Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

A ignorância cega

Nas palavras do povo, quem não sabe é como quem não vê.

Apesar de, aparentemente, este princípio ter um lado positivo, porque evita sofrer por antecipação, permite passar ao lado de problemas e ser supostamente mais feliz, olhando apenas o lado luz da realidade, na verdade foi com base nesta lógica que os governantes portugueses do passado mantiveram o país longe dos níveis desejáveis de desenvolvimento social. Ignorantes e analfabetos eram facilmente manipuláveis. Desconhecedores dos seus direitos eram mais facilmente explorados. Isolados na sua pequenez, dificilmente podiam ser críticos de um mundo que desconheciam.

Entretanto a sociedade portuguesa mudou e ninguém hoje em dia questiona a escolarização, o conhecimento e a informação, a igualdade de acesso perante a lei, o direito à reivindicação e ao desenvolvimento e a liberdade de expressão como ganhos da democracia e objectivos de qualquer governo que queira desenvolver e promover uma sociedade mais justa e, ao mesmo tempo mais desenvolvida.

Concretizar estes objectivos através de medidas e acções é tarefa de todos, em particular daqueles que, de forma democrática, são eleitos para ocupar cargos de poder.

Legislar e aprovar orientações que promovam uma sociedade mais justa e concretizem o desenvolvimento integrado são tarefas que incubem aos deputados, legítimos representantes do povo.

No final de cada ano, quando o governo apresenta a sua proposta de plano e orçamento para o ano seguinte, cabe ao Parlamento analisar e sobretudo avaliar, através das medidas apresentadas, o projecto de sociedade que se pretende construir, quer ao nível do crescimento económico, quer em termos do desenvolvimento social. Por ventura, falar de deficit ou de superavit, balanço de contas ou equilíbrio entre a despesa e a receita, não é um linguagem partilhada pelo comum dos cidadãos.

Mas quando se fala de emprego, sucesso escolar, apoio aos idosos e às crianças, combate à toxicodependência ou à violência doméstica, todos entendem a pertinência dessas medidas, que tocam a vida quotidiana e melhoram, de forma evidente, a qualidade das relações que se constroem seja ao nível da família, do emprego ou da sociedade em geral.

Aprovar um plano e orçamento não é apenas uma tarefa de economistas, mas implica uma análise aprofundada dos vectores sociais do desenvolvimento que, não sendo considerados, transformariam a sociedade numa grande indústria financeira, desumana e injusta, sobretudo para com os mais desfavorecidos e desqualificados.

No Parlamento Regional, a voz dos cidadãos eleitores também se faz ouvir através do debate de matérias tão próximas das pessoas, como o apoio à família, a promoção de melhores níveis educacionais e de mais acesso à saúde ou a aposta na qualificação que permite melhorar os níveis de emprego.

Quem não sabe é como quem não vê e, em matéria de trabalho parlamentar por vezes o que a comunicação social dá a conhecer e a ver da actividade dos deputados e dos temas discutidos, constrói um conhecimento parcelar da realidade e dos temas discutidos.

Numa semana em que se discute o Plano e Orçamento para 2008, importa estar atento aos debates e às intervenções dos deputados, eventualmente consultar a página electrónica da Assembleia Legislativa (www.alra.pt) para tomar consciência das prioridades que cada grupo parlamentar elege quando está em debate o desenvolvimento da Região.

(publicado no Açoriano Oriental a 26 de Novembro 2007)

 

 

publicado por sentirailha às 17:05
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