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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Palavra (marca) Açores e Desporto

A palavra Açores não tem género, feminino ou masculino. É mãe da açorianidade e lugar de afeto para quem aqui vive ou se reconhece açoriano ou açoriana.

Mas, a marca Açores é outra coisa, um selo de autenticidade atribuído a produtos, mercadorias e atividades económicas, que promovam os Açores como região de excelência. Nesse sentido, foi entendido que os clubes, participantes em campeonatos nacionais ou internacionais, contribuem para essa promoção e, por esse motivo, anualmente, é-lhes atribuído um apoio financeiro para que utilizem esta "marca" nas camisolas.

Os critérios estão definidos em resolução do Conselho do Governo (71/2016 de 1 abril). E, para além do destaque dado ao futebol e ao automobilismo, não há referências sobre montantes de valor diferente para praticantes homens ou mulheres. O artigo nº 2, alínea e) diz o seguinte: "Nos campeonatos nacionais das modalidades de Andebol, Basquetebol, Hóquei em Patins, Voleibol, Ténis de Mesa e Futsal só serão celebrados contratos, em cada modalidade, com o clube desportivo açoriano cuja equipa, quer ao nível masculino, quer ao nível feminino, participe no nível competitivo mais elevado e tenha obtido a melhor classificação na época desportiva anterior, independentemente da competição ser ou não de nível profissional".

A atribuição destes apoios rege-se por esta Resolução e é suposto cumprir com o Regime Jurídico dos Apoios ao Movimento Associativo (DLR 21/2015/A de 3 setembro) onde, inclusive, se prevê uma majoração do apoio mínimo anual para clubes que mantenham atividade formativa de atletas do sexo feminino (artigo 20º nº 6, alínea a).

Como explicar o texto da resolução do conselho do governo nº91/2018 de 2 de agosto, que diferencia os apoios às equipas com melhor classificação na época desportiva anterior, consoante serem praticadas por atletas femininas ou masculinos?

Há mesmo um clube, o Juncal, em ténis de mesa, que recebe 1600,34 euros para a equipa feminina, metade do valor atribuído à equipa masculina (3168,67 euros).

As equipas femininas de voleibol e basquetebol, cuja excelência e mérito ficaram demonstrados ao longo da temporada, recebem apoios equivalentes a 30% (38.408,10 euros) do valor atribuído às congéneres masculinas (126.520,80 euros). No total, e somando todas as modalidades, o governo decidiu investir em publicidade da "marca Açores", a ser impressa nas camisolas dos atletas de clubes açorianos, 1.852.359,61 euros, dos quais 4,2% a equipas femininas.

É absurdo, vergonhoso e inexplicável. Mesmo que se retire o milhão de euros, atribuído ao futebol da 1ª liga e o apoio destinado aos ralis, as atletas femininas recebem apenas 9,8% dos apoios atribuídos aos outros clubes desportivos, aparentemente, por não "contribuírem para a notoriedade dos Açores". Pergunta-se, como foi medido esse contributo?

 

Por falar de notoriedade, um atleta de doze anos, da ginástica desportiva, recentemente, foi medalha de ouro num campeonato mundial!

A justiça como a igualdade não são princípios naturais. Necessitam de ser instituídos, dependem de decisões políticas, que os reconheçam como valores.

Logo, a promoção dos Açores, associada à excelência desportiva, deve refletir esses valores, porque a palavra "Açores" é muito mais do que uma marca.

(texto pubicado no Açoriano Oriental de 7 Agosto 2018)

Faltam açorianos

A leitura das estatísticas sobre a população residente nos Açores confronta-nos com uma nova realidade. Para além da diminuição da taxa de natalidade, de 14,8 em 1996 passou para 9,2 em 2016, e do índice de envelhecimento que passou de 54,8 em 1996 para 85,6 em 2016, em termos de crescimento efetivo da população, assistimos desde 2013 a valores negativos. Significa isto que o número de pessoas que residem nestas ilhas, face às que vão saindo, por morte ou migração/emigração, é cada vez menor. Em 2016, a taxa de crescimento efetivo foi de - 2.

A Região está a perder população e, sobretudo, está a perder jovens.

