Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Morte evitável

Este é o título que todos queremos ler, por ventura, pensando que algum investigador, num qualquer laboratório, descobriu a fórmula secreta da longevidade.

Desenganem-se, essa fórmula não existe e a mortalidade continuará a fazer parte do ciclo de vida, como condição humana, exigência de renovação das espécies, que faz o ecossistema funcionar.

Mas se não temos o elixir da longevidade, não faltam certezas científicas sobre as causas de morte que podem ser evitáveis. Como?

Tão simplesmente através da prevenção, dos estilos de vida, do acesso generalizado aos cuidados de saúde e da melhoria das condições de vida das populações.

E isso significa que está nas nossas mãos, e na forma como estiver organizado o sistema de saúde, evitar uma morte antecipada.

A este ponto da leitura, há ainda quem esteja cético, descrente, embrenhado no dramatismo dos números da covid19, fechado em casa à espera de uma vacina; esquecendo que, mais de 90% das mortes que ocorreram no mês passado não foram causadas pela pandemia. Pois é, estamos de tal maneira preocupados em não sermos contagiados pelo vírus, que nos esquecemos do muito que podemos fazer para evitar outras causas de morte.

De acordo com os resultados sobre o Estado de Saúde, publicados no primeiro, e até agora único, Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico (INSEF, 2017), somos a região do país onde se registavam as maiores percentagens de: homens que fumam diariamente (40,5% contra 28,3% - país); população com atividades sedentárias (53,4% contra 44,8% - país). Somos, ainda, a região portuguesa com menor percentagem de consumo diário, de frutas (70,9% contra 79,3% - país) e de vegetais e saladas (59,5% contra 70,9% - país).

Alguns dirão, mas o que tem isso a ver com mortalidade evitável? Tudo!

As doenças que mais matam na região são, sobretudo, as do aparelho circulatório, e tem causas evitáveis, como a obesidade ou mesmo a diabetes, cuja prevalência nos Açores está acima da média nacional. E, falar de obesidade ou diabetes é falar de estilos de vida, excessos alimentares, hábitos tabágicos ou sedentarismo.

Durante estes últimos meses, fomos bombardeados com o número de mortes por causa da Covid19, que nos faz sentir impotentes. Infelizmente as autoridades da Saúde não nos informaram quantos morreram, diariamente, de outras causas, evitáveis, contra as quais podemos lutar.

Só agora, com a vaga de calor a acontecer no continente português, a Direção Geral de Saúde alerta para a importância da proteção e hidratação, particularmente das pessoas idosas. Mas onde está a preocupação com as condições dos lares, em termos de ar condicionado e ambientes arejados?

E as outras mortes, evitáveis, de doentes crónicos que não tiveram consultas de vigilância, canceladas devido à Covid19, ou que interromperam práticas habituais de manutenção da sua saúde? Para não falar de todos aqueles que, ansiosos, agravaram a sua saúde física e mental, consumindo calorias em excesso, sentados no sofá, agarrados ao comando da televisão!

Importa agora recuperar a acessibilidade de todos aos serviços de saúde e tomar consciência que, não basta usar máscara ou desinfetar as mãos, temos de lutar contra as causas de morte evitáveis, optando por hábitos, que nos deem mais Vida!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental, de 23 Julho 2020)

Incerteza

Não há sentimento mais destrutivo do que a incerteza.

Apesar de fazer parte do processo decisório, quando estamos perante várias hipóteses, mais do que uma solução ou caminho, a incerteza torna-se num bloqueio, quando nos impede de fazer escolhas.

Escolher é decidir e assumir o risco de falhar.

Se, no passado, não tivessem havido pessoas que correram riscos, hoje, não teríamos muitas das empresas, algumas centenárias, que fazem a economia crescer; nem conheceríamos soluções tecnológicas, com que nos habituamos a viver, do telefone ao analgésico, da esferográfica à máquina de lavar roupa.

Para combater a incerteza, a dúvida, só mesmo o conhecimento esclarecido e objetivo e a capacidade para ponderar e medir os riscos de cada opção.

Nos tempos que correm, depois de vários meses à espera de um medicamento ou vacina que controlasse o vírus Sars-cov-2, os países e as regiões que atingiram maior controlo do contágio concluíram que, a melhor opção, era voltar a uma “nova normalidade”, mantendo regras básicas, como o distanciamento e as medidas de higiene.

