Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

As Sufragistas

Nem sempre a História soube reconhecer o mérito de quem lutou, com a própria vida, para que outros tivessem direitos consagrados em lei, particularmente, quando essas lutas foram e são protagonizadas por mulheres.

Recordo ouvir dizer "tem um ar sufragista", para rotular uma mulher que punha em causa o estereótipo da esposa submissa, dedicada aos outros, que se apaga para que a família tenha conforto e comida na mesa.

Longe dessa imagem de mulher fria e distante, as sufragistas recordam uma página da história europeia, de luta por um estado de direito, com base no sufrágio universal, prenúncio de muitas outras reivindicações, em diferentes países, por sociedades mais igualitárias e justas.

Infelizmente, a luta pela igualdade de género continua a fazer sentido no séc. XXI, quando governos, como no Brasil, pretendem combater a "ideologia de género" e pintar o país de azul e cor de rosa, o mesmo é dizer, institucionalizar a separação de papéis, funções e direitos em função do sexo.

Nunca é demais recordar que a igualdade de género é uma face da democracia. Não se trata de reivindicar direitos para as mulheres, mas alterar a relação entre homens e mulheres, seja no mundo da casa ou do trabalho, da política ou das profissões, denunciando a desigualdade de poder, a violência ou a exploração.

Mas porque é tão difícil afirmar a democracia?

A história das mulheres que lutaram, nas primeiras décadas do século XX, pelo sufrágio universal é bem demonstrativo dessa dificuldade*.

Não se trata apenas de mudar a lei, mas de transformar a própria estrutura da sociedade, formas de pensar, significados associados ao que é ser homem ou mulher, papéis atribuídos, tarefas tidas por serem próprias do feminino ou do masculino, inculcadas no pensamento e no comportamento desde a infância, condicionando escolhas, limitando relações e, sobretudo, formatando o exercício do poder.

Falar de igualdade de género, não é apenas, pretender mudar a sociedade, mas transformar a sua forma de pensar. Não se trata de defender uma minoria que, na realidade não existe, já que o mundo se divide em partes, quase iguais, de homens e mulheres. Mas fazer um exercício de democracia, enquanto partilha de opiniões, construção de soluções na partilha do poder, diálogo e reconhecimento da diferença.

Sem extremismos, estão em causa direitos humanos e o reconhecimento de que o mundo é melhor quando todos temos acesso à palavra e podemos, em cooperação, construir uma sociedade mais justa e livre.

Porque é de liberdade que se trata.

Se a igualdade de género é uma face da democracia, sem sombra de dúvida que é, também, uma expressão da liberdade de ser, estar e participar.

Num mundo cada vez mais global, onde as tecnologias da comunicação abrem estradas de descoberta, nascer mulher não deveria ser uma condenação, como infelizmente ainda acontece, quando as mulheres são reduzidas à sua função reprodutiva, objeto de exploração ou discriminação.

A luta pelo sufrágio universal marcou o século XX, mas outros desafios se colocam no século XXI, em defesa da dignidade e de uma sociedade plural.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 8 janeiro 2019)

Silêncio desconcertante

Fixo os olhos no presépio, naquelas figuras que, todos os anos, desembrulho das folhas de jornal para as colocar nos lugares de sempre, iluminadas delicadamente pela chama de uma vela. E sinto, sinto o silêncio desse lugar, onde a história do nascimento de Jesus reatualiza a mensagem da simplicidade, do despojamento e da ligação à natureza e aos mais simples, os pastores, de joelhos ofertando cordeiros.

Este silêncio é desconcertante! Porque desmancha barreiras, desfaz muros de vergonha, solta rios de emoção contida e desperta sentimentos de solidariedade e atenção aos outros, todos os outros, os que nos rodeiam ou já partiram, os que conhecemos e aqueles que gostaríamos de conhecer.

Mas, para sentir este silêncio que desconcerta e perturba, não podemos fugir, nem procurar preencher esses momentos com ruídos e luzes.

O silêncio liberta vozes interiores! Por isso, pode ser revolucionário, quando esse diálogo interior aumenta a consciência das injustiças e reforça a dignidade.

