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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Carnaval

Terça-feira gorda! Gorda de fritos, de excessos e de fantasia. Gorda de folia e diversão. Segundo a Antropologia, o carnaval é tempo de transição que liberta os fantasmas, guardados no sótão das comunidades, escondidos nos bastidores das vidas organizadas. Como diz o povo, "é carnaval, ninguém leva a mal!" Porque, levar a mal seria julgar segundo normas e expectativas habituais. Mas, no Carnaval a regra é outra, a da expressão exagerada das emoções e até da crítica social, com efeito terapêutico sobre o stress, a contenção e algum individualismo que isola e afasta.

Basta olhar as culturas que mais intensamente vivem este tempo, como no Brasil, e ver o povo na rua, dando asas à emoção, nem sempre controlada, porque demasiado contida e massacrada pelas vidas difíceis e sofrimentos diários.

O carnaval é um tempo entre tempos, que marca no calendário o fim do inverno e antecede a chegada de um novo ciclo natural.

Sempre ouvi dizer que neste dia devemos podar roseiras e videiras. Podar é essencial para reorientar o crescimento das plantas, devolver-lhes vigor e eliminar galhos desnecessários que acabam por enfraquecer a estrutura central e não contribuem para a floração e a frutificação.

Ao mesmo tempo que a terça feira de carnaval liberta as emoções, despenaliza as transgressões, simboliza a possibilidade de regenerar a vida. O ser humano precisa dessas transições para reencontrar sentido, vigor, e ser capaz de enfrentar um novo ciclo na sua existência.

É carnaval, do fundo das arcas e dos armários saem as fantasias de princesa e de polícia, as vestes de palhaço ou as figuras da banda desenhada. As máscaras são mais uma oportunidade para libertar emoções. Escondidos por detrás do disfarce, vestidos de um "outro qualquer" fica mais fácil gritar, rir e até dançar. Os tímidos tornam-se extrovertidos, os medos são exorcizados e os corpos movimentam-se, sem receio, ao som do batuque de um samba, que ecoa por todo o lado.

A própria palavra carnaval tem origem na junção de duas palavras "carne" e "levar", ou melhor dizendo, "adeus à carne", lembrando a abstinência que marca o dia seguinte, quarta-feira de cinzas.

Estão reunidos os ingredientes que fazem do Carnaval um tempo diferente: o excesso, a folia, a máscara e a inversão de regras e papéis. Ao mergulhar no outro lado da existência, os adultos retomam o espírito das crianças, aliás testemunhado na frase "brincar ao carnaval", e afastam-se dos seus papéis diários, encarnando a pele de outros personagens e exorcizando alguns fantasmas ou frustrações.

Há muito que a sociologia encontrou no teatro e na definição de papel uma perspectiva de análise do quotidiano. Na prática, todos os dias encarnamos papéis, fazemos por vezes "de conta" e, nem sempre, integramos esses disfarces de forma coerente e saudável. Há mesmo quem passe a vida a mostrar quem não é, a fazer de conta que é feliz, quando preferia estar noutro lugar ou posição.

O Carnaval pode reconciliar a sociedade consigo própria. Libertando tensões, cria um tempo de catarse, que depois dá lugar ao recomeço. Alguns terão de aproveitar para podar aqueles galhos inúteis, libertar a vida do desnecessário, para melhor fortalecer a pessoa que são, ou querem ser, no novo ciclo que se aproxima.

Bom carnaval!

(publicado no jornal Açoriano Oriental 4 março 2019)

Mulheres

São 50% da população mundial e 52,7% dos portugueses mas, por vezes, são tratadas como se fossem uma "minoria", desvalorizadas e injustamente remuneradas, realidade demonstrada em diferentes estudos sobre igualdade de género. A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) acaba de divulgar mais um, "As mulheres em Portugal, hoje", coordenado por Laura Sagnier, cujos resultados revelam algumas das contradições que estruturam a vida das mulheres portuguesas, particularmente as que tem entre 18 e 64 anos e vivem numa relação conjugal.

