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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Tempo imprevisível

A imprevisibilidade marca, cada vez mais, o clima. E isso tem repercussões na vida diária, em particular na agricultura, podendo beneficiar umas culturas e prejudicar outras, atrasando ou adiantando a maturação dos frutos.

Nos Açores, consultar diariamente a meteorologia faz parte das rotinas do insular. Em algumas ilhas, há mesmo quem consiga adivinhar se o avião irá aterrar ou levantar, lendo a previsão do tempo na forma das nuvens ou na intensidade dos ventos.

Mas os tempos parecem estar a mudar! Neste último mês de agosto foi difícil prever o tempo que iria fazer no dia seguinte. Não raras vezes, chovia num lado da ilha enquanto no outro fazia sol, e chegou a chover copiosamente numa rua e na rua seguinte o chão estar seco.

Nada parece ser como dantes, quando dizíamos que nos Açores podíamos ter as quatro estações num só dia. Agosto de 2019 foi tudo menos isso! Choveu durante mais de uma semana e os nevoeiros pareciam colados às terras altas.

Dizem os especialistas que esta instabilidade do tempo é uma consequência das alterações climáticas, um efeito perverso, por termos, durante décadas, desvalorizado o impacto do desenvolvimento desenfreado, das emissões de dióxido de carbono ou do efeito estufa.

Nestes dias de chuva e nevoeiro, sentimos pena de quem está de visita ou de férias. Falta o sol na praia, apesar da temperatura do mar continuar a convidar ao banho. Mas, banhos sem sol não fazem parte dos planos! O bronze continua sendo um sinal de férias para se mostrar aos colegas, quando se regressa ao emprego. Aliás, há mesmo quem o faça de forma artificial só para impressionar.

Férias e sol são duas palavras que combinam. Mas os Açores nunca foram uma terra de sol e praia. O que fazer então? Há outras alternativas que podem e devem ser exploradas, nomeadamente as visitas temáticas, devidamente orientadas por quem conhece o património religioso, arquitectónico ou artístico que abunda nas ilhas. As visitas a fábricas e a produções locais, ligando a história à economia local, são outras tantas alternativas que, em outros locais do mundo, onde também o sol não abunda, ocupam boa parte do tempo de um visitante.

Faltam também espaços de restauração, bares, onde a música possa ser dançada, incluindo as danças tradicionais, que não tem de ficar limitadas aos grupos folclóricos, mas podem ser partilhadas com quem apenas pretende conviver, aprender e descobrir a cultura local. Veja-se o que acontece com a chamarrita no Pico e no Faial, que junta pessoas de várias idades.

A chuva, o vento e o nevoeiro não impedem uma boa conversa, a leitura de um bom livro ou a descoberta do património cultural deste povo, que aprendeu a lidar com o clima e se habituou a ver nuvens no céu e a atravessar as neblinas na serra.

De Santa Maria ao Corvo, a meteorologia faz parte da vida do insular. Em tempos, houve quem quisesse justificar o lado mais lento, pardacento, da vida insular, com a permanência do nevoeiro e da humidade. Mas essa circunstância não nos deveria deprimir, mas antes fazer redescobrir e mostrar o outro lado do viver nas ilhas, rico em história e cultura, a alma que nos forja e identifica.

Como diz o poema de Manuel Ferreira, "se no falar trago a dolência das ondas,... trago no coração a ardência das caldeiras".

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 3 setembro 2019)

Deixe a ilha como encontrou

São Miguel está inundada de veículos de aluguer. Mais carros, mais visitantes, mas também maior contribuição para o nível de poluição atmosférica.

Numa região de 246 mil habitantes, o parque automóvel tem crescido todos os anos, muito por conta das viaturas de rent-a-car, de matrícula recente. De acordo com as estatísticas oficiais (Direção Regional dos Transportes), em 2017 circulavam nas estradas açorianas 147 mil automóveis e a Região Autónoma dos Açores era a terceira região do país com o melhor parque automóvel (menos de 10 anos).

O que acontece depois a todos esses automóveis? Para já, ocupam os poucos lugares de estacionamento, invadem pontos turísticos e, depois, muitos acabarão em parques de viaturas de segunda mão!

Este é um problema real, com o qual todos nos devíamos preocupar. Qual o contributo que a região Açores, no seu todo e em particular nas ilhas onde cresce o uso de viaturas automóveis, está a dar para as emissões de CO2?

Apostar num melhor transporte público é necessário e urgente. Um transporte que sirva zonas turísticas, reduza o uso de viaturas ligeiras em determinados locais e, sobretudo, tenha em conta o limite máximo de veículos que este território comporta.

Para quem está atento, de certo já se deu conta da proliferação de empresas de rent-a-car, umas com chancela nacional ou internacional, outras de iniciativa local, com nomes sugestivos que apelam à magia das ilhas ou ao espírito de aventura, indiferentes à pegada ambiental que representam.

Todos os visitantes são bem vindos! Certamente! O turismo é uma nova e importante fonte de receita para a economia açoriana. Mas, os açorianos não são paisagem, indiferentes a esta ocupação excessiva do seu território ou às inúmeras situações de infração das regras básicas do código da estrada, protagonizadas por viaturas de aluguer.

Dei-me ao trabalho de pesquisar se o código de estrada valia apenas para os nacionais. Não! Portugal é signatário de convenções internacionais que uniformizam regras de condução, nomeadamente os sinais de trânsito. Então, como se justifica tanta infração? Tem se visto de tudo. Inversões de marcha em zonas interditas, passagens no vermelho, como se os semáforos não estivessem lá, desrespeito pelo traço contínuo na estrada, condução em contramão e estacionamento caótico.

Ninguém pode alegar que no seu país é assim que se faz!

Os sinais de trânsito estão convencionados e, felizmente, hoje existe o GPS e outras aplicações que ajudam na circulação, apesar de nem todos esses mapas referirem o sentido das ruas. Aí, só mesmo a atenção do condutor e o conhecimento das regras mínimas de trânsito podem valer.

As empresas de aluguer de viaturas talvez devessem alertar, informar, sobretudo, quem vem de países onde os semáforos se localizam longe da via e não é infração grave fazer uma inversão de marcha em cima de traços contínuos, como acontece, por exemplo, nos Estados Unidos ou no Reino Unido.

"Deixe a natureza como a encontrou", é o lema do turismo sustentável. Mas, se destruirmos, todos os dias, o ar que respiramos, a qualidade da água que bebemos, os locais que visitamos, não tarda muito e o que deixarmos será uma amostra do que recebemos.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 20 agosto 2019)

Degustar

As férias são um tempo para degustar.

Degustar é um verbo com tempo, que se diz devagar, saboreando cada sílaba, de olhos fechados, com todos os sentidos.

Degustar o ar que se respira, no meio das árvores, o silêncio pontuado com o chilrear dos pássaros, mas também a refeição extraordinária, onde se descobrem novos sabores e sensações.

Há quem tenha pressa, demasiada pressa, de cumprir uma agenda nas férias e, no fim, quando chega o dia de regressar ao trabalho, está mais cansado do que relaxado. São jantaradas, excessos de bebida, noitadas vazias de diálogo, onde o barulho apaga as palavras e a intimidade. E, acaba-se por não ter tempo para degustar o tempo.

Porque, degustar é uma experiência com tempo, onde os segundos deixam marcas, memórias, imagens que a mente reencontra, sempre que fechamos os olhos e recordamos como foi bom aquele momento.

O século XX trouxe a novidade do "fast food", do "pronto a vestir" ou "pronto a comer", do "fast track" ou da via verde e, todas essas "facilidades", criadas para reduzir o tempo, queimar etapas, transformaram as pessoas em consumidores acelerados.

Só se consegue degustar quando se dá valor à experiência de fazer, conhecer e aprender, porque é preciso tempo para se viver novas experiências. O mundo não é uma pista de fórmula um, mas um emaranhado de trilhos à espera de nós. E, de cada vez que nos metemos por um, somos apenas um ponto no universo, ligado por emoções, diálogos e histórias. Antes de nós, gerações de construtores e descobridores, depois de nós tantas outras virão. Mas, entretanto, porque somos nós, agora, quem tem o privilégio de estar vivo e desfrutar do mundo, há uma imensidão de cuidados a ter.

A natureza exige de nós cuidados, proteção, reserva. Não é eterna, como julgávamos, mas continua a ser intensa nas riquezas que nos oferece. Para isso, há que desacelerar a voracidade do imobiliário, acordar a insensatez dos descrentes nas alterações climáticas e ter consciência dos impactos que as muitas tecnologias geram no ecossistema.

O mundo precisa de paz, todos nós sabemos. Mas, há muito que essa paz não se consegue só porque alguém levanta uma bandeira branca. A paz exige atenção ao outro, às necessidades dos países mais pobres, aos direitos dos seres humanos que aí habitam, à integridade dos que se dispõem a trabalhar e que são usados, para satisfazer interesses económicos.

O mundo, cada um de nós, precisa de redescobrir as sensações da paz, que se vivem nos atos solidários, na cooperação, na proteção da natureza e do ser humano, na escuta das suas vozes e necessidades.

Degustar é imergir num mundo de sons e sabores, fechar os olhos e sentir os pés enraizarem-se no solo, como se fossemos apenas mais uma espécie neste universo que nos rodeia. E, depois, abrir os olhos e descobrir as plantas que nascem, as folhas que se desenrolam na árvore à procura de luz, a flor que vai dar lugar ao fruto, nessa árvore que há meses andamos a cuidar e que julgávamos seca.

Degustar é viver com sentido, com todos os sentidos, e ser grato pela vida, pelo sol, pela luz e pela água.

As férias são um tempo excelente para pararmos de encher a agenda e deixarmo-nos tomar pelo prazer de degustar a vida, em cada momento, ao segundo.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 6 agosto 2019) 

Voluntário/a precisa-se

A taxa de voluntariado está diretamente associada ao grau de desenvolvimento de um país ou região. Para além do produto interno bruto, défice ou lucro, o desenvolvimento mede-se por indicadores de natureza social, que avaliam o grau de participação e responsabilização dos cidadãos pelas opções políticas (que não se limitam ao voto), seja na defesa dos recursos naturais, culturais, da saúde, do desporto ou da proteção social. Estas são as principais áreas onde se desenvolvem ações de voluntariado organizado.

E como estamos em matéria de voluntariado?

Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística, Portugal registou em 2018 a taxa de voluntariado mais baixa da Europa (7,8%), sobretudo se compararmos com a Holanda (40,2%) ou a Dinamarca (38,1%). E é na região Açores que se encontra o valor mais baixo (5,5%), ainda menor do que em 2012 (8,8%). Os voluntários açorianos tem entre 25 e 44 anos (44,7%), estão empregados (67,1%) e é entre quem tem o ensino superior que se regista a taxa de voluntariado mais elevada (16,8%), o que aliás também acontece no país.

Voluntariado e solidariedade são duas faces da mesma moeda. De um lado, o rosto de quem se preocupa em cuidar dos outros, da humanidade; do outro, a capacidade para tornar essa sensibilidade em ação. Não há verdadeiro voluntariado sem solidariedade, tudo o resto são ajudas pontuais, momentos de confraternização e convívio, trabalho comunitário, que sempre fez parte da vida das famílias, das paróquias ou da organização de eventos coletivos.

O voluntariado implica disponibilidade para colaborar, sem esperar pagamento, numa resposta organizada a uma necessidade. O retorno é de outra natureza, sentimento de dever cumprido, experiência emocional e, sobretudo, satisfação de quem é ajudado.

O tempo a despender nessas ações pode ser muito ou pouco, semanal ou mensal, é sempre o que resulta do compromisso que o voluntário assume com a organização ou atividade.

O difícil é desligar esse tempo da máxima economicista do "tempo é dinheiro".

Não estamos habituados a dizer que "tempo é ajuda" ou "tempo é doação". E isso faz toda a diferença, se queremos que o voluntariado seja uma realidade e possa reforçar a solidariedade, necessária à integração e inclusão de todos na sociedade. Não basta dizer que precisamos de uma sociedade mais inclusiva e, depois, remeter a responsabilidade para o governo ou mesmo para organizações não governamentais, geridas por cidadãos, quase sempre os mesmos, que estão dispostos a colaborar, empenhando o seu nome e até a sua responsabilidade financeira.

"Voluntário/a - precisa-se" - Responderia a este anúncio?

Onde? Quando? Porque não pagam? E o tempo?

Talvez começasse por fazer estas ou outras perguntas, antes de dizer sim ou para justificar um não redondo, entregando a responsabilidade a outros, por falta de tempo. Apesar de, como revelam os dados, os que não estão empregados serem uma minoria entre os voluntários.

Razões não faltam, e até inventam-se, quando não queremos ser desinstalados. O mais importante está na consciência de cada um: se quer, se pode e/ou se sente o dever de contribuir e colaborar na mudança do mundo, que mais não seja, aquele onde reside.

(publicado no jornal Açoriano Oriental de 23 julho 2019)

Lado a lado

Para apregoar o ideal de igualdade, é recorrente os políticos referirem a necessidade de "não deixar ninguém para trás". Sem negar o mérito do propósito, há nesta frase uma segunda leitura, onde alguns, defendendo um determinado ideário ou projeto de sociedade, olham para "trás" e verificam que há quem não os acompanhe ou não tenha meios para atingir os mesmos objetivos. Assim, afirmam-se como os defensores dessas, supostas, minorias. Mas será que alguém perguntou a esses, que ficaram "para trás", se querem, concordam com as estratégias adotadas e/ou pretendem atingir esses objetivos em concreto? Será que alguém construiu esse projeto a pensar neles, nesses que não conseguem acompanhar o passo e manter o mesmo ritmo de passada?

O ideal nas relações não será certamente caminharmos todos ao mesmo ritmo ou orientados da mesma forma para determinados objetivos, mas antes, partilharmos os mesmos valores, no respeito pela liberdade e dignidade de cada um.

Esta frase faz lembrar outra, "por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher", onde a relação de poder que subalterniza, mantem inalterada as desigualdades de género na vida familiar, no mundo do trabalho e na política.

Se queremos viver melhor nas famílias, nos casais ou na vida pública, não será impondo formas de estar que o vamos conseguir, mas sim quando o poder estiver ao serviço da construção de comunidades, onde todos se sintam parte integrante e possam partilhar e contribuir com o que são e tem de melhor.

Ao apregoarmos que "não deixamos ninguém para trás", assumimos, desde logo, as desigualdades, a distância que nos separa de outros, por vezes mesmo, o fosso que nos divide. Vejam-se os indicadores de pobreza, níveis de rendimento ou educacionais! Não interessa se o rendimento per capita é elevado, se a sua distribuição gera desigualdades profundas. Não interessa a riqueza produzida, se as escolhas económicas e políticas ignoram o impacto gerado no ambiente, na vida local ou no património, como se as populações mais desfavorecidas e os contextos locais fizessem apenas parte do cenário.

Uma visão política, com futuro, não pode apenas reconhecer a desigualdade, mas ter em consideração as razões que a constroem e mantêm como condição estrutural.

Por isso, ao invés de avançarmos, olhando pelo canto do olho "quem ficou para trás" ou pressupondo que alguém na retaguarda irá apoiar quem toma a dianteira, o ideal seria que caminhássemos lado a lado.

Lado a lado, iremos chegar mais longe na construção da democracia. Mais do que igualar, o ideal democrático dá oportunidades a todos, respeitando diferenças, num sentido de equidade.

Lado a lado, não implica pensarmos da mesma forma, mas significa que comunicamos e respeitamos a forma de pensar de cada um, procurando consensos e pontos de força, mantendo a união. Cada um incentivando o outro, quando falta confiança ou motivação, reconhecemos diferenças e encontramos, num projeto comum, a razão de ser para estarmos juntos.

Se esta fórmula dá longevidade às relações conjugais, certamente que também se aplica às sociedades. É bom saber que não queremos "deixar ninguém para trás", mas melhor seria se todos fizéssemos parte da construção, de um projeto que se quer comum.

Lado a lado, respeitamos a individualidade e construímos comunidade.  

(artigo publicado Açoriano Oriental de 9 julho 2019)

Apetece brincar

Apetece estar no exterior, no jardim ou no campo, deixar o dia correr sem pressa e aproveitar a luz do sol, que se põe mais tarde.

Apetece brincar, viver aventuras, livres da pressão da escola e dos deveres, poder imaginar aventuras, fazer de conta e descobrir os segredos da terra que se transforma em ingrediente de cozinha ou material de construção.

Recordo os bichos de conta, no quintal da minha avó, que se transformavam em pacientes de um hospital de campanha ou do baloiço instalado junto à arrecadação, que imaginava povoada de seres medonhos. Entre os desafios e os receios, imaginados, a brincadeira virava aventura e, aos poucos, ia enfrentando os medos do crescimento.

Brincar é muito mais do que passar o tempo entretido. É uma descoberta permanente, onde se desafiam capacidades, se estimula a imaginação e se aprende a enfrentar os limites, ao mesmo tempo que se descobre o sabor da liberdade.

Dizem os pedagogos que brincar estimula o desenvolvimento cognitivo e contribui para o aumento da autonomia e da capacidade de resiliência do ser humano.

Sem dúvida que, ativar o corpo e o cérebro imaginando cenas e personagens, transformando aquelas folhas que caíram das árvores em ingredientes de cozinha ou fazendo da caixa de cartão o esconderijo perfeito, só podem libertar a mente de constrangimentos e reforçar a capacidade individual.

Infelizmente, muitos pais transformaram o direito a brincar num dever da escola; ali é que se brinca, nos escorregas do recreio ou no campo de jogos. Chegados a casa, acabou! É o tempo do banho, do jantar e da cama. Nem se dispõem a contar aquela história, onde não faltam cenas inventadas, que acrescentam imaginação ao texto do livro. E esqueceram a canção para adormecer, uma música que, mesmo em adultos, recordarão. Falta tempo para fazer um balanço do dia, onde se reconhecem as dificuldades e se elogiam os sucessos!

Infelizmente, tudo parece resumir-se a isso: falta de tempo, quando na realidade, o tempo é o que dele fazemos.

Nunca como hoje o tempo deu para tanta coisa. Imagine-se o que era antes, quando as comunicações se faziam por carta e era preciso um mês, para ter resposta! Ou então, quando quase tudo era encomendado, não sem antes se esperar o envio das amostras, para se poder escolher. Eram meses de espera até que uma ideia se tornasse em obra, fosse a feitura de um vestido ou a construção de uma casa.

Hoje, basta uma mensagem electrónica, uma videochamada e, na mesma hora, a tarefa fica resolvida. O tempo, hoje, dá para fazer muito mais do que antes.

Falta tempo, onde? Talvez as prioridades sejam outras!

Brincar deixou de ser uma prioridade e a preocupação dos pais é encher o horário dos filhos com inúmeras atividades, formais e organizadas, supostamente propiciadoras de um currículo melhor.

Brincar no exterior passou a ser temido, as crianças são vigiadas a toda a hora, não andam de bicicleta por medo, não sujam as mãos para manterem a imagem impecável, nem dormem em casa dos amigos, porque se receiam as diferenças de hábitos.

E, dessa forma, as crianças tornam-se, mais tarde, adultos imaturos, incapazes de tomar decisões autónomas, assumir responsabilidades ou enfrentar desafios.

Faltam memórias de quando viviam a vida a brincar!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 25 junho 2019)

Insularidade

Nasci numa ilha! Não escolhi nascer aqui, mas não seria tão feliz se tivesse nascido noutro lugar. Provavelmente acabaria por descobrir esta ilha, qual ave de arribação, e aqui faria ninho e me deixaria ficar.

A sorte, a vida, fez com que nascesse na ilha, onde tudo é concentrado e curtas as distâncias, mas onde o mar e a terra casam na perfeição.

Posso não ver o mar todos os dias, mas sinto-o e quase que saboreio o sal no ar que respiro.

As gaivotas esvoaçam nos pastos e nem sempre agoiram mau tempo, como diz o povo. Abrigam-se junto às vacas e transformam a paisagem pintalgando de branco a verde pastagem.

A ilha tem estas vantagens, abraça-nos por terra e por mar e acolhe-nos no seu seio para nos proteger do vento. Há dias que tudo parece querer voar, mas nada tão grave como os alertas que dita a meteorologia. O ilhéu parece estar habituado à música do vento que sopra nas árvores, que verga os troncos mas não quebra a madeira.

Nasci na primavera e, todos os anos, as flores de abril trazem-me aromas de esperança, renovação e beleza. Há sempre uma flor que marca o calendário, as glicínias em março e as frísias em abril, as azáleas em maio e as hortências em junho, depois chegam as conteiras, com seu cheiro adocicado, para logo despontarem as beladonas, anunciando o ano escolar e o fim do verão.

O insular não se cansa da sua ilha, aprende a gostar dos recantos, a descobrir trilhos, praias novas ou lugares na encosta, que nunca viu antes. Há sempre um segredo por descobrir e a ilha, por muito pequena que seja, mostra-se sempre diferente, em cada olhar, em cada passeio ou caminhada.

As distâncias são pequenas, é verdade! Mas as vidas quotidianas também o são. Quando damos por nós, vivemos num circuito fechado entre o trabalho e a casa, entre a escola dos filhos e o supermercado, e isso acontece numa ilha ou num continente. A única diferença é que no caminho para casa ou quando chega o fim de semana, o mar está mesmo ali e o campo a dois passos, onde a tranquilidade do silêncio faz-nos tocar de perto a natureza, para a cultivar, mondar e cuidar, esquecendo as rotinas diárias.

Nasci insular e hoje não gostaria de ser outra coisa.

Aqui aprendi a gostar da vivência interior, a apreciar as tradições do passado que nos recordam o medo de viver longe, isolados e correndo riscos, vindos do mar ou das catástrofes. Mas porque o povo se uniu, rezou e pediu clemência, hoje as ilhas partilham um património religioso comum.

Podemos viver distanciados, mas temos no sangue a garra, o espírito e a fé, que nos faz transcender as limitações do espaço e nos torna irmãos, partilhando a generosidade nas festas do Espírito Santo ou nas romarias da quaresma.

Historicamente voltados para dentro, de costas para o mar, descobrimos no céu o divino e no horizonte a liberdade.

A insularidade não é uma dimensão puramente geográfica, como nos ensinaram na escola: uma porção de terra rodeada por mar. A insularidade é uma forma de vida, que transforma um território limitado, num lugar de enraizamento, deslumbramento e libertação.

Quem vive numa ilha conhece bem o sentido dos verbos partir e regressar.

Mas, por muitos voos que se façam, é aqui, neste lugar, que apetece poisar.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 11 junho 2019)

Honrar a promessa feita

Este é o tempo das promessas, uma palavra de duplo sentido. Primeiro, como micaelenses, associamos à imagem das procissões, onde centenas de pessoas levam círios ou simplesmente caminham rezando.

Ali vão "as promessas"! Aquelas pessoas estão "pagando" uma promessa, dizem! Pediram uma graça, num momento de aflição e, agora, vão descalços, levando o peso de uma criança ou, simplesmente, vestindo preto e rezando, como forma de ação de graças.

Um outro sentido para "promessas" é aquele que anima todas as campanhas eleitorais. E, neste momento, a Europa vive mergulhada em discursos partidários que visam captar eleitores, procurando cada candidato, à sua maneira, convencer os indecisos e converter os outros para que acreditem nas suas palavras, nos propósitos que prometem cumprir, se forem eleitos.

Promessas, do verbo prometer, são por isso anúncios, boas intensões, que preanunciam mudanças, ou assim deveria ser.

Uma promessa, mesmo aquela que se faz na relação com o divino, no meio de um momento de aflição, deveria implicar uma revisão de vida, uma alteração de hábitos ou o reatar de uma relação, que entretanto se perdeu, por conflitos não resolvidos.

A promessa, até pode ser paga, cumprida, mas na prática só transforma a vida dos indivíduos ou das comunidades, quando compromete, ou seja, envolve a pessoa, o crente ou o político, a família ou a comunidade, o partido ou a organização.

E comprometer é muito mais do que prometer.

Comprometer significa estar disposto a mudar, a lutar contra as dificuldades que as mudanças exigem e transformar a realidade, a sua vida ou a vida dos outros. Por isso, o compromisso é um ato de honra, de responsabilidade, que implica aquele que se compromete.

Se, por um lado, as promessas podem parecer palavras bonitas, frases feitas, pensadas para agradar, verdadeiros iscos, que mais não fazem do que negociar favores, por outro, os compromissos são contratos, que criam expectativas reais e que, não sendo cumpridos, trazem consequências. Um compromisso não cumprido pode destruir uma relação, enquanto uma promessa, que se esfuma no tempo, acaba esquecida e desvalorizada.

Talvez por isso, vivemos num tempo onde é mais fácil alguém prometer do que se comprometer. Eu prometo que vou tentar, mas não me comprometo em conseguir!

Eu prometo viver contigo, mas não me comprometo que dure para sempre!

Eu prometo defender a tua causa, mas não me comprometo em dar solução ao teu problema!

Não se comprometer é, em muitas situações, uma expressão do individualismo que grassa na nossa sociedade, que não cria laços duradoiros, nem implica as vidas das pessoas nas soluções. É cada vez mais fácil rasgar promessas, muitas até feitas em ocasiões solenes, envoltas em rituais, com juras e juramentos, mas que, não comprometeram quem as proferiu.

Só quando as promessas se transformam em compromissos, se pode aumentar e reforçar a confiança. E isso tem sido evidente no nosso país e até na Europa, onde os índices de confiança nas instituições políticas são, normalmente, baixos.

Conjugar o verbo comprometer implica o prefixo "se", que envolve os atores no compromisso, "eu me comprometo". Prometer, promessas, podem ser apenas palavras.

Comprometer implica honrar a promessa feita.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 14 maio 2019)

Fazendo pontes

O programa "Bridging the Atlantic" liga as duas margens, da América e dos Açores, num intercâmbio de experiências e vivências que, desde há cinco anos, já envolveu mais de uma centena de estudantes de enfermagem.

O Bridging tem recebido apoio do Governo Regional dos Açores e da DeMello Charitable Foundation, nos EUA. Envolve a Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores e o College of Nursing da Universidade de Dartmouth em Massassuchets. Os estudantes, das duas instituições, aprendem a conhecer o sistema de saúde de cada país e descobrem a importância da diversidade cultural para uma prestação de cuidados de saúde, de qualidade.

Este não é apenas um programa de intercâmbio, mas uma oportunidade de descobrir como se pode qualificar o cuidar, em enfermagem, apesar de nem sempre existirem os recursos ideais. O ser humano quando adoece, onde quer que esteja, precisa sempre de alguém que cuide, não apenas do corpo, mas entenda a linguagem da mente, o sentir da alma e acolha a sua história pessoal.

E, sem dúvida, quando um estudante de enfermagem tem a oportunidade de vivenciar uma experiência em outros contextos culturais, percebe o quão importante é saber comunicar com a pessoa fragilizada e fazer com que recupere as forças do corpo e da mente, agarre a vida e lute contra a doença ou a dificuldade.

Entre os profissionais de saúde, a trabalhar nos Estados Unidos, há descendentes de açorianos. Pertencem a uma nova geração que teve oportunidade de estudar, mas muito devem aos avós e pais que desafiaram a sorte, no dia em que emigraram e procuraram trabalho em fábricas, sobretudo na zona leste, em Massassuchets.

Não é de estranhar que tenha sido aí, junto ao mar, que a comunidade de açorianos cresceu nos Estados Unidos. Vendo o horizonte, imaginando as ilhas do outro lado, ganhou raízes à custa de muito e árduo trabalho e dos filhos, que entretanto nasceram.

Ainda hoje, alguns emigrantes dessa primeira geração, não sabem falar inglês. Para trabalhar, catorze horas por dia, não era necessário. Depois, viviam entre compatriotas, em casas de três pisos, junto de quem lhes tinha enviado a "carta de chamada", irmãos ou pais, mantendo vivas as tradições e o tempero da comida.

Nem tudo foram rosas e, ainda hoje, nem todos vivem sem dificuldades. Ninguém gosta de falar de insucesso, da solidão dos idosos ou dos problemas de quem não tem emprego, documentos e que, por vezes, é apanhado pelas malhas da justiça. Não se julgue que a vida corre de feição para todos. Há quem lute diariamente para conseguir pagar as contas no fim do mês.

