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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Retrocesso

O impacto da pandemia vai para além das questões de saúde. Estruturalmente, a sociedade retrocedeu em poucos meses, o equivalente a anos de ganho, quando se analisam as relações de género e os papeis das mulheres no mundo familiar.

Perante a necessidade de ficar um adulto em casa, devido ao ensino à distância das crianças menores, reemerge a lógica “naturalizada” de que isso é tarefa da mãe. Ela tem mais “paciência”, está mais habituada a acompanhar os trabalhos de casa e, já agora, ela fica mais disponível para as tarefas domésticas que, habitualmente, realiza após chegar de um dia de trabalho no emprego. Só vantagens! Ninguém repara na injustiça desta medida e, por isso, poucos contestam este “regresso/retrocesso”, das mulheres ao lar.

Entretanto, as escolas, prescindem de auxiliares de ação educativa ou de horas de apoio. Fica tudo por conta dos pais (das mães), que têm de adaptar a casa e a vida, quando isso é possível, a mais uma rotina, o estudo online.

Mas porquê a mãe? Será que as mulheres são mais capazes de se ligar às plataformas online ou de resolver problemas de matemática e português, do que os homens/pais? Será que existe alguma razão objetiva para que os pais passem menos tempo com os filhos e sejam as mães quem deve abdicar da atividade profissional, quando os governos decretam que as crianças, em idade escolar, devem ficar em casa?

A crise económica gerada pela pandemia tem rosto feminino, como referia recentemente o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres. Muitos dos empregos que estão a ser eliminados são em setores onde predominam mulheres. Os serviços, o comércio ou a hotelaria são disso exemplo. De acordo com os últimos dados do emprego nos Açores (2020), aumentou ligeiramente o emprego qualificado das mulheres, o que não é de admirar, quando 69,2% (18631) da população com o ensino superior (26906), são mulheres. Mas para cada mulher, com ensino superior, que encontrou emprego, duas mulheres com o ensino básico perderam-no, a favor de um homem.

Porquê? Porque os trabalhos que permitiram às mulheres entrar em massa no mercado de emprego são os mais afetados pela atual crise económica. E, mesmo quando são as mulheres quem detém maiores competências, para uma alternativa de emprego, o “mundo da casa” cai-lhes em cima como um “fardo natural”.

A pandemia gerada pela Covid19 está a implicar um retrocesso aos anos 80 do séc. XX e a deitar a perder quarenta anos de um lento processo de mudança. Urge que as medidas políticas de mitigação dos impactos da pandemia, corrijam esta desigualdade e protejam as mulheres da pobreza, do risco de violência doméstica e da perda de direitos profissionais.

Velhos fantasmas em torno do papel “afetivo” da mulher, do “dom natural” e da “facilidade” com que cuidam da casa e da família, estão a emergir como “razões” para justificar o “regresso/retrocesso” ao lar, e ao “sacrifício” de prescindirem da carreira profissional, nomeadamente, de lugares de liderança, conseguidos depois de muitos anos de luta e sucesso profissional.

Como refere um artigo recente do jornal “Courrier International”(Março 2021), com o confinamento, assistimos a uma “retradicionalização” das relações de género.

Regresso a casa ou retrocesso civilizacional? O futuro o dirá.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 30 março 2021)

Tristezas não pagam dívidas

Assim fala a voz do povo, exaltando o lugar da alegria na vida!

A tristeza enfraquece a mente e o corpo e retira o ânimo (rouba a alma) que abre os olhos para o lado bom da vida. Por mais pequeno que seja, há sempre um lado bom, até nesta pandemia, que nos obriga a viver o carnaval de forma diferente, sem bailes ou grandes desfiles, sem fantasias compradas ou máscaras!

Não entregues a tua alma à tristeza. Não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos. A alegria do coração torna mais longa a vida.” (Ecl,30)

Este é o momento para a verdadeira alegria, essa que vem do coração, que nos faz rir de vontade, diante da criança que nos desafia a pensar, do cachorro que rouba o doce da cozinha, das asneiras de quem não sabe fazer e tenta, mesmo assim!

Há milhentas razões para nos alegrarmos, porque não faltam momentos, coisas pequenas da vida, que nos fazem sair de dentro dessa caixa de certezas e convicções!

Se calhar, noutros carnavais, fomos forçados a nos divertir, porque os outros faziam o mesmo. Mas, houve dias em que essa alegria não vinha do coração, era mais fabricada.

