Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Novos avós

A língua portuguesa é traiçoeira e como todas as línguas guarda nas suas palavras a história de um povo e a mentalidade de diferentes épocas que constroem a sua identidade.  

Muitos dos vocábulos em português, quando ditos no plural assumem a conotação masculina, como acontece quando dizemos pais, filhos ou irmãos para nos referirmos a duas pessoas de ambos os sexos. No caso da palavra “avós”, o plural é feminino, quem sabe porque há mais mulheres dentro desse vocábulo do que homens. Mais mulheres que vivem mais tempo.

“Nunca mais me dás um neto”, dizem alguns avôs e avós, desejosos de ver continuada a vida da família, o nome e a descendência.

“Estou inquieta para tomar conta deles” dizem uns, enquanto outros comentam, ainda o neto não nasceu, “Posso ajudar de vez em quando, mas é melhor procurares uma creche”. Se para os primeiros, ter um neto em casa é recordar a infância dos filhos e por ventura, tentar ser “uns segundos pais”, para outros, há projectos a realizar para depois da reforma. Ficar com a guarda dos netos em permanência seria uma boa solução para os filhos, mas iria retirar-lhes o direito a viver um tempo sem responsabilidades, sem preocupações com doenças, trabalhos de casa e outras tarefas que os pais não fazem.

Hoje o tempo exige novos avós. Quer tenham com as crianças um contacto semanal ou esporádico, quer se dediquem diariamente ou não à sua educação, os novos avós são importantes na formação dos mais novos. Cada vez mais qualificados, com percursos profissionais de sucesso, os novos avós são também mais capazes. Dominam as novas tecnologias, frequentam a Universidade sénior e os ginásios, têm preocupações com a saúde alimentar e muitos procuram manter um contacto frequente com o mundo, acompanhando as notícias, viajando, lendo ou simplesmente mantendo o contacto com os amigos. É certo que nem todos têm poder económico para grandes passeios e muitos dos avós até nem vivem com muitas facilidades, mas a sabedoria dos anos é sempre boa conselheira e, é de ouvir e partilhar essa sabedoria que os mais novos necessitam.

Infelizmente ainda há muitos avós vivendo sozinhos, abandonados ou esquecidos da família, desejosos de conversar sem ter companhia, alimentando a saudade de ver um neto que recordam numa fotografia antiga. Vivem preocupados com pequenas coisas, avolumam os problemas de saúde e mesmo quando não lhes falta vontade de fazer, sentem-se fragilizados por viverem num corpo envelhecido.

Ser idoso não é uma condenação, é uma realidade que todos construímos um dia atrás do outro, envelhecendo desde o dia em que nascemos.

Viver a velhice da melhor forma, numa proximidade à geração mais nova é uma oportunidade que muitos idosos desperdiçam. Entregam-se ao silêncio, às suas rotinas, sentem-se distantes dos mais novos e nada fazem para que isso se altere. Dotados de competências, saberes e segredos que em muito beneficiariam os jovens, os idosos são cada vez mais uma nova força social, com capacidade de influência na política, na economia e, sobretudo na qualidade da vida familiar.

Os novos avós não transportam um passado descolorido, mas são a garantia de um futuro com identidade.

(publicado no Açoriano Oriental a 11 de Fevereiro 2008)

 

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publicado por sentirailha às 23:04
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