Neste contexto há que ser prudente na leitura de indicadores como a taxa de desemprego, porque a sua diminuição não resulta, apenas, de um eventual aumento do número de ofertas de emprego, mas reflete o número cada vez menor de jovens que procuram emprego, sobretudo, se atendermos aos jovens qualificados. Com dados do Inquérito ao Emprego (SREA), em 2013 os residentes com idades entre 15 e 34 anos representavam 30% da população total mas, em 2017, esse valor passou para 27,7%.

Quantos jovens saíram dos Açores, rumo a que regiões ou países? Todos ouvimos falar de enfermeiros, médicos, engenheiros ou arquitetos que, levados por fatores de conjuntura nacional e regional, optaram por emigrar em busca de emprego.

É importante que o Serviço Regional de Estatística (SREA) nos mostre esta realidade. Quem pesquisar dados sobre Emigração na página do SREA, nada encontra. Por sua vez o portal do Governo publica informação atualizada sobre o número de emigrantes para os EUA, Canadá e Bermuda, o que está longe de corresponder à totalidade dos que saem da região para viver/trabalhar no estrangeiro.

Não basta reconhecer que temos de acolher quem nos visita, é importante acarinhar quem pensa em sair, por falta de oportunidades. A região precisa de todos os seus jovens, em particular aqueles que estudam na Universidade dos Açores ou em outros estabelecimentos de ensino superior do país.

Não basta existir o "Estagiar L" se esses "estágios" não estiverem dotados de orientadores ou mentores qualificados. Há quem seja admitido em instituições onde ninguém tem competência para integrar o estagiário na profissão e quando este propõe medidas inovadoras, nem sempre são bem aceites pela entidade empregadora, mais preocupada em ter mão-de-obra "barata" e qualificada. O Estagiar L deveria, obrigatoriamente, conduzir à empregabilidade dos melhores, dos mais empreendedores, dos jovens qualificados com ideias, que necessitam de estabilidade financeira para acreditarem que vale a pena ficar na Região.

Insistir no trabalho precário a "recibo verde", partindo da ideia de que, quem tem 20 a 30 anos tem toda a vida pela frente para fazer uma carreira, é esquecer o investimento académico desta geração, na sua grande maioria, mais qualificada que os seus pais.

O futuro da região depende de mais natalidade, mais rendimento per capita e, sobretudo, empregabilidade qualificada. Por isso, urge fixar jovens, a começar por aqueles que terminam as suas licenciaturas na nossa universidade.

Faltam açorian@s, faltam jovens açorian@s.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 23 julho 2018)

Tempo de férias

O Verão está aí, o mar e o sol convidam ao descanso! As crianças, libertas da escola e dos "deveres" reclamam o direito à brincadeira, ao lazer, ao convívio descomprometido.

Este é o tempo de férias, um período que exige às famílias reorganização do quotidiano, nem sempre fácil, quando os pais não tem dias de descanso coincidentes com as férias dos filhos. Para algumas crianças, isso significa ficar mais tempo com os avós, o que não deixa de ser importante para sedimentar a relação com a geração mais velha.

Para outros pais, a opção passa por colocar os filhos em campos de férias, centros de atividades de verão ou outras iniciativas de ocupação dos tempos livres, e desta forma proporcionar outras experiências de aprendizagem e diversão.

As férias não são para serem passadas a dormir, mesmo que o sono também seja uma forma para retemperar forças. É importante transformar esse tempo de descanso, em memória agradável, depois recordada, revisitada, quando vier, de novo, o tempo das aulas e do trabalho.

Este é um tempo para cada um fazer o que gosta, mas é também um tempo para se reencontrar, consigo e com os outros. Por isso, os pais que trabalham, deviam poder reservar, pelo menos, uma semana, para estarem juntos com os filhos. Uma semana em que possam sentir, partilhar e descobrir o que cada um é, fora das rotinas do dia a dia. Juntos nas idas à praia, nos almoços ao ar livre, nos passeios à descoberta de recantos da ilha, nos jogos de cartas ou nas conversa de fim de dia, depois de um grelhado feito por quem, habitualmente, não cozinha.

Tudo são bons pretextos para juntar e fazer família.

