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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

13
Jun18

O números não dizem tudo

sentirailha

Devemos à Fundação Francisco Manuel dos Santos uma importante fonte de informação estatística, a PORDATA, sobretudo, para quem é investigador ou estudante.

A publicação, recentemente divulgada, "Retrato dos Açores", reúne um conjunto significativo de gráficos, onde se comparam as ilhas e se olha no tempo a evolução de alguns dos principais indicadores da vida social e económica desta região.

Na apresentação da obra, foi destacada a percentagem de casamentos não católicos ou civis, que se registou nos Açores em 2017 (70%), quando comparada no tempo (em 1960 era de 6%) e com o todo nacional (66% em 2017).

Este é sem dúvida um número, aparentemente estranho para uma região que, no último Censos, registava 91,2 % de residentes com mais de 15 anos a assumirem-se católicos, quando a nível nacional esse valor era de 81%.

Para compreendermos a percentagem de casamentos "não católicos" nos Açores, há que observar este indicador nos últimos vinte anos.

Antes, relembremos que o registo estatístico dos "casamentos católicos" apenas se refere aqueles que se realizam ao abrigo da Concordata, ou seja, quando os nubentes abrem o processo no registo civil e, num prazo de três meses, concluem esse processo numa cerimónia católica (matrimónio) que depois é averbada no registo civil, alterando-se então o estado civil. De outro modo, o casamento "não católico" corresponde aquele que ocorre no registo civil e, de imediato, os nubentes passam à condição de casados.

Significa isso que, apesar de continuarem a ser celebrados muitos matrimónios na Diocese dos Açores, muitos dos casais, quando entram nas igrejas, já estão casados pelo civil, tendo sido contabilizados como casamentos "não católicos".

Este fenómeno começou a verificar-se na Região, a partir da década de oitenta, altura em que o número de casamentos civis aumentou bruscamente, muito acima da média nacional. Em 1995, 61,5% dos casamentos celebrados eram "não católicos", quando a nível nacional era apenas de 31,2%, e atingiu 81,5% das uniões em 2005. Desde então a percentagem de casamentos "não católicos" tem vindo a diminuir nos Açores, com 70% em 2017, valor próximo da média nacional (66%).

Como explicar este contraste entre uma região que se diz católica, mas que não concretiza, maioritariamente, o casamento católico ao abrigo da Concordata?

Várias são as causas possíveis, algumas já estudadas e publicadas em 2002 (Lalanda, Piedade, "Casar pelo civil ou na Igreja", Rev. Sociologia Problemas e Práticas, nº39, pp.69-84). Mas, em síntese, o que mais se verifica nos Açores é o "duplo casamento", primeiro civil e depois religioso. Apesar disso, há quem continue a marcar o início da vida conjugal após o ritual religioso, ao qual associam a boda.

O facto de, nos anos oitenta se ter privilegiado a soma das idades dos casais para aceder a benefícios fiscais e à habitação jovem, justificou muitos casamentos civis e tornou frequente o "duplo casamento".

Com este exemplo, podemos concluir que, os números não nos dizem tudo. É necessária uma compreensão sociológica da realidade para encontrarmos sentido nas estatísticas.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 12 Junho 2018)

29
Mai18

Mar, pescadores e futuro

sentirailha

No mar não há limites de propriedade.

Não fora a regulamentação internacional a definir zonas económicas exclusivas, limitar o uso das artes de pesca e proteger áreas e espécies marinhas, o mar seria de todos os que nele mergulham ou navegam, levados pelo prazer ou pela necessidade de o atravessar.

Muito antes da gestão política do mar, já os mestres pescadores identificavam lugares de pescaria, "bancos" onde a pesca podia ser mais rentável.

A pesca tradicional assenta nesse saber ancestral, aliado a formas de organização profissional onde a solidariedade se sobrepõe à visão economicista do mérito. Numa companha entram filhos e sobrinhos, tios e cunhados e, no final, retirado o quinhão do mestre, todos repartem o rendimento, sem olhar ao contributo de cada um, mas de forma igual. É injusto!? Talvez! Mas essa é a forma como sempre dividiram o que o mar lhes dá, devolvendo uma parte para a festa do patrono, por quem têm uma enorme devoção.

Todas ou quase todas as embarcações de pesca, das mais pequenas, de boca aberta, às traineiras ou "palangreiras", levam uma ou mais imagens sagradas no seu interior.

