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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Limiar da pobreza

Nos Açores, um terço dos habitantes vive abaixo do limiar da pobreza. Um critério económico, baseado em 60% do rendimento mediano que, em 2017, equivalia a 5610 euros/ano em Portugal ou a 4510 euros se considerarmos, apenas, a Região Autónoma dos Açores.

Estamos perante um critério baseado na riqueza produzida por todos aqueles que trabalham, investem e consomem que, nos últimos anos, tem aumentado.

Mas, se a riqueza aumenta, como se explica o aumento do número daqueles que vivem abaixo do limiar da pobreza?

Contraditório, é certo, por ventura porque não existe um indicador económico que defina quando alguém ultrapassou o limiar da riqueza máxima.

Enquanto isso, os dados mostram-nos uma região desigual, onde os rendimentos estão concentrados e desigualmente distribuídos.

E essa é a razão, a causa, de muitas outras desigualdades, seja na educação, na saúde ou no acesso ao mercado de emprego.

De um lado, estão os que conhecemos, iguais nas condições de vida, com quem privamos no trabalho, na rua ou na vida comunitária. Do outro, todos os outros. Aqueles que empurramos para bairros periféricos, empregos precários, apoios materiais de ocasião, rótulos e estigmas.

Arrumamos a casa, separamos em gavetas o que queremos, do que não nos interessa. E, desta forma, sentimo-nos bem dentro deste contexto de aparente normalidade e sucesso.

Quando desviamos os holofotes deste círculo, retiramos da sombra, os que, supostamente, não produzem ou tem trabalhos precários e mal pagos; os que não reclamam e os que falharam o pagamento da renda, porque trabalham por um salário abaixo do mínimo; vivem longe dos centros urbanos e carregam diariamente dificuldades, tentando sobreviver e assegurar o bem-estar dos filhos.

Tudo fica tão diferente, quando o holofote se desvia do centro e aponta as periferias da nossa existência, mostrando os que vivem nas margens desta sociedade instalada, comodista, que descarta os problemas, engavetando e arquivando processos de difícil solução.

Como lidar com estas duas forças contrárias, a dos que desejam participar, mas que desistiram de lutar, e a pressão dos que vivem instalados e não querem ser incomodados?

Só há uma forma, reconhecendo que somos uma sociedade desigual. Desigual, porque as empresas preferem ignorar as dificuldades dos seus trabalhadores que, por exemplo, faltam por não terem quem cuide dos filhos doentes. Desigual, porque as escolas esperam que os alunos adiram a programas de recuperação, apesar do contexto familiar adverso em que vivem. Desigual, porque mulheres e homens não partilham a carga de trabalhos que a vida familiar implica, no cuidado aos mais novos ou aos mais velhos.

Quando formos capazes de reconhecer estas e outras desigualdades e tomarmos consciência de que, cada um, na família a que pertence, na empresa onde trabalha ou na rua onde mora, pode fazer a diferença, então, a inclusão das periferias poderá acontecer e, os outros, todos esses que estavam na sombra, passarão a ser ouvidos.

Cairão as máscaras, os vernizes, que escondem a realidade dos números e dos problemas, que não queremos que os outros vejam. E, a indiferença, consentida, dará lugar à intervenção, à cooperação e à solidariedade.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 21 janeiro 2020)

 

o bebé do ano

O ano acabou de nascer e, como é habitual, o telejornal noticiou o primeiro nascimento nas maternidades portuguesas, o primeiro bebé de 2020.

Portugal bem precisa de nascimentos. Em 2018 fomos o quarto país com a taxa de natalidade mais baixa da Europa. É certo que, nesse ano, registou-se uma aparente recuperação da natalidade, mas o número de nados-vivos por mulher em idade fértil não ultrapassou 1.41, longe dos 2.1 que garantem a substituição das gerações.

Nascem cada vez menos crianças, de mulheres cada vez mais velhas (entre 30 e 39 anos), ativas e, na maioria dos casos, vivendo em coabitação com o pai dos filhos (em 55,9% dos nascimentos).

Um filho deixou de ser uma fatalidade da natureza e é hoje uma escolha, um projeto familiar. Um projeto que, muito raramente, ultrapassa os dois filhos por mulher.

Porque não nascem mais crianças?

