos aquece a memória e reconforta no passado, atrofia a energia e reduz a vontade para transformar o presente e lutar por um futuro diferente.

Vira e volta a saudade, vira e volta a saudade, é como uma onda que nos toma e envolve o coração, enquanto aquece as memórias, vai congelando as atitudes e bloqueando o país, a região.

Ser português é sofrer desse mal, de ter saudades de si. Saudades do que fomos, do que tivemos ou fizemos, resistindo ou esquecendo o presente que nos desafia e, sobretudo, deixando morrer o futuro que devíamos estar a construir.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 24 Fevereiro 2015)

tags:
publicado por sentirailha às 00:38
link do post | favorito
Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Ruby Bridges

. Escárnio e Maledicência

. O género da polémica

. Pobreza e Desigualdade

. Simone Veil

. Igualdade para fazer a di...

. Uma mulher condecorada

. O Papa do sorriso

. Um Tempo para meditar!

. Sexismo

.arquivos

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Escárnio e Maledicência

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds