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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Vai à adega...

Em dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho!

Esta é a máxima que, todos os anos, se recorda no dia 11 de novembro.

Desde a vindima que o mosto, primeiro sumo de uva, se transforma em vinho, numa química natural onde os aromas, a temperatura e a madeira do pipo são fundamentais, para diferenciar um bom de um mau vinho.

A tradição vinícola em Portugal é antiga e marca a gastronomia e o território, com a presença das adegas junto às casas rurais ou em lugares isolados, próximo das vinhas e dos vinhedos, como se observa nas ilhas, particularmente no Pico.

A adega é um lugar de provas e de segredos, porque fazer vinho é uma arte e uma ciência e nem todos sabem misturar castas, controlar o grau alcoólico ou equilibrar sabores e aromas. Quem leia a descrição de um vinho, parece ouvir um poema; aroma frutado, com sabor a madeira, possui um corpo leve, estruturado, de cor clara, intenso, refrescante, com um final persistente no palato.

O vinho faz parte da cultura portuguesa, particularmente da açoriana, onde a tradição ligada ao vinho de cheiro, ganhou recentemente outra qualidade, com castas selecionadas e adaptadas que produzem vinhos de excelência no Pico, na Terceira e até em São Miguel.

A vitivinicultura é um importante sector da nossa economia agrícola, reconhecida como património mundial, no caso das vinhas do Douro e do Pico.

Mas o vinho não tem só qualidades e predicados de excelência.

Infelizmente, está na origem de consumos excessivos, aditivos, que transformam esse néctar, num tóxico, quando bebido sem moderação.

É certo que o fenómeno do alcoolismo está cada vez mais associado a outras bebidas alcoólicas, destiladas, importadas e, sobretudo, misturadas com refrigerantes, que disfarçam o teor alcoólico e "escorregam" mais facilmente.

Mas, se Portugal é premiado pela excelência dos seus vinhos, infelizmente, é um dos piores países em matéria de prevenção do consumo excessivo. De acordo com o relatório anual do Serviço de Comportamentos Aditivos (2018), dominam as atitudes do "laissez-faire", ou seja, um baixo controlo do consumo excessivo, particularmente entre os jovens. Estamos perante uma realidade que afeta a população entre os 15 e os 34 anos, particularmente, do sexo masculino.

Mas, não nos iludamos. O consumo excessivo também afeta as mulheres, sobretudo, quando estas o fazem de forma dissimulada no espaço doméstico.

Aparentemente, de acordo com o último relatório da OCDE, houve uma redução do consumo alcoólico entre 2007 e 2017, mas Portugal, no contexto dos países avaliados, continua com elevado consumo, ocupando o 11º lugar, com 8,9 litros por ano, por pessoa.

A produção de vinho projeta o país, de forma positiva, mas também o desvaloriza, quando constitui uma das principais causas de morte, acidentes e atos violentos.

Sem negar a importância deste produto na nossa cultura, a beleza das vinhas, a história das adegas ou o lugar que ocupa na gastronomia, não podemos esquecer que o consumo excessivo gera dependência, destrói famílias, leva ao absentismo laboral e potencia comportamentos agressivos e irrefletidos.

Só mesmo a moderação e a sobriedade, permitem levantar o copo e dizer: saúde!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 12 novembro 2019)

 

Pão por Deus

Pão por Deus, pela alma dos seus!

No dia 1 de novembro, a tradição convoca os açorianos a colocarem-se no lugar de quem vive com dificuldades e a experimentarem o sentido da solidariedade, redistribuindo, partilhando, sem esquecer os que já partiram.

Este é o espírito que anima a tradição do "Pão por Deus", nascida da prática da esmola aos pobres, por intensão das almas, e intensificada com a coincidência histórica de, na véspera do dia dos fieis defuntos (2 de novembro), Lisboa ter sido arrasada por um terramoto em 1755.

Nos últimos anos, esta tradição foi sendo esquecida, porque a condição socioeconómica das famílias melhorou e a mendicidade, em parte, desapareceu, o que não significa o fim da pobreza mas, por ventura, do seu rosto mais severo.

Hoje, ninguém pede pão pelas portas! Pede-se dinheiro para pagar a conta da luz ou da água. Mas ainda há quem invoque "a alma dos seus", quando agradece uma dádiva.