Há razões que explicam esta baixa fecundidade. Desde logo, o recurso a uma contraceção eficaz e a prática do planeamento familiar. Por outro lado, a alteração do papel social da mulher, cada vez menos doméstica e mais empenhada numa atividade profissional a tempo inteiro. Aliado a esses factos, na sociedade atual, a criança é alguém com direitos, que exige condições de vida e segurança. Por isso, a gravidez é pensada, planeada e até avaliada previamente, nos seus prós e contras.  Um filho altera os planos dos pais, quando estes querem conviver com amigos, viajar ou sair para se divertirem. Pode até condicionar a carreira e levar à recusa de novos desafios profissionais, incompatíveis com a responsabilidade de cuidar de alguém, a tempo inteiro.

Hoje, mais do que ontem, importa conciliar as vidas pessoais, profissionais e as necessidades da criança, particularmente nos primeiros anos. Outrora, muitas mães eram domésticas, cuidavam dos filhos a tempo inteiro. Hoje, a maioria trabalha fora de casa e nem sempre conta com o suporte familiar.

Infelizmente, do lado dos pais, homens, muitos continuam a viver no passado, dependentes de uma mulher que cuide da casa, das crianças, tenha ela ou não uma carreira profissional. Por isso, cedo surge, nas jovens mães, o cansaço e a frustração por não conseguirem tempo ou espaço para si, nem que seja para caminhar devagar, olhando as vitrines das lojas, quando regressam do trabalho a casa. A pressa de ir buscar o filho à creche, os horários, as obrigações espreitam a todo o instante. As necessidades da criança, as idas ao médico, as noites mal dormidas, acabam por desgastar a saúde da mulher e a qualidade da relação conjugal.

Ser pai ou mãe é muito mais do que ter um filho! É, ou devia ser sempre, um projeto planeado e partilhado a dois. Não se trata, apenas, de somar mais um elemento à família.

Um filho cria uma nova geometria na vida dos pais. Enquanto aprendem a cuidar, (re)descobrem o mundo através do olhar e do sentir dos mais novos.

O país e particularmente a Região Autónoma dos Açores precisam de crianças, mas acima e antes de mais, precisam de pais e de mães jovens, capazes de acolher as futuras gerações. Sem crianças as regiões envelhecem.

Por isso, há que criar condições (emprego, oportunidades, serviços de apoio parental) que cativem os casais jovens a escolher o nosso país e a nossa região para viver.

(texto publicado a 7 janeiro 2020, no jornal Açoriano Oriental)

Carta ao Menino Jesus

Meu Menino Jesus, imagino o teu espanto quando, deitado nas tuas palhinhas, vês as crianças preocupadas apenas com as prendas que rodeiam a árvore, onde brilham milhares de lâmpadas, sem sequer olharem para ti. Não conhecem a tua história, ninguém lhes disse que este é o teu aniversário e que estás deitado na manjedoura de um abrigo de pastores, porque ninguém quis dar guarida à tua mãe, quando chegou a hora de nasceres.

Acabaste por vir ao mundo num estábulo, ajudado pelo pai José e aquecido por uma vaca e o burro, que ali descansavam. Este acontecimento, retratado no presépio, revela como o Amor só encontra espaço na simplicidade e humildade, e sempre que nos despojamos de supérfluos ou adereços de circunstância.

Na tradição do nosso povo açoriano sempre tiveste o lugar central. Em muitas das nossas casas há quem ainda te faça um altar, decorado com as frutas da época, laranjas e tangerinas. Mais frequente é teres, à tua volta, pratinhos com ervilhaca e trigo, que trazem ao presépio uma vida verdejante. Assim se repete um gesto do passado, quando a terra era fonte de sobrevivência e, desta forma, se esperava que protegesses as culturas do ano seguinte.

Tu, Menino Jesus, és o mais importante desta festa, por isso, era de ti que se dizia que vinham as prendas, e era a ti que se pediam desejos. Mas foste rapidamente ultrapassado por uma figura vinda do mundo comercial, um velhinho de barbas brancas que, supostamente, fabrica brinquedos num lugar de fantasia e entra pelas chaminés, para encher a vida das crianças com objetos.