Aos poucos, as populações recuperam a vida, talvez, ainda, não convencidas da solução, porque há quem diga que só ficaremos bem, quando existir essa vacina.

No entanto, todos reconhecemos que há um tempo limite para medidas, tão restritivas, como “ficar em casa”. Era preciso, foi preciso! Mas agora é fundamental dar espaço, para que as famílias respirem, as crianças voltem a brincar, os idosos possam ver os filhos e os netos.

Não podemos ganhar medo aos outros, particularmente aqueles que, neste contexto difícil, respondem ao convite dos media e decidem visitar a região.

Se tomamos a decisão de retomar as atividades económicas, as idas à praia, o desporto e tantas outras dimensões da vida em comunidade, respeitando, é certo, novas regras de convivência, o importante, agora, é consolidar o comportamento adequado, em espaço público.

Temos de reaprender, mas não duvidar.

Podemos não ter a certeza absoluta, como aliás nunca temos em nada que seja do domínio da investigação científica, como é o caso do conhecimento sobre este vírus e a forma mais eficaz de o combater. Não há “antiveneno”, como acontece nas picadas de insetos ou de víboras.

Temos de recuperar a confiança e deixar os terrenos da incerteza.

Mas, ouvem-se vozes: “cada avião que chega traz dezenas de novos contágios potenciais!”. “Estamos a facilitar”, dizem ainda, “não tarda muito, estaremos numa segunda vaga e, de novo, fechados em casa!”.

Temos de alimentar a força anímica. Perante os indicadores de aumento, do desemprego, da pobreza, da violência doméstica, das doenças crónicas não controladas, do número de problemas de saúde mental, que marcaram o tempo da quarentena, não há outra hipótese, se não: colocar a máscara, lavar as mãos e voltar à rua, abrir as portas das empresas, recuperar clientes e reinventar negócios.

Mais do que voltar aos números do antes Covid19, temos de nos reencontrar connosco próprios e voltar a acreditar que, juntos, estamos a fazer a escolha certa. Difícil! Ninguém duvida, mas necessária.

Escolhemos retomar, porque precisamos viver!

Não podemos desistir da vida. Mas, se continuarmos a alimentar a incerteza, iremos matar o que nos resta de vontade e esperança.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 3 julho 2020)

Pantufas ou Sapatilhas?

Como responde a esta pergunta?

Para alguns, ter ficado em casa durante quase quatro meses teve algumas vantagens. De calças de fato treino e de pantufas, até o teletrabalho foi facilitado. Por detrás de uma câmara de vídeo, só se vê o tronco!

Aos poucos, as outras rotinas, a prática de exercício físico e o convívio com os amigos foram canceladas.

Agora, que as restrições diminuíram, regressar a essas práticas exige, não apenas o cumprimento de regras sanitárias, mas sobretudo, o combate à inércia criada. Uma inércia que tem levado ao agravamento de outras patologias não vigiadas.

As pantufas são muito confortáveis e, para aqueles que ficaram em casa recebendo o vencimento, a vida acabou por ficar mais cómoda. Alguns, por ventura, até engordaram, com tantos lanches e outras pausas. Agora olham para as sapatilhas com um sentimento de desconforto e, dizem para si próprios, é perigoso, não vou arriscar uma caminhada ou regressar ao ginásio.

As pantufas podem ser perigosas, são o princípio da desistência, um travão à energia, um lugar de refúgio, o princípio do afastamento.

Claro que as regras impostas referem que devemos deixar os sapatos à entrada de casa, uma rotina que antes nos era estranha, mas que há muito é praticada em outros países.  Agora, vamo-nos habituando a calçar as pantufas logo que entramos em casa.

E isso faz toda a diferença! Depois, já não nos apetece sair de novo, calçar as sapatilhas e fazer algum exercício.

A síndrome da pantufa pode ser grave, porque a saúde não se consegue sem sol, ar puro, natureza! Precisamos de reforçar as defesas do organismo, se não queremos virar verdadeiras “flores de estufa”.

Calçar as sapatilhas significa enfrentar a vida com energia, reforçar essas defesas, sentir o corpo e lutar contra a inércia da desistência. Ouvir o coração bater mais acelerado e perceber os nossos limites, no esforço.