Quando privamos uma criança ou um adolescente destas experiências comuns, estamos a comprometer a sua identificação familiar. A família não é um nome que se carrega ou um teto debaixo do qual se dorme. Ser família implica interagir e dar tempo para se descobrir, na relação com o outro.

A falta destas relações significativas conduz ao egoísmo e acaba por autocentrar cada membro da família no seu próprio mundo, desligado dos outros, indiferente às suas necessidades. Enfiados nos horários, separados por telemóveis e televisões instaladas nos quartos, estas famílias não sabem aproveitar o tempo de férias. Os pais, confrontados com este tempo acrescido de convívio, rapidamente ficam saturados: o que faço às crianças, onde as vou colocar? Isto das férias escolares é muito tempo, a escola devia começar mais cedo! Alguns até programam viagens, mas sem os filhos, para não atrapalhar!

O Verão é um tempo diferente, a natureza canta, os pássaros chilreiam contentes e, logo cedo, a luz do dia convida à atividade!

Este é o tempo de organizar, limpar, sem a preocupação de produzir. Até a terra agrícola pede descanso, desde que não lhe falte a água para fazer crescer o que foi plantado na primavera.

Assim acontece com as pessoas. Precisamos de uma pausa, uma paragem, para podermos apreciar o que temos, quem somos e sentirmos com mais intensidade os outros com quem vivemos.

Este é o tempo para nos encontrarmos, acolhermos e apreciarmos a presença dos outros, escutando as suas histórias e aventuras.

Férias, um tempo saboroso, que nos convida a fazer e a viver em família.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 10 julho 2018)

 

Oh heroína cidade!

O tema das Sanjoaninas de 2018 foi o liberalismo e o papel de Angra do Heroísmo na História de Portugal. Uma página da história interpretada por algumas das marchas que desfilaram pela Sé, ao som de palmas entusiastas.

A Marcha dos Coriscos, fiel ao tema proposto, contagiou a assistência com este refrão: "Oh heroína cidade, foste capital da nação! Lutaste pela liberdade, Rochedo de salvação!; Rochedo de Salvação, nas lutas da realeza; venceste com o coração, foste Ilha Fortaleza."

A história tem de ser vivida, se não, é esquecida. Alguns talvez não saibam porque foi construído o obelisco da Memória, que se ergue no alto da cidade de Angra?

Este é um símbolo das lutas liberais e da vitória sobre o Absolutismo, que valeu a Angra o nome de Heroísmo.

Dar sentido ao património, material e imaterial, é fundamental para as gerações mais jovens aprenderem a conhecer o povo a que pertencem e os valores pelos quais lutou no passado. Valores que, ainda hoje, nos movem, como é o caso da liberdade.

Viver em liberdade nunca é uma dádiva ou uma garantia mas, será sempre uma conquista perante poderes absolutos, líderes ditadores ou indivíduos autocratas.

Nada está garantido, nem nada é gratuito, quando se trata da defesa de princípios.

Por isso, é importante relembrar a história, que se esconde em edifícios, documentos e na vida de personagens, muitos dos quais dão nome às ruas por onde passamos.

O pior que podemos fazer a esse legado histórico é ignorar, enterrar ou desvalorizar, como se tudo pudesse começar do zero, a cada geração que passa.

Fazer memória, do percurso histórico de um povo, é aprender com o passado a dar sentido ao futuro, que vamos construindo no presente.

As Sanjoaninas apelam a esse exercício, de cada vez que escolhem uma página de história para tema das festas, misturando conhecimento com alegria, trazendo a seriedade do passado para a folia do presente.

Precisamos desta alegria que se fundamenta na identidade histórica e cultural que nos molda como povo.

As Sanjoaninas são festas terceirenses, mas porque apelam ao sentimento, promovem a alegria e entusiasmam quem nelas participa, transformam-se em festas açorianas, onde todos se sentem desejados e acolhidos.

Há nove anos que a Marcha dos Coriscos participa nestas festas e são um exemplo de como a alegria não é património de nenhuma ilha ou comunidade. É muito fácil acabar com bairrismos ou divisões entre ilhas, quando respeitamos a cultura de cada uma e descobrimos que a união das diferenças nos torna mais ricos.

A história nunca deve dividir, mas antes fazer memória do que é um povo.