Há nesta tradição do Pão por Deus uma dimensão, que está para além das dádivas, o facto de significar partilha e solidariedade entre vivos, lembrando aqueles que nos antecederam. É um momento do ano em que a família humana se alarga aos que já partiram, ao mesmo tempo que alerta para a existência de todos aqueles que vivem com dificuldades e que moram ao lado, na mesma freguesia.

O Pão por Deus, na medida em que nos lembra a solidariedade e a humildade, dificilmente pode ser substituído por outras práticas. Mas foi! Até podem ter a mesma raiz cultural, o culto dos mortos, mas, nessa transição, perdeu-se o sentido do pedir, do partilhar, e ficou apenas o valor atribuído ao ato de receber que, não se concretizando, confere o direito de importunar e molestar (doçura ou travessura).

Estamos longe da tradição açoriana, porque esquecemos o que nos ensinaram ou transmitiram as gerações passadas.

Mas podemos recuperar a prática do Pão por Deus, se nos reencontrarmos com a sua dimensão simbólica.

Desde logo, o uso da saca de pano, feita de retalhos, aproveitamento de roupas ou tecidos, como se fazia no passado, reciclando, recuperando e reutilizando, uma máxima que parece recente, mas que tem raízes muito ancestrais.

Depois, o ato de pedir pão que, no passado era feito propositadamente para este dia, mas que também era substituído por outros ingredientes: castanhas, milho ou até batatas. Hoje, parece difícil que tal se recupere, mas podíamos dar fruta, por exemplo, e evitar o exagero na dádiva de guloseimas, que são prejudiciais à saúde.

Finalmente, o sentido da partilha. As dádivas não eram apenas para quem as recebia, mas destinavam-se a outros, à família, aos mais velhos, que viviam com dificuldades. O pedinte era apenas o rosto de uma comunidade pobre, esquecida, que, invocando as almas dos que partiram, estimulava o sentido da partilha e a necessidade de redistribuir as riquezas para combater as dificuldades dos que menos tem.

O desaparecimento da saca de retalhos do Pão por Deus, significa a recusa em reconhecer a pobreza, o lugar dos mortos na comunidade dos vivos e a necessidade de redistribuir recursos. No seu lugar ficaram as abóboras, as vestes de bruxa e uma noite de fantasia onde as crianças recebem guloseimas.

Abandonou-se a humildade do "dar e partilhar", para dar lugar à ânsia do "receber e guardar".

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 29 de outubro 2019)

 

Comida saudável

Era nas festas que se comia carne! Nos casamentos e batizados, no dia do padroeiro ou nas festividades do Espírito Santo.

A gastronomia diária dos nossos avós, vivessem ou não no campo, era rica de muitos outros ingredientes. O feijão, guisado ou na sopa, a batata doce ou "inglesa", os inhames, os nabos e as couves. E, sempre que restava comida, fosse frango, grão cozido ou mesmo pão, era garantido que, no dia seguinte, havia aproveitamentos, a que chamavam de "roupa velha", migas, pastéis ou açordas.

A terra sempre ditou o que se podia comer, ao contrário de hoje, em que a importação de frutas e legumes faz esquecer o sentido das "novidades", os produtos da época, a estação do ano.

Mas, por muito bonitos e até encerados que estejam, os frutos importados não são melhores nem mais saborosos do que uma fruta da época, produzida na nossa terra, que cheira e amadurece na cesta, ao contrário das outras, do outro lado do mundo, guardadas em câmaras de frio, que rapidamente apodrecem.

Falar de alimentação saudável, legumes e frutas da época, produzidos na nossa terra, parece um discurso do passado, mas é cada vez mais atual e necessário, se queremos viver de forma saudável e ensinar os mais novos a cuidarem de si.

Muitas das nossas crianças e jovens torcem o nariz à sopa de legumes, não comem feijão ou qualquer outra leguminosa, rejeitam as couves e afastam a alface do prato. Os pais, em vez de insistirem, resolvem o problema satisfazendo o eterno desejo de batatas fritas, cobertas de molhos, indiferentes aos efeitos secundários na saúde infantil, incluindo a obesidade.