Mas voltemos ao lugar que sempre ocupaste nas famílias açorianas. Ficarás espantado com a pergunta, "o Menino mija?", mas é assim que os visitantes, familiares, amigos ou vizinhos, questionam o dono da casa, esperando provar os licores e as iguarias que, habitualmente, são postas na mesa durante esta quadra.

Este é um tempo bom, saboroso e quente, porque apetece estar com quem amamos e sentimos pena dos que não o podem fazer.

Nestes dias, dói saber que há famílias divididas, pais que não aceitam os filhos com dificuldades, porque tem uma orientação sexual diferente, estão presos a dependências ou desorientados na vida.

Nestes dias ficamos mais emotivos e gostaríamos de acabar com todas as dificuldades, sobretudo, as que afligem os mais pobres. Mas sabemos que essa emoção tem muito de "peso de consciência". Quem vive na pobreza não fica melhor por lhe darmos um cabaz ou uma qualquer esmola. No dia seguinte as agruras estão lá e até mais duras, porque tiveram a oportunidade de saborear um pouco de fartura.

Menino Jesus, seria bom poder tornar tudo mais fácil, libertar as pessoas do individualismo, que isola as famílias dentro de casas iluminadas, onde não há presépios.

Por isso, neste Natal, gostava que as crianças olhassem para ti e descobrissem a fraternidade, antes da competitividade; os pais vissem o presépio como exemplo de simplicidade, e o mundo, mesmo aquele que não acredita na tua mensagem, reconhecesse na Paz, a única plataforma de diálogo.

Menino Jesus, obrigada por (re)nasceres todos os anos e alimentares a esperança de que podemos fazer e ser diferentes, depois do Natal!

(texto publicado no Jornal Açoriano Oriental a 24 dez. 2019)

Humanizar a humanidade

É uma contradição e uma realidade. É preciso humanizar a humanidade! Relembrar e reavivar a essência dos Direitos Humanos, a dignidade, esquecida e ultrapassada por outros interesses, bem mais materialistas e individualistas.

Dotados de inteligência, os seres humanos julgaram, erradamente, que isso lhes bastaria para garantir a felicidade.

Enquanto homo, duas vezes, sapiens, esqueceram que a evolução, o desenvolvimento, dependem de uma outra dimensão, fundamental, a afetividade. Só pela afetividade e emotividade, conseguimos recordar, fazer memória, sentir e compreender.

Não basta sermos inteligentes! Se não tivermos em conta os afetos, corremos o risco de desumanização, sobretudo, perante os avanços da tecnologia dotada de inteligência artificial. Em que sociedade esperamos viver, quando tudo se basear num qualquer algoritmo, que calcula a melhor resposta, antecipa as músicas que gostamos de ouvir ou determina o diagnóstico que nos levou à urgência do hospital?

Sem afetividade, a inteligência pode destruir, artificializar a existência e instrumentalizar as relações.

O que nos distingue dos outros seres vivos não é apenas o facto de sermos animais dotados de inteligência ou racionalidade, mas pessoas de afetos e emoções, que precisam de proximidade, intimidade e sensibilidade para serem felizes e usam essa afetividade com inteligência.

São os afetos que nos ligam aos outros, é no cuidar que manifestamos atenção, carinho e capacidade de compreensão da diversidade do mundo que nos rodeia.

A vida não pode ser gerida apenas por critérios económicos, custos e ganhos, perdas e lucros. O ser humano é muito mais do que esta contabilidade, sobretudo, quando descobre que há prendas caras que não valem tanto quanto um abraço sentido, afetos que não se obtém nas amizades virtuais.

Razão e afeto são as bases da humanidade. Quando as dissociamos, desumanizamos. Ora porque escondemos as emoções e tratamos a vida a partir de uma folha de cálculo, ora porque não sabemos priorizar e exageramos na exteriorização de emoções, de forma desajustada.

Se tudo for racionalizado, não faz sentido ter idosos dependentes em casa, perder tempo a brincar com os filhos ou sentar-se diante do mar, só para ouvir o marulhar das ondas. Mas se exagerarmos nas emoções, também corremos o risco de tratar os idosos como incapazes, trazer ao colo crianças que sabem andar ou chorar por tudo e por nada, sem compreender a realidade ou descortinar soluções para os problemas que nos afligem.