Outros, apesar da tranquilidade financeira, continuam sonhando com o regresso à ilha. "Minha rica terra! É na minha terra que eu respiro melhor!"

Lá como cá, a vida dos açorianos mistura sucesso com necessidades, alegrias com sofrimento. O importante é que cada um, na sua área, contribua para, não apenas dar, mas ser resposta a essas necessidades e sofrimentos.

Entre as duas margens do atlântico, os estudantes de Enfermagem, da Escola Superior de Saúde, através do programa Bridging the Atlantic, constroem pontes de cooperação, aprendem a trabalhar em equipa bilingue e dão provas de como o ensino que recebem, em particular, na Universidade dos Açores, os prepara para serem enfermeiros do mundo.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental a 30 abril 2019)

Irmãos romeiros

No adro, junto à porta da igreja, os bordões deitados no chão formavam duas alas. Não é difícil identificar a quem pertencem. Cada um é diferente do outro, ora por ser mais antigo ou por ser feito de um ramo de árvore, simplesmente polido. Quase todos estão encimados com uma cruz e devidamente preparados com uma ponta de metal, para ajudar na caminhada.

Bordões à porta, sinal de que os irmãos romeiros tinham entrado na igreja. Era o último dia da peregrinação, e isso via-se no rosto cansado, nas barbas crescidas, de nove dias de caminhada, à chuva e ao sol, por veredas e estradas, rezando ou cantando a Avé Maria.

Ainda guardavam a cevadeira ou o saco às costas e muitos mantinham os terços pendurados ao pescoço, recordando os milhares de contas que desfiaram entre os dedos, rezando pelo bem de outros ou pela família, pelos doentes e por tantos que, ao longo do caminho, foram pedindo orações aos irmãos romeiros, pedidos que o irmão "encomendador das almas" foi registando no seu rosário, ao mesmo tempo que respondia à pergunta "quantos são, irmão?"

Agora de regresso, é hora do reencontro. Uma criança de dois anos não quer sair do pé do pai, a quem retira do pescoço os terços para colocar em si próprio, voltando a colocar e a retirar. O pai diz-lhe para fazer silêncio e aponta a cruz, dizendo "o Jesus".

A celebração começa, os irmãos romeiros juntam as suas vozes e a igreja enche-se de cânticos no masculino, anulando as vozes habituais das mulheres que ali se deslocaram, mães, esposas e familiares. Só se ouvem os homens em coro, emocionados por terem chegado ao fim da peregrinação.

Não é comum ver tantos homens nos primeiros bancos da igreja. Houve mesmo tempos em que ficavam ao fundo, logo à entrada, se não mesmo no adro, enquanto as mulheres, tidas por mais beatas, rezavam e entoavam as orações, com voz estridente.

Talvez por isso, ouvir as vozes masculinas que enchem a igreja emociona e gera um enorme sentimento de respeito e admiração por todos estes irmãos que, dentro ou fora da romaria, continuam a tratar-se de forma fraterna.

Ser irmão romeiro, salvo as devidas evoluções, continua sendo uma experiência de pobreza, no traje e nos recursos, na procura de abrigo em casa de famílias ou em espaços coletivos. Ao longo da estrada, o rancho vai tocando famílias, recolhendo intensões e rezando, cantando, enquanto as contas do terço vão passando pelos dedos. A toada das suas vozes corta o ar, numa musicalidade única, que se perde nos tempos, desde o século XVI.

A tradição das romarias de São Miguel já chegou a outras ilhas e mesmo as mulheres, que a igreja católica afastou desta prática, experienciam ser peregrinas por um dia.

Todos procuram abrir um parêntesis na vida agitada de todos os dias e descobrir como, retiradas as aparências, derrubadas as barreiras e desfeitos os preconceitos e os juízos infundados, podemos ser irmãos. Juntos, somos muito mais fortes, mais capazes de ser solidários e disponíveis para acolher o outro, diferente, sem o julgar.

De regresso à igreja os romeiros dão as mãos, num último cântico. A criança de dois anos também participa; não há filhos nem pais, família ou amigos, são todos irmãos.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 17 abril 2019)

 

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