Claro que o Carnaval é importante, aliás é fundamental no calendário cultural de muitas comunidades. É o tempo para descarregar as tensões e libertar o corpo das convenções!

A Antropologia ensina-nos a olhar este tempo como “interrupção” de regras, inversão dos papeis sociais e oportunidade para a crítica em público, verdades ditas a brincar, como acontece nos enredos, que animam os bailinhos da Terceira ou os desfiles das escolas de samba no Brasil.

Esta interrupção traz alegria, porque liberta da tensão, solta os não-ditos e, sendo um tempo de “faz-de-conta” e fantasia, permite “ser verdadeiro”.

E a verdade liberta a alegria do coração, por vezes presa na lógica do “não vou dizer para não magoar, não vou intervir ou dizer o que penso, para não ser rejeitado”.

Este é o tempo para a alegria, porque a tristeza não paga dívidas, nem melhora a situação que atravessamos, mergulhados nesta espera de um tempo diferente, sem o risco de contrair uma doença, que parece não querer ir embora sem deixar um rasto de desgraça e destruição.

Só há uma forma de lidar com esta pandemia, é não deixar que esta situação nos “destrua” a alma e a alegria de viver.

A propósito do dia de hoje, terça-feira de Carnaval, e lembrando um ensinamento do meu pai, é dia para podar as roseiras, e outras plantas. Este é o tempo para retirar o que está seco e podre e reforçar os ramos que podem florir e dar fruto.

O carnaval não é apenas o tempo da fartura, dos fritos e dos excessos, é um tempo de viragem no calendário, que corresponde a um recomeço, à eterna possibilidade que cada um de nós tem, para mudar de rumo e escolher fazer diferente. Não são precisas grandes mudanças, mas pequenos gestos ou propósitos.

E acreditem que, podar e limpar as plantas do que as consome e destrói, é uma verdadeira fonte de alegria.

Terça-feira de Carnaval marca a transição para um novo tempo, que pode ser de renovação, se assumirmos que a vida é transitória e não há tempo para deixar a tristeza entrar no coração e o esvair do ânimo e da vontade de lutar. Se isso acontecer, então não teremos como “pagar as dívidas”. E os tempos que aí vem não vão ser fáceis.

Por isso, como diz a canção brasileira: “Tristeza, por favor vai embora! Quero voltar aquela vida de alegria! Quero de novo cantar!”

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 16 fevereiro 2021)

 

Cuidar da esperança

Nunca, como hoje, ouvimos e sentimos o quanto precisamos de ser cuidados, para nos tornarmos humanos.

Mas, atenção! Cuidar não é exclusivo do sistema de saúde, não passa apenas por equipamentos de oxigénio e medicina intensiva.

Cuidar é estar atento à pessoa, na sua circunstância, reconhecendo o desespero, ajudando nas dificuldades e potenciado a esperança, a capacidade de superação, perante a dúvida e a impotência.

Será que os noticiários televisivos estão a cuidar da esperança?

Sinceramente, não! O sentimento que me assola, ao ouvir os telejornais, é de uma extrema violência, uma verdadeira saturação e exaustão descritiva do retrato dramático que se vive nas instituições de saúde, do nosso país.

Já não bastava a estatística diária do número de infetados e de mortes, agora acresce-se o número de ambulâncias paradas à frente dos hospitais, os enfermeiros e médicos a clamarem por exaustão, as imagens dos Cuidados intensivos onde, em permanência, se diz não existirem vagas. Para não falar da vacinação que, muito lentamente, vai chegando a alguns grupos de risco e que, para todos os outros, aos milhares, tardará em chegar.

O resultado de tudo isso é uma enorme angústia, já não tanto pelo vírus que nos aflige há quase um ano, mas pelas outras circunstâncias mais comuns, como ter um acidente, uma situação aguda, um bebé que vai nascer, e tantas outras, que exigem cuidados hospitalares e disponibilidade dos profissionais de saúde.

Alguns dirão que se pretende alertar o cidadão comum para o cumprimento da sua parte, e que é muita, de autocuidado, no respeito pelas regras sanitárias. Mas será que, enchendo os noticiários com o drama hospitalar, vivido no país e no mundo, a toda a hora, em todos os canais, não estará a ter um efeito contrário? Acaba por afastar as pessoas dos noticiários e telejornais e, mesmo não querendo, o telespectador opta por ver jogos de futebol, filmes “cor-de-rosa” e outras diversões, que afastem a mente dessa realidade, pintada a negro e vermelho.