O poder de compra aliado ao baixo custo de produtos com elevadas percentagens de gordura e açúcares, faz encher carrinhos de compras com comida embalada, processada, "pronta-a-comer", de baixo teor nutritivo. Nas lancheiras dos filhos não há sopa, "que eles não gostam", nem fruta, "que não estão habituados a trincar". Mas não faltam bolachas recheadas, refrigerantes e batatas fritas de pacote.

A saúde está em causa e o equilíbrio da natureza também.

Para podermos defender o desenvolvimento da nossa região, temos de promover e consumir os produtos que a terra, tão generosamente nos dá. E, para isso, a nossa terra só precisa de ser trabalhada. Infelizmente temos "terras de pão" transformadas em pastagem, terrenos férteis abandonados, que podiam produzir legumes de qualidade, sem químicos, com todas as propriedades nutritivas que precisamos. Trabalhar a terra está longe de ser uma atividade menor, é um privilégio, uma bênção que devíamos apoiar e incentivar.

Não basta falar das alterações climáticas, é preciso reequilibrar a nossa relação com a natureza, comendo de forma saudável, reduzindo o consumo de produtos sem qualidade, que entopem as veias, aumentam os níveis de açúcar no sangue e reduzem a energia e os anos de vida.

Porque não recuperar a sabedoria dos nossos avós? retomar o velho hábito de comer sopa, reduzir o consumo da carne e, sobretudo, colorir o prato com verduras e legumes.

Se antes a carne era pouco frequente, uma comida de festa, hoje deveria ser uma escolha consciente, de quem reconhece que, numa alimentação saudável deve haver diversidade e qualidade.

Texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 15 outubro 2019

 

Sozinho na multidão

Aquele homem passeia na cidade, como se tivesse um objetivo diário, um lugar onde chegar, alguém à espera. Mas, na verdade, continua sozinho, ninguém lhe diz bom dia ou convida para um café.

Sozinho, no meio das pessoas, a solidão aperta.

Viver só pesa, quando faltam os laços de apoio, os abraços de afeto, as ajudas solidárias e a certeza de ter alguém a quem chamar, quando é necessário.

Mas, viver só pode ser uma escolha.

Há cada vez mais jovens, entre os 30 e os 40 anos que opta por viver sozinho, investindo na carreira e numa vida afetiva não comprometida. Muitos outros, mais velhos, encontraram numa vida solitária, afastados do ruído da cidade ou do convívio intenso, as condições necessárias para a sua produção artística ou literária.

Há por isso uma diferença entre estar só, sentir-se só ou viver sozinho.

Apesar de em todos os casos haver menos contacto com outros, o certo é que a solidão só pesa, quando se perde o reconhecimento dos outros e se deixa de sentir o afeto de uma rede de amigos, vizinhos e, sobretudo, dos familiares.

Em geral, esta situação pesa mais com o avançar da idade. Vão desparecendo os amigos de infância, perdem-se os companheiros de uma vida e os filhos ou netos vivem longe, embrenhados nas suas vidas ativas. E estas ausências geram mais do que saudade, são um enorme vazio que retira eco às paredes da casa, cala o telefone e torna a caixa do correio um objeto sem utilização.

Para alguns, restam os amigos das redes sociais. Mas, nestes casos, são todos simpáticos, não há contraditório e nem chegam a incomodar. Quando isso acontece, é só apagar, clicar numa tecla e acaba-se a conversa ou a troca de mensagens.

Os amigos, os convivas, que podem quebrar a solidão, nem sempre são simpáticos ou concordam connosco. Mas isso é sinal que estamos vivos. Amor, amizade e tristeza são ingredientes da vida. Querer evitar algum, é enterrar-se numa vida sem cor, nem som.

Podemos passar sem ter a casa cheia, mas iremos sempre ter falta de contacto, conversa, troca de ideias e sentimentos; precisamos de chorar com a dor do outro e rir das suas alegrias, festejar os sucessos e, por ventura, rezar para que ultrapasse as suas dificuldades. Mas, para estarmos em sintonia com o mundo, temos de o sentir.

Nem que seja fazendo festas ao gato, que se enrola nas pernas quando caminhamos, ou olhando o pássaro que nos saúda do cimo da árvore.