O silêncio desconcerta mas, nem sempre ouvimos essas vozes quando é maior a vergonha, o medo e a falta de apoio e segurança. Particularmente a voz das mulheres que foram ou são vítimas de crimes sexuais, num mundo que desculpabiliza os agressores, machos ativos, dominadores impulsivos, para quem o corpo da mulher é um mero objeto de satisfação.

Uma voz ergueu-se para quebrar esse silêncio de vergonha, a de Nadia Murad, uma jovem iraquiana, de 25 anos, da minoria muçulmana Yazid, torturada e violada, juntamente com outras 3000 mulheres, algumas ainda adolescentes, usadas como escravas sexuais por grupos armados do autointitulado "Estado Islâmico".

Pela coragem de denunciar, Nadia recebeu o Nobel da Paz 2018, juntamente com Denis Mugweve, médico ginecologista congolês, que já cuidou de mais de 50 mil mulheres vítimas de violação.

Nadia não quis calar os horrores de que foi vítima, não por ela, mas por todas as mulheres que são usadas e abusadas, como estratégia de guerra. Destruídas, estas mulheres não podem mais ser mães, refugiando-se no silêncio da vergonha. Mas, como disse Mugweve, este não é um problema de mulheres, mas da Humanidade. Somos todos responsáveis por não ouvir o silêncio destas vítimas!

O silêncio desconcerta, desfaz as barreiras interiores! Mas, se uns fogem das emoções que isso provoca, procurando alienar-se no consumo e nos ruídos, outros fecham-se na vergonha e no medo, incapazes de denunciar e mostrar o quanto as injustiças e a violência destruíram a sua dignidade.

Neste terminar de ano, regressemos ao silêncio e deixemo-nos levar pela força que quebra cadeias, desmonta defesas e faz soltar a emoção, contida no interior e, tantas vezes, disfarçada em faz de conta: "está tudo bem", "não é nada", "não te preocupes comigo!!!!".

Este é o tempo da verdade, dos sentimentos mais genuínos, da partilha de emoções.

Afinal, não é todos os dias que,

num recanto da casa, construímos um lugar diferente,

onde podemos parar e olhar a luz da vela;

Sentir o cheiro do cedro e dar espaço ao silêncio!

Sem vergonha ou receio, chorar!

Sentindo o sabor a sal das lágrimas,

Libertar o mar de receios ou angustias,

Dúvidas e inseguranças, e sorrir!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 25 dezembro 2018)

Violência sem rosto

Os últimos eventos nas ruas de Paris mostraram a força bruta, irracional, que se infiltrou e apropriou de manifestações de protesto, movidas pelo descontentamento e o mal-estar de muitos milhares de cidadãos, esmagados pelo aumento do custo de vida. Perante a falta de realismo no discurso dos políticos, em quem tinham depositado a esperança de melhores dias, que falam do combate às emissões de carbono, de novas tecnologias ou de startup's, muitos franceses saíram à rua ostentando um colete amarelo, para chamar a atenção. Diariamente, lutam com dificuldades, nas periferias da cidade, sem poderem deixar de utilizar o carro para ir trabalhar e sem acesso aos apoios, supostamente, pagos com os seus impostos.

A estes descontentes, colaram-se outros, extremistas, profissionais do protesto violento, que não se detêm diante do sofrimento que infringem nos outros, nem perante o rastro de destruição.

Se, por um lado, somos compreensivos com os problemas vividos pelos cidadãos, vítimas da desigualdade ou da injustiça, dificilmente se aceita a violência como chamada de atenção ou solução. Apesar de, por vezes, os governantes só ouvirem a voz dos injustiçados quando estes intensificam os protestos, como aconteceu em França que fez "marcha atrás" no imposto sobre combustíveis, nada justifica a violência.

Neste momento, falta discernimento para que haja diálogo e capacidade para refletir sobre soluções políticas.

O protesto envolto em violência gera medo e angustia e, no barulho ou na confusão, ninguém se ouve a si próprio, nem ouve o outro que está ao seu lado.

É preciso parar a revolta, para reencontrar os fios que tecem a democracia, "a pior forma de governo, à exceção de todos os outros já experimentados ao longo da história" (Churchill, 1947), e aproximar os cidadãos dos eleitos na busca de soluções.