Cuidar é estar atento, pôr-se no lugar do outro, “calçar os seus sapatos”, como dizem os ingleses. Por isso, o jornalismo não pode esquecer as vidas de quem está do outro lado do televisor ou do rádio, pessoas idosas, famílias confinadas a uma casa de duas assoalhadas, cidadãos que sofrem por não verem os seus familiares e olham as fotografias de festas passadas, a exemplo do dia das Estrelas e do Carnaval, como se tivessem sido há séculos. Quando é que isto acaba? É a pergunta que mais se ouve.

Cuidemos uns dos outros, falemos do que alimenta a esperança e dá forças para enfrentar este quotidiano de restrições e impedimentos.

Se não cuidarmos uns dos outros e nos entregarmos ao desespero, fica o campo aberto para os discursos extremistas, que prometem eliminar os indesejáveis, rotulados de culpados, para criar uma sociedade de “escolhidos”, onde se espezinha os mais frágeis em benefício das, autoproclamadas pessoas de boa vontade. Sempre foi assim! O populismo, de discurso fácil e com solução para tudo, só vence no meio de destroços e pessoas destroçadas, que perderam a esperança!

Cuidar é respeitar a humanidade e protege-la de todas as violências, inclusive as que perpassam nos discursos mais extremistas. Respeitar a humanidade é cuidar de nós, de cada um e de todos, sem esquecer a Natureza, indispensável à nossa sobrevivência!

Cuidemos da esperança, abrindo janelas para que entre um futuro melhor.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 2 fevereiro 2021)

Bom dia! Haja Saúde!

Bom dia! Haja Saúde!

 

Haja saúde! É uma saudação que nos vem do passado, mas que talvez fosse tempo de retomar como prática habitual.

Saudar os outros não é, ou não deveria ser, um mero ato de cortesia, um favor que fazemos, porque nos ensinaram a ser “bem-educados”.

A palavra Saúde nasce do verbo saudar, que também significa salvar. Por isso, quando saudamos alguém, o significado profundo desse gesto está no desejo de saúde que lhe dirigimos.

“Bom dia” é uma bonita expressão, mas quantas vezes é dito entre dentes, sem ânimo, de forma quase impercetível, nunca olhando os olhos de quem se saúda?

“Haja Saúde!” é uma saudação fraterna, que revela um sentido do outro, a preocupação com o seu bem-estar. E, neste início do ano de 2021, a esperança que nos une é, sem dúvida, o desejo de bem-estar, a necessidade de garantirmos a saúde de todos, a começar pelos mais vulneráveis, particularmente os idosos, prioritários nos critérios de vacinação contra a Covid19.

2021 terá de ser um ano diferente. Nunca, como nesta passagem de ano, os votos de Bom Ano, foram acompanhados da frase, “que seja melhor do que 2020!”. Ao que outros respondiam, “é difícil não ser melhor!”.

Será melhor, certamente, se tomarmos consciência que a Saúde, que tanto desejamos, não é apenas “ausência de doença”. Queremos muito a vacina, para não sermos contagiados pela doença Covid19, mas se o que desejamos aos outros, e para nós próprios, é Saúde, então temos de pensar em ganhar defesas em muitas outras áreas das nossa vidas. A começar pela forma como comemos. Qual é o critério de “boa comida” que utilizamos? Será a quantidade de carne, bem temperada, de preferência com batatas a acompanhar e nada de legumes ou folhas verdes, que isso é comida de coelho!? Sem esquecer uma dose generosa de doces, gorduras e bebida alcoólica!?

Está na hora de repensarmos a forma como gerimos a nossa saúde, a começar pela boca!

Depois, vem a atividade física. Quantas vezes, somos muito rigorosos a tomar comprimidos, porque o médico assustou-nos com o nível de colesterol ou de triglicéridos das últimas análises. Amedrontados, ficamos dependentes dos tratamentos, sem nada mudar nas rotinas de todos dias.

A saúde depende da forma como comemos, bebemos e do nível de atividade física que temos. A propósito, quantos passos já deu hoje? Seja em caminhadas ou cumprindo um plano de exercícios num ginásio, onde podemos conhecer as resistências e as fragilidades do nosso corpo, este é o tempo para planear um ano diferente.