Para "enganar" ou "entreter" a solidão temos de sair do isolamento emocional, onde por vezes nos refugiamos por achar que o mundo é pouco interessante, as pessoas mudaram, os jovens de hoje são incompreensíveis ou "está tudo perdido!".

A solidão não afeta apenas os mais velhos, é um sentimento transversal que se cola à pele quando, voluntária ou involuntariamente, perdemos o contacto com o mundo e ficamos presos à imagem que o nosso "eu" reflete no espelho ou nos amigos das redes sociais. Pura ilusão!

Afinal, só conseguimos evitar o peso da solidão, quando saímos da rotina, nem que seja lendo um livro; convivemos e fazemos novas amizades; sentimo-nos úteis aos outros, sejam filhos, netos ou quem de nós precisa.

Não há melhor antídoto para a solidão do que estarmos juntos e podermos partilhar um abraço, dois beijos e uma boa gargalhada.

(texto publicado no dia 1 de outubro 2019 no jornal Açoriano Oriental)

 

Andar e olhar o telemóvel

Quem nunca se cruzou na rua com alguém que caminha, olhos postos num telemóvel? Até pode levar uma pasta, mala, ou estar acompanhado, mas não larga o telemóvel, como se fosse uma extensão do corpo, ferramenta indispensável e integrada nos seus sentidos.

Andam, literalmente, de olhos postos no chão, estes cidadãos online, enquanto fazem deslizar um dedo no écran. É expectável que aconteçam acidentes, um poste de luz que não se evitou ou um tropeção num caixote do lixo, para não falar dos empurrões que, sem quererem, acabam por dar nos outros transeuntes. Talvez, alguns destes "ciberpeões" estejam a desenvolver um sistema visual duplo, que lhes permite ter um olho no écran e o outro na rua! Uma visão radar, muito para além do olhar "pelo canto do olho" que, tradicionalmente, permite estar atento à vida dos outros.

O uso do telemóvel, quando se circula na via pública, já custou a vida a algumas pessoas. Aconteceu na Alemanha, uma jovem morreu a atravessar uma linha de comboio, enquanto olhava o telemóvel. Este, e outros acidentes do género, levaram os responsáveis de uma cidade alemã a colocar semáforos no chão, luzes que se acendem junto às passadeiras e chamam a atenção aos peões, que não levantam os olhos dos telemóveis.

O telemóvel veio para ficar.

Trouxe rapidez na comunicação, dissociou o ato de falar ao telefone do espaço privado. Para alguém que nasceu no século XXI, uma cabine telefónica é um objeto arqueológico.

Podemos falar em qualquer lugar, para qualquer parte do mundo e as distâncias ficaram mais curtas, com as chamadas de vídeo. Mas, há que reaprender o sentido da privacidade. Por vezes, mesmo não querendo, ouvimos as conversas alheias e ficamos a par dos problemas dos outros, só porque esperamos o autocarro na mesma paragem ou estávamos sentados na mesma esplanada de café. A facilidade com que se resolve a vida ao telemóvel trouxe conversas privadas para a praça pública.

O telemóvel de hoje, vai muito para além do equipamento que permite chamadas de voz. Dá acesso à informação, notícias; entretém nos momentos de espera e ajuda a passar o tempo; alarga a rede de contactos; permite registar o peso ou a pulsação, e conta o número de passos diários, entre muitas outras funcionalidades.

E como ficam as relações humanas? Os encontros face a face?

Aos poucos, vão sendo substituídos por SMS e mensagens de voz gravadas.

Fica mais fácil, romper o namoro, dizer não a uma proposta ou até dar uma notícia desagradável, sem enfrentar o olhar do outro, nem perceber o seu desagrado ou sofrimento.

Esta alteração na qualidade das relações faz aumentar o risco de individualismo, apesar da ilusão de estar ligado ao mundo, sentado no sofá, fazendo carícias no visor de um equipamento. Até os bebés o fazem, quando os pais, sem paciência, preferem calar uma birra, passando o telemóvel para as mãos da criança.

Num tempo, em que tanto se fala de preservação da natureza, é bom que, nas nossas relações humanas, não se perca o hábito de dizer palavras de afeto, sorrir ou chorar, sem ser por "emojis".