Uma primeira contradição é revelada quando se cruza a resposta das mulheres à questão sobre qual a faceta da vida que mais lhes traz felicidade? Apesar de, a grande maioria referir os filhos como a principal fonte de felicidade, quando se analisam todas as facetas da vida (emprego, casa e família) a correlação faz-se com o parceiro. É este quem exerce mais influência no sentimento de felicidade ou infelicidade que sentem.

Como explicar esta contradição?

Na realidade, com estas respostas, as mulheres revelam que, se por um lado, os filhos são uma fonte inesgotável de felicidade, elas precisam de uma relação de companheirismo, alguém com quem possam dividir dificuldades e alegrias do quotidiano, para poderem se sentir totalmente felizes.

Assim, o sentimento de infelicidade aumenta sempre que a mulher não tem um companheiro com quem possa dividir as tarefas domésticas, alguém que a oiça, que lhe dedique o máximo do tempo disponível e seja carinhoso e atencioso. E esse desejo feminino decorre do facto de, dois terços das tarefas domésticas e dos cuidados aos filhos menores serem assegurados pelas mulheres. Seja a cozinhar ou a lavar roupa, a ajudar nos trabalhos escolares ou a ir ao médico com os filhos doentes, as mulheres asseguram essas tarefas três vezes mais do que os seus companheiros. Exceções há mas, até nesses casos, há homens que preferem dizer que vão levar o carro ao mecânico só para que o chefe e os colegas não lhe digam: "não tens a tua mulher para tratar disso?".

Uma segunda contradição que este estudo revela situa-se ao nível do mundo do trabalho e da desigualdade que, infelizmente, ainda marca os rendimentos de homens e mulheres em Portugal. Ao contrário da realidade europeia, em Portugal as mulheres, na sua grande maioria, trabalham a tempo inteiro e, como vimos, ainda asseguram um conjunto de tarefas não pagas, quando regressam a casa.

Apesar de cada vez mais escolarizadas, ganham em média menos 15 a 20% do que os seus colegas homens e, no estudo da FFMS, 43% das mulheres recebem menos do que os seus companheiros. Mas, pasme-se, quando se trata das despesas familiares, contribuem com 50% dos gastos, parte do seu salário vai para a dispensa, a roupa dos filhos ou o material escolar. Tem pouco tempo para si próprias e poucos recursos.

De acordo com o estudo, poder conciliar a vida familiar com o emprego traria felicidade a muitas das mulheres/mães que trabalham.

Mas será esta é uma questão feminina? Não seria mais fácil se a construção da felicidade fosse feita a quatro mãos e, na casa como no emprego, houvesse espaço e tempo para que cada um/a se sentisse feliz?

Já agora, o que pensam e sentem as mulheres açorianas, hoje? Talvez fosse tempo de estudar 50,7% dos residentes nesta região.

(artigo publicado no Açoriano Oriental de 19 Fevereiro 2019)

2022, em Portugal

Foi assim, no final das Jornadas Mundiais da Juventude no Panamá. O Papa Francisco anunciou as próximas em Portugal, a 2022.

Que importância tem o anúncio destas Jornadas?

Mais turismo? Grupos internacionais de jovens católicos a rumarem à capital do país? Mais negócio para empresas de construção civil e outros serviços? A certeza de encher pousadas, hostels e alojamentos locais na zona do “parque das nações”? Ou até, uma oportunidade para o Presidente da República se colar à iniciativa e “prenunciar" uma recandidatura?

Essas não são certamente as principais e mais importantes consequências deste evento, criado em 1986 por João Paulo II, que movimenta milhões de jovens em todo o mundo.

O mais importante destas Jornadas é que apelam para a atualidade e a juventude da mensagem cristã. A Bíblia pode ter dois mil anos, os textos que congrega estão datados no tempo e nas suas circunstâncias. Mas, o que a torna atual não está nesses contextos, mas na força espiritual da mensagem e na capacidade de desassossegar, desinstalar e desafiar o ser humano ao radicalismo do amor. Todos os povos o reconhecem, mesmo os que não são cristãos, que é no amor que o ser humano consegue aproximar-se da perfeição e da paz.

E os jovens precisam de modelos radicais.

