Quarta-feira, 17 de Março de 2010

Virar do avesso

 

Era uma prática comum no passado. Quando os fatos começavam a revelar marcas de cansaço, as mãos sábias das domésticas costureiras desmanchavam em peças e voltavam o tecido do avesso.
Ficou dessa prática a expressão, bastante actual em tempos de crise.
É preciso virar do avesso a vida, quando sentimos ter atingido um ponto de exaustão. Desmanchar e recomeçar é fundamental. Recuperar o passado, porque o tecido até tem potencialidades ainda não exploradas, não significa que se repitam formatos ou modelos ultrapassados.
Virar do avesso significa inovar, renovar, dois verbos importantes em tempos de crise, mas que exigem a desconstrução de modelos obsoletos e uma capacidade crítica para potenciar experiências anteriores.
Dizem os gurus da economia, que a palavra crise terá origem num ideograma chinês wei ji, que significa “perigo” e “oportunidade”, “momento de viragem” (cit. R.Vargas, Executive Digest) ou se quisermos, vire do avesso o que deixou de resultar, o negócio que já não atrai clientes, a imagem que não resume o produto que pretende vender, o menu do restaurante que deixou de ser atractivo e não corresponde às novas tendências do mercado.
Entro numa loja de roupas, onde se sente a proximidade do encerramento que todos anunciam. São poucas as peças nas prateleiras e faltam números nos artigos. Ouço o suspiro de uma das empregadas que comenta, “antes estar num restaurante a descascar batatas”. Sente-se inútil detrás do balcão onde outrora não tinha mãos a medir; mas também não tem motivação para dar a volta por cima. Está na eminência, quem sabe, o desemprego, e sem negar a sua vocação para o comércio, revela uma ausência de ideias que contrariem o pessimismo do negócio que em breve irá fechar.
Imagino como é difícil ser simpática, perante uma cliente que revira as camisolas que restam e depois sai sem nada comprar.
Como fazer essa viragem do avesso e criar esse momento que pode significar um recomeço e uma nova etapa.
Perante o desalento daquela empregada, apeteceu-me dizer-lhe, porque não escreve um letreiro com letras garrafais: Vista-se por 50 euros!
Vire o negócio do avesso e faça da crise uma oportunidade!
(publicado no Açoriano Oriental de 22 Fevereiro 2010)
publicado por sentirailha às 15:48
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