Terça-feira, 17 de Abril de 2018

Ladies night

A desigualdade social mais difícil de combater é a que se propaga de forma invisível e subtil, como não pudesse ser de outra forma, "porque é assim, sempre foi assim!", "onde é que está o problema?"

A desigualdade social entre homens e mulheres continua a fazer parte do nosso quotidiano, mesmo quando não nos damos conta, sobretudo, quando não nos damos conta.

Um bom exemplo da "naturalização" desta desigualdade está dissimulado numa frase de marketing, a ladies night, que esconde uma visão desigual dos clientes do sexo masculino ou feminino.

Numa ladies night as mulheres não pagam entrada e, ainda, tem direito a bebidas de borla. Além disso, para beneficiar dessa vantagem, terão de consumir essas bebidas num determinado intervalo de tempo.

"Mas porquê dispensar as raparigas do pagamento das bebidas?", pergunto eu de forma ingénua: "Oh professora, de outra maneira elas não iriam à festa e, assim, também os rapazes, sabendo que há raparigas, acorrem em maior número! É sempre assim nas discotecas, nas festas da universidade, as raparigas não pagam, é marketing!"

Mas a que preço? As raparigas são instrumentalizadas para tornarem a festa mais atrativa. Ao mesmo tempo, com bebidas à borla, poderá haver maior desinibição, alguma perda de controlo, o riso fácil e aquela boa disposição que aligeira o sentido de responsabilidade e discernimento. Porque não se oferece aos homens um benefício idêntico? A quem interessa ver as raparigas "alegres"?

O que se perpetua com estes benefícios é apenas o reforço de um modelo desigual, onde as raparigas aceitam voluntariamente ser "adereços" de uma festa pensada para agradar aos rapazes, ao entrarem de borla nos bares, festas ou discotecas.

Mas não será esta uma "discriminação positiva" favorável a uma maior igualdade de acesso? Com que sentido? Mesmo que inconsciente, esta prática indicia uma clara desvalorização do papel feminino.

A pior desigualdade é aquela que não tem visibilidade porque não é consciente.

Não basta ser misto para se falar de igualdade. Não basta ter pessoas diferentes num mesmo espaço para se afirmarem direitos idênticos. A prova está neste olhar de comiseração que "beneficia" as raparigas, outrora arredadas do espaço público.

Num outro contexto, um torneio de futebol misto, um golo marcado por uma rapariga valia dois pontos, enquanto os golos masculinos apenas valiam um. "Vá lá, chuta a bola, que assim ganhamos mais pontos!"

Este é outro exemplo de "discriminação positiva" que descredibiliza a presença de mulheres num universo que é tido por ser do domínio masculino.

Qualquer uma destas "benesses" ao invés de contrariar a desigualdade de género agrava-a, reforçando o sentido de condescendência que perdura no pensamento de quem acha que as mulheres não pertencem a certos meios, seja em contexto profissional, de lazer ou até na política.

As mulheres até podem rejubilar com as ladies nights mas, consciente ou inconscientemente, estão a contribuir para o reforço de uma relação de poder, do qual elas se afastam, deixando-se manipular por modelos que em nada beneficiam o respeito pela dignidade e igualdade de direitos.

Aceitando essas benesses, reproduzem uma relação entre géneros desigual, sublimada por um marketing misógino, deixando na invisibilidade uma discriminação, por ventura tida como positiva, que reforça modelos culturais que afastam as mulheres da liderança e da afirmação da igualdade de direitos, quais "fadas do lar", flores coloridas que enfeitam e animam o ambiente, sobretudo, depois de três bebidas gratuitas!

Sempre foi assim? Mas não devia!

Estamos sempre a tempo de fazer a diferença em prol de uma sociedade mais paritária e justa.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 17 abril 2018)

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