Precisamos de descobrir o valor do cuidar, para aprender a gerir os afetos com inteligência. Mas, atenção! Cuidar, nada tem de feminino, como alguns ainda teimam em julgar.

Cuidar é ser Humano, o mesmo é dizer feminino e masculino ao mesmo tempo. É ser capaz de associar a sensibilidade e a atenção ao outro, consideradas competências de mulher, com a força da decisão e o poder de influência, traços vistos como masculinos.

Para integrarmos essas facetas há que educar rapazes e raparigas na arte de cuidar, e deixar de dizer que "um homem não chora" ou que "o poder não fica bem à mulher".

Precisamos de cuidar do bem comum, com afeto e inteligência, se queremos defender a humanidade e não mais dizer que é necessário a humanizar.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 10 dez 2019; dia internacional de aniversário da Declaração dos Direitos Humanos).

Vai à adega...

Em dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho!

Esta é a máxima que, todos os anos, se recorda no dia 11 de novembro.

Desde a vindima que o mosto, primeiro sumo de uva, se transforma em vinho, numa química natural onde os aromas, a temperatura e a madeira do pipo são fundamentais, para diferenciar um bom de um mau vinho.

A tradição vinícola em Portugal é antiga e marca a gastronomia e o território, com a presença das adegas junto às casas rurais ou em lugares isolados, próximo das vinhas e dos vinhedos, como se observa nas ilhas, particularmente no Pico.

A adega é um lugar de provas e de segredos, porque fazer vinho é uma arte e uma ciência e nem todos sabem misturar castas, controlar o grau alcoólico ou equilibrar sabores e aromas. Quem leia a descrição de um vinho, parece ouvir um poema; aroma frutado, com sabor a madeira, possui um corpo leve, estruturado, de cor clara, intenso, refrescante, com um final persistente no palato.

O vinho faz parte da cultura portuguesa, particularmente da açoriana, onde a tradição ligada ao vinho de cheiro, ganhou recentemente outra qualidade, com castas selecionadas e adaptadas que produzem vinhos de excelência no Pico, na Terceira e até em São Miguel.

A vitivinicultura é um importante sector da nossa economia agrícola, reconhecida como património mundial, no caso das vinhas do Douro e do Pico.

Mas o vinho não tem só qualidades e predicados de excelência.

Infelizmente, está na origem de consumos excessivos, aditivos, que transformam esse néctar, num tóxico, quando bebido sem moderação.

É certo que o fenómeno do alcoolismo está cada vez mais associado a outras bebidas alcoólicas, destiladas, importadas e, sobretudo, misturadas com refrigerantes, que disfarçam o teor alcoólico e "escorregam" mais facilmente.

Mas, se Portugal é premiado pela excelência dos seus vinhos, infelizmente, é um dos piores países em matéria de prevenção do consumo excessivo. De acordo com o relatório anual do Serviço de Comportamentos Aditivos (2018), dominam as atitudes do "laissez-faire", ou seja, um baixo controlo do consumo excessivo, particularmente entre os jovens. Estamos perante uma realidade que afeta a população entre os 15 e os 34 anos, particularmente, do sexo masculino.

Mas, não nos iludamos. O consumo excessivo também afeta as mulheres, sobretudo, quando estas o fazem de forma dissimulada no espaço doméstico.

Aparentemente, de acordo com o último relatório da OCDE, houve uma redução do consumo alcoólico entre 2007 e 2017, mas Portugal, no contexto dos países avaliados, continua com elevado consumo, ocupando o 11º lugar, com 8,9 litros por ano, por pessoa.

A produção de vinho projeta o país, de forma positiva, mas também o desvaloriza, quando constitui uma das principais causas de morte, acidentes e atos violentos.

Sem negar a importância deste produto na nossa cultura, a beleza das vinhas, a história das adegas ou o lugar que ocupa na gastronomia, não podemos esquecer que o consumo excessivo gera dependência, destrói famílias, leva ao absentismo laboral e potencia comportamentos agressivos e irrefletidos.

Só mesmo a moderação e a sobriedade, permitem levantar o copo e dizer: saúde!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 12 novembro 2019)

 

Pão por Deus

Pão por Deus, pela alma dos seus!

