Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

Chicotada psicológica

A interrupção de um mandato legítimo de quatro anos e a mudança de governo na República pode ser comparada às chicotadas psicológicas que ocorrem nos clubes desportivos quando, perante uma série de maus resultados, se resolve mudar de treinador a meio da época.

Resta saber se, no caso presente, iremos atingir a dimensão psicológica ou vamos ficar apenas a sentir a chicotada. É que, tal como no desporto, o sucesso de uma mudança nunca depende apenas do novo treinador, mas passa em grande medida pelos jogadores, ou como alguns referem, depende do clima que se vive no balneário, o mesmo é dizer, do espírito de grupo, solidariedade e capacidade de sofrimento de todos em favor
da equipa.

Afinal, o que faltou fazer ao governo anterior? A fazer fé em alguns indicadores, nos últimos anos o país aumentou o volume das suas exportações, melhorou a sua capacidade tecnológica e o número de investigadores e licenciados. Mas essa aposta, fundamental, na competência técnica do tecido empresarial e na investigação não foi suficiente para contrariar o défice estrutural de um país, dependente do exterior, que ainda não acredita o suficiente no que produz e precisa de campanhas que incentivem o consumo do que é nosso. Faltou tempo, para enraizar essa competência e essa crença. Uma equipa que acredita no seu potencial até ganha jogos, quando não recebe salário. E o país, mesmo em dificuldade podia e pode vencer. Mas, o governo anterior falhou, quando tentou diluir a austeridade em sucessivos planos, porventura criando a ideia de que
mentia ao povo, sempre que considerava insuficientes as medidas já apresentadas.

Essa forma errada de lidar com a capacidade de sofrimento dos portugueses custou a queda do governo. O país, entretanto, escolheu outros protagonistas e ficou à espera que lhe aliviassem o peso da empreitada em que se encontra envolvido. Mas não, ao contrário, o que se assiste é o anúncio de medidas ainda mais agressivas e com forte impacto na vida das famílias como é o corte de rendimento equivalente a 50% do subsídio de
Natal.

Afinal, também este governo que criticava os PEC’s, presenteia-nos todos os dias com novas medidas de austeridade, que não constavam desses planos, e que vão para além do que foi acordado com a Troika.

O país precisa de acreditar em si e nas suas capacidades. Mas quando se intervém à chicotada, é difícil estimular o crescimento dessa auto-estima.

Vivemos uma crise profunda, que exige uma intervenção eficaz ao nível da criação de riqueza, mas isso nunca deveria significar esquecer, que o desenvolvimento não é apenas crescimento económico, mas depende de um estado social forte, que respeite os direitos de cidadania e estimule a capacidade empreendedora.

Dificilmente encontramos essa visão, que se quer integrada, no programa do XIXº governo nacional, onde a protecção social é sobretudo uma acção de emergência, e não se reconhece a dimensão estrutural da pobreza. Um texto, onde se prevê privatizar os serviços de informação, transportes, abastecimento de bens essenciais como a energia e as águas, sem considerar a defesa do serviço público. Sem qualquer estratégia sustentável, é exigido “trabalho solidário” aos que auferem subsídio de desemprego, em vez de promover a sua qualificação e a criação de mais postos de trabalho e, claramente, desiste-se de investir nas pessoas menos qualificadas e mais carenciadas, com dificuldades estruturais, atribuindo senhas de alimentos ou de cuidados de saúde.

Tal como numa equipa desportiva, o país não mudará se vender os seus melhores jogadores para manter as contas em dia. É na qualidade da equipa que reside a chave do sucesso.

Não podemos desistir de combater as nossas limitações e carências e de manter a aposta na qualificação, inovação e melhoria das competências dos que vivem em condições sociais desfavoráveis.

Nem só de pão vive o homem, mas da esperança que o motiva a ser mais e melhor.

(publicado no Açoriano Oriental a 4 de Julho 2011)

 

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publicado por sentirailha às 16:38
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