Mergulhados numa sociedade tecnológica, perdidos no meio de tantas solicitações, sentem-se divididos entre sucesso material e felicidade interior. No mais profundo de si mesmos, procuram um sentido coerente em todas as escolhas que tem de fazer.

Se há jovens que reagem contra os abusos de poder, outros parecem desejar o regresso do autoritarismo! Talvez porque, apesar de terem nascido em sociedades livres, não reconhecem nos adultos exemplos a seguir, em termos de uso da liberdade.

São ambiciosos, ao apostarem na formação qualificada, quando outros se acomodam com pouco, indiferentes ao esforço e ao sacrifício de quem luta por ideais.

Ambivalências, dúvidas, sempre foram características da juventude. Mas, no fundo, em todos os tempos e gerações, os jovens precisam de metas, objetivos, pelos quais faça sentido viver. Precisam de modelos, ideais, que inspirem a construção de uma sociedade melhor.

O Papa Francisco no Panamá trouxe o tema das redes sociais para o discurso. Afinal, é aí que muitos jovens navegam, comunicam, procuram amigos ou alguém que os escute. Nem sempre correspondidos, decepcionados com as “amizades” das redes sociais, são influenciados e influenciáveis. E Francisco reconhece esse fenómeno, quando apela para que, em vez de influenciados, os jovens passem a influenciar pela positiva. Porque, as ferramentas nunca foram um problema para a humanidade, mas sim o uso que delas fazemos. Procurar afeto e companhia, de forma solitária, partilhando mensagens ou fotografias, pode levar a que se evitem os contactos face a face, fundamentais nas relações humanas.

Não basta ter centenas de amigos virtuais, para não estar sozinho. É preciso mais do que dois cliques num écran para chegar ao outro. O encontro, o diálogo e a partilha de emoções, ao vivo, são essenciais para se fazer comunidade.

Em 2022, Lisboa ficará mais jovem ao acolher as Jornadas Mundiais.

(texto publicao no jornal Açoriano Oriental de 5 fevereiro)

 

A raiz da pobreza

A pobreza é uma condição, não é castigo ou destino, é o resultado de uma grave situação de carência, incapacidade, falta de recursos ou motivação para lutar. Por vezes é uma herança familiar, outras é a consequência de guerras, conflitos, onde muitos são vítimas de decisões políticas.

A pobreza não se deseja, mas não é fácil desconstruir, tantas e tão variadas são as causas que a explicam.

As estatísticas nacionais dizem-nos que as famílias em maior risco de pobreza são as que agregam dois adultos com três ou mais crianças, 31,6% segundo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (INE, 2018), seguidas das famílias com um adulto com, pelo menos, uma criança, 28,2%. Infelizmente não existem dados regionais que permitam tipificar as famílias em risco de pobreza nos Açores, mas sabemos que atinge 31,4% dos residentes, segundo o mesmo Inquérito.

No entanto, se considerarmos as famílias que beneficiam do Rendimento Social de Inserção (RSI), então veremos que os baixos salários ou o desemprego, aliados a outras faltas de recursos enraízam famílias, mais numerosas ou monoparentais, num emaranhado de dificuldades estruturais. Que fatores justificam essas dificuldades?

A pobreza enraíza-se quando o salário mínimo não chega para fazer face às necessidades de uma família com crianças pequenas; mas também se enraíza quando os apoios sociais somados são superiores ao salário mínimo, gerando dependência e reduzindo a autonomia e a capacidade de esforço.

A pobreza enraíza-se em famílias onde as mulheres são vítimas de violência, sujeitas a uma sobrecarga de trabalhos, cuidadoras de doentes e idosos, de filhos portadores de deficiência, incapazes de se autonomizarem por via de um emprego, quantas vezes enfrentando sozinhas todos esses problemas.

A pobreza enraíza-se quando a escola fica distante da motivação e do interesse, das expectativas e das estratégias de longo prazo, porque os pais vivem o dia a dia, incapazes de ver no estudo uma forma de libertação dos constrangimentos e das dificuldades. A pobreza também ganha mais força quando, apesar das dificuldades, se incentiva os filhos a estudar mas, porque se vive com pouco mais do que o salário mínimo, se perde o direito à bolsa ou aos apoios da ação social escolar.