Sem que se vislumbrem tréguas, o povo apavorado, angustiado, vê os seus negócios a perigar (só na restauração parisiense a quebra é superior a 50%) e perde confiança naqueles em quem depositou as suas aspirações. E, um povo desgastado, pode acabar por desistir do diálogo e da reflexão, entregando-se a soluções radicais, sem conseguir reconhecer a demagogia do discurso e o extremismo das propostas, iludido pelos falsos slogans da unidade nacional e da segurança. A história recente tem mostrado como se chega ao poder com um discurso bipolarizado entre esse "nós", que se sente ameaçado, e "eles", os indesejados, que não merecem os mesmos direitos, sejam estrangeiros ou minorias, mulheres em luta por direitos ou famílias carenciadas.

Os movimentos populistas são lobos disfarçados que falam a voz das ovelhas, para depois as dominar, manipular e controlar.

Acordemos para a realidade, o presente pede reflexão e, sobretudo, diálogo.

E o diálogo exige que, livremente, se possa criticar, reivindicar e, sobretudo, escutar o outro, nas suas dificuldades. Há sempre uma saída quando juntamos esforços, potenciamos recursos e acreditamos na força interior que transforma as dificuldades em oportunidades, os desafios em inovação, as carências em solidariedade.

A paz tem rosto humano, tem nome, constrói. A violência, não! É anónima e sem rosto, visa apenas destruir a liberdade, essência do ser humano.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 11 dezembro 2018)

Consumir antes de pensar

O consumo pode substituir a razão e o bom senso.

E, as práticas comerciais que promovem esse consumo irresponsável são epidémicas, contagiando as sociedades capitalistas, os comerciantes sequiosos de lucros rápidos e os consumidores sequiosos de "oportunidades".

A "black friday" é mais um exemplo disso, incentivando o consumo de produtos, supostamente, com descontos excecionais.

Nascida nos Estados Unidos, o dia que se segue ao feriado da Ação de Graças, que reúne as famílias americanas, transformou-se num movimento de multidões, alienadas pela possibilidade de comprar barato, o que necessitam e, sobretudo, o que não lhes faz falta, mas que transformam em oportunidades.

Há quem compre o vestido de noiva, sem ter casamento marcado ou quem leve dois televisores pelo preço de um.

Neste dia do "São Consumo", há manifestações de irracionalidade em multidões de consumidores, empurrando-se junto às portas de centros comerciais, indiferentes ao outro, capazes de espezinhar alguém que tropece para poder alcançar, em primeiro lugar, um artigo em promoção.

Quem esfrega as mãos de contente são os comerciantes, que aproveitam para escoar produtos em armazém, perante consumidores alucinados pela ânsia de comprar, que apenas olham à percentagem de desconto.

Mas porquê chamar "negra" a esta sexta-feira do consumo!?

Segundo consta, esta designação vem da linguagem comercial que associa o prejuízo ao vermelho e o preto ao sucesso de vendas.

A seguir ao black friday segue-se o cyber monday, segunda-feira cibernauta, onde o consumo, com desconto, está à distância de um clique.

Uma obra recente de Nuccio Ordine, "a Utilidade do inútil", refere um texto de Séneca, que viveu quatro séculos A. Cristo, onde se lê que o nosso maior erro é julgar os homens, não por aquilo que são, mas por aquilo que tem vestido. Por isso, refere o filósofo, se alguém quer ser corretamente avaliado, afaste-se do seu património, das suas honras ou dos favores que lhe traz o dinheiro. Despoje-se até do seu corpo e olhe para a sua alma, o que ela é e qual o seu tamanho. Avalie então qual a sua grandeza!

A essência da dignidade humana está no livre arbítrio. Por isso, quando o ser humano perde essa capacidade, esquece o essencial, o espírito, que o torna numa criatura bela e livre.

É a gestão dessa liberdade que nos permite ser criaturas independentes ou escravos do consumo ou das aparências.

O pior de todo este processo é que associamos a felicidade e até o amor ao consumo ou ao poder que nos conferem os bens consumidos. Na realidade, quando nos despimos de tudo isso e nos despojamos do que o dinheiro comprou, o que fica? Que sentimentos nos reconfortam?