O Verão está aí e, seguindo as regras do distanciamento físico, podemos voltar à praia, aos locais de diversão, aos ginásios e à prática do desporto. E isso é fundamental, porque a nossa saúde assim o exige.

Não há melhor forma de lutar contra o risco de doença, do que reforçar as defesas do nosso corpo, escolhendo os alimentos que ingerimos, reforçando a atividade física e descansando o número de horas suficientes para recuperarmos do esforço despendido no trabalho e na vida diária.

Pantufas ou sapatilhas?

Ainda continua a optar pelas primeiras?

É uma tentação, há que reconhecer. Mas não será também um ato de desistência, supostamente, justificado pelo medo ou pelo receio de contágio?

O tempo que atravessamos ensinou-nos que os equilíbrios na vida são muito precários. A qualquer momento, tudo se transforma, tudo muda ou até pára. Em parte, porque raramente aprendemos com os erros. A exigência da higienização das mãos, particularmente à entrada dos hospitais, foi colocada por altura da epidemia da gripe H1N1. Que fizemos depois? Fomos relaxando, abandonando essa prática com a ideia de que “já não é preciso”.

Está na altura de percebermos que a nossa saúde depende de cada um de nós. Como qualquer outro investimento, se queremos ter um alto rendimento, temos de pensar nas escolhas diárias que fazemos e nas respostas que damos a perguntas como: Legumes ou batatas fritas? Doce ou fruta? Pantufas ou sapatilhas?

(texto publicado no Jornal Açoriano Oriental a 23 junho 2020)

Sorrir com os olhos

Só lhes vemos os olhos, tristes, alegres ou preocupados, e reparamos nas rugas, no sobrolho, mais ou menos fechado, ou até nas lágrimas que brilham no olhar.

Os rostos escondidos pelo uso das máscaras ficaram menos reconhecíveis.

“Desculpa, não te reconheci! - Bom dia!”

O fole do pano acompanha a pronúncia das palavras, mas esconde os sorrisos, os trejeitos da boca, até os gestos menos educados, como por a língua de fora! Ninguém vê!

No mercado, o vendedor reconhece uma vantagem nesta obrigação sanitária: os clientes já não têm a tentação de provar as uvas, petiscar nas cerejas ou provar antes de comprar! Já nas lojas de estética, o desalento é evidente: deixaram de se vender os batons, os cremes de maquilhagem, que dão às peles um ar bronzeado ou retocado. Agora, só mesmo os olhos requerem um cuidado especial.

A retrosaria não tem mãos (panos) a medir! Vendem-se metros de tecido e de elástico para confecionar máscaras, a combinar com a indumentária ou com a profissão. Máscaras em forma de bico de pato ou com fole, com “ventiladores” ou até com uma inserção de plástico, para que se possa visualizar a boca.

E esse é um dado importante.

Parecendo que não, parte da nossa comunicação passa pela leitura labial, sobretudo, quando o outro fala numa língua diferente. Somos levados a olhar o movimento dos lábios para melhor entender. Para além disso, é mais do que evidente que o uso das máscaras reduz o volume da voz, cria uma barreira ao entendimento, particularmente quando alguém pretende segredar ou falar, sem que outros o entendam.

Não está sendo fácil comunicar sem poder recorrer aos movimentos da boca, sem conseguir vislumbrar se, quem nos ouve, está ou não de acordo com a nossa opinião. Falta-nos uma parte importante do rosto.

Esta situação permite-nos avaliar como, nas culturas onde as mulheres são obrigadas a cobrir o rosto, isso restringe a liberdade feminina em termos de expressão no espaço público. A liberdade de falar, não se reduz à expressão do pensamento por palavras, mas implica o recurso à linguagem não verbal.

Resta-nos os olhos para podermos sorrir! Brilhantes ou baços, mais ou menos fechados, mais ou menos descaídos por força da pressão exercida pelas sobrancelhas.

Resta-nos a alegria interior ou o desespero!

Mas, dirão alguns, está em causa a segurança, a saúde!

Não sabemos é se a forma como utilizamos esse EPI (equipamento de proteção individual) será muito saudável!? Desde logo, porque só devemos usar máscara, no máximo durante quatro horas, já que isso nos obriga a sentir o odor do nosso corpo e a respirar o anidrido carbono que dele emana.