A pobreza arrasta para a dependência aqueles que se afundam diariamente no álcool ou na droga, comprometendo os recursos familiares, a esperança dos pais ou até dos avós, incapazes de lidar com a adição doentia dos jovens.

A pobreza corrói a vontade, a motivação e mata a esperança quando, em vez de um emprego as portas se abrem apenas para experiências de formação ou ocupação, quantas vezes distantes das competências acumuladas ao longo de uma vida.

Lutar contra a pobreza é o desafio de todos os tempos, que tem inspirado o mundo a delinear medidas. Primeiro foram as metas do Millenium que deveriam ter sido concretizadas até 2015. Agora são os Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável que o mundo se propõe concretizar até 2030.

Apesar dos avanços, a luta contra a pobreza e a exclusão social continua a mover governos e associações, porque não basta mudar as aparências, da fome ou da falta de higiene. É preciso arrancar as razões que enraízam a pobreza e a reproduzem através gerações.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 22 janeiro 2019)

 

As Sufragistas

Nem sempre a História soube reconhecer o mérito de quem lutou, com a própria vida, para que outros tivessem direitos consagrados em lei, particularmente, quando essas lutas foram e são protagonizadas por mulheres.

Recordo ouvir dizer "tem um ar sufragista", para rotular uma mulher que punha em causa o estereótipo da esposa submissa, dedicada aos outros, que se apaga para que a família tenha conforto e comida na mesa.

Longe dessa imagem de mulher fria e distante, as sufragistas recordam uma página da história europeia, de luta por um estado de direito, com base no sufrágio universal, prenúncio de muitas outras reivindicações, em diferentes países, por sociedades mais igualitárias e justas.

Infelizmente, a luta pela igualdade de género continua a fazer sentido no séc. XXI, quando governos, como no Brasil, pretendem combater a "ideologia de género" e pintar o país de azul e cor de rosa, o mesmo é dizer, institucionalizar a separação de papéis, funções e direitos em função do sexo.

Nunca é demais recordar que a igualdade de género é uma face da democracia. Não se trata de reivindicar direitos para as mulheres, mas alterar a relação entre homens e mulheres, seja no mundo da casa ou do trabalho, da política ou das profissões, denunciando a desigualdade de poder, a violência ou a exploração.

Mas porque é tão difícil afirmar a democracia?

A história das mulheres que lutaram, nas primeiras décadas do século XX, pelo sufrágio universal é bem demonstrativo dessa dificuldade*.

Não se trata apenas de mudar a lei, mas de transformar a própria estrutura da sociedade, formas de pensar, significados associados ao que é ser homem ou mulher, papéis atribuídos, tarefas tidas por serem próprias do feminino ou do masculino, inculcadas no pensamento e no comportamento desde a infância, condicionando escolhas, limitando relações e, sobretudo, formatando o exercício do poder.

Falar de igualdade de género, não é apenas, pretender mudar a sociedade, mas transformar a sua forma de pensar. Não se trata de defender uma minoria que, na realidade não existe, já que o mundo se divide em partes, quase iguais, de homens e mulheres. Mas fazer um exercício de democracia, enquanto partilha de opiniões, construção de soluções na partilha do poder, diálogo e reconhecimento da diferença.

Sem extremismos, estão em causa direitos humanos e o reconhecimento de que o mundo é melhor quando todos temos acesso à palavra e podemos, em cooperação, construir uma sociedade mais justa e livre.

Porque é de liberdade que se trata.

Se a igualdade de género é uma face da democracia, sem sombra de dúvida que é, também, uma expressão da liberdade de ser, estar e participar.

Num mundo cada vez mais global, onde as tecnologias da comunicação abrem estradas de descoberta, nascer mulher não deveria ser uma condenação, como infelizmente ainda acontece, quando as mulheres são reduzidas à sua função reprodutiva, objeto de exploração ou discriminação.