O consumo, sendo uma necessidade, exige consumidores conscientes, atentos ao que realmente importa. Ver na etiqueta, a origem, a composição ou o impacto ambiental do que consumimos, pode contribuir para essa tomada de consciência. Porque há produtos fabricados por empresas/países que não respeitam os direitos humanos, empregam crianças e destroem o meio ambiente.

Somos livres de escolher ou rejeitar esses produtos. Urge pensar antes de consumir.

 (publicado no jornal Açoriano Oriental de 26 novembro 2018)

Zapping, uma qualidade feminina

 

As mulheres tem uma qualidade que as diferencia de muitos homens.

Não se trata de genética ou de personalidade, mas de uma capacidade que a exigência do quotidiano acabou por desenvolver em muitas mulheres: fazer zapping entre várias tarefas, algumas realizadas quase em simultâneo.

O dia de trabalho foi longo, as crianças já estão em casa, mas o tempo para apoiar nos trabalhos de casa é curto. Então, a mesa da cozinha transforma-se num espaço multifacetado. Enquanto se prepara os legumes da sopa, ajuda-se a filha nas contas e soletram-se palavras ao filho preocupado com uma Redação sobre "a castanha". No entretanto, a água já ferve na panela e, sem perder a atenção às dúvidas que vão sendo colocadas pelos filhos, aproveita-se para encher a máquina com roupa. Este "corridinho" doméstico é interrompido quando os dois irmãos se desentendem por causa de uma borracha e a mesa da cozinha está quase a tornar-se num campo de batalha.

Segue-se o banho, a arrumação do quarto, preparar a roupa do dia seguinte e assegurar que as mochilas ficam prontas, para que ninguém se atrase, quando for para sair de casa.

Finalmente, o pai chegou e é hora de jantar. Cada um pode contar o dia, as dificuldades ou os sucessos, mas nem sempre há espaço para ficar à mesa, sem preocupações, deixando a conversa fluir. São horas de deitar as crianças, aconchegar os lençóis e contar a história do costume, para logo a seguir estender a roupa, que entretanto já está lavada.

Cansada, a mulher atira-se para o sofá, incapaz de ver a série que tanto gosta sem adormecer, enquanto o marido se instala na poltrona para ouvir as últimas do futebol.

Esta é uma caricatura, uma ficção do que acontece em algumas casas, quando as tarefas do quotidiano são protagonizadas pelas mães, mulheres de sete braços que chegam a tudo em pouco tempo, mantendo uma organização onde a simultaneidade ou a sobreposição parecem a única forma de dar conta dos recados.

No final, resta pouco para si, fica uma nesga de tempo para olhar o espelho e ainda cuidar da pele, antes de adormecer.

A divisão desigual das tarefas domésticas não é um mito. Antes fosse!

É uma realidade quotidiana, na maioria das vezes incorporada nos gestos diários de forma naturalizada, espectável. De outra maneira, "não daria certo", dizem as próprias mulheres e, acrescentam os maridos, "elas são muito melhores a fazer isso".

A questão é que este desgaste diário acaba por pesar na autoestima e tem impacto na vida pessoal e profissional de muitas destas mulheres que, incapazes de por em causa o mundo da família, sempre em primeiro plano, abdicam de oportunidades profissionais, desinvestem na carreira e vão adiando projetos pessoais.

Os tempos atuais, as novas famílias que nascem num contexto de duplo emprego, não são compatíveis com esta desigual partilha das responsabilidades domésticas, mesmo que pareça mais fácil às mulheres, porque sempre foi esse o modelo de referencia, saltitar entre obrigações, como quem faz zapping entre canais de televisão.

Não basta que haja mais mulheres no espaço público, seja no trabalho ou na política, é preciso mais participação dos homens no mundo doméstico.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 13 Novembro 2018)

Duas vezes somos crianças

Nada mais errado do que dizer, "duas vezes somos crianças".

Com base nesta ideia, não se reconhecem capacidades na fase mais avançada da vida e ocupam-se as pessoas mais velhas com atividades de criança: colorir desenhos, recortar formas ou, simplesmente, ficam esquecidas/adormecidas diante de um televisor ligado.