O ano 2021 pode ser melhor! Não há dúvida! Mas não será apenas por termos a possibilidade, mais cedo ou mais tarde, de ser vacinados! Enquanto isso não acontece, está nas mãos, de cada um, investir no seu capital de Saúde, valorizando o essencial da vida, sem esquecer a higienização das mãos e o uso da máscara.

A Saúde, há muito deixou de ser definida como ausência de doença e passou a ser sinónimo de bem-estar físico, psicológico, social e espiritual. Ou seja, a Saúde é um estado de equilíbrio, que todos os dias é posto à prova: hoje, porque tivemos um problema no trabalho, amanhã porque nos desentendemos com um familiar e noutro dia, por causa de uma indigestão ou dores de cabeça. Todos os dias, somos desafiados a procurar esse equilíbrio, o mesmo é dizer, o sentido para a vida, uma razão para lutar e acordar de manhã com vontade de viver mais 24 horas.

Neste começo de 2021, nada melhor do que vos saudar com um “Bom dia, haja saúde”.

(texto publicado no Jornal Açoriano Oriental de 5 janeiro 2021)

Carta aos leitores

Queridos leitores e queridas leitoras.

Espero que esta carta vos encontre de boa saúde, na companhia dos que mais amam.

Nós por cá estamos bem.

Neste Natal, gostaria de vos desejar tudo de bom, sobretudo, que consigam juntar alguns familiares e amigos, mesmo que em pequenos grupos de seis pessoas, como aconselham as regras da prevenção do Covid19.

Mas não se preocupem, nós por cá também o vamos fazer, felizes por podermos festejar a vida, o Amor, pensando em todos aqueles que amamos e que, este ano, não vão estar à mesa connosco.

Não é preciso muito para saber a Natal. Uns figos, umas nozes e um bolo rei fazem a festa. Mas é claro, que o mais importante não é a mesa farta, mas o presépio do Menino Jesus. Não sei se vos acontece o mesmo, mas cá por casa, todos os anos a sala fica diferente, para dar lugar à gruta do presépio.

Afastam-se os móveis para colocar a árvore e, num canto do quarto, arma-se o presépio. Tenho ouvido dizer que há quem tenha desistido de o fazer, porque dá trabalho. É pena! Ainda me lembro do tempo em que os miúdos adoravam mexer nos bonecos e mudá-los de lugar.

O meu presépio agora é mais pequeno, mas ocupa o lugar central da casa. Todos os anos, a gruta é diferente, feita com pedaços de natureza, ramos secos, pinhas e pedras, dessas que caem dos muros, ou qualquer outro material, apanhado do chão. Não pode faltar a luz que, indireta, aponta para o Menino e cria um ambiente quente e aconchegante. É claro, que o burro e a vaca fazem o seu papel, como diz a tradição, e estão lá para o aquecer.

Mas, já que falei do presépio, da gruta que está montada a um canto da minha sala, espero que na vossa casa também haja lugar para esse espaço diferente, que renasce em cada Natal, a lembrar o mais importante: a humildade e a simplicidade que alimenta o Amor, tal como a ervilhaca e o trigo que semeamos todos os anos.

Queridos leitores, neste Natal tão diferente dos outros, o mais importante é agradecermos o muito que a vida nos deu e nos dá. Não vale a pena gastar muito tempo a lembrar o que não temos ou o que não podemos fazer neste ano. O melhor é concentrarmo-nos no lado positivo, nas pessoas que amamos, nos gestos de ternura que estamos a guardar para os tempos que virão. Vai saber tão bem, abraçar sem medo, beijar o rosto com ternura e voltar a juntar a família à volta da mesa, onde não se envelhece, quando se conversa.

Esta carta já vai longa e nem falei do ano que se aproxima: 2021. Vai ser melhor, tenho a certeza. Estamos mais fortes, mais preparados, mais alerta para os riscos, mais habituados a desinfetar as mãos, vezes sem conta. O pior são as dificuldades que alguns empresários estão a viver, por causa da baixa nos negócios e a tristeza que sentem aqueles que vivem nos lares ou estão hospitalizados. Acreditemos que isso é temporário e, não tarda, iremos retomar “o normal” das nossas vidas, com mais força e mais vontade de vencer. Se há coisa que aprendemos com esta pandemia foi a valorizar a atenção, que damos uns aos outros, e a perceber o quanto é importante sermos solidários com os mais fragilizados de entre nós. Em 2021 temos de ser melhores nesses aspetos.