Para além disso, apesar de conscientes dos motivos que nos obrigam a este sacrifício, nem sempre estamos certos da sua eficácia, porque muitos de nós falham no protocolo a seguir quanto ao bom uso da máscara: não tocar com as mãos, descartar pelos elásticos, deitar fora diariamente as de papel, higienizar a 60 graus as de pano!

Com máscara ou não, precisamos de reforçar a nossa segurança interior e combater o medo, a dúvida e, se calhar, a inércia que muitos ganharam com a quarentena. A pior sequela desta pandemia pode ser o medo. E, um povo sem força anímica, nunca mais recupera!

A vida está aí, à nossa espera, lá fora!

Com força interior, vamos sorrir mais com os olhos!

Texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 9 de junho 2020

(Des)confinar

Estivemos, ou ainda estamos, em confinamento físico e, para muitos, psicológico e social.

Confinados ao espaço da casa ou de um quarto de hotel. Limitados, desterrados, enclausurados, é como estamos! E, se o verbo confinar significa definir um limite que confronta com outro, na situação presente, o confinamento representa um limite que nos separa dos outros.

Mas, agora que a pandemia parece ter sido controlada, urge (des)confinar, retirar as pessoas do isolamento forçado. É uma questão de saúde mental. O ser humano adapta-se, é um facto, mas também age em função de uma razão, um motivo, que até agora foi não ser contagiado ou não contagiar outros.

As notícias sobre o controlo da pandemia na Região Autónoma Açores são positivas, mas provocam um duplo efeito. Por um lado, de alívio, em relação à situação de emergência que se iniciou numa fatídica sexta-feira 13 (março). Por outro, atenuam as razões que levaram ao isolamento total.  Claro que isso não significa o abandono das boas práticas preventivas, como a higiene das mãos e dos espaços, o uso de máscaras e o distanciamento em espaços públicos. Esta nova forma de estar vai fazer parte do nosso quotidiano, durante alguns meses. Disso não tenhamos dúvidas.

Vamos ter de conviver com a presença do Covid19, porque ele não se foi embora e a vacina está longe de ser uma realidade.

Como desconfinar? A que ritmo devemos voltar para esse “novo normal”?

Por ventura, foi mais fácil fechar tudo e todos, do que agora abrir ou reabrir comércios, serviços; voltar a fazer jantares de família ou conversar com os amigos num serão de sexta-feira. Mas é preciso! Pela nossa saúde mental.

Muito se tem dito a propósito do binómio Saúde-Economia.

E talvez nesse domínio, muitas mudanças serão necessárias. Será que não pusemos demasiados ovos debaixo da galinha do turismo, levados pelo sucesso do alojamento local, das rent-a-car ou dos negócios de esquina, subsidiados?

Como é que, agora, vamos recuperar a dinâmica criada no setor do turismo? A região tem publicitado que os “AZORES IS TAKING A BREAK” (Os Açores estão em pausa). Até quando? Até existir uma vacina? E como se irá vender um destino que, entretanto, obriga o turista a pagar 14 dias de isolamento num hotel, logo que chegue à Região, sabendo-se que a média das estadias nos Açores é de 5 dias? Não seria mais ajuizado, testar esse visitante à chegada?

E o que acontece aos filhos dos residentes, que tendo perdido a residência fiscal na Região, pretendem visitar a família, seja por que motivo for? Também vão pagar 14 dias de quarentena num hotel, quando há açorianos em “vigilância ativa” nos seus domicílios?

Dizem-nos que é preciso estar preparado para um eventual novo surto Covid. Mas a incerteza não pode destruir a capacidade colaborativa dos cidadãos, que anseiam por regressar ao “novo normal”, dispostos a usar máscaras e a desinfetar as mãos.

Todos temos de participar nesta luta e, para isso, não basta aceitar, mas crer nos motivos que justificam as exigências impostas pelas autoridades sanitárias, sob pena de estas não serem cumpridas, comprometendo o esforço, que fizemos até agora.

É preciso (des)confinar, para que se atravessem as pontes da comunicação, se reforce a solidariedade com os que mais perderam e se possa apoiar, efetivamente, os mais velhos, os mais frágeis, não apenas com bens, mas com palavras e gestos de ternura.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 13 maio 2020)

Desencafuar

Nestes dias de confinamento, há tempo para abrir armários, que precisam de arrumação; gavetas onde se guardaram aqueles papeis que exigem uma atenção maior, mas para os quais nunca houve tempo.