A pesca tradicional é feita por pessoas, que vivem em comunidades costeiras, ligadas por laços de parentesco, com quem aprendem a arte de pescar e o respeito pelo mar. Mas, o mar dos pescadores nada tem de lúdico. É um espaço de trabalho, de onde retiram o rendimento diário. Por isso, olham com alguma desconfiança para a denominada pesca lúdica.

Como encarar o futuro das comunidades marítimas? Como transformar a pesca assente em anos de sabedoria, rotinizada em gestos mecânicos que se reproduzem na preparação das gamelas ou no lançar do aparelho?

Todos concordaremos que só pela formação e, sobretudo, pela maior escolarização das gentes do mar, se pode facilitar o acesso e a manipulação de equipamentos sofisticados que as novas embarcações possuem. Equipamentos que garantem a segurança e a eficácia, mas que retiram valor à sabedoria dos velhos homens do mar, conhecedores dos lugares de pesca, sem precisarem de sonares ou cartas marítimas.

Mas e depois! Mais escolarizada, a geração mais jovem poderá manter-se na atividade e pensar o futuro. Mas e os outros? Aqueles que possuem barcos com menos de 12 metros e que toda a vida pescaram a poucas milhas da costa?

A proposta de resgate do governo propõe trinta mil euros para deixar a pesca, exigindo a destruição da embarcação. Significa isso "matar" o barco. Porque, para um pescador, uma embarcação tem vida, foi batizada com nome próprio e deveria morrer de velha.

Porquê exigir a morte do barco, se outras atividades podem ser realizadas com estas embarcações, como a pesca-turismo, que pode ser aliada a outros negócios ligados à gastronomia e ao artesanato local?

A aquacultura não é uma "evolução" para esta pesca tradicional, já que representa a "industrialização" do processo de captura de pescado. Irá precisar de "operários da pesca", não de pescadores.

O futuro do mar, cada vez mais dependente de questões ambientais e da inovação tecnológica, não pode ignorar as comunidades que durante gerações nos alimentaram de peixe.

O mar também é deles.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 29 Maio 2018)

 

O futuro do mar, cada vez mais dependente de questões ambientais e da inovação tecnológica, não pode ignorar as comunidades que durante gerações nos alimentaram de peixe.

O mar também é deles.

16
Mai18

Vista grossa à ilegalidade

sentirailha

Casas em meio rural, alteadas e acrescentadas, ao sabor das mãos de um qualquer mestre de obras! Obras, sem projeto, nem indicação de licença camarária para realização de obras! A descaracterização do património rural parece escapar ao olhar da fiscalização e de quem devia pugnar pela defesa da cultura local.

O património construído não significa, apenas, edifícios classificados. Uma casa rural, um muro de pedra seca ou um fontanário fazem parte da história do nosso povo. Por isso, qualquer intervenção que descaracterize esse património deve cumprir regras, em harmonia com a história e a identidade coletiva de quem nos antecedeu.

Infelizmente, o poder local, a quem compete fiscalizar, faz vista grossa perante obras abusivas, a exemplo do cimento que está sendo atirado às paredes de um antigo solar nas Capelas, destruindo a traça da sua fachada. Mas, como pode alguém fiscalizar, se não reconhece a diferença entre reabilitação de património construído e recuperação de uma habitação ao gosto de quem o faz?

É importante entregar a tarefa de avaliar as irregularidades, cometidas contra edifícios com história, a quem possui formação específica e pode, em diálogo com os proprietários, zelar pela correta aplicação dos instrumentos legais, projetar intervenções com recurso a materiais adequados, evitando que a volumetria dos edifícios não destrua a nossa paisagem rural.

Somos herdeiros, não apenas de monumentos mas, de habitações rurais, recantos naturais, baías ou zonas verdes, com décadas ou séculos, que deveriam merecer atenção por parte dos eleitos locais.

Não é admissível que obras sem projeto se transformem em factos consumados. As autoridades concluem que já nada se pode fazer, paga-se uma multa e fica o assunto arrumado.

A defesa do património construído, seja uma simples casa rural ou um palacete do século XVII, deve merecer o mesmo cuidado, a mesma preocupação. São marcas da nossa história, da identidade do povo a que pertencemos.

No entanto, reabilitar não é regressar ao passado. É possível modernizar sem descaracterizar. Melhorar as condições de conforto e de segurança, não tem de comprometer a história. Moderno e antigo podem conviver num mesmo espaço, numa linguagem que permita reconhecer o que fomos, somos e queremos ser.