Só ligados pelo afeto, conseguimos transformar as tradições, que nos distinguem, em património comum e perceber que a açorianidade não vem no sangue. Antes é um sentimento que se cultiva na descoberta da diversidade das ilhas, uma ligação que nos aproxima e une, feita de diferentes sotaques e sabores, tecida de eventos e emoções, que nos torna irmãos e faz partilhar uma terra que nos serve de berço e sepultura.

Faz falta falar e ensinar sobre a história dos Açores! E, nada melhor do que aprender em ambiente de festa.

 (texto publicado no Açoriano Oriental de 27 junho 2018)

O números não dizem tudo

Devemos à Fundação Francisco Manuel dos Santos uma importante fonte de informação estatística, a PORDATA, sobretudo, para quem é investigador ou estudante.

A publicação, recentemente divulgada, "Retrato dos Açores", reúne um conjunto significativo de gráficos, onde se comparam as ilhas e se olha no tempo a evolução de alguns dos principais indicadores da vida social e económica desta região.

Na apresentação da obra, foi destacada a percentagem de casamentos não católicos ou civis, que se registou nos Açores em 2017 (70%), quando comparada no tempo (em 1960 era de 6%) e com o todo nacional (66% em 2017).

Este é sem dúvida um número, aparentemente estranho para uma região que, no último Censos, registava 91,2 % de residentes com mais de 15 anos a assumirem-se católicos, quando a nível nacional esse valor era de 81%.

Para compreendermos a percentagem de casamentos "não católicos" nos Açores, há que observar este indicador nos últimos vinte anos.

Antes, relembremos que o registo estatístico dos "casamentos católicos" apenas se refere aqueles que se realizam ao abrigo da Concordata, ou seja, quando os nubentes abrem o processo no registo civil e, num prazo de três meses, concluem esse processo numa cerimónia católica (matrimónio) que depois é averbada no registo civil, alterando-se então o estado civil. De outro modo, o casamento "não católico" corresponde aquele que ocorre no registo civil e, de imediato, os nubentes passam à condição de casados.

Significa isso que, apesar de continuarem a ser celebrados muitos matrimónios na Diocese dos Açores, muitos dos casais, quando entram nas igrejas, já estão casados pelo civil, tendo sido contabilizados como casamentos "não católicos".

Este fenómeno começou a verificar-se na Região, a partir da década de oitenta, altura em que o número de casamentos civis aumentou bruscamente, muito acima da média nacional. Em 1995, 61,5% dos casamentos celebrados eram "não católicos", quando a nível nacional era apenas de 31,2%, e atingiu 81,5% das uniões em 2005. Desde então a percentagem de casamentos "não católicos" tem vindo a diminuir nos Açores, com 70% em 2017, valor próximo da média nacional (66%).

Como explicar este contraste entre uma região que se diz católica, mas que não concretiza, maioritariamente, o casamento católico ao abrigo da Concordata?

Várias são as causas possíveis, algumas já estudadas e publicadas em 2002 (Lalanda, Piedade, "Casar pelo civil ou na Igreja", Rev. Sociologia Problemas e Práticas, nº39, pp.69-84). Mas, em síntese, o que mais se verifica nos Açores é o "duplo casamento", primeiro civil e depois religioso. Apesar disso, há quem continue a marcar o início da vida conjugal após o ritual religioso, ao qual associam a boda.

O facto de, nos anos oitenta se ter privilegiado a soma das idades dos casais para aceder a benefícios fiscais e à habitação jovem, justificou muitos casamentos civis e tornou frequente o "duplo casamento".

Com este exemplo, podemos concluir que, os números não nos dizem tudo. É necessária uma compreensão sociológica da realidade para encontrarmos sentido nas estatísticas.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 12 Junho 2018)

Mar, pescadores e futuro

No mar não há limites de propriedade.

Não fora a regulamentação internacional a definir zonas económicas exclusivas, limitar o uso das artes de pesca e proteger áreas e espécies marinhas, o mar seria de todos os que nele mergulham ou navegam, levados pelo prazer ou pela necessidade de o atravessar.

Muito antes da gestão política do mar, já os mestres pescadores identificavam lugares de pescaria, "bancos" onde a pesca podia ser mais rentável.

