Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2011

Tocar a alma

A alma mora algures no ser humano. Não há máquina de raio x, ressonância magnética ou auxiliar de diagnóstico que possa registar a forma da alma, a força do espírito ou a essência que mantém um corpo vivo e dá sentido, cor, emoção ao ser humano, tornando-o pessoa, mais do que indivíduo.

A alma é essência, espírito, que qualifica as relações que fazem a história pessoal. Por isso, dizemos de alguém que teve ou tem alma açoriana, micaelense; reconhecemos noutros uma alma de artista ou de poeta.

Viver com alma é sentir, de modo próprio, o mundo que nos envolve, as cores da paisagem, as sonoridades, os sabores e as emoções.

A música quando mergulha na história de um povo e bebe nas suas raízes, sonoridades e palavras, faz vibrar a alma como um abraço que envolve a identidade de um povo. Vibram as fibras dessa essência que não conhecemos a forma, mas que sentimos; ressoam as emoções, na mente e no coração, como se entrasse nas veias um qualquer soro revigorante.

A música tradicional, quando é construída a partir da essência de um povo, faz vibrar a alma, desperta emoções genuínas e provoca um sentimento de pertença e fraternidade naqueles que com esse povo se identificam.

A música tradicional açoriana, recriada de forma exemplar no último disco de Helena Oliveira, Essências Açores, fez vibrar a minha alma de açoriana. Tocou no mais profundo do meu ser, nos traços da minha identidade, como se fosse um fato à medida, que sempre esteve lá para mim, mas que ao mesmo tempo, me recorda quem sou, onde estou e porque vivo nestas ilhas que adoro.

Estas “Essências” beberam na seiva dos açorianos a musicalidade que nos torna diferentes, iguais a nós mesmos e nos dá um lugar no mundo. Mas, mais do que isso, esta obra faz da Helena Oliveira, uma intérprete de excepção, que coloca na voz, a alma de todos nós e nos transporta para um mundo de referências partilhadas, uma comunidade que sendo arquipelágica, ganha unidade neste trabalho, que une, reúne e interliga sonoridades açorianas, de Santa Maria ao Corvo.

Destaco as sonoridades marienses, raiz do povoamento, onde as influências árabes e um Portugal perdido no tempo parecem ter ali ficado guardados, para memória futura. Mas este disco é uma viagem única, onde se descobrem tesouros até agora desconhecidos, genuínos exemplares insulares, que ganham projecção nesta obra.

Helena Oliveira ocupa um lugar de destaque nos intérpretes portugueses, afirmando no mapa de cores da alma portuguesa, os traços que nos distinguem e constituem a açorianidade.

Acredito no desenvolvimento dos Açores, quando toma a forma dos que aqui vivem, e nos faz sentir em casa, apesar das mudanças, e nos permite oferecer o melhor do que somos a quem nos visita. O disco “Essências Açores” é um exemplo de como devemos investir no potencial natural, cultural e humano que possuímos ou cativamos, sem nunca perder de vista a essência, a alma, que dá forma ao viver das nossas gentes, enraizados na história do povo que somos.

(publicado no Açoriano Oriental, 31 Janeiro 2011)

publicado por sentirailha às 17:09
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