Os sentidos, do ver ao provar, do cheirar, ao ouvir ou tocar, humanizam. E, não há telemóvel, por mais sofisticado, que os possa substituir.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 17 setembro 2019)

Tempo imprevisível

A imprevisibilidade marca, cada vez mais, o clima. E isso tem repercussões na vida diária, em particular na agricultura, podendo beneficiar umas culturas e prejudicar outras, atrasando ou adiantando a maturação dos frutos.

Nos Açores, consultar diariamente a meteorologia faz parte das rotinas do insular. Em algumas ilhas, há mesmo quem consiga adivinhar se o avião irá aterrar ou levantar, lendo a previsão do tempo na forma das nuvens ou na intensidade dos ventos.

Mas os tempos parecem estar a mudar! Neste último mês de agosto foi difícil prever o tempo que iria fazer no dia seguinte. Não raras vezes, chovia num lado da ilha enquanto no outro fazia sol, e chegou a chover copiosamente numa rua e na rua seguinte o chão estar seco.

Nada parece ser como dantes, quando dizíamos que nos Açores podíamos ter as quatro estações num só dia. Agosto de 2019 foi tudo menos isso! Choveu durante mais de uma semana e os nevoeiros pareciam colados às terras altas.

Dizem os especialistas que esta instabilidade do tempo é uma consequência das alterações climáticas, um efeito perverso, por termos, durante décadas, desvalorizado o impacto do desenvolvimento desenfreado, das emissões de dióxido de carbono ou do efeito estufa.

Nestes dias de chuva e nevoeiro, sentimos pena de quem está de visita ou de férias. Falta o sol na praia, apesar da temperatura do mar continuar a convidar ao banho. Mas, banhos sem sol não fazem parte dos planos! O bronze continua sendo um sinal de férias para se mostrar aos colegas, quando se regressa ao emprego. Aliás, há mesmo quem o faça de forma artificial só para impressionar.

Férias e sol são duas palavras que combinam. Mas os Açores nunca foram uma terra de sol e praia. O que fazer então? Há outras alternativas que podem e devem ser exploradas, nomeadamente as visitas temáticas, devidamente orientadas por quem conhece o património religioso, arquitectónico ou artístico que abunda nas ilhas. As visitas a fábricas e a produções locais, ligando a história à economia local, são outras tantas alternativas que, em outros locais do mundo, onde também o sol não abunda, ocupam boa parte do tempo de um visitante.

Faltam também espaços de restauração, bares, onde a música possa ser dançada, incluindo as danças tradicionais, que não tem de ficar limitadas aos grupos folclóricos, mas podem ser partilhadas com quem apenas pretende conviver, aprender e descobrir a cultura local. Veja-se o que acontece com a chamarrita no Pico e no Faial, que junta pessoas de várias idades.

A chuva, o vento e o nevoeiro não impedem uma boa conversa, a leitura de um bom livro ou a descoberta do património cultural deste povo, que aprendeu a lidar com o clima e se habituou a ver nuvens no céu e a atravessar as neblinas na serra.

De Santa Maria ao Corvo, a meteorologia faz parte da vida do insular. Em tempos, houve quem quisesse justificar o lado mais lento, pardacento, da vida insular, com a permanência do nevoeiro e da humidade. Mas essa circunstância não nos deveria deprimir, mas antes fazer redescobrir e mostrar o outro lado do viver nas ilhas, rico em história e cultura, a alma que nos forja e identifica.

Como diz o poema de Manuel Ferreira, "se no falar trago a dolência das ondas,... trago no coração a ardência das caldeiras".

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 3 setembro 2019)

Deixe a ilha como encontrou

São Miguel está inundada de veículos de aluguer. Mais carros, mais visitantes, mas também maior contribuição para o nível de poluição atmosférica.

Numa região de 246 mil habitantes, o parque automóvel tem crescido todos os anos, muito por conta das viaturas de rent-a-car, de matrícula recente. De acordo com as estatísticas oficiais (Direção Regional dos Transportes), em 2017 circulavam nas estradas açorianas 147 mil automóveis e a Região Autónoma dos Açores era a terceira região do país com o melhor parque automóvel (menos de 10 anos).