A velhice não é uma segunda infância. É um tempo onde o envelhecimento se manifesta de forma mais evidente, nas perdas auditivas, visuais ou de mobilidade. Mas, nenhuma dessas alterações compromete as memórias, a vontade de viver ou a capacidade cognitiva ou artística.

Cada vez há mais pessoas que chegam a idades mais avançadas. E se pensarmos no futuro, a população portuguesa será ainda mais grisalha, a fazer fé nos números da natalidade e no aumento da esperança média de vida. Chegar aos setenta ou aos oitenta deixou de ser uma "sorte", para passar a desígnio de muitos. Por isso, as instituições, os serviços, que cuidam e atendem pessoas mais velhas, precisam de "reciclar" o conceito de velhice e o modo como, muitas vezes, atendem as pessoas mais velhas.

Parece anedota, mas acontece ouvir um empregado num comércio falar mais devagar com um idoso, como se ele não entendesse português ou tivesse dificuldade em acompanhar um discurso normal. Em outras ocasiões, aumenta-se deliberadamente o tom de voz, pressupondo que, se alguém tem mais de 65 anos, já deve ser surdo, esquecendo que muitas dessas pessoas utilizam aparelhos auditivos.

A velhice é cada vez menos um tempo para ser desperdiçado ou mal utilizado. Afinal, se a esperança média de vida, atual, prevê mais 15 anos após a idade da reforma, então há muito tempo para ocupar em novas experiências, manter-se autónomo e realizar sonhos, tantas vezes adiados.

Os idosos gostam de ser a retaguarda dos filhos, quando cuidam dos netos. Mas há que respeitar os seus tempos, as atividades que lhes dão prazer, e não comprometer essa "agenda" com demasiadas obrigações. Afinal, os anos passam a correr e pode acontecer que os últimos até não sejam os melhores, em termos de saúde. Por isso, é importante concretizar projetos, quando ainda se sente forças, vontade e se tem os recursos adequados para tal.

Fazer projetos? Dirão alguns, é coisa de jovens, de quem, supostamente, tem a vida toda pela frente. Não é verdade.

Um projeto não precisa de ser de grande monta; acabar aquela toalha bordada ou organizar a coleção de selos; ler os livros que ficaram na estante ou limpar os canteiros do jardim. Tudo pode ser um projeto. Fazer uma caminhada ou nadar trinta minutos, visitar um amigo ou ir ao cabeleireiro.

A vida só faz sentido quando vivemos cada momento, com significado.

Os mais velhos não perderam esse sentido, antes pelo contrário. Agora que percorrem a última etapa da vida, olham para o caminho com serenidade, recolhem a sabedoria acumulada e, só não a partilham, quando são tratados como crianças ou excluídos das decisões coletivas, supostamente, porque não lhes interessa a atualidade.

Mesmo que voltem às papas, por faltarem os dentes; às fraldas, por estarem incontinentes ou às letras aumentadas, porque a vista não ajuda, nada disso define a velhice.

Apenas o tempo, o saber e o percurso vivido importa.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 30 outubro 2018)

Era uma vez...

Assim começa a maioria das histórias infantis! Era uma vez um príncipe, que vivia num grande palácio! Uma pastora, que guardava rebanhos!

Quase todas as histórias para crianças narram situações fantasiadas mas, por serem transmitidas de geração em geração, ganham um lugar de referencia no imaginário coletivo: a Branca de Neve, a Cinderela ou o João Ratão, são figuras que fazem parte desse imaginário, partilhado por crianças e adultos.

Não são apenas personagens que ganham vida no Carnaval, há mensagens e valores em cada uma das histórias, de onde são retiradas. Algumas narrativas reforçam valores de submissão e obediência, outras destacam a coragem e a bravura, outras, ainda, são verdadeiros ensinamentos sobre prevenção e atenção aos burlões e aos riscos que todos os dias corremos.

Sem dúvida que existe um substrato cristão em muitas dessas fábulas. Mas, também são verdadeiras lições sobre direitos humanos e valores éticos que, sendo de raiz cristã, estruturam a nossa a cidadania atual e enformam a cultura em que vivemos.

