Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

Na Fajã dos Vimes

Um lugar que, quando se visita, se torna memória, aroma, imagem e, sobretudo, experiência cultural.

Na Fajã dos Vimes, em São Jorge, ouve-se o barulho do pente batendo os fios no tear e do mar rolando sobre os calhaus da beira-mar; sente-se o cheiro a café que cresce na escarpa e se torra no local. Os pássaros parecem brincar com os turistas, poisando na estrada de acesso, em frente aos carros para de seguida fugirem num voo rasante.

O silêncio envolve as pessoas que permanecem nos quintais trabalhando a terra de costas curvadas. Tudo ressoa neste lugar, o som do tear, o rádio de pilhas e a voz do locutor que anuncia o próximo pedido.

No fim do mundo, não! A fajã é um lugar único, onde alguns persistem em viver, apesar de a escola estar fechada por falta de meninos e os jovens, que ainda lá vivem, terem de se deslocar alguns quilómetros para poderem estudar.

Isolados, apesar do acesso pela estrada que serpenteia ao longo da encosta, os habitantes da Fajã dos Vimes mantêm viva a solidariedade entre vizinhos; se falta açúcar ou um quilo de farinha, pede-se emprestado e, passados alguns dias será a vez de devolver o favor.

Na Fajã dos Vimes, há tempo para pescar, cuidar da vinha, das plantas tropicais, dos animais e da horta. Pouco fica para comprar na mercearia ou no supermercado, porque este pequeno recanto do mundo dá de tudo um pouco, até aquele café aromático que é depois torrado na sertã, como faziam os nossos antepassados.

Lugares como a Fajã dos Vimes são únicos, pequenos tesouros de saberes e de património natural, onde podemos conversar com calma, descobrindo a arte da tecelagem, que a memória permite criar sem recurso a desenhos. São esquemas reproduzidos tantas vezes que as duas tecedeiras, depois de combinarem qual o desenho, articulam entre si a construção de uma colcha, de uma manta ou de um simples pano de mesa. Como duas pianistas tocando no mesmo teclado, as tecedeiras constroem um padrão harmonioso ao sabor do tempo e da pancada seca do pente.

Para alguns, lugares como a Fajã dos Vimes estão aquém da modernidade, afastados da vida urbana que anima as cidades, onde as pessoas se gastam em vão, stressadas com o ritmo do quotidiano, enervadas porque a fila de carros não lhes permite chegar a tempo a um compromisso.

Para outros, nesta e em outras fajãs é possível viver momentos de paz interior, reencontrar o valor do silêncio e do reencontro com a natureza, deixar-se levar pelo som do mar que rola nas pedras, sentindo a brisa que sopra, descobrindo aromas, longe do ruído, dos corantes e conservantes que pintam o quotidiano da cidade.

Na Fajã dos Vimes, onde se chega e se parte pela mesma estrada, a insularidade ganha sentido. 

Uma insularidade que não é sinónimo de solidão mas de luta pela sobrevivência, feita de intenso trabalho quotidiano, tenacidade e experiência sábia que só o tempo e a partilha quotidiana com os outros permitem acumular.

Na Fajã dos Vimes reencontramos a história deste povo, que um dia encontrou nas ilhas uma terra fértil, pejada de nascentes, rodeada por mar e iluminada pelo sol enevoado.

A fibra dos que aqui se instalaram há quase seiscentos anos não se verga com o vento nem cede perante as ondas do mar, porque ser insular não é um defeito de nascença ou mesmo um azar; é uma forma de viver e encarar a luta pela sobrevivência. Ser insular é ter o privilégio de sentir o mundo, de olhos fechados, deitado sobre o calhau, numa fajã junto ao mar.

(publicado no Açoriano Oriental)

publicado por sentirailha às 23:49
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