As câmaras municipais, supostamente, exigem um letreiro que afixe a autorização de obra, a finalidade da intervenção e a duração da mesma. Bastaria que a polícia municipal, ou quem fiscaliza, verificasse esse requisito e muitas das obras sem projeto seriam interrompidas ou até evitadas.

Mas porque não o fazem sistematicamente? Quando fecham os olhos a uns, acabam por fechar a outros.

O desenvolvimento de um país não se mede por sacos de cimento, apesar de ser um critério utilizado para avaliar o crescimento económico. Mas, desenvolvimento e crescimento não são a mesma coisa.

Se queremos uma região desenvolvida, há que promover a consciência cívica de todos, defendendo o valor das pequenas coisas, das construções mais simples, mas onde a vida do nosso povo aconteceu e acontece. Lugares de vida, trabalho ou natureza, fazem parte do património que vamos deixar por herança às gerações vindouras.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 15 Maio 2018)

 

02
Mai18

Trabalho para todos

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"As pessoas com deficiência devem ter a oportunidade de ganhar a vida através de um trabalho livremente escolhido ou aceite num mercado de trabalho aberto" (Convenção para os Direitos das Pessoas com Deficiência - artigo 27º).

O texto da Convenção, aprovado em 2007 pelas Nações Unidas, foi ratificado pelo governo português em 2009 (Resoluções nº56 e 57/2009 de 30 de julho).

Mas o que fizemos das orientações, reconhecidas, que incentivam a integração e a inclusão das pessoas com deficiência, em particular, no mercado de trabalho?

A resposta é, muito pouco.

Mas se acreditamos no sentido das leis que aprovamos, há que tomar consciência porque não as concretizamos. Governos, autarquias, mas também escolas, empresas, famílias e cada um de nós, esquecem, excluem e rotulam, todos os dias, pessoas diferentes, sem ter a preocupação de as conhecer.

Segundo dados das Nações Unidas, nos países europeus, 50 a 70% das pessoas com deficiência, em idade adulta, estão no desemprego. E, na maioria dos países, incluindo Portugal, a taxa de desemprego, nestes casos, é duas ou três vezes superior à das pessoas que não têm deficiência.

Falar de pessoas com deficiência significa um leque muito variado de limitações, desde físicas a sensoriais, de natureza mental ou relacional. Infelizmente, como refere a página da Associação Salvador (www.associacaosalvador.com) menos de 2% das pessoas, que mencionam no seu currículo vitae serem possuidoras de uma deficiência, são chamadas para entrevistas de emprego.

O mundo do trabalho fecha as portas a cidadãos, cujo potencial desconhece. E, essa é a primeira medida a tomar: consciencializar. Nesse sentido, saúdo a iniciativa da autarquia da Lagoa, com a organização de ações, durante o mês de abril, sobre o autismo.

É preciso conhecer os cidadãos portadores de deficiência, o seu grau de autonomia e capacidade, as competências, que não revelam numa entrevista, mas demonstram na prática, em condições adequadas às suas limitações.

Veja-se o exemplo dos autistas, cujo leque de perturbações pode ser muito amplo, mas cujas capacidades de organização, atenção ao detalhe e precisão podem ser excecionais. Empresas de sucesso como a Specialisterne (Dinamarca) ou a Green Bridge Growers (E.U. América) empregam mais de 70% de pessoas portadores de Perturbações do Espectro do Autismo (PEA).

Porque não nos Açores? Porque não com as empresas públicas ou privadas da região?

As empresas que abrem portas à inclusão de pessoas portadoras de deficiência não são alternativas menores, mas demonstram um sentido de responsabilidade social e consciência de quem não se fica pelas aparências, mas descobre, em todos os cidadãos, uma mais valia para a concretização dos seus objetivos.

Segundo o fundador da Specialisterne, empresa do ramo da informática, os cidadãos com PEA apenas necessitam de um ambiente calmo, que seja respeitada a sua rotina e lhes sejam dadas orientações precisas.

Em dia do trabalhador, urge tomar consciência do que fazemos (ou não) pelos cidadãos portadores de deficiência, que querem entrar no mercado de emprego e a quem se aponta, como alternativa, o recurso aos apoios sociais.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 1 maio 2018) 

 

 

17
Abr18

Ladies night

sentirailha

A desigualdade social mais difícil de combater é a que se propaga de forma invisível e subtil, como não pudesse ser de outra forma, "porque é assim, sempre foi assim!", "onde é que está o problema?"

A desigualdade social entre homens e mulheres continua a fazer parte do nosso quotidiano, mesmo quando não nos damos conta, sobretudo, quando não nos damos conta.