A luta pelo sufrágio universal marcou o século XX, mas outros desafios se colocam no século XXI, em defesa da dignidade e de uma sociedade plural.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 8 janeiro 2019)

Silêncio desconcertante

Fixo os olhos no presépio, naquelas figuras que, todos os anos, desembrulho das folhas de jornal para as colocar nos lugares de sempre, iluminadas delicadamente pela chama de uma vela. E sinto, sinto o silêncio desse lugar, onde a história do nascimento de Jesus reatualiza a mensagem da simplicidade, do despojamento e da ligação à natureza e aos mais simples, os pastores, de joelhos ofertando cordeiros.

Este silêncio é desconcertante! Porque desmancha barreiras, desfaz muros de vergonha, solta rios de emoção contida e desperta sentimentos de solidariedade e atenção aos outros, todos os outros, os que nos rodeiam ou já partiram, os que conhecemos e aqueles que gostaríamos de conhecer.

Mas, para sentir este silêncio que desconcerta e perturba, não podemos fugir, nem procurar preencher esses momentos com ruídos e luzes.

O silêncio liberta vozes interiores! Por isso, pode ser revolucionário, quando esse diálogo interior aumenta a consciência das injustiças e reforça a dignidade.

O silêncio desconcerta mas, nem sempre ouvimos essas vozes quando é maior a vergonha, o medo e a falta de apoio e segurança. Particularmente a voz das mulheres que foram ou são vítimas de crimes sexuais, num mundo que desculpabiliza os agressores, machos ativos, dominadores impulsivos, para quem o corpo da mulher é um mero objeto de satisfação.

Uma voz ergueu-se para quebrar esse silêncio de vergonha, a de Nadia Murad, uma jovem iraquiana, de 25 anos, da minoria muçulmana Yazid, torturada e violada, juntamente com outras 3000 mulheres, algumas ainda adolescentes, usadas como escravas sexuais por grupos armados do autointitulado "Estado Islâmico".

Pela coragem de denunciar, Nadia recebeu o Nobel da Paz 2018, juntamente com Denis Mugweve, médico ginecologista congolês, que já cuidou de mais de 50 mil mulheres vítimas de violação.

Nadia não quis calar os horrores de que foi vítima, não por ela, mas por todas as mulheres que são usadas e abusadas, como estratégia de guerra. Destruídas, estas mulheres não podem mais ser mães, refugiando-se no silêncio da vergonha. Mas, como disse Mugweve, este não é um problema de mulheres, mas da Humanidade. Somos todos responsáveis por não ouvir o silêncio destas vítimas!

O silêncio desconcerta, desfaz as barreiras interiores! Mas, se uns fogem das emoções que isso provoca, procurando alienar-se no consumo e nos ruídos, outros fecham-se na vergonha e no medo, incapazes de denunciar e mostrar o quanto as injustiças e a violência destruíram a sua dignidade.

Neste terminar de ano, regressemos ao silêncio e deixemo-nos levar pela força que quebra cadeias, desmonta defesas e faz soltar a emoção, contida no interior e, tantas vezes, disfarçada em faz de conta: "está tudo bem", "não é nada", "não te preocupes comigo!!!!".

Este é o tempo da verdade, dos sentimentos mais genuínos, da partilha de emoções.

Afinal, não é todos os dias que,

num recanto da casa, construímos um lugar diferente,

onde podemos parar e olhar a luz da vela;

Sentir o cheiro do cedro e dar espaço ao silêncio!

Sem vergonha ou receio, chorar!

Sentindo o sabor a sal das lágrimas,

Libertar o mar de receios ou angustias,

Dúvidas e inseguranças, e sorrir!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 25 dezembro 2018)

Violência sem rosto

Os últimos eventos nas ruas de Paris mostraram a força bruta, irracional, que se infiltrou e apropriou de manifestações de protesto, movidas pelo descontentamento e o mal-estar de muitos milhares de cidadãos, esmagados pelo aumento do custo de vida. Perante a falta de realismo no discurso dos políticos, em quem tinham depositado a esperança de melhores dias, que falam do combate às emissões de carbono, de novas tecnologias ou de startup's, muitos franceses saíram à rua ostentando um colete amarelo, para chamar a atenção. Diariamente, lutam com dificuldades, nas periferias da cidade, sem poderem deixar de utilizar o carro para ir trabalhar e sem acesso aos apoios, supostamente, pagos com os seus impostos.

