Domingo, 2 de Outubro de 2016

Ter ou Ser

“Professora, a sra. tem de escrever sobre esta dualidade entre o ser e o ter. Há por aí muita gente que só se preocupa em ter, poder, prestígio, dinheiro, e não sabe ser humano, uma pessoa em que se possa confiar, alguém que utiliza os recursos da melhor forma.”

Ter e Ser serão por ventura dois verbos que nunca deixarão de conflituar, na vida, no pensamento, nas decisões.

Por um lado, a necessidade que alguns tem de manter posições, a qualquer preço, na defesa de interesses pessoais ou de lobbys como hoje se diz, por outro, quem não cede a pressões ou interesses na defesa de valores e direitos humanos.

Ser é um verbo muito mais próximo da humanidade, dos valores e da ética que promove a dignidade. Até podemos não ter muito dinheiro ou poder de influência, mas fazem falta pessoas em quem se possa confiar, cuja palavra corresponde ao pensamento, com capacidade de trabalhar em função de objetivos claros, determinado em contribuir para o bem-estar e o desenvolvimento

Ser e Ter, são dois verbos, o mesmo é dizer duas dinâmicas que refletem um quadro de valores diferente e contraditório, quando quem tem não sabe ser. Tem inteligência, mas utiliza essa capacidade para enganar os outros; tem dinheiro, mas investe em aparências e compra o silêncio dos outros, por exemplo para incumprir a lei; tem poder, mas investe na defesa de interesses pessoais ou adota posições parciais, que não tem em conta a defesa do bem comum.

Esta oposição entre ser e ter sempre existiu, mas hoje ela é mais visível e evidente, no quadro de uma sociedade que se quer democrática e que defende os direitos humanos.

Fica a pergunta, quem é que defende essa transparência e honestidade intelectual?

Ainda agora, a Bulgária deixou de apoiar a candidata às Nações Unidas que percorreu uma verdadeira maratona de audições onde se tem destacado o candidato português António Guterres. Qual não é o espanto, nos últimos metros, essa candidata é substituída, supostamente agora por quem tem o apoio garantido da Alemanha, o que compromete o voto dos membros permanentes na candidatura de António Guterres.

Em futebol chama-se a isso, ganhar na secretaria.

E o que fazer perante tais jogadas de interesse, onde o ter poder vence o ser o melhor candidato?

Aparentemente nada. Pois é, nada. Mas não se julgue que tais decisões são inócuas. Elas descredibilizam a democracia, a participação das pessoas, o sentimento de se rever nos seus representantes, que em vez de manifestarem o sentir de quem os elege, tomam como suas as posições que ocupam.

Esse não é um direito que assiste a um eleito, seja em que contexto for, numa assembleia de escola ou de uma região, seja nas Nações Unidas ou no Parlamento Europeu. O voto não pertence ao eleito, mas deve ser a expressão de uma comunidade que o elegeu. Se assim não for, então o eleito até pode achar que tem o lugar que ocupa, mas revela não ser digno dessa cadeira.

Ser e Ter, uma dualidade que nos obriga a pensar quem somos e o que temos, o que fazemos do que temos e afinal, que traço deixamos na vida. Porque se for apenas com base no que temos, será zero, já que a morte irá significar o fim de tudo isso. Pelo contrário, se a nossa vida for pautada pelo ser, então sim, algo ficará na memória, na vida de outros e terá valido a pena viver.

Ser é a única forma de viver com dignidade e contribuir, em vida para que este mundo, que pode ser apenas a nossa família, a empresa ou a instituição onde trabalhamos, possa ser melhor.

É evidente que na vida há sempre uma parte de teatro, de circunstância que nos obriga a jogos de cintura, mas quem tem coluna vertebral, não se verga nessas jogadas. Adapta-se, mas mantem a cabeça erguida, porque sabe o que é essencial.

Quando essa coluna se verga, a sujeição, o servilismo e a subserviência tomam o lugar da dignidade, do bem comum e do respeito pelas pessoas.

Aumenta o silêncio, a abstenção e a indiferença. Quem devia se pronunciar, demite-se e deixa de questionar ou incomodar.

Onde está a irreverência, o desassossego e o espírito crítico?

O ter não devia ter direitos de supremacia sobre o ser, mas quanto maior for essa indiferença, mais espaço se dá ao comodismo que mina a participação cívica.

Acredito numa sociedade de cidadãos, nos direitos humanos e na força do ser e do sentir, porque acredito no bem comum, onde haja lugar para todos nas suas diferenças e necessidades.

Para mim, SER será sempre um verbo maior do que ter…

 (Crónica lida no programa "Entre Palavras" de Graça Moniz na Rádio Atlantida  - 2 de Outubro 2016)

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publicado por sentirailha às 21:47
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