A terminar, escrevo-vos estas linhas diante de uma vela que acendi por todos vós, para que tenham saúde e possam celebrar o Amor no vosso coração. Não há melhor lugar para acontecer o Natal.

Abraços fraternos e muitos beijos, desta vossa amiga.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 21 Dezembro 2020)

Sinais dos Tempos

É preciso estar atento, para conseguir ler os sinais dos tempos, aqueles que nos indicam os caminhos de futuro e apontam para o essencial.

Seguir esses sinais não significa escolher o caminho mais fácil. É até difícil! E, o mais certo, é que nos obrigue a aliviar a carga dos bens acumulados, para conseguirmos lidar com os riscos da caminhada.

Mas aprender a ler os sinais dos tempos é fundamental. Muitos vivem distraídos ou demasiado focados no seu umbigo, indiferentes aos alertas do GPS da vida.

Veja-se o que, ainda agora, acontece nos EUA, onde o atual presidente revela total incapacidade para aceitar a mudança política, ditada pelo resultado eleitoral.

Mais do que mudar de partido ou até de protagonista, estão em causa duas visões do mundo e a (in)capacidade para interpretar os sinais dos tempos.

Num país que se construiu com a imigração europeia, mas que nem sempre soube integrar a diferença, racial ou étnica, reconhecer a necessidade de união na multiculturalidade é saber ler os sinais dos tempos.

Num tempo em que homens e mulheres partilham os bancos das universidades, são ambos referências de sucesso, seja na ciência ou na vida pública, colocar mais mulheres em lugares de governo é saber ler os sinais dos tempos.

Num país que é um dos principais poluidores e destruidores do ambiente, reconhecer a necessidade de juntar esforços para impedir que as alterações climáticas ponham em causa a saúde, a vida tal como a conhecemos e o futuro das próximas gerações, é saber ler e interpretar os sinais dos tempos.

E, ler os sinais dos tempos nos EUA de hoje, é ter coragem para retomar as linhas da História, que foram quebradas, e recuperar Acordos Internacionais, repor em marcha a construção de um sistema de saúde público e combater a violência racial.

Infelizmente, o desenvolvimento de um país ou de uma região, não é um processo contínuo, onde se aprende com o passado e se somam ganhos aos sucessos já conseguidos.

Quem chega de novo nem sempre reconhece os sinais dos tempos e retrocede em caminhos já percorridos, seja na paridade de género, na justiça social ou nos ganhos de cidadania. Voltar atrás, nesses domínios, é recuar na defesa dos direitos humanos e abrir um parêntesis no desenvolvimento.

O tempo urge, as mudanças a que assistimos, seja no domínio do clima ou do emprego, das doenças ou das dependências, são demasiado graves para que possamos baixar a guarda e não dar continuidade a tudo o que possa contribuir para uma sociedade melhor.

O mundo vive ao ralenti, escondido em casa, para não dar a mão ao Covid19, enquanto aguarda o “milagre” da vacinação.

Obrigados a parar ou a travar a velocidade com que, habitualmente, vivemos o último mês do ano, estamos tristes por não podermos fazer a festa de Natal, juntar a família e os amigos ou viajar, para estar com quem mais amamos.

Mas, talvez esse seja o sinal deste tempo, que nos exige maior interioridade e reflexão; um tempo para ponderar: se escolhemos o essencial ou o acessório, se preferimos o brilho da vela ou da lantejoula, se nos deslumbramos com o pisca-pisca da árvore ou a simplicidade do presépio.

Neste advento, o sinal do tempo diz-nos para saborear o tempo!

(Texto publicado no jornal Açoriano oriental de 8 dezembro 2020)

Respeitem Rabo de Peixe

Nos últimos dias, Rabo de Peixe tem sido referida como exemplo negativo do desenvolvimento social.

Sentados no Terreiro do Paço, os comentadores políticos falam da maior freguesia dos Açores (com o dobro de habitantes de ilhas como, Graciosa, Flores ou Santa Maria) como “uma pequena aldeia”. Ignoram ser a freguesia mais jovem da região, com uma das menores taxas de envelhecimento e índice de dependência demográfica do país e onde as taxas de natalidade (11,8‰), fecundidade (44 ‰) e crescimento natural (4,3‰), em 2018, foram significativamente superiores aos valores médios regionais. É bom lembrar que os Açores estão a perder população e em 2018 registavam uma taxa de crescimento natural negativo (-0,2‰), ou seja, morreram mais pessoas do que as que nasceram.