Um bom exemplo da "naturalização" desta desigualdade está dissimulado numa frase de marketing, a ladies night, que esconde uma visão desigual dos clientes do sexo masculino ou feminino.

Numa ladies night as mulheres não pagam entrada e, ainda, tem direito a bebidas de borla. Além disso, para beneficiar dessa vantagem, terão de consumir essas bebidas num determinado intervalo de tempo.

"Mas porquê dispensar as raparigas do pagamento das bebidas?", pergunto eu de forma ingénua: "Oh professora, de outra maneira elas não iriam à festa e, assim, também os rapazes, sabendo que há raparigas, acorrem em maior número! É sempre assim nas discotecas, nas festas da universidade, as raparigas não pagam, é marketing!"

Mas a que preço? As raparigas são instrumentalizadas para tornarem a festa mais atrativa. Ao mesmo tempo, com bebidas à borla, poderá haver maior desinibição, alguma perda de controlo, o riso fácil e aquela boa disposição que aligeira o sentido de responsabilidade e discernimento. Porque não se oferece aos homens um benefício idêntico? A quem interessa ver as raparigas "alegres"?

O que se perpetua com estes benefícios é apenas o reforço de um modelo desigual, onde as raparigas aceitam voluntariamente ser "adereços" de uma festa pensada para agradar aos rapazes, ao entrarem de borla nos bares, festas ou discotecas.

Mas não será esta uma "discriminação positiva" favorável a uma maior igualdade de acesso? Com que sentido? Mesmo que inconsciente, esta prática indicia uma clara desvalorização do papel feminino.

A pior desigualdade é aquela que não tem visibilidade porque não é consciente.

Não basta ser misto para se falar de igualdade. Não basta ter pessoas diferentes num mesmo espaço para se afirmarem direitos idênticos. A prova está neste olhar de comiseração que "beneficia" as raparigas, outrora arredadas do espaço público.

Num outro contexto, um torneio de futebol misto, um golo marcado por uma rapariga valia dois pontos, enquanto os golos masculinos apenas valiam um. "Vá lá, chuta a bola, que assim ganhamos mais pontos!"

Este é outro exemplo de "discriminação positiva" que descredibiliza a presença de mulheres num universo que é tido por ser do domínio masculino.

Qualquer uma destas "benesses" ao invés de contrariar a desigualdade de género agrava-a, reforçando o sentido de condescendência que perdura no pensamento de quem acha que as mulheres não pertencem a certos meios, seja em contexto profissional, de lazer ou até na política.

As mulheres até podem rejubilar com as ladies nights mas, consciente ou inconscientemente, estão a contribuir para o reforço de uma relação de poder, do qual elas se afastam, deixando-se manipular por modelos que em nada beneficiam o respeito pela dignidade e igualdade de direitos.

Aceitando essas benesses, reproduzem uma relação entre géneros desigual, sublimada por um marketing misógino, deixando na invisibilidade uma discriminação, por ventura tida como positiva, que reforça modelos culturais que afastam as mulheres da liderança e da afirmação da igualdade de direitos, quais "fadas do lar", flores coloridas que enfeitam e animam o ambiente, sobretudo, depois de três bebidas gratuitas!

Sempre foi assim? Mas não devia!

Estamos sempre a tempo de fazer a diferença em prol de uma sociedade mais paritária e justa.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 17 abril 2018)

08
Abr18

Turismo e Identidade

sentirailha

O aumento do número de visitantes tem transformado o turismo numa "mina". Os alojamentos locais proliferam, os restaurantes ganham clientes e os locais de interesse enchem-se de curiosos, guardando imagens, fazendo selfies ou vídeos.

Tudo parece ser fácil e ganhador, quando se pensa em turismo. Mas há um senão!

O que levaram os visitantes dessas viagens? E o que deixaram nas regiões visitadas? Numa visão económica, contam os fluxos financeiros e o número de camas ocupadas ou de passageiros desembarcados.

Mas será que estes visitantes fizeram experiências que agora recordam ou, simplesmente, registaram no telemóvel uma coleção de fotografias?

Os resultados do turismo não se medem apenas por indicadores económicos. O que fica registado são, sobretudo, experiências, contactos, aprendizagens e práticas, que envolveram os sentidos. Os sabores da terra, descritos por quem serviu a refeição, a beleza de uma tapeçaria, explicada por uma artesã, as cores da paisagem ou a qualidade do alojamento, também são resultados do turismo, mas que os visitantes levam gravados na memória.