A pesca tradicional assenta nesse saber ancestral, aliado a formas de organização profissional onde a solidariedade se sobrepõe à visão economicista do mérito. Numa companha entram filhos e sobrinhos, tios e cunhados e, no final, retirado o quinhão do mestre, todos repartem o rendimento, sem olhar ao contributo de cada um, mas de forma igual. É injusto!? Talvez! Mas essa é a forma como sempre dividiram o que o mar lhes dá, devolvendo uma parte para a festa do patrono, por quem têm uma enorme devoção.

Todas ou quase todas as embarcações de pesca, das mais pequenas, de boca aberta, às traineiras ou "palangreiras", levam uma ou mais imagens sagradas no seu interior.

A pesca tradicional é feita por pessoas, que vivem em comunidades costeiras, ligadas por laços de parentesco, com quem aprendem a arte de pescar e o respeito pelo mar. Mas, o mar dos pescadores nada tem de lúdico. É um espaço de trabalho, de onde retiram o rendimento diário. Por isso, olham com alguma desconfiança para a denominada pesca lúdica.

Como encarar o futuro das comunidades marítimas? Como transformar a pesca assente em anos de sabedoria, rotinizada em gestos mecânicos que se reproduzem na preparação das gamelas ou no lançar do aparelho?

Todos concordaremos que só pela formação e, sobretudo, pela maior escolarização das gentes do mar, se pode facilitar o acesso e a manipulação de equipamentos sofisticados que as novas embarcações possuem. Equipamentos que garantem a segurança e a eficácia, mas que retiram valor à sabedoria dos velhos homens do mar, conhecedores dos lugares de pesca, sem precisarem de sonares ou cartas marítimas.

Mas e depois! Mais escolarizada, a geração mais jovem poderá manter-se na atividade e pensar o futuro. Mas e os outros? Aqueles que possuem barcos com menos de 12 metros e que toda a vida pescaram a poucas milhas da costa?

A proposta de resgate do governo propõe trinta mil euros para deixar a pesca, exigindo a destruição da embarcação. Significa isso "matar" o barco. Porque, para um pescador, uma embarcação tem vida, foi batizada com nome próprio e deveria morrer de velha.

Porquê exigir a morte do barco, se outras atividades podem ser realizadas com estas embarcações, como a pesca-turismo, que pode ser aliada a outros negócios ligados à gastronomia e ao artesanato local?

A aquacultura não é uma "evolução" para esta pesca tradicional, já que representa a "industrialização" do processo de captura de pescado. Irá precisar de "operários da pesca", não de pescadores.

O futuro do mar, cada vez mais dependente de questões ambientais e da inovação tecnológica, não pode ignorar as comunidades que durante gerações nos alimentaram de peixe.

O mar também é deles.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 29 Maio 2018)

 

O futuro do mar, cada vez mais dependente de questões ambientais e da inovação tecnológica, não pode ignorar as comunidades que durante gerações nos alimentaram de peixe.

O mar também é deles.

Vista grossa à ilegalidade

Casas em meio rural, alteadas e acrescentadas, ao sabor das mãos de um qualquer mestre de obras! Obras, sem projeto, nem indicação de licença camarária para realização de obras! A descaracterização do património rural parece escapar ao olhar da fiscalização e de quem devia pugnar pela defesa da cultura local.

O património construído não significa, apenas, edifícios classificados. Uma casa rural, um muro de pedra seca ou um fontanário fazem parte da história do nosso povo. Por isso, qualquer intervenção que descaracterize esse património deve cumprir regras, em harmonia com a história e a identidade coletiva de quem nos antecedeu.

Infelizmente, o poder local, a quem compete fiscalizar, faz vista grossa perante obras abusivas, a exemplo do cimento que está sendo atirado às paredes de um antigo solar nas Capelas, destruindo a traça da sua fachada. Mas, como pode alguém fiscalizar, se não reconhece a diferença entre reabilitação de património construído e recuperação de uma habitação ao gosto de quem o faz?

É importante entregar a tarefa de avaliar as irregularidades, cometidas contra edifícios com história, a quem possui formação específica e pode, em diálogo com os proprietários, zelar pela correta aplicação dos instrumentos legais, projetar intervenções com recurso a materiais adequados, evitando que a volumetria dos edifícios não destrua a nossa paisagem rural.