As narrativas desses comentadores, emanadas do alto da sua continentalidade, só podem ser fruto de uma profunda ignorância. Foi dito e escrito, a propósito de Rabo de Peixe, que está no “fundo do fundo” da miséria, porque 30% das famílias recebem RSI (José M. Tavares no Público de 21/11/20); é uma comunidade falhada, insustentável do ponto de vista económico, um sítio marcado por uma quantidade de droga que, há 20 anos, deu à costa, onde a pobreza é objeto de “turismo” e as mulheres não podem ir ao mar (Eixo do Mal de 20 de novembro).

Esta visão estereotipada ignora a riqueza económica desta comunidade, onde se situa o maior porto dos Açores e os principais produtores de hortícolas e frutícolas da ilha. Mas, sobretudo, desconhece a sua riqueza sociocultural. Na comunidade piscatória, apesar dos baixos rendimentos que resultam da divisão tradicional por quinhões, todos contribuem para o clube desportivo e para as festas do Padroeiro. As mulheres podem não ir no barco, mas muitas trabalham na Conserveira e são elas quem resolve os problemas administrativos, tratam dos “papéis”, e colaboram na preparação do isco, mesmo quando não são reconhecidas e pagas por isso.

Esta é uma comunidade onde é evidente a força dos laços de parentesco que, ainda agora, alimentam a relação com aqueles que emigraram.

Há famílias com dificuldades económicas? Sim, ninguém o nega. E isso explica-se pela precariedade do rendimento da pesca, e do setor primário em geral, onde não há contratos de trabalho e se está sujeito às condições do clima, particularmente na pesca artesanal.

Essa subsidiodependência, de que tantos falam, tem permitido apoiar o pescador quando não pode ir ao mar (Fundo Pesca) e investir na qualificação dos mais jovens, para que acedam às licenças de pesca. Não há sustentabilidade no setor primário sem investimento na qualificação, na diversificação dos produtos e em novas formas de conservação e comercialização.

Nunca se fala das histórias de sucesso dos jovens desta comunidade, subestimados em discursos catastrofistas, que arrasam a autoestima de quem ali vive e reside.

Falemos de Rabo de Peixe, pela positiva, como uma comunidade de fortes tradições culturais, solidária, que vive intensamente o culto ao Espírito Santo, sente a música como poucos, ao som das castanholas do balho dos pescadores e das filarmónicas, e fez nascer uma orquestra OI Jazz, a partir de um projeto escolar. Uma comunidade jovem, com potencial de crescimento, que precisa de continuar a acreditar em si.

Rabo de Peixe merece um discurso de respeito.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 24 novembro 2020)

 

Arco-íris

Alguém, em Itália, lembrou-se de associar a frase “vamos todos ficar bem” à imagem de um arco-íris, poisado em duas nuvens brancas.

Uma imagem alegre, que muitas crianças pintaram para por nas janelas das suas casas e até idosos o fizeram nos centros de dia. Animados pela esperança de que tudo iria ficar bem, o arco-íris apareceu como símbolo da mudança.

É isso que acontece habitualmente, chove, mas logo a seguir vem o sol! E, no céu, abre-se um arco de cores, que na escola nos ensinam serem a decomposição da luz branca.

Dizem que são sete, do amarelo ao lilás, passando pelos tons quentes do vermelho, do laranja, sem esquecer o amarelo, o verde, o azul e o azul indigo.

Mas será que o arco-íris é sempre esse sinal positivo de mudança?

Este arco-íris, cheio de cor e esperança, afinal pode significar dificuldades. Porque a mudança nem sempre é “para ficar tudo bem”, mas para “enfrentar um mal”, como aliás estamos todos a viver neste momento.

Isso não significa que seja pior, por vezes, essas mudanças que nos confrontam com as dificuldades são necessárias. Até então, dávamos por garantida a segurança, a paz, a saúde e, de um momento para o outro, tudo se transforma.

O símbolo do arco-íris tem muito mais leituras do que este duplo sentido, de mudança para melhor ou de dificuldade acrescida.

No universo de várias culturas e religiões, o arco-íris simboliza a ligação da terra com o sobrenatural.