Acumulamos tantas inutilidades, objetos sem préstimo, mas que, na hora de deitar fora, nos fizeram pensar, “isto ainda vai dar jeito, pode vir a ser útil, talvez consiga reparar”. O tempo foi passando e o relógio foi substituído, a caneta secou, a roupa deixou de servir ou perdeu cor.

Ficar em casa proporciona um reencontro com o passado, acumulado em gavetas, caixas de roupa, armários onde se foi encafuando o que, talvez um dia, viesse a ser necessário!

Mas, essa vida encafuada, passou à história.

Desencafuar é um ótimo exercício para relembrar, recuperar, reciclar e reutilizar ou, simplesmente deitar fora. O verbo resulta da negação de “encafuar”, que significa meter-se numa cafua, num buraco, esconder. Logo, desencafuar é desocultar.

A vida encafuada está oculta, escondida, acumulando pó. Quando fazemos o exercício de a libertar, damos conta do muito que guardamos, encafuamos, e afinal não era essencial, ao ponto de ficar esquecido; Já nem me lembrava disto? E fui eu comprar outro! Afinal, esta blusa ainda me serve! E quantos cadernos começados que não foram utilizados até à última página! Pois, mas sempre que começava o ano letivo, os filhos pediam novos cadernos com as capas da moda! No fundo do armário foram ficando cadernos encetados!

Desencafuar a vida é libertarmo-nos de excessos, dessa necessidade de comprar, quantas vezes à procura de um prazer instantâneo que, supostamente, a posse de um bem desejado deveria proporcionar. Por impulso, acabamos por juntar tralha, que agora jaz no fundo do armário, acumulada na gaveta, há muito por arrumar.

Aproveitemos este tempo! Já que temos de ficar em casa, é hora de abrir aquele armário alto para onde foi parar o que não tinha destino. E porque não, começar a separar o essencial do desperdício, deitar fora o que não serve e nunca terá reparação e aproveitar o que ainda está em condições e ficou esquecido?

Desencafuar é mais do que uma reorganização do espaço, pode mesmo ser um arrumar da mente! Quando revemos as nossas vidas passadas, inscritas em tantos objetos, podemos reencontrar os fios que tecem o presente e que fazem sentido no futuro. Se desencafuar significa desocultar, então este é um exercício que pode libertar a mente do que, por medo, preguiça ou dúvida, foi posto de lado. “Eu vou tratar disso, um dia, mas não hoje!!!”

Nestes tempos de confinamento, talvez seja hoje o dia! Por em ordem os papeis, dar um destino às roupas que não se usam há mais de um ano, deitar fora objetos partidos, que nunca terão reparação, até porque já foram substituídos.

Aproveitemos, estarmos todos em casa, para cada um encontrar o seu “essencial”. Vamos precisar disso para os tempos que aí vêm. Temos de aprender com este presente, a rever, no passado, o que não queremos para o futuro.

Se continuarmos a encafuar vamos estar, de novo, a nos esconder da vida, por detrás de objetos, de tralha acumulada! E há tanto para fazer e sentir, que agora nos faz falta. Precisamos de tocar a vida, sentir o gosto do mar e o sabor de uma boa conversa!

É hora de (Des)encafuar o que, inutilmente, guardamos.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 28 abril 2020)

Fazem falta os abraços

Atravessamos ou estamos a ser atravessados por uma pandemia!

O grande risco desta situação, que deverá prolongar-se mais do que gostaríamos, é o de perdermos o ânimo e, vencida a pandemia, passarmos a sofrer de “empedernia” nas atividades económicas ou culturais e, sobretudo, nas relações.

Estamos todos carentes de abraços e beijos, mas será que mais tarde os vamos dar?

Não iremos ficar presos ao medo do contágio, aumentando as distâncias e evitando o contacto das mãos!

Os nossos corações sofrem porque, emocionalmente, não estamos preparados para ficar isolados, uns dos outros, do mundo e da natureza. Precisamos disso para nos sentirmos vivos! Mais do que nunca, fica provado que o ser humano é, por natureza, relacional, como sempre o disseram as ciências sociais.