No dia 1 de novembro, a tradição convoca os açorianos a colocarem-se no lugar de quem vive com dificuldades e a experimentarem o sentido da solidariedade, redistribuindo, partilhando, sem esquecer os que já partiram.

Este é o espírito que anima a tradição do "Pão por Deus", nascida da prática da esmola aos pobres, por intensão das almas, e intensificada com a coincidência histórica de, na véspera do dia dos fieis defuntos (2 de novembro), Lisboa ter sido arrasada por um terramoto em 1755.

Nos últimos anos, esta tradição foi sendo esquecida, porque a condição socioeconómica das famílias melhorou e a mendicidade, em parte, desapareceu, o que não significa o fim da pobreza mas, por ventura, do seu rosto mais severo.

Hoje, ninguém pede pão pelas portas! Pede-se dinheiro para pagar a conta da luz ou da água. Mas ainda há quem invoque "a alma dos seus", quando agradece uma dádiva.

Há nesta tradição do Pão por Deus uma dimensão, que está para além das dádivas, o facto de significar partilha e solidariedade entre vivos, lembrando aqueles que nos antecederam. É um momento do ano em que a família humana se alarga aos que já partiram, ao mesmo tempo que alerta para a existência de todos aqueles que vivem com dificuldades e que moram ao lado, na mesma freguesia.

O Pão por Deus, na medida em que nos lembra a solidariedade e a humildade, dificilmente pode ser substituído por outras práticas. Mas foi! Até podem ter a mesma raiz cultural, o culto dos mortos, mas, nessa transição, perdeu-se o sentido do pedir, do partilhar, e ficou apenas o valor atribuído ao ato de receber que, não se concretizando, confere o direito de importunar e molestar (doçura ou travessura).

Estamos longe da tradição açoriana, porque esquecemos o que nos ensinaram ou transmitiram as gerações passadas.

Mas podemos recuperar a prática do Pão por Deus, se nos reencontrarmos com a sua dimensão simbólica.

Desde logo, o uso da saca de pano, feita de retalhos, aproveitamento de roupas ou tecidos, como se fazia no passado, reciclando, recuperando e reutilizando, uma máxima que parece recente, mas que tem raízes muito ancestrais.

Depois, o ato de pedir pão que, no passado era feito propositadamente para este dia, mas que também era substituído por outros ingredientes: castanhas, milho ou até batatas. Hoje, parece difícil que tal se recupere, mas podíamos dar fruta, por exemplo, e evitar o exagero na dádiva de guloseimas, que são prejudiciais à saúde.

Finalmente, o sentido da partilha. As dádivas não eram apenas para quem as recebia, mas destinavam-se a outros, à família, aos mais velhos, que viviam com dificuldades. O pedinte era apenas o rosto de uma comunidade pobre, esquecida, que, invocando as almas dos que partiram, estimulava o sentido da partilha e a necessidade de redistribuir as riquezas para combater as dificuldades dos que menos tem.

O desaparecimento da saca de retalhos do Pão por Deus, significa a recusa em reconhecer a pobreza, o lugar dos mortos na comunidade dos vivos e a necessidade de redistribuir recursos. No seu lugar ficaram as abóboras, as vestes de bruxa e uma noite de fantasia onde as crianças recebem guloseimas.

Abandonou-se a humildade do "dar e partilhar", para dar lugar à ânsia do "receber e guardar".

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 29 de outubro 2019)

 

Comida saudável

Era nas festas que se comia carne! Nos casamentos e batizados, no dia do padroeiro ou nas festividades do Espírito Santo.

A gastronomia diária dos nossos avós, vivessem ou não no campo, era rica de muitos outros ingredientes. O feijão, guisado ou na sopa, a batata doce ou "inglesa", os inhames, os nabos e as couves. E, sempre que restava comida, fosse frango, grão cozido ou mesmo pão, era garantido que, no dia seguinte, havia aproveitamentos, a que chamavam de "roupa velha", migas, pastéis ou açordas.

A terra sempre ditou o que se podia comer, ao contrário de hoje, em que a importação de frutas e legumes faz esquecer o sentido das "novidades", os produtos da época, a estação do ano.

Mas, por muito bonitos e até encerados que estejam, os frutos importados não são melhores nem mais saborosos do que uma fruta da época, produzida na nossa terra, que cheira e amadurece na cesta, ao contrário das outras, do outro lado do mundo, guardadas em câmaras de frio, que rapidamente apodrecem.