O que acontece depois a todos esses automóveis? Para já, ocupam os poucos lugares de estacionamento, invadem pontos turísticos e, depois, muitos acabarão em parques de viaturas de segunda mão!

Este é um problema real, com o qual todos nos devíamos preocupar. Qual o contributo que a região Açores, no seu todo e em particular nas ilhas onde cresce o uso de viaturas automóveis, está a dar para as emissões de CO2?

Apostar num melhor transporte público é necessário e urgente. Um transporte que sirva zonas turísticas, reduza o uso de viaturas ligeiras em determinados locais e, sobretudo, tenha em conta o limite máximo de veículos que este território comporta.

Para quem está atento, de certo já se deu conta da proliferação de empresas de rent-a-car, umas com chancela nacional ou internacional, outras de iniciativa local, com nomes sugestivos que apelam à magia das ilhas ou ao espírito de aventura, indiferentes à pegada ambiental que representam.

Todos os visitantes são bem vindos! Certamente! O turismo é uma nova e importante fonte de receita para a economia açoriana. Mas, os açorianos não são paisagem, indiferentes a esta ocupação excessiva do seu território ou às inúmeras situações de infração das regras básicas do código da estrada, protagonizadas por viaturas de aluguer.

Dei-me ao trabalho de pesquisar se o código de estrada valia apenas para os nacionais. Não! Portugal é signatário de convenções internacionais que uniformizam regras de condução, nomeadamente os sinais de trânsito. Então, como se justifica tanta infração? Tem se visto de tudo. Inversões de marcha em zonas interditas, passagens no vermelho, como se os semáforos não estivessem lá, desrespeito pelo traço contínuo na estrada, condução em contramão e estacionamento caótico.

Ninguém pode alegar que no seu país é assim que se faz!

Os sinais de trânsito estão convencionados e, felizmente, hoje existe o GPS e outras aplicações que ajudam na circulação, apesar de nem todos esses mapas referirem o sentido das ruas. Aí, só mesmo a atenção do condutor e o conhecimento das regras mínimas de trânsito podem valer.

As empresas de aluguer de viaturas talvez devessem alertar, informar, sobretudo, quem vem de países onde os semáforos se localizam longe da via e não é infração grave fazer uma inversão de marcha em cima de traços contínuos, como acontece, por exemplo, nos Estados Unidos ou no Reino Unido.

"Deixe a natureza como a encontrou", é o lema do turismo sustentável. Mas, se destruirmos, todos os dias, o ar que respiramos, a qualidade da água que bebemos, os locais que visitamos, não tarda muito e o que deixarmos será uma amostra do que recebemos.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 20 agosto 2019)

Degustar

As férias são um tempo para degustar.

Degustar é um verbo com tempo, que se diz devagar, saboreando cada sílaba, de olhos fechados, com todos os sentidos.

Degustar o ar que se respira, no meio das árvores, o silêncio pontuado com o chilrear dos pássaros, mas também a refeição extraordinária, onde se descobrem novos sabores e sensações.

Há quem tenha pressa, demasiada pressa, de cumprir uma agenda nas férias e, no fim, quando chega o dia de regressar ao trabalho, está mais cansado do que relaxado. São jantaradas, excessos de bebida, noitadas vazias de diálogo, onde o barulho apaga as palavras e a intimidade. E, acaba-se por não ter tempo para degustar o tempo.

Porque, degustar é uma experiência com tempo, onde os segundos deixam marcas, memórias, imagens que a mente reencontra, sempre que fechamos os olhos e recordamos como foi bom aquele momento.

O século XX trouxe a novidade do "fast food", do "pronto a vestir" ou "pronto a comer", do "fast track" ou da via verde e, todas essas "facilidades", criadas para reduzir o tempo, queimar etapas, transformaram as pessoas em consumidores acelerados.

Só se consegue degustar quando se dá valor à experiência de fazer, conhecer e aprender, porque é preciso tempo para se viver novas experiências. O mundo não é uma pista de fórmula um, mas um emaranhado de trilhos à espera de nós. E, de cada vez que nos metemos por um, somos apenas um ponto no universo, ligado por emoções, diálogos e histórias. Antes de nós, gerações de construtores e descobridores, depois de nós tantas outras virão. Mas, entretanto, porque somos nós, agora, quem tem o privilégio de estar vivo e desfrutar do mundo, há uma imensidão de cuidados a ter.