Somos herdeiros, não apenas de monumentos mas, de habitações rurais, recantos naturais, baías ou zonas verdes, com décadas ou séculos, que deveriam merecer atenção por parte dos eleitos locais.

Não é admissível que obras sem projeto se transformem em factos consumados. As autoridades concluem que já nada se pode fazer, paga-se uma multa e fica o assunto arrumado.

A defesa do património construído, seja uma simples casa rural ou um palacete do século XVII, deve merecer o mesmo cuidado, a mesma preocupação. São marcas da nossa história, da identidade do povo a que pertencemos.

No entanto, reabilitar não é regressar ao passado. É possível modernizar sem descaracterizar. Melhorar as condições de conforto e de segurança, não tem de comprometer a história. Moderno e antigo podem conviver num mesmo espaço, numa linguagem que permita reconhecer o que fomos, somos e queremos ser.

As câmaras municipais, supostamente, exigem um letreiro que afixe a autorização de obra, a finalidade da intervenção e a duração da mesma. Bastaria que a polícia municipal, ou quem fiscaliza, verificasse esse requisito e muitas das obras sem projeto seriam interrompidas ou até evitadas.

Mas porque não o fazem sistematicamente? Quando fecham os olhos a uns, acabam por fechar a outros.

O desenvolvimento de um país não se mede por sacos de cimento, apesar de ser um critério utilizado para avaliar o crescimento económico. Mas, desenvolvimento e crescimento não são a mesma coisa.

Se queremos uma região desenvolvida, há que promover a consciência cívica de todos, defendendo o valor das pequenas coisas, das construções mais simples, mas onde a vida do nosso povo aconteceu e acontece. Lugares de vida, trabalho ou natureza, fazem parte do património que vamos deixar por herança às gerações vindouras.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 15 Maio 2018)

 

Trabalho para todos

"As pessoas com deficiência devem ter a oportunidade de ganhar a vida através de um trabalho livremente escolhido ou aceite num mercado de trabalho aberto" (Convenção para os Direitos das Pessoas com Deficiência - artigo 27º).

O texto da Convenção, aprovado em 2007 pelas Nações Unidas, foi ratificado pelo governo português em 2009 (Resoluções nº56 e 57/2009 de 30 de julho).

Mas o que fizemos das orientações, reconhecidas, que incentivam a integração e a inclusão das pessoas com deficiência, em particular, no mercado de trabalho?

A resposta é, muito pouco.

Mas se acreditamos no sentido das leis que aprovamos, há que tomar consciência porque não as concretizamos. Governos, autarquias, mas também escolas, empresas, famílias e cada um de nós, esquecem, excluem e rotulam, todos os dias, pessoas diferentes, sem ter a preocupação de as conhecer.

Segundo dados das Nações Unidas, nos países europeus, 50 a 70% das pessoas com deficiência, em idade adulta, estão no desemprego. E, na maioria dos países, incluindo Portugal, a taxa de desemprego, nestes casos, é duas ou três vezes superior à das pessoas que não têm deficiência.

Falar de pessoas com deficiência significa um leque muito variado de limitações, desde físicas a sensoriais, de natureza mental ou relacional. Infelizmente, como refere a página da Associação Salvador (www.associacaosalvador.com) menos de 2% das pessoas, que mencionam no seu currículo vitae serem possuidoras de uma deficiência, são chamadas para entrevistas de emprego.

O mundo do trabalho fecha as portas a cidadãos, cujo potencial desconhece. E, essa é a primeira medida a tomar: consciencializar. Nesse sentido, saúdo a iniciativa da autarquia da Lagoa, com a organização de ações, durante o mês de abril, sobre o autismo.

É preciso conhecer os cidadãos portadores de deficiência, o seu grau de autonomia e capacidade, as competências, que não revelam numa entrevista, mas demonstram na prática, em condições adequadas às suas limitações.

Veja-se o exemplo dos autistas, cujo leque de perturbações pode ser muito amplo, mas cujas capacidades de organização, atenção ao detalhe e precisão podem ser excecionais. Empresas de sucesso como a Specialisterne (Dinamarca) ou a Green Bridge Growers (E.U. América) empregam mais de 70% de pessoas portadores de Perturbações do Espectro do Autismo (PEA).