Não fomos feitos para viver por detrás de máscaras ou fatos de proteção. No nosso imaginário, apenas quando se vai à lua ou a marte e se abandona o planeta, aí sim, há necessidade dessas proteções.

Aprendemos a ser gente, cheirando, tocando e sentindo. Aprendemos a nos conhecer e a conhecer os outros partilhando experiências, trocando presentes e comendo à mesma mesa, nalgumas culturas, partilhando o mesmo prato.

Não fomos feitos para desconfiar de tudo e de todos.

E, reconhecendo ser essa a nossa única defesa, perante um vírus que ninguém ainda conhece totalmente, o certo é que nos tornamos mais desconfiados, olhando o outro à distância, sem saber se dele não virá a doença!

Até as nossas mãos reclamam de tanta vez irem à torneira e serem esfregadas com sabão durante 20 segundos. A pele começa a ceder, mas o medo de não estar limpo sobrepõe-se e impera a necessidade de higienizar as mãos após todos os contatos.

À porta da farmácia um letreiro: não há álcool, máscaras, luvas e Vitamina C.

Parece que alguns acordaram para o deficit de vitamina C mas, em vez de comprarem laranjas, limões ou kiwis, preferem umas pastilhas efervescentes num copo de água.

Acordemos! Este é um tempo de alerta para a forma como nos protegemos através do que comemos! Não é mais caro, certamente que não, espremer e beber o sumo de duas laranjas! É mais eficaz e faz-nos reencontrar os cheiros e os sabores da natureza.

Acordemos! Este é o tempo para nos ligarmos a quem mais amamos, por vídeo ou pelo telefone, mas também pode ser por carta. Temos de falar, uns com os outros, partilhar pequenos acontecimentos, que vão pontuando as nossas vidas caseiras.

Por exemplo, hoje fiz uma experiência! Resolvi juntar a água de cozer beterrabas numa gelatina de frutos vermelhos! Porque reciclar é preciso e nada deveria ir para o lixo, quando carrega nutrientes importantes, como acontece com a água de cozer os legumes.

Este é o tempo para descobrir, nas pequenas coisas, que a vida pode ter mais sabor.

Um tempo para reorganizar a casa, arrumar gavetas e reencontrarmo-nos com a nossa própria história, presente em tantas coisas guardadas, algumas desnecessárias, sobretudo agora, quando o mais importante é sobreviver com saúde e voltar a conviver em comunidade.

Agarremo-nos ao que é mesmo essencial, os afetos, a fé e a força da solidariedade, para que, depois da pandemia, os nossos corações não fiquem empedernidos, incapazes de reagir, emocionalmente desgastados e com medo do contacto social.

Como fazem falta os abraços!

(Texto publicado, a 31 março no jornal Açoriano Oriental)

 

 

Limiar da pobreza

Nos Açores, um terço dos habitantes vive abaixo do limiar da pobreza. Um critério económico, baseado em 60% do rendimento mediano que, em 2017, equivalia a 5610 euros/ano em Portugal ou a 4510 euros se considerarmos, apenas, a Região Autónoma dos Açores.

Estamos perante um critério baseado na riqueza produzida por todos aqueles que trabalham, investem e consomem que, nos últimos anos, tem aumentado.

Mas, se a riqueza aumenta, como se explica o aumento do número daqueles que vivem abaixo do limiar da pobreza?

Contraditório, é certo, por ventura porque não existe um indicador económico que defina quando alguém ultrapassou o limiar da riqueza máxima.

Enquanto isso, os dados mostram-nos uma região desigual, onde os rendimentos estão concentrados e desigualmente distribuídos.

E essa é a razão, a causa, de muitas outras desigualdades, seja na educação, na saúde ou no acesso ao mercado de emprego.

De um lado, estão os que conhecemos, iguais nas condições de vida, com quem privamos no trabalho, na rua ou na vida comunitária. Do outro, todos os outros. Aqueles que empurramos para bairros periféricos, empregos precários, apoios materiais de ocasião, rótulos e estigmas.

Arrumamos a casa, separamos em gavetas o que queremos, do que não nos interessa. E, desta forma, sentimo-nos bem dentro deste contexto de aparente normalidade e sucesso.