A natureza exige de nós cuidados, proteção, reserva. Não é eterna, como julgávamos, mas continua a ser intensa nas riquezas que nos oferece. Para isso, há que desacelerar a voracidade do imobiliário, acordar a insensatez dos descrentes nas alterações climáticas e ter consciência dos impactos que as muitas tecnologias geram no ecossistema.

O mundo precisa de paz, todos nós sabemos. Mas, há muito que essa paz não se consegue só porque alguém levanta uma bandeira branca. A paz exige atenção ao outro, às necessidades dos países mais pobres, aos direitos dos seres humanos que aí habitam, à integridade dos que se dispõem a trabalhar e que são usados, para satisfazer interesses económicos.

O mundo, cada um de nós, precisa de redescobrir as sensações da paz, que se vivem nos atos solidários, na cooperação, na proteção da natureza e do ser humano, na escuta das suas vozes e necessidades.

Degustar é imergir num mundo de sons e sabores, fechar os olhos e sentir os pés enraizarem-se no solo, como se fossemos apenas mais uma espécie neste universo que nos rodeia. E, depois, abrir os olhos e descobrir as plantas que nascem, as folhas que se desenrolam na árvore à procura de luz, a flor que vai dar lugar ao fruto, nessa árvore que há meses andamos a cuidar e que julgávamos seca.

Degustar é viver com sentido, com todos os sentidos, e ser grato pela vida, pelo sol, pela luz e pela água.

As férias são um tempo excelente para pararmos de encher a agenda e deixarmo-nos tomar pelo prazer de degustar a vida, em cada momento, ao segundo.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 6 agosto 2019) 

Voluntário/a precisa-se

A taxa de voluntariado está diretamente associada ao grau de desenvolvimento de um país ou região. Para além do produto interno bruto, défice ou lucro, o desenvolvimento mede-se por indicadores de natureza social, que avaliam o grau de participação e responsabilização dos cidadãos pelas opções políticas (que não se limitam ao voto), seja na defesa dos recursos naturais, culturais, da saúde, do desporto ou da proteção social. Estas são as principais áreas onde se desenvolvem ações de voluntariado organizado.

E como estamos em matéria de voluntariado?

Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, Portugal registou em 2018 a taxa de voluntariado mais baixa da Europa (7,8%), sobretudo se compararmos com a Holanda (40,2%) ou a Dinamarca (38,1%). E é na região Açores que se encontra o valor mais baixo (5,5%), ainda menor do que em 2012 (8,8%). Os voluntários açorianos tem entre 25 e 44 anos (44,7%), estão empregados (67,1%) e é entre quem tem o ensino superior que se regista a taxa de voluntariado mais elevada (16,8%), o que aliás também acontece no país.

Voluntariado e solidariedade são duas faces da mesma moeda. De um lado, o rosto de quem se preocupa em cuidar dos outros, da humanidade; do outro, a capacidade para tornar essa sensibilidade em ação. Não há verdadeiro voluntariado sem solidariedade, tudo o resto são ajudas pontuais, momentos de confraternização e convívio, trabalho comunitário, que sempre fez parte da vida das famílias, das paróquias ou da organização de eventos coletivos.

O voluntariado implica disponibilidade para colaborar, sem esperar pagamento, numa resposta organizada a uma necessidade. O retorno é de outra natureza, sentimento de dever cumprido, experiência emocional e, sobretudo, satisfação de quem é ajudado.

O tempo a despender nessas ações pode ser muito ou pouco, semanal ou mensal, é sempre o que resulta do compromisso que o voluntário assume com a organização ou atividade.

O difícil é desligar esse tempo da máxima economicista do "tempo é dinheiro".

Não estamos habituados a dizer que "tempo é ajuda" ou "tempo é doação". E isso faz toda a diferença, se queremos que o voluntariado seja uma realidade e possa reforçar a solidariedade, necessária à integração e inclusão de todos na sociedade. Não basta dizer que precisamos de uma sociedade mais inclusiva e, depois, remeter a responsabilidade para o governo ou mesmo para organizações não governamentais, geridas por cidadãos, quase sempre os mesmos, que estão dispostos a colaborar, empenhando o seu nome e até a sua responsabilidade financeira.