A estes descontentes, colaram-se outros, extremistas, profissionais do protesto violento, que não se detêm diante do sofrimento que infringem nos outros, nem perante o rastro de destruição.

Se, por um lado, somos compreensivos com os problemas vividos pelos cidadãos, vítimas da desigualdade ou da injustiça, dificilmente se aceita a violência como chamada de atenção ou solução. Apesar de, por vezes, os governantes só ouvirem a voz dos injustiçados quando estes intensificam os protestos, como aconteceu em França que fez "marcha atrás" no imposto sobre combustíveis, nada justifica a violência.

Neste momento, falta discernimento para que haja diálogo e capacidade para refletir sobre soluções políticas.

O protesto envolto em violência gera medo e angustia e, no barulho ou na confusão, ninguém se ouve a si próprio, nem ouve o outro que está ao seu lado.

É preciso parar a revolta, para reencontrar os fios que tecem a democracia, "a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história" (Churchill, 1947), e aproximar os cidadãos dos eleitos na busca de soluções.

Sem que se vislumbrem tréguas, o povo apavorado, angustiado, vê os seus negócios a perigar (só na restauração parisiense a quebra é superior a 50%) e perde confiança naqueles em quem depositou as suas aspirações. E, um povo desgastado, pode acabar por desistir do diálogo e da reflexão, entregando-se a soluções radicais, sem conseguir reconhecer a demagogia do discurso e o extremismo das propostas, iludido pelos falsos slogans da unidade nacional e da segurança. A história recente tem mostrado como se chega ao poder com um discurso bipolarizado entre esse "nós", que se sente ameaçado, e "eles", os indesejados, que não merecem os mesmos direitos, sejam estrangeiros ou minorias, mulheres em luta por direitos ou famílias carenciadas.

Os movimentos populistas são lobos disfarçados que falam a voz das ovelhas, para depois as dominar, manipular e controlar.

Acordemos para a realidade, o presente pede reflexão e, sobretudo, diálogo.

E o diálogo exige que, livremente, se possa criticar, reivindicar e, sobretudo, escutar o outro, nas suas dificuldades. Há sempre uma saída quando juntamos esforços, potenciamos recursos e acreditamos na força interior que transforma as dificuldades em oportunidades, os desafios em inovação, as carências em solidariedade.

A paz tem rosto humano, tem nome, constrói. A violência, não! É anónima e sem rosto, visa apenas destruir a liberdade, essência do ser humano.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 11 dezembro 2018)

Consumir antes de pensar

O consumo pode substituir a razão e o bom senso.

E, as práticas comerciais que promovem esse consumo irresponsável são epidémicas, contagiando as sociedades capitalistas, os comerciantes sequiosos de lucros rápidos e os consumidores sequiosos de "oportunidades".

A "black friday" é mais um exemplo disso, incentivando o consumo de produtos, supostamente, com descontos excecionais.

Nascida nos Estados Unidos, o dia que se segue ao feriado da Ação de Graças, que reúne as famílias americanas, transformou-se num movimento de multidões, alienadas pela possibilidade de comprar barato, o que necessitam e, sobretudo, o que não lhes faz falta, mas que transformam em oportunidades.

Há quem compre o vestido de noiva, sem ter casamento marcado ou quem leve dois televisores pelo preço de um.

Neste dia do "São Consumo", há manifestações de irracionalidade em multidões de consumidores, empurrando-se junto às portas de centros comerciais, indiferentes ao outro, capazes de espezinhar alguém que tropece para poder alcançar, em primeiro lugar, um artigo em promoção.

Quem esfrega as mãos de contente são os comerciantes, que aproveitam para escoar produtos em armazém, perante consumidores alucinados pela ânsia de comprar, que apenas olham à percentagem de desconto.

Mas porquê chamar "negra" a esta sexta-feira do consumo!?

Segundo consta, esta designação vem da linguagem comercial que associa o prejuízo ao vermelho e o preto ao sucesso de vendas.

A seguir ao black friday segue-se o cyber monday, segunda-feira cibernauta, onde o consumo, com desconto, está à distância de um clique.