Quando desviamos os holofotes deste círculo, retiramos da sombra, os que, supostamente, não produzem ou tem trabalhos precários e mal pagos; os que não reclamam e os que falharam o pagamento da renda, porque trabalham por um salário abaixo do mínimo; vivem longe dos centros urbanos e carregam diariamente dificuldades, tentando sobreviver e assegurar o bem-estar dos filhos.

Tudo fica tão diferente, quando o holofote se desvia do centro e aponta as periferias da nossa existência, mostrando os que vivem nas margens desta sociedade instalada, comodista, que descarta os problemas, engavetando e arquivando processos de difícil solução.

Como lidar com estas duas forças contrárias, a dos que desejam participar, mas que desistiram de lutar, e a pressão dos que vivem instalados e não querem ser incomodados?

Só há uma forma, reconhecendo que somos uma sociedade desigual. Desigual, porque as empresas preferem ignorar as dificuldades dos seus trabalhadores que, por exemplo, faltam por não terem quem cuide dos filhos doentes. Desigual, porque as escolas esperam que os alunos adiram a programas de recuperação, apesar do contexto familiar adverso em que vivem. Desigual, porque mulheres e homens não partilham a carga de trabalhos que a vida familiar implica, no cuidado aos mais novos ou aos mais velhos.

Quando formos capazes de reconhecer estas e outras desigualdades e tomarmos consciência de que, cada um, na família a que pertence, na empresa onde trabalha ou na rua onde mora, pode fazer a diferença, então, a inclusão das periferias poderá acontecer e, os outros, todos esses que estavam na sombra, passarão a ser ouvidos.

Cairão as máscaras, os vernizes, que escondem a realidade dos números e dos problemas, que não queremos que os outros vejam. E, a indiferença, consentida, dará lugar à intervenção, à cooperação e à solidariedade.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 21 janeiro 2020)

 

o bebé do ano

O ano acabou de nascer e, como é habitual, o telejornal noticiou o primeiro nascimento nas maternidades portuguesas, o primeiro bebé de 2020.

Portugal bem precisa de nascimentos. Em 2018 fomos o quarto país com a taxa de natalidade mais baixa da Europa. É certo que, nesse ano, registou-se uma aparente recuperação da natalidade, mas o número de nados-vivos por mulher em idade fértil não ultrapassou 1.41, longe dos 2.1 que garantem a substituição das gerações.

Nascem cada vez menos crianças, de mulheres cada vez mais velhas (entre 30 e 39 anos), ativas e, na maioria dos casos, vivendo em coabitação com o pai dos filhos (em 55,9% dos nascimentos).

Um filho deixou de ser uma fatalidade da natureza e é hoje uma escolha, um projeto familiar. Um projeto que, muito raramente, ultrapassa os dois filhos por mulher.

Porque não nascem mais crianças?

Há razões que explicam esta baixa fecundidade. Desde logo, o recurso a uma contraceção eficaz e a prática do planeamento familiar. Por outro lado, a alteração do papel social da mulher, cada vez menos doméstica e mais empenhada numa atividade profissional a tempo inteiro. Aliado a esses factos, na sociedade atual, a criança é alguém com direitos, que exige condições de vida e segurança. Por isso, a gravidez é pensada, planeada e até avaliada previamente, nos seus prós e contras.  Um filho altera os planos dos pais, quando estes querem conviver com amigos, viajar ou sair para se divertirem. Pode até condicionar a carreira e levar à recusa de novos desafios profissionais, incompatíveis com a responsabilidade de cuidar de alguém, a tempo inteiro.

Hoje, mais do que ontem, importa conciliar as vidas pessoais, profissionais e as necessidades da criança, particularmente nos primeiros anos. Outrora, muitas mães eram domésticas, cuidavam dos filhos a tempo inteiro. Hoje, a maioria trabalha fora de casa e nem sempre conta com o suporte familiar.

Infelizmente, do lado dos pais, homens, muitos continuam a viver no passado, dependentes de uma mulher que cuide da casa, das crianças, tenha ela ou não uma carreira profissional. Por isso, cedo surge, nas jovens mães, o cansaço e a frustração por não conseguirem tempo ou espaço para si, nem que seja para caminhar devagar, olhando as vitrines das lojas, quando regressam do trabalho a casa. A pressa de ir buscar o filho à creche, os horários, as obrigações espreitam a todo o instante. As necessidades da criança, as idas ao médico, as noites mal dormidas, acabam por desgastar a saúde da mulher e a qualidade da relação conjugal.

