Terça-feira, 3 de Outubro de 2017

Ruby Bridges

Na Conferência internacional sobre Igualdade, promovida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, no passado dia 30 de Setembro, Teatro São Carlos, Ruby Bridges, a primeira criança negra a frequentar uma escola de brancos, começou a sua intervenção dizendo que era um privilégio poder falar de racismo.

É evidente que esse privilégio não era por ter sido vítima do racismo, mas por poder falar, na primeira pessoa, sobre discriminação.

Privilégio tiveram todos que ouviram o testemunho desta mulher/mãe que aprendeu aos seis anos a não avaliar as pessoas pela cor da pele. E dizia a propósito, que a sua professora era branca como todos os que a insultaram à porta daquela escola e negro era o homem que matou o seu filho.

Não é a natureza que explica a desigualdade social, mas a forma como cada um lida com ela. Raça, deficiência ou sexo, nada justifica a discriminação, a segregação ou a exclusão. As verdadeiras causas estão nas condições ou na falta delas, que favorecem ou limitam o acesso de todos aos mesmos direitos.

Pierre Rosanvallon, outro orador nesta conferencia, afirmou que não é possível a igualdade democrática se não existir participação na vida cívica e na reflexão sobre os problemas que nos dividem; se não nos conhecermos uns aos outros e se não partilharmos experiências comuns.

Quando há segregação, há desconfiança, um sentimento que facilmente se transforma em medo, preconceito e intolerância, e que só se combate com conhecimento, informação e uma educação aberta à descoberta do outro.

Ruby Bridges, aos seis anos, não sabia o que era o racismo até ao dia em que entrou numa escola de "brancos" e foi recebida por adultos revoltados, aos gritos, que ela até julgou estarem a fazer uma festa de carnaval. Como ela, nenhum bebé nasce com incapacidade para compartilhar a vida com quem é diferente, sejam meninos ou meninas, desta ou daquela cor de pele ou religião, mais ricos ou mais pobres, vivendo na cidade ou no campo.

A discriminação e a intolerância, reproduzidas pelas crianças, foram incorporadas na vivência familiar, aprendidas com adultos que só entendem a igualdade entre pessoas semelhantes no acesso à educação ou nas condições materiais. Pais que impedem os filhos de fazer a experiência da diferença ou conviver com quem consideram estar fora das fronteiras dos seus territórios.

A segregação ensina-se e as crianças fazem eco, como o que ouviu Ruby Bridges de um colega: "a minha mãe não me deixa brincar contigo, porque és negra".

O racismo, como todas as formas de segregação, são paredes de vidro que isolam grupos, pessoas, num mundo cada vez mais multicultural.

Há no entanto quem procure explicar essa segregação e a desigualdade de oportunidades que implica, recuperando velhas teorias do século XIX, baseadas no determinismo natural. Para estes, pouco ou nada se pode fazer quando se nasce negro, mulher, homossexual, ou filho de alguém com baixos recursos. São investigações que procuram na genética, o que apenas as condições de vida, a desigualdade de oportunidades e as escolhas pessoais podem explicar.

A história de vida de Ruby Bridges mostra-nos como a semelhança nada tem a ver com aparências ou parecenças. O racismo, a segregação, pode acontecer entre pessoas "parecidas", que não se compreendem na diversidade que os torna indivíduos com mais ou menos poder, inteligência ou prestígio.

Só há um traço que nos torna verdadeiramente semelhantes aos outros, a dignidade. Tudo o resto são diferenças, maiores ou menores, que em nada justificam a desigualdade de oportunidades.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 3 outubro 2017)

 

publicado por sentirailha às 22:00
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Quinta-feira, 29 de Junho de 2017

Igualdade para fazer ...

Será que a igualdade é um valor na nossa sociedade? "A igualdade é possível? E é desejável?", questiona o último número ...

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