O turismo que faz sair as pessoas da rotina, dos circuitos fechados e habituais, permite, a quem recebe, mostrar um mundo desconhecido do visitante. Um encontro com a novidade, o particular, onde o turista se integra sem destruir, paga para experimentar, investe para poder alargar horizontes e, quando regressa a casa, leva consigo um outro olhar sobre esse mundo.

Esta forma de receber valoriza a identidade e pode contribuir para a criação de negócios enraizados no património das comunidades.

De nada serve fazer igual aos outros, ter restaurantes com sobremesas sem nome e sem tradição. Não vale a pena vender praia e sol, quando o clima é incerto, e muito menos explorar locais de natureza, que não resistem à pressão de muitos visitantes.

O que é "pequeno e bom" proporciona uma maior intensidade da experiência, porque feito com qualidade. O importante é proporcionar uma viagem através da história, do património e, sobretudo, das emoções e sensações.

Recordo um restaurante em Arraiolos, em pleno Alentejo, onde se pode fazer uma viagem no tempo, através dos objetos da lavoura que servem de decoração. Na ementa, os pratos convidam a outras tantas experiências gastronómicas, à descoberta das gentes da terra e dos sabores locais. Mais à frente, numa tenda de tapetes, uma artesã mostra, com orgulho, o restauro de um velho tapete e a beleza do bordado tradicional.

Talvez seja esse o segredo de um bom produto turístico. Quem o vende, tem orgulho no que faz e na terra onde vive e, ao mesmo tempo, é capaz de contar uma história acerca dos produtos, da confecção ou da razão porque, nessa região, se fabrica, consome ou trabalha de uma determinada forma.

O turismo de uma região tem de ter forma, marca, identidade. Se não, é um produto que facilmente se deita fora, depois de se experimentar uma vez. Não deixa memórias ou recordações e, dificilmente, alguém vai contar essas experiências a outros.

O turismo, com identidade, cresce em função das histórias que se contam aos outros.

Mas, para se contarem histórias é preciso viver experiências e ter sido acolhido, na conversa de café, na visita ao museu ou num simples diálogo com o residente que nos indica um trajeto. O que ficam são essas recordações.

O turismo cresce em função do acolhimento.

Não bastam alojamentos locais, improvisados, são precisos "acolhimentos locais". Nem é preciso ter grandes salas de refeições, mas servir uma gastronomia de qualidade em espaços acolhedores, que falem das origens ou conduzam o visitante numa viagem de sabores.

O turismo, com identidade, é sustentável, traz os amigos dos amigos e gera memórias e recordações.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 3 Abril 2018)

27
Mar18

Porque somos felizes?

sentirailha

O último relatório mundial de Felicidade de 2018, publicado pela ONU, no âmbito da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável, classifica a Finlândia, como o país mais feliz do mundo, seguida da Noruega, da Dinamarca e da Islândia. Portugal ocupa, neste ranking, uma posição muito pouco abonatória, o 77º lugar, num total de 156 países.

Países como a Líbia ou a Turquia, que vivem sob ameaças de guerra permanentes, estão melhor colocados do que Portugal. Aliás, à exceção da Grécia, nenhum outro país europeu surge abaixo da posição portuguesa.

Poderíamos julgar que os países melhor classificados são aqueles onde se registam os mais elevados rendimentos per capita. No entanto, segundo o jornal The Guardian, citado no Público (15 março 18), a Finlândia até tem um PIB per capita inferior ao dos países nórdicos vizinhos, mas revela uma enorme capacidade em transformar a riqueza monetária em bem-estar.

Além disso, o índice de Felicidade não se baseia apenas na questão económica, mas considera a esperança média de vida, a saúde, a assistência social, a liberdade, a confiança e a generosidade. E, ainda, a qualidade da governação, o índice de corrupção e a progressão social.

É da análise destas e outras dimensões, da vida em sociedade, que se baseia a percepção da Felicidade, para a qual também contribuem a gratuidade dos cuidados de saúde e o elevado nível de educação universitária, registados nos países do norte da Europa.

Quando não assumimos as nossas dificuldades é comum usarmos, como defesa, aqueles que estão em pior situação. Neste caso, poderíamos falar dos 99 países classificados abaixo de Portugal, particularmente os últimos, Sudão, República Centro-africana ou Burundi, onde dificilmente alguém pode se sentir feliz quando são violados os direitos humanos e o quotidiano é uma luta diária pela sobrevivência.

