Quarta-feira, 8 de Abril de 2015

Saúde

O verbo saudar tem origem na palavra saúde. "Salut", dizem os franceses quando se cumprimentam. "Haja saúde", dirão os portugueses. Mais do que um cumprimento é um desejo, uma boa notícia e uma atitude positiva de quem deseja o bem do outro.

Saúde é sem dúvida um bem, um valor, sem medida ou quantidade, que vive connosco, sem nos darmos conta, até ao dia em que a perdemos. Andamos, dormimos, planeamos o dia seguinte. Com saúde, estamos bem com a vida, bem connosco e com os outros, vivemos o agora e pensamos o futuro sem restrições.

Olho as caras das mulheres que esperam, como eu, num corredor por mais uma mamografia de rotina. Sem sobressalto, é mais um exame. Mas, e se desta vez não está tudo bem? E se depois do exame, a vida fica diferente?

Basta um segundo e tudo pode mudar.

Felizmente, não há que preocupar, o meu exame nada assinala. Mas no rosto de uma outra mulher, apercebo-me da sua intranquilidade. A médica pediu que repetisse a mamografia, uma reincidência, como lhe chamou a técnica que, numa voz grave, surgiu na porta para chamar a D. Lurdes. "Mais uma maldade não é!. Vamos lá!" De olhos baixos, sorriu triste. Mais uma maldade não seria, mas certamente que a sua vida não seria a mesma depois daquele exame radiológico, que iria ditar a confirmação ou não de um problema oncológico. Ainda bem, pensei, que há cada vez mais a consciência de que é necessário prevenir problemas que a ciência hoje conhece melhor. A ignorância nunca beneficiou a saúde.

Hoje sabemos que grande parte da nossa existência depende da forma como vivemos, comemos e, sobretudo, como cuidamos do corpo, se fazemos ou não exercício, se estimulamos ou não a mente de forma criativa, se somos ativos.

Viver com saúde é estar presente, sentir a natureza, as coisas simples, fazer o bem e sentir o bem que os outros nos fazem.

Viver até aos 106 anos como o cineasta Manuel de Oliveira é uma proeza. Mas não será tanto pela idade que este homem ficará na história, mas por ter vivido intensamente uma longa vida de ação, trabalho e criação. Nunca se deixou parar, nem desistiu de si, mesmo quando o corpo parecia não querer acompanhar a energia da mente.

A saúde é um bem, mas não é uma dádiva absoluta. É o resultado de uma forma de estar na vida. Se a queremos preservar, temos de descobrir como. E esse segredo é individual, não se descobre em receitas padrão. É um ponto de equilíbrio, que não se obtém com dietas ou planos de emagrecimento, mas com consciência das escolhas diárias, que cada um de nós faz, quando se senta à mesa, quando se deixa ficar em vez de agir, quando esquece a felicidade dos outros ou os riscos que corre, para viver o prazer de um momento.

A saúde é um estado de liberdade interior que ultrapassa as limitações (e todos as temos) para potenciar o que de melhor cada um tem. Não há duas pessoas iguais. Por isso, não é possível medir ou qualificar esse estado de bem-estar. Na certeza porém, que a saúde fica em risco quando se vive dependente, passivo e sem objetivos.

É importante conhecer-se e descobrir a felicidade que o bem-estar interior proporciona. Acreditar na vida, descobrir o mundo que nos rodeia e nunca, mas nunca, desistir de si mesmo. A saúde também passa por aí, pela vontade intensa de viver e, sobretudo, de sentir a vida.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 7 Abril 2015).

publicado por sentirailha às 19:41
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