Uma obra recente de Nuccio Ordine, "a Utilidade do inútil", refere um texto de Séneca, que viveu quatro séculos A. Cristo, onde se lê que o nosso maior erro é julgar os homens, não por aquilo que são, mas por aquilo que tem vestido. Por isso, refere o filósofo, se alguém quer ser corretamente avaliado, afaste-se do seu património, das suas honras ou dos favores que lhe traz o dinheiro. Despoje-se até do seu corpo e olhe para a sua alma, o que ela é e qual o seu tamanho. Avalie então qual a sua grandeza!

A essência da dignidade humana está no livre arbítrio. Por isso, quando o ser humano perde essa capacidade, esquece o essencial, o espírito, que o torna numa criatura bela e livre.

É a gestão dessa liberdade que nos permite ser criaturas independentes ou escravos do consumo ou das aparências.

O pior de todo este processo é que associamos a felicidade e até o amor ao consumo ou ao poder que nos conferem os bens consumidos. Na realidade, quando nos despimos de tudo isso e nos despojamos do que o dinheiro comprou, o que fica? Que sentimentos nos reconfortam?

O consumo, sendo uma necessidade, exige consumidores conscientes, atentos ao que realmente importa. Ver na etiqueta, a origem, a composição ou o impacto ambiental do que consumimos, pode contribuir para essa tomada de consciência. Porque há produtos fabricados por empresas/países que não respeitam os direitos humanos, empregam crianças e destroem o meio ambiente.

Somos livres de escolher ou rejeitar esses produtos. Urge pensar antes de consumir.

 (publicado no jornal Açoriano Oriental de 26 novembro 2018)

Zapping, uma qualidade feminina

 

As mulheres tem uma qualidade que as diferencia de muitos homens.

Não se trata de genética ou de personalidade, mas de uma capacidade que a exigência do quotidiano acabou por desenvolver em muitas mulheres: fazer zapping entre várias tarefas, algumas realizadas quase em simultâneo.

O dia de trabalho foi longo, as crianças já estão em casa, mas o tempo para apoiar nos trabalhos de casa é curto. Então, a mesa da cozinha transforma-se num espaço multifacetado. Enquanto se prepara os legumes da sopa, ajuda-se a filha nas contas e soletram-se palavras ao filho preocupado com uma Redação sobre "a castanha". No entretanto, a água já ferve na panela e, sem perder a atenção às dúvidas que vão sendo colocadas pelos filhos, aproveita-se para encher a máquina com roupa. Este "corridinho" doméstico é interrompido quando os dois irmãos se desentendem por causa de uma borracha e a mesa da cozinha está quase a tornar-se num campo de batalha.

Segue-se o banho, a arrumação do quarto, preparar a roupa do dia seguinte e assegurar que as mochilas ficam prontas, para que ninguém se atrase, quando for para sair de casa.

Finalmente, o pai chegou e é hora de jantar. Cada um pode contar o dia, as dificuldades ou os sucessos, mas nem sempre há espaço para ficar à mesa, sem preocupações, deixando a conversa fluir. São horas de deitar as crianças, aconchegar os lençóis e contar a história do costume, para logo a seguir estender a roupa, que entretanto já está lavada.

Cansada, a mulher atira-se para o sofá, incapaz de ver a série que tanto gosta sem adormecer, enquanto o marido se instala na poltrona para ouvir as últimas do futebol.

Esta é uma caricatura, uma ficção do que acontece em algumas casas, quando as tarefas do quotidiano são protagonizadas pelas mães, mulheres de sete braços que chegam a tudo em pouco tempo, mantendo uma organização onde a simultaneidade ou a sobreposição parecem a única forma de dar conta dos recados.

No final, resta pouco para si, fica uma nesga de tempo para olhar o espelho e ainda cuidar da pele, antes de adormecer.

A divisão desigual das tarefas domésticas não é um mito. Antes fosse!

É uma realidade quotidiana, na maioria das vezes incorporada nos gestos diários de forma naturalizada, espectável. De outra maneira, "não daria certo", dizem as próprias mulheres e, acrescentam os maridos, "elas são muito melhores a fazer isso".