Olhemos antes para a realidade portuguesa, ou até mesmo açoriana, e analisemos alguns dos itens que estiveram na base da avaliação da Felicidade levada a cabo pela ONU.

Como responderíamos às questões: Considera-se satisfeito ou insatisfeito com a liberdade de escolher o que faz com a sua vida? Ajudou monetariamente alguém no último mês? Ou ainda, pensando no dia de ontem, até que ponto sentiu alegria, teve oportunidade para rir e ter prazer? Ou, pelo contrário, o que recorda desse dia são preocupações, sentimentos de tristeza ou raiva?

A felicidade também passa por aí, pela maneira como encaramos o quotidiano e agarramos os momentos, fazendo de cada experiência uma oportunidade, uma descoberta, um tempo para expressar sentimentos e afetos positivos.

A felicidade de um povo ou país, começa na felicidade de cada um, vivida diariamente e, também, na facilidade com que se obtêm cuidados de saúde, quando deles se necessita ou se acede à educação, sem contar os euros, para ver se podemos pagar os livros escolares.

Alguns dirão, mas o nível de vida e também de impostos é muito diferente na Finlândia quando comparado com Portugal. Na realidade, os finlandeses pagam muito mais impostos do que nós, mas consideram isso como um investimento com retorno positivo, ao nível da saúde, educação e proteção social.

A felicidade tem de ser partilhada. Não pode ser um privilégio de alguns, por ventura mais favorecidos de recursos financeiros, nem depende apenas dos governos e das políticas públicas.

Cada cidadão é corresponsável pelo seu bem-estar.

Seremos felizes na medida em que partilharmos o bem-estar com todos, seja o acesso à saúde, educação e proteção social, ou tão simplesmente, uma boa gargalhada e o prazer de estarmos juntos.

Ninguém é feliz sozinho!

(texto publicao no jornal Açoriano Oriental de 20 março 2018)

07
Mar18

A igreja e as mulheres

sentirailha

É quase inevitável falar de igualdade entre homens e mulheres por altura do dia 8 de Março, apesar de hoje este tema fazer parte da agenda política e despertar consciências em muitos meios, como aconteceu recentemente no mundo do cinema.

Despertar consciências é sempre o primeiro passo para se denunciar injustiças. Sem essa visibilidade consciente, as desigualdades continuarão a fazer parte da cultura, dos modelos de educação, porque "sempre foi assim".

Recentemente, a denúncia veio de dentro da igreja católica. Religiosas italianas, sob anonimato, deram voz às injustiças a que são sujeitas, num artigo publicado na revista Donna Chiesa Mondo, do jornal oficial do Vaticano, Osservatore Romano. Falam de subalternização, servindo refeições em mesas onde nunca tem assento, encarregues de tarefas domésticas ao serviço de bispos, párocos ou instituições religiosas, onde apenas os homens tem poder, e onde nunca existem mulheres consagradas em órgãos de decisão.

São religiosas, é certo, que fizeram voto de pobreza e decidiram entregar as suas vidas a diferentes causas, mas continuam a ser mulheres, pessoas com dignidade. E, aparentemente, há membros e organizações dentro da igreja católica que as tratam como se a liberdade e a democracia tivessem passado ao lado dos templos, dos seminários e dos conventos.

Este é outro dos muitos temas, ditos fraturantes, ao qual o Papa Francisco deu visibilidade, ao nomear recentemente três mulheres para cargos de responsabilidade na Cúria romana. No entanto, apenas uma dessas pessoas é religiosa, a irmã Nicoletta Spezatti, nomeada Diretora dos Museus Vaticanos desde 2017.

Muitas outras religiosas são secundarizadas na estrutura de poder da igreja, porque a condição social da mulher continua associada a papéis desvalorizados.

Limpar o chão, varrer, lavar a loiça e as panelas, cuidar da roupa ou fazer as camas, são tarefas necessárias mas repetitivas e rotineiras, às quais não se dá valor, quando estão feitas. Por isso, o grande problema da invisibilidade do trabalho feminino, não pago, que durante décadas enterrou as mulheres na vida doméstica como um destino sem saída, passa pela falta de consciência de que a vida, em comunidade, seja numa família ou numa instituição, depende da forma como gerimos o quotidiano e do reconhecimento que todas as tarefas nos merecem.

As tarefas, ditas domésticas, são um espaço de partilha a descobrir, sobretudo pelos homens que delas se afastaram. São tarefas invisíveis, que ninguém valoriza, mas que sobrecarregam, diariamente, a vida de muitas mulheres.