Veja-se o exemplo da frase, sobejamente utilizada, do "lobo que veste a pele de cordeiro". Esta frase, inspirada no evangelho de Mateus, «Cuidado com os falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores» (Mateus 7:15), deveria ser repetida mil vezes, nestes dias que faltam até às eleições do próximo presidente do Brasil. Ainda há brasileiros que não veem o "lobo" debaixo da "pele de cordeiro" do discurso do candidato Jair Bolsonaro. Vivem na ilusão que o futuro não será homofóbico, xenófobo, racista e misógino, atitudes já manifestadas por este candidato, em outras ocasiões.

Mas voltemos ao papel das histórias infantis, cuja função está muito para além do entretenimento das crianças. Contadas pelos pais, na hora de adormecer ou em contraponto aos jogos virtuais que as isolam do convívio familiar, podem ser verdadeiros momentos de aprendizagem de valores.

Cada história infantil, particularmente aquelas que nos ensinaram quando éramos pequenos, serve para questionar atitudes e comportamentos, descobrir valores ou contestar falsas moralidades.

As histórias tradicionais são um importante meio de comunicação entre adultos e crianças e não deveriam ser esquecidas, por vivermos no tempo dos "tablets" ou dos canais de televisão especializados.

Retomando a história do "lobo com pele de cordeiro", ao contar como o lobo se infiltrou no rebanho, fazendo-se passar por cordeiro, os pais tem a oportunidade de ensinar o que é a confiança, a integridade e a honestidade. O lobo tinha outra intensão, que escondeu para enganar o pastor. E esta procura da verdade, do que cada um de nós quer ser perante os outros, é um exercício fundamental para a formação cívica das novas gerações.

A educação é um processo complexo de aprendizagens que interliga os mundos familiar e escolar, os modelos parentais e tantas outras referencias. Mas, no essencial, a criança vai descobrindo as traves mestras do ser humano, também nas histórias, tantas vezes recontadas pelo pai ou pela mãe, ou até pelos avós, aconchegados no sofá da sala ou sentados na beira da cama.

Era uma vez...

 (texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 16 de outubro 2018)

Uma justiça injusta

No passado dia 21 de setembro o tribunal do Porto ilibou dois indivíduos acusados de violação de uma jovem de 26 anos, que ocorreu nos sanitários de uma discoteca em 2016, alegando ter havido "sedução mútua", apesar de o texto do acórdão referir que os arguidos estavam cientes do estado de inconsciência da vítima.

A conclusão a que chegaram os juízes foi de não existir ilícito elevado por não terem ocorrido danos físicos, nem violência, uma vez que, estando inconsciente, a vítima não reagiu às agressões. Nas palavras da Secretária Geral da Associação dos Juízes " Quando não se demonstra a existência de violência, não podemos entrar no crime de violação."

Como pode haver sedução quando alguém está inconsciente? O que se entende por violência? Brutalidade!? Força física!? E, violentar sexualmente alguém inconsciente, só porque não ofereceu resistência, não é violação?

Os argumentos utilizados neste acórdão revelam um país que ainda não saiu, totalmente, da visão retrógrada de que à mulher cabe servir o homem, mesmo contra vontade.

Neste caso, a situação agrava-se por se tratar de um estabelecimento noturno, onde as mulheres são "isco" para atrair clientes masculinos e o assédio ou o abuso sexual são naturalizados, espectáveis. Cabe às mulheres, sobretudo as mais jovens, que frequentam esses espaços, moderar os seus consumos, se querem manter a sua respeitabilidade e feminilidade.

No que toca aos homens, os excessos de linguagem, de consumo e de comportamento são permitidos e até estimulados. Esta é uma das conclusões do estudo que está a ser realizado pela socióloga Cristiana Pires (Univ. de Coimbra). Às raparigas exige-se que se auto-protejam, evitem andar sozinhas, não consumam em excesso, nem usem roupa que possa ser considerada mais provocante porque, se algo lhes acontecer, serão rapidamente consideradas como as únicas ou principais responsáveis.

No espaço noturno, como refere a autora, o bar é dos homens, a pista de dança, das mulheres.

A vida noturna, à luz destes padrões de comportamento, reflete uma sociedade desigual. No entanto, este duplo padrão moral, do que se aceita para o homem e não se aceita para a mulher, não pode ser transposto para os tribunais.