Falar de alimentação saudável, legumes e frutas da época, produzidos na nossa terra, parece um discurso do passado, mas é cada vez mais atual e necessário, se queremos viver de forma saudável e ensinar os mais novos a cuidarem de si.

Muitas das nossas crianças e jovens torcem o nariz à sopa de legumes, não comem feijão ou qualquer outra leguminosa, rejeitam as couves e afastam a alface do prato. Os pais, em vez de insistirem, resolvem o problema satisfazendo o eterno desejo de batatas fritas, cobertas de molhos, indiferentes aos efeitos secundários na saúde infantil, incluindo a obesidade.

O poder de compra aliado ao baixo custo de produtos com elevadas percentagens de gordura e açúcares, faz encher carrinhos de compras com comida embalada, processada, "pronta-a-comer", de baixo teor nutritivo. Nas lancheiras dos filhos não há sopa, "que eles não gostam", nem fruta, "que não estão habituados a trincar". Mas não faltam bolachas recheadas, refrigerantes e batatas fritas de pacote.

A saúde está em causa e o equilíbrio da natureza também.

Para podermos defender o desenvolvimento da nossa região, temos de promover e consumir os produtos que a terra, tão generosamente nos dá. E, para isso, a nossa terra só precisa de ser trabalhada. Infelizmente temos "terras de pão" transformadas em pastagem, terrenos férteis abandonados, que podiam produzir legumes de qualidade, sem químicos, com todas as propriedades nutritivas que precisamos. Trabalhar a terra está longe de ser uma atividade menor, é um privilégio, uma bênção que devíamos apoiar e incentivar.

Não basta falar das alterações climáticas, é preciso reequilibrar a nossa relação com a natureza, comendo de forma saudável, reduzindo o consumo de produtos sem qualidade, que entopem as veias, aumentam os níveis de açúcar no sangue e reduzem a energia e os anos de vida.

Porque não recuperar a sabedoria dos nossos avós? retomar o velho hábito de comer sopa, reduzir o consumo da carne e, sobretudo, colorir o prato com verduras e legumes.

Se antes a carne era pouco frequente, uma comida de festa, hoje deveria ser uma escolha consciente, de quem reconhece que, numa alimentação saudável deve haver diversidade e qualidade.

Texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 15 outubro 2019

 

Sozinho na multidão

Aquele homem passeia na cidade, como se tivesse um objetivo diário, um lugar onde chegar, alguém à espera. Mas, na verdade, continua sozinho, ninguém lhe diz bom dia ou convida para um café.

Sozinho, no meio das pessoas, a solidão aperta.

Viver só pesa, quando faltam os laços de apoio, os abraços de afeto, as ajudas solidárias e a certeza de ter alguém a quem chamar, quando é necessário.

Mas, viver só pode ser uma escolha.

Há cada vez mais jovens, entre os 30 e os 40 anos que opta por viver sozinho, investindo na carreira e numa vida afetiva não comprometida. Muitos outros, mais velhos, encontraram numa vida solitária, afastados do ruído da cidade ou do convívio intenso, as condições necessárias para a sua produção artística ou literária.

Há por isso uma diferença entre estar só, sentir-se só ou viver sozinho.

Apesar de em todos os casos haver menos contacto com outros, o certo é que a solidão só pesa, quando se perde o reconhecimento dos outros e se deixa de sentir o afeto de uma rede de amigos, vizinhos e, sobretudo, dos familiares.

Em geral, esta situação pesa mais com o avançar da idade. Vão desparecendo os amigos de infância, perdem-se os companheiros de uma vida e os filhos ou netos vivem longe, embrenhados nas suas vidas ativas. E estas ausências geram mais do que saudade, são um enorme vazio que retira eco às paredes da casa, cala o telefone e torna a caixa do correio um objeto sem utilização.

Para alguns, restam os amigos das redes sociais. Mas, nestes casos, são todos simpáticos, não há contraditório e nem chegam a incomodar. Quando isso acontece, é só apagar, clicar numa tecla e acaba-se a conversa ou a troca de mensagens.