"Agora mesmo acabei de passar a roupa, e a gaveta já está feita numa revolução, de blusas amarrotadas, anulando horas de trabalho". "Quando tinha acabado de arrumar a cozinha, entraram pela porta dentro com as botas enlameadas, deixando marcas no chão".

São dois mundos em conflito, um que trabalha nos bastidores e outro que se apropria desse trabalho sem se dar conta. Enquanto todos não tomarem consciência dessa dualidade, dificilmente haverá mudança que pacifique essa relação. Uma mudança que passa, obrigatoriamente, pela partilha, reconhecimento e igualdade de oportunidades.

As religiosas, que denunciam a sua condição na igreja, são mulheres de profunda espiritualidade, algumas com formação superior, a quem a Igreja devia dar visibilidade e poder.

A igreja católica tem de se transformar por dentro. É fundamental que a comunidade dos crentes partilhe e promova a democracia. Só a igualdade de oportunidades, entre homens e mulheres, pode combater as injustiças que a história e o poder masculino criaram dentro desta instituição.

A espiritualidade não tem género, por isso, as mulheres não podem calar a sua voz na igreja.

 (texto publicado no jornal Açoriano Oriental, 6 março 2018)

27
Fev18

Mendicidade

sentirailha

Olhamos de lado, fazendo por parecer que não vimos, evitando a mão estendida, o olhar perdido, a conversa fabricada em torno da fome, da falta de dinheiro, para pagar uma garrafa do gás ou a água, que vão cortar no dia seguinte.

São sempre argumentos válidos, aqueles que se apresentam quando alguém pede! Na grande maioria das vezes quem dá, nem os ouve, apenas põe a mão ao bolso para tirar umas moedas e desembaraçar-se deste encontro, num "vai lá! Olhe que isto não é para o álcool!".

Pois, a questão está precisamente aí, os gestos de mendicidade não deviam ser moralizados, como se a troco de umas moedas, aquela pessoa tivesse a obrigação de mudar de vida. Como se mudar de vida, quando se chegou ao ponto de pedir esmola, fosse apenas uma questão de vontade, uma decisão simples, que só não tomam os preguiçosos e os párias da sociedade.

Mas, é essa mesma sociedade que os esquece, lhes vira as costas e os abandona.

Não vale a pena elencar culpas e apontar o dedo. Quando se rompem relações, a responsabilidade é sempre mútua. E, o fenómeno da mendicidade, é sempre o reflexo de uma sociedade que se tornou individualista! O resultado de uma série de abandonos, de afastamentos que se tornaram crónicos.

Do lado de quem pede, há uma clara perda de autoestima, por isso, para essas pessoas pouco importa se não tem a estima dos outros, se os olhares são atravessados ou evitados.

A mendicidade é um subproduto da sociedade que somos, o resultado do subdesenvolvimento a que chegamos, em termos das relações humanas.

Não se trata apenas de um teto, apesar de os mendigos serem rotulados de sem-abrigo. É mais fácil pensarmos que o problema se resolve apenas com tetos, quando o que falta a estas pessoas são relações. É claro que se, associado ao teto, existirem formas de reatar laços, com a vida, a saúde, a natureza, o trabalho e, sobretudo, consigo próprio, o problema do abandono poderá ser ultrapassado.

De outro modo, a rua e as solidariedades, criadas entre pessoas com histórias dramáticas, tornam-se acolhimento.

Cada mendigo, cada sem-abrigo tem uma história de ruturas afetivas para contar.

Ainda há pouco tempo, ficamos a saber que um português de 35 anos morreu encostado às paredes do metro de Londres, mesmo em frente ao parlamento. Um deputado trabalhista reagiu, o Presidente da República portuguesa agradeceu a mensagem ao deputado, e apareceram flores no local onde esse jovem se apagou. Diz a imprensa que era talentoso, um artista, que chegou a ser modelo e tinha procurado emprego, dias antes.

O certo é que a sua vida se apagou como chama de vela que não resiste ao vento.

A mendicidade é o fim da linha, o último episódio de muitas histórias, onde se perdeu o fio à meada da vida. Aos poucos, vão se acumulando derrotas, insucessos e perdendo o apoio daqueles que, supostamente, deviam lá estar para ajudar.

Depois, vem a solidão, o mundo imenso de dificuldades emaranhadas, a saúde que retira a força, a falta de força que mata a motivação, os consumos que apagam o sofrimento, mas retiram a atenção e, essa onda de desespero que se agiganta, cada vez que se procura levantar a cabeça.