Quem nunca ouviu falar do “arco-da-velha”? Uma expressão que significa espanto, incredulidade. Isto é “do arco-da-velha”! dizemos nós, perante o que parece impossível ou de difícil explicação. Na realidade esta é uma forma reduzida de dizer “arco da lei velha”, por referência ao texto bíblico do Genesis,  onde o arco-íris surge como símbolo da aliança entre Deus e o mundo dos seres vivos: “Toda a vez que o arco-íris estiver nas nuvens, olharei para ele e me lembra­rei da aliança eterna entre Deus e todos os seres vivos de todas as espécies que vivem na terra.” (Gênesis 9, 16).

Não é só o cristianismo que faz referência ao arco-íris. No budismo, é descrito como a escada de sete cores que Buda terá descido para chegar à terra. No Taoismo, representa a união perfeita do ying e o yang.

Cada cor tem o seu significado e todas juntas constituem a perfeição que se obtém quando se liga, a coragem à energia, a harmonia à disciplina, a esperança à espiritualidade e se projeta a vida de forma transparente e voltada para a eternidade.

O arco-íris é então, mais do que um sinal de mudança depois da tempestade, é um símbolo de aliança entre a força e a fragilidade, entre o poder e a derrota. Talvez por isso, tenhamos todos sido tocados pela frase “vai ficar tudo bem”, recordando as palavras que ouvimos em criança, quando os pais nos asseguravam, que podíamos confiar neles e que as dores iam passar.

Vai ficar tudo bem!? Se acreditarmos que este mundo, nas suas vitórias ou catástrofes, depende, sobretudo, de cada um de nós. Olhando as cores do arco-íris, podemos ler esta mensagem: reconhece a força do amor (vermelho), encara a vida com entusiasmo (laranja), aprende a discernir as melhores opções (amarelo), defende e protege a natureza (verde), vive com calma e serenidade (azul), aposta no conhecimento (azul indigo), sem esquecer a espiritualidade, o essencial da vida (lilás).

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 29 setembro)

Valha-me Santa Bárbara!

Há riscos azuis que iluminam o céu! Depois, sente-se o ressoar do trovão, como se o céu estivesse a se desmoronar por cima das nossas cabeças!

Valha-me Santa Bárbara! Dirão uns. Que Deus nos proteja! Dirão outros!

Não faltam invocações de proteção na cultura cristã, santos que protegem em todas as situações, cultos que curam todos os males e defendem de todos os perigos, assim acreditam aqueles que usam amuletos, imagens sagradas ao peito ou medalhinhas na carteira.

Por influência de outros credos e culturas, há quem use patas de coelho, espanta-espíritos ou faça tatuagens no corpo, em busca dessa proteção.

Todas estas práticas provam o quão frágil é o ser humano e o quanto precisamos de proteção para as dificuldades da vida, porque se, por um lado, o corpo se adapta, nem sempre possui as defesas necessárias para enfrentar as novas agressões, que a própria humanidade cria, no ar poluído, nos alimentos, criados à base de produtos químicos, na falta de recursos naturais e em tantas outras realidades que causam doenças, mais ou menos conhecidas.

A nossa história está marcada por essas lutas. A lepra, a tuberculose, o ébola, são exemplos de doenças que mataram milhares de seres humanos, num tempo em que se desconhecia a vacina ou a proteção adequada. Hoje, felizmente, são doenças vencidas, para as quais existem vacinas.

O mesmo acontece com outras, que fazem parte do plano de vacinação das crianças, como a Difteria, o Tétano, a Poliomielite, a Hepatite B ou a Meningite.

Alguém se atreveria a considerar desnecessária essa proteção? Infelizmente há quem não acredite na eficácia da vacinação, apesar da comprovada redução da mortalidade e da morbilidade que dela resultaram, fruto do melhor conhecimento da Ciência sobre essas doenças.

Estamos a atravessar mais um tempo de incerteza, por ainda não dominarmos o vírus da Covid19 e não termos nenhum Santo que possamos invocar. Enquanto a vacina não for disponibilizada, resta-nos usar as máscaras e higienizar as mãos.

As máscaras são hoje um objeto de uso diário, que não penduramos ao peito, mas usamos nas malas, nos bolsos, nos espelhos do carro, pendurado junto com a bandeira do Espírito Santo ou o Terço.