"Voluntário/a - precisa-se" - Responderia a este anúncio?

Onde? Quando? Porque não pagam? E o tempo?

Talvez começasse por fazer estas ou outras perguntas, antes de dizer sim ou para justificar um não redondo, entregando a responsabilidade a outros, por falta de tempo. Apesar de, como revelam os dados, os que não estão empregados serem uma minoria entre os voluntários.

Razões não faltam, e até inventam-se, quando não queremos ser desinstalados. O mais importante está na consciência de cada um: se quer, se pode e/ou se sente o dever de contribuir e colaborar na mudança do mundo, que mais não seja, aquele onde reside.

(publicado no jornal Açoriano Oriental de 23 julho 2019)

Lado a lado

Para apregoar o ideal de igualdade, é recorrente os políticos referirem a necessidade de "não deixar ninguém para trás". Sem negar o mérito do propósito, há nesta frase uma segunda leitura, onde alguns, defendendo um determinado ideário ou projeto de sociedade, olham para "trás" e verificam que há quem não os acompanhe ou não tenha meios para atingir os mesmos objetivos. Assim, afirmam-se como os defensores dessas, supostas, minorias. Mas será que alguém perguntou a esses, que ficaram "para trás", se querem, concordam com as estratégias adotadas e/ou pretendem atingir esses objetivos em concreto? Será que alguém construiu esse projeto a pensar neles, nesses que não conseguem acompanhar o passo e manter o mesmo ritmo de passada?

O ideal nas relações não será certamente caminharmos todos ao mesmo ritmo ou orientados da mesma forma para determinados objetivos, mas antes, partilharmos os mesmos valores, no respeito pela liberdade e dignidade de cada um.

Esta frase faz lembrar outra, "por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher", onde a relação de poder que subalterniza, mantem inalterada as desigualdades de género na vida familiar, no mundo do trabalho e na política.

Se queremos viver melhor nas famílias, nos casais ou na vida pública, não será impondo formas de estar que o vamos conseguir, mas sim quando o poder estiver ao serviço da construção de comunidades, onde todos se sintam parte integrante e possam partilhar e contribuir com o que são e tem de melhor.

Ao apregoarmos que "não deixamos ninguém para trás", assumimos, desde logo, as desigualdades, a distância que nos separa de outros, por vezes mesmo, o fosso que nos divide. Vejam-se os indicadores de pobreza, níveis de rendimento ou educacionais! Não interessa se o rendimento per capita é elevado, se a sua distribuição gera desigualdades profundas. Não interessa a riqueza produzida, se as escolhas económicas e políticas ignoram o impacto gerado no ambiente, na vida local ou no património, como se as populações mais desfavorecidas e os contextos locais fizessem apenas parte do cenário.

Uma visão política, com futuro, não pode apenas reconhecer a desigualdade, mas ter em consideração as razões que a constroem e mantêm como condição estrutural.

Por isso, ao invés de avançarmos, olhando pelo canto do olho "quem ficou para trás" ou pressupondo que alguém na retaguarda irá apoiar quem toma a dianteira, o ideal seria que caminhássemos lado a lado.

Lado a lado, iremos chegar mais longe na construção da democracia. Mais do que igualar, o ideal democrático dá oportunidades a todos, respeitando diferenças, num sentido de equidade.

Lado a lado, não implica pensarmos da mesma forma, mas significa que comunicamos e respeitamos a forma de pensar de cada um, procurando consensos e pontos de força, mantendo a união. Cada um incentivando o outro, quando falta confiança ou motivação, reconhecemos diferenças e encontramos, num projeto comum, a razão de ser para estarmos juntos.

Se esta fórmula dá longevidade às relações conjugais, certamente que também se aplica às sociedades. É bom saber que não queremos "deixar ninguém para trás", mas melhor seria se todos fizéssemos parte da construção, de um projeto que se quer comum.

Lado a lado, respeitamos a individualidade e construímos comunidade.  

(artigo publicado Açoriano Oriental de 9 julho 2019)

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