E tudo parece ser mais fácil, quando se estende a mão e se diz umas frases, mais ou menos feitas, que pegam, porque ninguém realmente está atento ao que é dito.

Perante o anúncio de um novo Plano, urgente, para combater a mendicidade, fica o sentimento que alguém se esqueceu de um capítulo na Estratégia de Combate à Pobreza e Exclusão social, e que urge sanear o espaço público, para agradar aos turistas e des(incomodar) a sociedade.

Quem vive na/da rua tem uma história, que não se apaga por estar escondida. O difícil, mas possível, é (re)construir o presente com cada um/a, para que essa história possa ter futuro.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 22 Fev. 2018)

06
Fev18

Memória

sentirailha

A memória não é um segredo guardado apenas na mente de quem viveu experiências, construiu edifícios, protagonizou momentos históricos ou conheceu pessoas relevantes. Essa memória dificilmente sobrevive se não forem preservados lugares, casas, objetos, registos escritos ou orais, que transformem essas vivências em realidades partilhadas.

De que serve a minha memória individual, se ninguém for capaz de entender o sentido do que transmito? Mesmo que o tempo seja outro, que alguém fale, por exemplo da guerra do ultramar ou mesmo da revolução de abril de 74, os outros entendem ou aprendem a conhecer, se esses acontecimentos fizerem parte de uma história comum. E, se as memórias forem mais privadas e fizerem referencia à história da família, também nesses momentos, em que alguém conta ou se conta, há um reforço dos laços, sobretudo entre gerações.

A memória é, sem dúvida, um cimento que estrutura as relações que constroem as sociedades, as famílias, os grupos ou organizações.

Sem memória, tudo parece feito ontem, renovado não se sabe porquê, e os que nos antecederam apagam-se, esfumam-se como se não tivessem importância.

Por isso, é muito importante cultivar a memória, não para ser saudosista, mas para conhecer a sua própria identidade.

No caso das famílias, um dos lugares de memória são os álbuns, cada vez menos presentes, já que as fotos ficam esquecidas nos cartões de "memória" das máquinas fotográficas. Mas, até esses álbuns só ganham vida quando alguém, protagonista desse tempo, conta as histórias que envolvem as pessoas ou os acontecimentos retratados.

Precisamos, por isso, que alguém nos conte a história, nos faça mergulhar num outro tempo e nos leve a descobrir o percurso vivido, que entretanto passou.

Recentemente, estando em Brest, uma cidade da Bretanha francesa, arrasada na segunda guerra mundial e reconstruída nos anos cinquenta, descobri que um dos lugares com interesse cultural é a rua Saint Malot, que sobreviveu à reconstrução e recorda a cidade, antes da guerra.

Apesar da carga histórica que esta rua representa, o poder local preferia expandir a cidade, nesse local, construindo edifícios em altura.

Mas, contrariando essa intensão, um grupo de cidadãos organizou-se em associação, alguns até vivem nas poucas casas que aí restam, e transformaram o local num museu vivo, onde a história da cidade de Brest se conta de forma diferente. Ali, restam os muros de uma antiga prisão de mulheres, as casas de pedra e alguns pequenos jardins. À volta, a cidade fala de construção naval, marinha de guerra, edifícios de linhas direitas e não existem praças circulares ou lugares comunitários. Tudo parece ter sido redesenhado a régua e esquadro.

A memória faz-se por camadas. Quando destruímos as mais antigas, outras irão ocupar o seu lugar, nem sempre pelas melhores razões. Quando se nega ou se tenta esquecer um determinado passado, quando se apagam os vestígios do que se foi, a memória acaba por enterrar essa camada e, aparentemente, a história parece só ter começado mais tarde.

Isto acontece com as cidades como com as pessoas ou famílias.

Há quem enterre o passado, por não ser capaz de o enfrentar. Mas, quando menos espera, ele surge à superfície, como magma que fura o vulcão, e dá sentido a um objeto ou escrito, torna-se presente numa palavra ou recordação, que escapou a esse controlo que tenta silenciar o passado. Tal como a rua de Brest, reduto de uma outra cidade, antes da reconstrução.

Um bom exercício para recuperar a memória e reforçar a coesão de grupo, seja uma cidade ou uma família, é mergulhar nos álbuns de fotografias, ou descarregar os cartões de memória, e contar às gerações mais jovens, as histórias aí gravadas.

 (texto publicado no Jornal Açoriano Oriental - de 6 fevereiro 2018)

 

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