Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2018

Memória

A memória não é um segredo guardado apenas na mente de quem viveu experiências, construiu edifícios, protagonizou momentos históricos ou conheceu pessoas relevantes. Essa memória dificilmente sobrevive se não forem preservados lugares, casas, objetos, registos escritos ou orais, que transformem essas vivências em realidades partilhadas.

De que serve a minha memória individual, se ninguém for capaz de entender o sentido do que transmito? Mesmo que o tempo seja outro, que alguém fale, por exemplo da guerra do ultramar ou mesmo da revolução de abril de 74, os outros entendem ou aprendem a conhecer, se esses acontecimentos fizerem parte de uma história comum. E, se as memórias forem mais privadas e fizerem referencia à história da família, também nesses momentos, em que alguém conta ou se conta, há um reforço dos laços, sobretudo entre gerações.

A memória é, sem dúvida, um cimento que estrutura as relações que constroem as sociedades, as famílias, os grupos ou organizações.

Sem memória, tudo parece feito ontem, renovado não se sabe porquê, e os que nos antecederam apagam-se, esfumam-se como se não tivessem importância.

Por isso, é muito importante cultivar a memória, não para ser saudosista, mas para conhecer a sua própria identidade.

No caso das famílias, um dos lugares de memória são os álbuns, cada vez menos presentes, já que as fotos ficam esquecidas nos cartões de "memória" das máquinas fotográficas. Mas, até esses álbuns só ganham vida quando alguém, protagonista desse tempo, conta as histórias que envolvem as pessoas ou os acontecimentos retratados.

Precisamos, por isso, que alguém nos conte a história, nos faça mergulhar num outro tempo e nos leve a descobrir o percurso vivido, que entretanto passou.

Recentemente, estando em Brest, uma cidade da Bretanha francesa, arrasada na segunda guerra mundial e reconstruída nos anos cinquenta, descobri que um dos lugares com interesse cultural é a rua Saint Malot, que sobreviveu à reconstrução e recorda a cidade, antes da guerra.

Apesar da carga histórica que esta rua representa, o poder local preferia expandir a cidade, nesse local, construindo edifícios em altura.

Mas, contrariando essa intensão, um grupo de cidadãos organizou-se em associação, alguns até vivem nas poucas casas que aí restam, e transformaram o local num museu vivo, onde a história da cidade de Brest se conta de forma diferente. Ali, restam os muros de uma antiga prisão de mulheres, as casas de pedra e alguns pequenos jardins. À volta, a cidade fala de construção naval, marinha de guerra, edifícios de linhas direitas e não existem praças circulares ou lugares comunitários. Tudo parece ter sido redesenhado a régua e esquadro.

A memória faz-se por camadas. Quando destruímos as mais antigas, outras irão ocupar o seu lugar, nem sempre pelas melhores razões. Quando se nega ou se tenta esquecer um determinado passado, quando se apagam os vestígios do que se foi, a memória acaba por enterrar essa camada e, aparentemente, a história parece só ter começado mais tarde.

Isto acontece com as cidades como com as pessoas ou famílias.

Há quem enterre o passado, por não ser capaz de o enfrentar. Mas, quando menos espera, ele surge à superfície, como magma que fura o vulcão, e dá sentido a um objeto ou escrito, torna-se presente numa palavra ou recordação, que escapou a esse controlo que tenta silenciar o passado. Tal como a rua de Brest, reduto de uma outra cidade, antes da reconstrução.

Um bom exercício para recuperar a memória e reforçar a coesão de grupo, seja uma cidade ou uma família, é mergulhar nos álbuns de fotografias, ou descarregar os cartões de memória, e contar às gerações mais jovens, as histórias aí gravadas.

 (texto publicado no Jornal Açoriano Oriental - de 6 fevereiro 2018)

 

publicado por sentirailha às 21:55
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 10 de Março de 2015

Memórias

A vida é um cais onde, todos os dias, chegam e partem pessoas. Enquanto vivemos preocupados com os estudos, o emprego, a...

Ler artigo
tags:
publicado por sentirailha às 20:48
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
Segunda-feira, 25 de Junho de 2007

Nome de rua

A história de um povo também pode ser contada através dos nomes das ruas das suas cidades, aldeias e vilas. Os endereço...

Ler artigo
publicado por sentirailha às 00:53
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

.posts recentes

. Memória

. Memórias

. Nome de rua

.arquivos

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.favorito

. Escárnio e Maledicência

. Açorianidade

.Visitantes

blogs SAPO

.subscrever feeds