Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007

Na Rocha da Relva

 

Em tempos, andava pela cidade de Ponta Delgada um homem que pedia esmola, de calças rotas e cabelos emaranhados. Todos se referiam a ele como “o homem da rocha da Relva”. Um dia, depois de ter partido um mealheiro do Gaiato, foi internado na Casa de Saúde e durante o pouco tempo que lá esteve até falecer, revelou ser um artista, capaz de moldar o ferro e de criar verdadeiras obras de arte. Mas, a vida organizada segundo horários, fechado entre quatro paredes, nada tinha a ver com este homem, livre como os pássaros, preso ao mar e à natureza da rocha da Relva.

 

No meu imaginário, a rocha da Relva seria um penedo, um lugar limitado onde imaginava eu, esse homem teria encontrado uma qualquer caverna para se abrigar. Não sabia, até há pouco tempo, que esse lugar é uma fajã habitada, onde se erguem pequenas casas e crescem vinhas e árvores de fruto até junto da escarpa.

Na fajã da Relva domina a rocha que se ergue da ilha, protegendo uma língua de terra que vem morrer no mar em forma de calhaus rolados. Um mar limpo, transparente, onde se vêem os peixes como num aquário gigante. Um mar saboroso que apetece sentir, vezes sem conta; mergulhar e voltar a fazê-lo até mais não poder.

Apesar do acesso difícil, logo se esquece o esforço quando se está nesta parcela tão rica de sensações; entre o som dos pássaros que encontraram ali um lugar protegido, os cagarros que habitam as reentrâncias da rocha e enchem o final da tarde de forte “discussão” sonora; o bater insistente do mar nos calhaus que se vão movimentando ao sabor das ondas; tudo parece perfeito, intacto, diferente.

Passar algumas horas, ou como acontece a quem herdou a tradição dos antigos de trabalhar a fertilidade daquela terra, passar alguns dias neste lugar, é sem dúvida um privilégio que apetece partilhar. Um privilégio que só os apreciadores da natureza e do silêncio interior podem realmente sentir num lugar que convida ao espírito comunitário, às cantigas de improviso e às conversas de ocasião.

Um lugar que não é de ricos privilegiados mas de pessoas que têm o privilégio de gostar da natureza e a capacidade de não temer as dificuldades de acesso para manter intacto o património, sobretudo natural, que as gerações passadas souberam trabalhar naquele pequeno grande lugar.

Como em muitas outras circunstâncias, os habitantes da ilha são os últimos a valorizar a riqueza do património que possuem e são os de fora, em geral os que nos visitam vindos de outros países, quem aprecia o que de melhor temos.

Vale a pena ir à rocha da Relva e, por ventura, vale a pena facilitar o acesso a este lugar diferente. Sem o destruir, sem invadir o silêncio que o habita, a Rocha da Relva merece algum investimento, que permita o acesso por mar e alguns recantos para se descansar ou merendar.

Entre gaivotas, pombos da rocha, peixe fresco e uvas de cheiro, na rocha da Relva vive-se, sente-se e até se cheira a insularidade, esta forma tão nossa de estar entre o mar e a terra.

(Publicado no Açoriano Oriental)

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