A questão é que este desgaste diário acaba por pesar na autoestima e tem impacto na vida pessoal e profissional de muitas destas mulheres que, incapazes de por em causa o mundo da família, sempre em primeiro plano, abdicam de oportunidades profissionais, desinvestem na carreira e vão adiando projetos pessoais.

Os tempos atuais, as novas famílias que nascem num contexto de duplo emprego, não são compatíveis com esta desigual partilha das responsabilidades domésticas, mesmo que pareça mais fácil às mulheres, porque sempre foi esse o modelo de referencia, saltitar entre obrigações, como quem faz zapping entre canais de televisão.

Não basta que haja mais mulheres no espaço público, seja no trabalho ou na política, é preciso mais participação dos homens no mundo doméstico.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 13 Novembro 2018)

Duas vezes somos crianças

Nada mais errado do que dizer, "duas vezes somos crianças".

Com base nesta ideia, não se reconhecem capacidades na fase mais avançada da vida e ocupam-se as pessoas mais velhas com atividades de criança: colorir desenhos, recortar formas ou, simplesmente, ficam esquecidas/adormecidas diante de um televisor ligado.

A velhice não é uma segunda infância. É um tempo onde o envelhecimento se manifesta de forma mais evidente, nas perdas auditivas, visuais ou de mobilidade. Mas, nenhuma dessas alterações compromete as memórias, a vontade de viver ou a capacidade cognitiva ou artística.

Cada vez há mais pessoas que chegam a idades mais avançadas. E se pensarmos no futuro, a população portuguesa será ainda mais grisalha, a fazer fé nos números da natalidade e no aumento da esperança média de vida. Chegar aos setenta ou aos oitenta deixou de ser uma "sorte", para passar a desígnio de muitos. Por isso, as instituições, os serviços, que cuidam e atendem pessoas mais velhas, precisam de "reciclar" o conceito de velhice e o modo como, muitas vezes, atendem as pessoas mais velhas.

Parece anedota, mas acontece ouvir um empregado num comércio falar mais devagar com um idoso, como se ele não entendesse português ou tivesse dificuldade em acompanhar um discurso normal. Em outras ocasiões, aumenta-se deliberadamente o tom de voz, pressupondo que, se alguém tem mais de 65 anos, já deve ser surdo, esquecendo que muitas dessas pessoas utilizam aparelhos auditivos.

A velhice é cada vez menos um tempo para ser desperdiçado ou mal utilizado. Afinal, se a esperança média de vida, atual, prevê mais 15 anos após a idade da reforma, então há muito tempo para ocupar em novas experiências, manter-se autónomo e realizar sonhos, tantas vezes adiados.

Os idosos gostam de ser a retaguarda dos filhos, quando cuidam dos netos. Mas há que respeitar os seus tempos, as atividades que lhes dão prazer, e não comprometer essa "agenda" com demasiadas obrigações. Afinal, os anos passam a correr e pode acontecer que os últimos até não sejam os melhores, em termos de saúde. Por isso, é importante concretizar projetos, quando ainda se sente forças, vontade e se tem os recursos adequados para tal.

Fazer projetos? Dirão alguns, é coisa de jovens, de quem, supostamente, tem a vida toda pela frente. Não é verdade.

Um projeto não precisa de ser de grande monta; acabar aquela toalha bordada ou organizar a coleção de selos; ler os livros que ficaram na estante ou limpar os canteiros do jardim. Tudo pode ser um projeto. Fazer uma caminhada ou nadar trinta minutos, visitar um amigo ou ir ao cabeleireiro.

A vida só faz sentido quando vivemos cada momento, com significado.

Os mais velhos não perderam esse sentido, antes pelo contrário. Agora que percorrem a última etapa da vida, olham para o caminho com serenidade, recolhem a sabedoria acumulada e, só não a partilham, quando são tratados como crianças ou excluídos das decisões coletivas, supostamente, porque não lhes interessa a atualidade.

Mesmo que voltem às papas, por faltarem os dentes; às fraldas, por estarem incontinentes ou às letras aumentadas, porque a vista não ajuda, nada disso define a velhice.

Apenas o tempo, o saber e o percurso vivido importa.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 30 outubro 2018)

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