Os amigos, os convivas, que podem quebrar a solidão, nem sempre são simpáticos ou concordam connosco. Mas isso é sinal que estamos vivos. Amor, amizade e tristeza são ingredientes da vida. Querer evitar algum, é enterrar-se numa vida sem cor, nem som.

Podemos passar sem ter a casa cheia, mas iremos sempre ter falta de contacto, conversa, troca de ideias e sentimentos; precisamos de chorar com a dor do outro e rir das suas alegrias, festejar os sucessos e, por ventura, rezar para que ultrapasse as suas dificuldades. Mas, para estarmos em sintonia com o mundo, temos de o sentir.

Nem que seja fazendo festas ao gato, que se enrola nas pernas quando caminhamos, ou olhando o pássaro que nos saúda do cimo da árvore.

Para "enganar" ou "entreter" a solidão temos de sair do isolamento emocional, onde por vezes nos refugiamos por achar que o mundo é pouco interessante, as pessoas mudaram, os jovens de hoje são incompreensíveis ou "está tudo perdido!".

A solidão não afeta apenas os mais velhos, é um sentimento transversal que se cola à pele quando, voluntária ou involuntariamente, perdemos o contacto com o mundo e ficamos presos à imagem que o nosso "eu" reflete no espelho ou nos amigos das redes sociais. Pura ilusão!

Afinal, só conseguimos evitar o peso da solidão, quando saímos da rotina, nem que seja lendo um livro; convivemos e fazemos novas amizades; sentimo-nos úteis aos outros, sejam filhos, netos ou quem de nós precisa.

Não há melhor antídoto para a solidão do que estarmos juntos e podermos partilhar um abraço, dois beijos e uma boa gargalhada.

(texto publicado no dia 1 de outubro 2019 no jornal Açoriano Oriental)

 

Andar e olhar o telemóvel

Quem nunca se cruzou na rua com alguém que caminha, olhos postos num telemóvel? Até pode levar uma pasta, mala, ou estar acompanhado, mas não larga o telemóvel, como se fosse uma extensão do corpo, ferramenta indispensável e integrada nos seus sentidos.

Andam, literalmente, de olhos postos no chão, estes cidadãos online, enquanto fazem deslizar um dedo no écran. É expectável que aconteçam acidentes, um poste de luz que não se evitou ou um tropeção num caixote do lixo, para não falar dos empurrões que, sem quererem, acabam por dar nos outros transeuntes. Talvez, alguns destes "ciberpeões" estejam a desenvolver um sistema visual duplo, que lhes permite ter um olho no écran e o outro na rua! Uma visão radar, muito para além do olhar "pelo canto do olho" que, tradicionalmente, permite estar atento à vida dos outros.

O uso do telemóvel, quando se circula na via pública, já custou a vida a algumas pessoas. Aconteceu na Alemanha, uma jovem morreu a atravessar uma linha de comboio, enquanto olhava o telemóvel. Este, e outros acidentes do género, levaram os responsáveis de uma cidade alemã a colocar semáforos no chão, luzes que se acendem junto às passadeiras e chamam a atenção aos peões, que não levantam os olhos dos telemóveis.

O telemóvel veio para ficar.

Trouxe rapidez na comunicação, dissociou o ato de falar ao telefone do espaço privado. Para alguém que nasceu no século XXI, uma cabine telefónica é um objeto arqueológico.

Podemos falar em qualquer lugar, para qualquer parte do mundo e as distâncias ficaram mais curtas, com as chamadas de vídeo. Mas, há que reaprender o sentido da privacidade. Por vezes, mesmo não querendo, ouvimos as conversas alheias e ficamos a par dos problemas dos outros, só porque esperamos o autocarro na mesma paragem ou estávamos sentados na mesma esplanada de café. A facilidade com que se resolve a vida ao telemóvel trouxe conversas privadas para a praça pública.

O telemóvel de hoje, vai muito para além do equipamento que permite chamadas de voz. Dá acesso à informação, notícias; entretém nos momentos de espera e ajuda a passar o tempo; alarga a rede de contactos; permite registar o peso ou a pulsação, e conta o número de passos diários, entre muitas outras funcionalidades.

E como ficam as relações humanas? Os encontros face a face?

Aos poucos, vão sendo substituídos por SMS e mensagens de voz gravadas.

