Sexta-feira, 9 de Outubro de 2015

Tempo

O tempo é imaterial na sua essência, mas o ser humano precisou de medir a sua passagem em formato de horas, dias, anos ou estações.

O calendário, o horário, são organizadores do tempo que condicionam o nosso quotidiano. Há um tempo para cada atividade, um dia que reservamos ao descanso ou uma data especial para festejarmos a vida.

Apesar desta forma organizada como gerimos o tempo, e que se repete todas as semanas ou todos os anos, o certo é que o tempo escapa aos horários e às folhas de um calendário, e nada é igual entre um ano e o outro. O que ficam são marcas que não se apagam nem se podem substituir. Na pele que perde vitalidade, nos cabelos que embranquecem ou nos ossos que se descalcificam, nas árvores que crescem e ganham diâmetro, o tempo torna-se realidade.

Podemos encarar o tempo como se fosse uma conta bancária, de onde tiramos uma porção todos os dias, sem saber qual o saldo da conta, mas isso não significa que o tempo seja forçosamente sinónimo de perda, desgaste ou envelhecimento.

O tempo é sobretudo vida vivida.

Basta olhar a natureza e ver o crescimento das plantas, o aparecimento de folhas num galho que se julgava seco ou o brotar de um fruto numa árvore que estava destinada a ser cortada.

O tempo é vida, energia que se manifesta quando nos propomos senti-la e transformá-la em obras, iniciativas, ocupações.

Quem nunca sentiu o tempo passar rápido quando está ocupado, entusiasmado, focado na realização de uma atividade. Ao contrário, os momentos de espera ou de inatividade parecem uma eternidade. Quando nada temos para fazer ou quando estamos doentes, acamados, o tempo ganha dimensões estranhas, contraditórias; limitados na ação, sentimos o peso das horas que levam mais tempo a passar.

O tempo é o que dele fazemos, essa é a conclusão que podemos tirar.

Não se trata de viver mais ou menos anos, de ter mais ou menos dias de férias, mas antes como vivemos cada dia que passa.

Um dia pode ser um tempo imenso, quando acordamos com objetivos e os cumprimos. Um dia pode ser um marco nas nossas vidas, quando acontece terminarmos um projeto ou sentimos ter cumprido uma missão, ou ainda, porque nessa hora iniciamos uma nova etapa, que irá ser determinante no amadurecimento das nossas competências profissionais ou académicas.

Não há tempos mortos, a não ser que desistamos de viver. E mesmo quando julgamos estar parados, porque lemos um livro, escrevemos uma carta ou admiramos o horizonte debaixo de um castanheiro, também aí a vida nos é dada a conhecer na sua essência, como se fosse uma pausa, um parêntesis que abrimos na frase escrita, uma meditação, que aprofunda o conhecimento e intensifica as emoções.

Não há tempos vazios, a não ser que desistamos de escrever na tela dos dias, emoções e palavras, partilhadas com outros.

O tempo até pode ser medido em horas ou dias, mas nada substitui as vivências como medida real do tempo que passa. Podem ser poucos os anos que vivemos, ou que temos os filhos por perto, mas nada substitui ou apaga a intensidade da vida partilhada, as emoções vividas, as palavras trocadas.

Podemos não ter muitas horas para estar com alguém mas, se vivermos cada momento, então o tempo será imenso, deixará uma marca e transformar-se-á em memória, recordação.

E não há melhor forma de relembrar o tempo passado, que olhar as marcas que deixamos na vida dos outros ou que nos fazem ser quem somos.

 (texto publicado no Açoriano Oriental a 6 de Outubro 2015)

 

publicado por sentirailha às 00:23
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