O discurso dos magistrados, mesmo que dificilmente seja neutro, não pode por em causa direitos de cidadania, direitos humanos, respeito pela dignidade. A função de um juiz é defender quem é vítima de crimes, em particular, quando estes refletem abuso e dominação de pessoas em situação de vulnerabilidade, como foi o caso da violação da jovem inconsciente numa discoteca do Porto.

A justiça tem de pautar-se pela defesa dos direitos de todos, independentemente do sexo, da condição ou da situação.

Infelizmente o acórdão do tribunal do Porto é mais um, entre muitos outros, que reproduz desigualdade de tratamento de homens e mulheres perante a lei.

A confiança nos tribunais exige que estes atuem com justiça, defendam quem é vítima e saibam punir quem desrespeita os direitos humanos.

De cada vez que um juiz iliba um agressor, a confiança na Justiça fica mais débil e aumenta o receio de denunciar.

Uma sociedade que tem medo de denunciar é uma sociedade injusta.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 2 Outubro 2018)

Começou um novo ano escolar

O primeiro dia de aulas traz sempre um misto de nervosismo e alegria, vontade de descobrir e aprender misturada com saudade das férias. Na mochila pesam os livros novos e os cadernos por estrear. Felizmente para alguns, agora, são gratuitos. E ainda bem, deveria ser para todos!

Quase todos os anos, por esta altura, o custo dos livros escolares é motivo de notícia.

Sem por em causa as reais dificuldades de algumas famílias, esta reação dos pais perante o preço dos manuais reflete alguma resistência das famílias em investir na educação. Nunca se ouviu alguém reclamar do custo do televisor que comprou para ver jogos do mundial de futebol.

Quando se trata da educação escolar, mais facilmente se nivela por baixo.

E, em parte, esta atitude explica o facto de, em 2017, 70% da população açoriana com mais de 15 anos não tinha atingido o ensino secundário e 28% dos jovens entre 18 e 24 anos estavam fora da escola, sem terem cumprido a escolaridade obrigatória. Apesar da diminuição significativa que se verificou nos Açores entre 2011 (40%) e 2017 (28%), há ainda demasiados jovens a abandonarem a escola, sobretudo rapazes.

Nem sempre quem abandona a escola o faz por ter insucesso ou incapacidade para aprender. Nessa decisão, pesam mais a pressão familiar e a ilusão de que, um emprego, mesmo que precário, trará autonomia e sentido de responsabilidade.

No entanto, está mais do que provado que, um baixo nível escolar significa um salário médio mais baixo e um risco acrescido de ficar no desemprego.

Mas, estudar não é apenas ter acesso a um mercado de emprego qualificado. Significa, também, colocar a si próprio desafios, metas. Neste sentido, alcançar um diploma transforma-se numa razão para investir e ter gosto em saber mais sobre uma determinada área de conhecimento. Para além disso, estudar favorece uma maior capacidade de autorreflexão; sobre medos, competências, relação com os outros e capacidade de trabalho e cooperação.

Cada vez mais, os estabelecimentos de ensino estão longe de ser lugares de memorização de conhecimentos. Proporcionam um tempo de descoberta e, no caso das universidades, transformam os jovens em adultos, reforçando a sua autonomia e o sentido de responsabilidade.

Porquê estudar? Porque melhora o acesso ao mercado de emprego mas também porque aumenta o espírito crítico, a capacidade de pensar e de fazer escolhas, o empreendedorismo e, sobretudo, a realização e a satisfação pessoal.

Começou um novo ano letivo e, nalgumas famílias, começou a correria entre atividades extraescolares. Apesar dos benefícios que todas essas atividades podem trazer, nem sempre a criança é ouvida. Em muitos casos, o seu quotidiano fica sobrecarregado com demasiadas obrigações extraescolares, restando pouco tempo para brincar, para se divertir e conviver.

Chegados à universidade, alguns desistem de todas essas atividades o que acaba por ser contraproducente. Um jovem que saiba conciliar uma área de interesse, seja a prática desportiva ou a música, as artes plásticas ou a dança, está mais preparado para conciliar a vida pessoal com as exigências do estudo.