Fica mais fácil, romper o namoro, dizer não a uma proposta ou até dar uma notícia desagradável, sem enfrentar o olhar do outro, nem perceber o seu desagrado ou sofrimento.

Esta alteração na qualidade das relações faz aumentar o risco de individualismo, apesar da ilusão de estar ligado ao mundo, sentado no sofá, fazendo carícias no visor de um equipamento. Até os bebés o fazem, quando os pais, sem paciência, preferem calar uma birra, passando o telemóvel para as mãos da criança.

Num tempo, em que tanto se fala de preservação da natureza, é bom que, nas nossas relações humanas, não se perca o hábito de dizer palavras de afeto, sorrir ou chorar, sem ser por "emojis".

Os sentidos, do ver ao provar, do cheirar, ao ouvir ou tocar, humanizam. E, não há telemóvel, por mais sofisticado, que os possa substituir.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 17 setembro 2019)

Tempo imprevisível

A imprevisibilidade marca, cada vez mais, o clima. E isso tem repercussões na vida diária, em particular na agricultura, podendo beneficiar umas culturas e prejudicar outras, atrasando ou adiantando a maturação dos frutos.

Nos Açores, consultar diariamente a meteorologia faz parte das rotinas do insular. Em algumas ilhas, há mesmo quem consiga adivinhar se o avião irá aterrar ou levantar, lendo a previsão do tempo na forma das nuvens ou na intensidade dos ventos.

Mas os tempos parecem estar a mudar! Neste último mês de agosto foi difícil prever o tempo que iria fazer no dia seguinte. Não raras vezes, chovia num lado da ilha enquanto no outro fazia sol, e chegou a chover copiosamente numa rua e na rua seguinte o chão estar seco.

Nada parece ser como dantes, quando dizíamos que nos Açores podíamos ter as quatro estações num só dia. Agosto de 2019 foi tudo menos isso! Choveu durante mais de uma semana e os nevoeiros pareciam colados às terras altas.

Dizem os especialistas que esta instabilidade do tempo é uma consequência das alterações climáticas, um efeito perverso, por termos, durante décadas, desvalorizado o impacto do desenvolvimento desenfreado, das emissões de dióxido de carbono ou do efeito estufa.

Nestes dias de chuva e nevoeiro, sentimos pena de quem está de visita ou de férias. Falta o sol na praia, apesar da temperatura do mar continuar a convidar ao banho. Mas, banhos sem sol não fazem parte dos planos! O bronze continua sendo um sinal de férias para se mostrar aos colegas, quando se regressa ao emprego. Aliás, há mesmo quem o faça de forma artificial só para impressionar.

Férias e sol são duas palavras que combinam. Mas os Açores nunca foram uma terra de sol e praia. O que fazer então? Há outras alternativas que podem e devem ser exploradas, nomeadamente as visitas temáticas, devidamente orientadas por quem conhece o património religioso, arquitectónico ou artístico que abunda nas ilhas. As visitas a fábricas e a produções locais, ligando a história à economia local, são outras tantas alternativas que, em outros locais do mundo, onde também o sol não abunda, ocupam boa parte do tempo de um visitante.

Faltam também espaços de restauração, bares, onde a música possa ser dançada, incluindo as danças tradicionais, que não tem de ficar limitadas aos grupos folclóricos, mas podem ser partilhadas com quem apenas pretende conviver, aprender e descobrir a cultura local. Veja-se o que acontece com a chamarrita no Pico e no Faial, que junta pessoas de várias idades.

A chuva, o vento e o nevoeiro não impedem uma boa conversa, a leitura de um bom livro ou a descoberta do património cultural deste povo, que aprendeu a lidar com o clima e se habituou a ver nuvens no céu e a atravessar as neblinas na serra.

De Santa Maria ao Corvo, a meteorologia faz parte da vida do insular. Em tempos, houve quem quisesse justificar o lado mais lento, pardacento, da vida insular, com a permanência do nevoeiro e da humidade. Mas essa circunstância não nos deveria deprimir, mas antes fazer redescobrir e mostrar o outro lado do viver nas ilhas, rico em história e cultura, a alma que nos forja e identifica.

Como diz o poema de Manuel Ferreira, "se no falar trago a dolência das ondas,... trago no coração a ardência das caldeiras".

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 3 setembro 2019)

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