Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

Identidade açoriana

Somos de alguma parte, de uma terra, de um país.

Dentro de nós há um lugar, que surge como um filme que se revê, sempre que fechamos os olhos. Cores, cheiros e até sons ou vozes animam a tela da nossa mente, quando recordamos lugares de infância, a casa dos avós ou a freguesia onde ainda temos família, que agora visitamos nas férias. Um lugar onde aprendemos a ser pessoas e onde, quis o destino, aprendêssemos a falar com um determinado sotaque e onde aprendemos a descobrir quem somos e porque estamos aqui.

Dentro de nós há raízes profundas que nos agarram por dentro e, por mais que viajemos, representam um lugar seguro, onde respiramos melhor e nos sentimos em casa.

A identidade é essa forma própria de ser, que não se molda nem se desfigura, que não se verga nem pode ser destruída, mesmo quando os dramas da história comprometem a sua existência, como aconteceu com comunidades da América latina, exterminadas pela colonização, que hoje sobrevivem no seu património e sabedoria ancestrais.

Dentro dos açorianos, há uma fibra que não se verga, uma rocha que não quebra, um cheiro a mar que não se apaga. Dentro de cada açoriano, há a certeza de pertença a estas ilhas, mesmo quando o destino quis que vivessem longe, em terras da emigração ou no continente. Dentro daqueles que, não sendo açorianos, adoptaram esta terra por sua, há um sentimento de pertença. E não é por acaso.

Viver nestas ilhas cria raízes. É difícil escapar à força desta gente que soube transformar pedreiras em terras de pão, enfrentou baleias em mar alto e se defendeu dos ataques da pirataria.

A identidade açoriana dificilmente pode ser entendida fora do universo de crenças que marca a história deste povo, que viu na natureza a força de um Deus que castigava e na oração um laço que transformava o medo em esperança. As romarias, as coroações, os bodos de leite e as promessas são bem a imagem desse povo crente que, perante a desgraça se volta para o outro, reforça a solidariedade e é capaz de mudar de vida.

Somos um povo de crentes, por isso o Espírito Santo não é apenas mais uma festividade, mas a expressão da própria identidade açoriana. Durante semanas, as famílias que aceitam uma “dominga” nas suas casas, rezam em comunidade; os mordomos que se dispõem a organizar a festa, preparam as pensões, as dádivas e fomentam a partilha.

Em dia de festa, a coroação é sem dúvida o seu momento mais importante, mas quem é coroado é sempre o mais humilde, aquele que se dispõe a aceitar a protecção do divino.

Somos um povo de gente humilde que aprendeu, na adversidade, a partilhar a fartura e a se alegrar com isso. Não se recusam convivas à mesa das sopas e ninguém nega um lance nas arrematações, em louvor do Senhor Espírito Santo.

Somos um povo com raízes. Raízes no mar, mas que identificam e nos prendem a estes pedaços de terra onde nos sentimos em casa, envoltos pelo cheiro do incenso que cobre o chão dos quartos, em dia de festa, e veste as ruas em dia de procissão.

Não há melhor traço para unir os açorianos, onde querem que vivam, do que invocar o Espírito Santo, que o povo aprendeu a venerar, fora e dentro das igrejas.

Por isso, o povo se sente identificado por ser na oitava da festa de Pentecostes que a Região festeja o seu dia e reaviva as suas raízes, que afirmam e distinguem a açorianidade.

(publicado no Açoriano Oriental, a 13 Junho 2011 - Dia dos Açores)

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