Um novo ano escolar começou. Às universidades portugueses chegaram menos jovens do que em anos anteriores, talvez por terem sido aliciados, em particular os rapazes, para aceitarem um emprego pouco qualificado. As raparigas, essas continuam a encher os bancos das universidades e hoje representam 60% dos diplomados do ensino superior.

Este é um desequilíbrio que urge corrigir. Precisamos de reforçar a qualificação das novas gerações, aumentando a presença de rapazes e de raparigas em todas as áreas de formação.

O ano escolar começou, mais uma etapa no percurso, de cada estudante, na busca de novos horizontes de conhecimento.

 

piedade.lalanda@sapo.pt

Futebol de primeira

Os Açores estão de novo representados na primeira liga de futebol, modalidade que recolhe a maior adesão de apoiantes, quando comparada com outras, por ventura mais exigentes do ponto de vista físico ou até técnico.

Este é um desporto popular, cuja arbitragem é hoje assessorada por meios técnicos, podendo o árbitro parar o jogo, quando tem dúvidas. Para tal desenha no ar um quadrado e todos ficam a saber que foi consultar o vídeo-árbitro.

Nas bancadas do estádio, milhares de olhos seguem a bola, gritam nomes, barafustam contra as decisões tomadas, apontam estratégias e opinam como se fossem treinadores.

Um jogo de futebol é um acontecimento cada vez mais participado, mas é também uma oportunidade para descarregar tensões, criticar em voz alta, envolver-se como anónimo numa massa que se comporta em uníssono, nos cânticos, nas palmas e no apoio à equipa local.

O Santa Clara permitiu trazer aos Açores equipas da primeira divisão e gerou-se uma maior expectativa quanto à sua capacidade para se manter entre os melhores clubes do país.

O estádio de S. Miguel ainda não tem todas as condições, mas ninguém ali entra, sem antes ser revistado.

Tampas de garrafas de água são retiradas, metais detectados e a segurança foi reforçada. Só há um aspecto que não mudou e talvez não mude.

Ninguém detecta, à entrada do estádio, as línguas afiadas e as palavras mais ordinárias.

Nas bancadas, o entusiasmo e a paixão parecem maiores do que a educação ou o saber estar.

Ainda num destes jogos, atrás de mim estava um avô com um neto. O neto, entusiasmado, repetia as frases de incentivo que ouvia. Só que o entusiasmo foi se transformando em raiva contra o adversário e começaram os palavrões.

O avô, atento, ralhou com o neto. "Tu não dizes palavrões, podes gritar pelo clube, mas é só!"

O neto, consciente de que outros, por perto, não tinham esse cuidado, insistiu: "avô, mas nem um só palavrão, um só!?"

Contrastando com o cuidado deste avô, outras vozes adultas, não se coibiram de gritar toda uma coleção de palavrões, dirigidos à equipa dos jogadores visitantes e ao árbitro da partida. A adrenalina parecia uma nuvem em volta destes adeptos, que se levantavam, batiam palmas, levados por um efeito multidão contagiante. À entrada tinham todos passado pelo detetor de metais, mas ninguém os impediu de entrar no campo, com frustrações, raivas contidas, vontade de descarregar a tensão e uma necessidade de sentir o gosto da vitória. Não é apenas a equipa que festeja quando ganha, milhares de adeptos saem do estádio a sorrir, satisfeitos, como se também eles tivessem ganho.

O futebol pela sua história, funciona como catalisador da identidade de localidades, vilas e cidades.

E não se julgue que gostar de futebol é apenas um assunto masculino. As mulheres estão, cada vez mais, a interessar-se e a praticar a modalidade e não precisam de "borlas" para acorrerem ao estádio.

O que talvez incomode é ouvir vozes desbragadas, gente que retira o freio e dá largas à língua, ao insulto e ao palavrão, como se não tivessem crianças por perto.

O futebol é um fenómeno de massas, mas o "fair play" que hoje se exige a todos os intervenientes diretos, tem de contaminar os adeptos nas bancadas e fora do estádio.

(texto publicado no jorna Açoriano Oriental de 4 setembro 2018)

Mais sobre mim

imagem de perfil

Visitantes

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D