Ser pai ou mãe é muito mais do que ter um filho! É, ou devia ser sempre, um projeto planeado e partilhado a dois. Não se trata, apenas, de somar mais um elemento à família.

Um filho cria uma nova geometria na vida dos pais. Enquanto aprendem a cuidar, (re)descobrem o mundo através do olhar e do sentir dos mais novos.

O país e particularmente a Região Autónoma dos Açores precisam de crianças, mas acima e antes de mais, precisam de pais e de mães jovens, capazes de acolher as futuras gerações. Sem crianças as regiões envelhecem.

Por isso, há que criar condições (emprego, oportunidades, serviços de apoio parental) que cativem os casais jovens a escolher o nosso país e a nossa região para viver.

(texto publicado a 7 janeiro 2020, no jornal Açoriano Oriental)

Carta ao Menino Jesus

Meu Menino Jesus, imagino o teu espanto quando, deitado nas tuas palhinhas, vês as crianças preocupadas apenas com as prendas que rodeiam a árvore, onde brilham milhares de lâmpadas, sem sequer olharem para ti. Não conhecem a tua história, ninguém lhes disse que este é o teu aniversário e que estás deitado na manjedoura de um abrigo de pastores, porque ninguém quis dar guarida à tua mãe, quando chegou a hora de nasceres.

Acabaste por vir ao mundo num estábulo, ajudado pelo pai José e aquecido por uma vaca e o burro, que ali descansavam. Este acontecimento, retratado no presépio, revela como o Amor só encontra espaço na simplicidade e humildade, e sempre que nos despojamos de supérfluos ou adereços de circunstância.

Na tradição do nosso povo açoriano sempre tiveste o lugar central. Em muitas das nossas casas há quem ainda te faça um altar, decorado com as frutas da época, laranjas e tangerinas. Mais frequente é teres, à tua volta, pratinhos com ervilhaca e trigo, que trazem ao presépio uma vida verdejante. Assim se repete um gesto do passado, quando a terra era fonte de sobrevivência e, desta forma, se esperava que protegesses as culturas do ano seguinte.

Tu, Menino Jesus, és o mais importante desta festa, por isso, era de ti que se dizia que vinham as prendas, e era a ti que se pediam desejos. Mas foste rapidamente ultrapassado por uma figura vinda do mundo comercial, um velhinho de barbas brancas que, supostamente, fabrica brinquedos num lugar de fantasia e entra pelas chaminés, para encher a vida das crianças com objetos.

Mas voltemos ao lugar que sempre ocupaste nas famílias açorianas. Ficarás espantado com a pergunta, "o Menino mija?", mas é assim que os visitantes, familiares, amigos ou vizinhos, questionam o dono da casa, esperando provar os licores e as iguarias que, habitualmente, são postas na mesa durante esta quadra.

Este é um tempo bom, saboroso e quente, porque apetece estar com quem amamos e sentimos pena dos que não o podem fazer.

Nestes dias, dói saber que há famílias divididas, pais que não aceitam os filhos com dificuldades, porque tem uma orientação sexual diferente, estão presos a dependências ou desorientados na vida.

Nestes dias ficamos mais emotivos e gostaríamos de acabar com todas as dificuldades, sobretudo, as que afligem os mais pobres. Mas sabemos que essa emoção tem muito de "peso de consciência". Quem vive na pobreza não fica melhor por lhe darmos um cabaz ou uma qualquer esmola. No dia seguinte as agruras estão lá e até mais duras, porque tiveram a oportunidade de saborear um pouco de fartura.

Menino Jesus, seria bom poder tornar tudo mais fácil, libertar as pessoas do individualismo, que isola as famílias dentro de casas iluminadas, onde não há presépios.

Por isso, neste Natal, gostava que as crianças olhassem para ti e descobrissem a fraternidade, antes da competitividade; os pais vissem o presépio como exemplo de simplicidade, e o mundo, mesmo aquele que não acredita na tua mensagem, reconhecesse na Paz, a única plataforma de diálogo.

Menino Jesus, obrigada por (re)nasceres todos os anos e alimentares a esperança de que podemos fazer e ser diferentes, depois do Natal!

(texto publicado no Jornal Açoriano Oriental a 24 dez. 2019)

Mais sobre mim

imagem de perfil

Visitantes

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D