Porque não nos Açores? Porque não com as empresas públicas ou privadas da região?

As empresas que abrem portas à inclusão de pessoas portadoras de deficiência não são alternativas menores, mas demonstram um sentido de responsabilidade social e consciência de quem não se fica pelas aparências, mas descobre, em todos os cidadãos, uma mais valia para a concretização dos seus objetivos.

Segundo o fundador da Specialisterne, empresa do ramo da informática, os cidadãos com PEA apenas necessitam de um ambiente calmo, que seja respeitada a sua rotina e lhes sejam dadas orientações precisas.

Em dia do trabalhador, urge tomar consciência do que fazemos (ou não) pelos cidadãos portadores de deficiência, que querem entrar no mercado de emprego e a quem se aponta, como alternativa, o recurso aos apoios sociais.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 1 maio 2018) 

 

 

Ladies night

A desigualdade social mais difícil de combater é a que se propaga de forma invisível e subtil, como não pudesse ser de outra forma, "porque é assim, sempre foi assim!", "onde é que está o problema?"

A desigualdade social entre homens e mulheres continua a fazer parte do nosso quotidiano, mesmo quando não nos damos conta, sobretudo, quando não nos damos conta.

Um bom exemplo da "naturalização" desta desigualdade está dissimulado numa frase de marketing, a ladies night, que esconde uma visão desigual dos clientes do sexo masculino ou feminino.

Numa ladies night as mulheres não pagam entrada e, ainda, tem direito a bebidas de borla. Além disso, para beneficiar dessa vantagem, terão de consumir essas bebidas num determinado intervalo de tempo.

"Mas porquê dispensar as raparigas do pagamento das bebidas?", pergunto eu de forma ingénua: "Oh professora, de outra maneira elas não iriam à festa e, assim, também os rapazes, sabendo que há raparigas, acorrem em maior número! É sempre assim nas discotecas, nas festas da universidade, as raparigas não pagam, é marketing!"

Mas a que preço? As raparigas são instrumentalizadas para tornarem a festa mais atrativa. Ao mesmo tempo, com bebidas à borla, poderá haver maior desinibição, alguma perda de controlo, o riso fácil e aquela boa disposição que aligeira o sentido de responsabilidade e discernimento. Porque não se oferece aos homens um benefício idêntico? A quem interessa ver as raparigas "alegres"?

O que se perpetua com estes benefícios é apenas o reforço de um modelo desigual, onde as raparigas aceitam voluntariamente ser "adereços" de uma festa pensada para agradar aos rapazes, ao entrarem de borla nos bares, festas ou discotecas.

Mas não será esta uma "discriminação positiva" favorável a uma maior igualdade de acesso? Com que sentido? Mesmo que inconsciente, esta prática indicia uma clara desvalorização do papel feminino.

A pior desigualdade é aquela que não tem visibilidade porque não é consciente.

Não basta ser misto para se falar de igualdade. Não basta ter pessoas diferentes num mesmo espaço para se afirmarem direitos idênticos. A prova está neste olhar de comiseração que "beneficia" as raparigas, outrora arredadas do espaço público.

Num outro contexto, um torneio de futebol misto, um golo marcado por uma rapariga valia dois pontos, enquanto os golos masculinos apenas valiam um. "Vá lá, chuta a bola, que assim ganhamos mais pontos!"

Este é outro exemplo de "discriminação positiva" que descredibiliza a presença de mulheres num universo que é tido por ser do domínio masculino.

Qualquer uma destas "benesses" ao invés de contrariar a desigualdade de género agrava-a, reforçando o sentido de condescendência que perdura no pensamento de quem acha que as mulheres não pertencem a certos meios, seja em contexto profissional, de lazer ou até na política.

As mulheres até podem rejubilar com as ladies nights mas, consciente ou inconscientemente, estão a contribuir para o reforço de uma relação de poder, do qual elas se afastam, deixando-se manipular por modelos que em nada beneficiam o respeito pela dignidade e igualdade de direitos.