Alguns, cansados de as utilizar, colocam-nas nos cotovelos, debaixo do queixo ou levam-nas com o saco das compras. É o único “amuleto” disponível para nos proteger de um vírus que paira, que nos distancia dos outros, enquanto esperamos, pacientemente, que os cientistas encontrem a resposta adequada, a vacina testada e comprovadamente eficaz.

Entretanto, não podemos descurar o recurso às outras vacinas, que têm protegido várias gerações de doenças incapacitantes, até da gripe sazonal, que pode matar os mais vulneráveis, os idosos. Infelizmente há quem duvide disso, até profissionais de saúde!

O ser humano é frágil, vulnerável e, desde sempre, precisou de se proteger para enfrentar as intempéries, as agressões e os riscos. O conhecimento aprofundado dessas fragilidades, chama-se ciência. Uma ciência, que se quer inspirada por valores humanistas, de defesa do bem comum.

Deus fala aos homens através do bem comum. E recusar as descobertas científicas que melhoram a qualidade da vida humana e previnem doenças é, por ventura, não ouvir a voz de Deus.

Valha-nos a Ciência, valha-nos Deus!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 15 setembro 2020)

Distância física e proximidade social

À porta da loja um letreiro, “mantenha um metro e meio entre pessoas”. Na praia um cartaz, “não menos de 3 metros entre guarda-sóis”, no jornal um anúncio, imagine uma vaca entre si e alguém ou então, um atum, dos grandes.

Mantenha-se à distância dos outros, na areia e no mar, na fila do supermercado ou quando espera a sua vez e ponha os pés em cima do autocolante ou atrás da fita amarela. Inclusive nas igrejas, há letreiros nos bancos para “não sentar” e estão proibidos os abraços da paz.

O distanciamento físico até pode ter algum impacto no controlo da pandemia, mas ninguém deveria referir-se a esse metro e meio ou dois metros de afastamento como “distância social”.

A distância física é controlável, a distância social destrói as relações humanas, mina a construção da sociedade e agrava o fosso entre gerações, classes sociais, grupos ou indivíduos.

Falar de distância social significa perder ou desqualificar a comunicação entre pessoas, já de si dificultada pelo uso obrigatório de máscaras, e agravar o isolamento de membros da família, sobretudo os mais velhos, deixar de conviver com amigos ou colegas.

Temos de guardar a distância física, mas não podemos acabar com a proximidade social, que não se mede em centímetros, mas em compreensão, empatia, palavras e gestos de atenção. A nossa linguagem, verbal e corporal, diz muito sobre quem somos e o que sentimos. E, a vida humana depende de relações com identidade e afetos.

Não podemos, nem devemos agravar o distanciamento social, já de si imenso, quando analisamos os números da pobreza e o fosso entre níveis de rendimento, particularmente na nossa região.

Dificilmente iremos sobreviver como sociedade, se continuarmos a isolar os mais velhos ou se construirmos o quotidiano, com base no medo, na desconfiança ou na indiferença.

Há que recuperar a sanidade, separando o tempo de estar em casa e o convívio familiar, do universo laboral. Quando as casas são também escritórios ou os quartos de hotel, gabinetes de isolamento, cria-se uma nova realidade, confusa, tensa, geradora de grande ansiedade, onde se perdem os limites do que é privado ou público, do que é intimidade ou trabalho, numa lógica totalitária que reduz os espaços e as dimensões da vida, particularmente grave quando se impõe distância física à vida das crianças.

A criança precisa de proximidade para crescer e descobrir o mundo, os outros e o seu próprio corpo; precisa de ser amada, de toque e, sobretudo, de colo. Uma criança não deveria ser obrigada a brincar com os amigos a dois metros de distância, porque brincar e ser amigo é estar juntos.

Medidas de distanciamento físico roubam o direito a ser criança, com repercussões, que só o futuro dirá, no seu desenvolvimento como pessoa.

É compreensível que a reação a esta pressão seja, por vezes, descontrolada. Abrem-se as comportas e as pessoas saem em desalinho, esquecendo a distância física, ansiosas por voltar a sentir e a viver em proximidade social.

Distância física não pode ser sinónimo de distância social.

A distância física afasta-nos do outro, a distância social agrava o nosso desconhecimento sobre quem é esse outro e isso é o princípio das desigualdades, da xenofobia, da prepotência e da discriminação.

Podemos ser obrigados à distância física, mas não podemos evitar a proximidade social.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 3 setembro 2020)

 

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