Aceitando essas benesses, reproduzem uma relação entre géneros desigual, sublimada por um marketing misógino, deixando na invisibilidade uma discriminação, por ventura tida como positiva, que reforça modelos culturais que afastam as mulheres da liderança e da afirmação da igualdade de direitos, quais "fadas do lar", flores coloridas que enfeitam e animam o ambiente, sobretudo, depois de três bebidas gratuitas!

Sempre foi assim? Mas não devia!

Estamos sempre a tempo de fazer a diferença em prol de uma sociedade mais paritária e justa.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 17 abril 2018)

Turismo e Identidade

O aumento do número de visitantes tem transformado o turismo numa "mina". Os alojamentos locais proliferam, os restaurantes ganham clientes e os locais de interesse enchem-se de curiosos, guardando imagens, fazendo selfies ou vídeos.

Tudo parece ser fácil e ganhador, quando se pensa em turismo. Mas há um senão!

O que levaram os visitantes dessas viagens? E o que deixaram nas regiões visitadas? Numa visão económica, contam os fluxos financeiros e o número de camas ocupadas ou de passageiros desembarcados.

Mas será que estes visitantes fizeram experiências que agora recordam ou, simplesmente, registaram no telemóvel uma coleção de fotografias?

Os resultados do turismo não se medem apenas por indicadores económicos. O que fica registado são, sobretudo, experiências, contactos, aprendizagens e práticas, que envolveram os sentidos. Os sabores da terra, descritos por quem serviu a refeição, a beleza de uma tapeçaria, explicada por uma artesã, as cores da paisagem ou a qualidade do alojamento, também são resultados do turismo, mas que os visitantes levam gravados na memória.

O turismo que faz sair as pessoas da rotina, dos circuitos fechados e habituais, permite, a quem recebe, mostrar um mundo desconhecido do visitante. Um encontro com a novidade, o particular, onde o turista se integra sem destruir, paga para experimentar, investe para poder alargar horizontes e, quando regressa a casa, leva consigo um outro olhar sobre esse mundo.

Esta forma de receber valoriza a identidade e pode contribuir para a criação de negócios enraizados no património das comunidades.

De nada serve fazer igual aos outros, ter restaurantes com sobremesas sem nome e sem tradição. Não vale a pena vender praia e sol, quando o clima é incerto, e muito menos explorar locais de natureza, que não resistem à pressão de muitos visitantes.

O que é "pequeno e bom" proporciona uma maior intensidade da experiência, porque feito com qualidade. O importante é proporcionar uma viagem através da história, do património e, sobretudo, das emoções e sensações.

Recordo um restaurante em Arraiolos, em pleno Alentejo, onde se pode fazer uma viagem no tempo, através dos objetos da lavoura que servem de decoração. Na ementa, os pratos convidam a outras tantas experiências gastronómicas, à descoberta das gentes da terra e dos sabores locais. Mais à frente, numa tenda de tapetes, uma artesã mostra, com orgulho, o restauro de um velho tapete e a beleza do bordado tradicional.

Talvez seja esse o segredo de um bom produto turístico. Quem o vende, tem orgulho no que faz e na terra onde vive e, ao mesmo tempo, é capaz de contar uma história acerca dos produtos, da confecção ou da razão porque, nessa região, se fabrica, consome ou trabalha de uma determinada forma.

O turismo de uma região tem de ter forma, marca, identidade. Se não, é um produto que facilmente se deita fora, depois de se experimentar uma vez. Não deixa memórias ou recordações e, dificilmente, alguém vai contar essas experiências a outros.

O turismo, com identidade, cresce em função das histórias que se contam aos outros.

Mas, para se contarem histórias é preciso viver experiências e ter sido acolhido, na conversa de café, na visita ao museu ou num simples diálogo com o residente que nos indica um trajeto. O que ficam são essas recordações.

O turismo cresce em função do acolhimento.

Não bastam alojamentos locais, improvisados, são precisos "acolhimentos locais". Nem é preciso ter grandes salas de refeições, mas servir uma gastronomia de qualidade em espaços acolhedores, que falem das origens ou conduzam o visitante numa viagem de sabores.

O turismo, com identidade, é sustentável, traz os amigos dos amigos e gera memórias e recordações.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 3 Abril 2018)

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