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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Zapping, uma qualidade feminina

 

As mulheres tem uma qualidade que as diferencia de muitos homens.

Não se trata de genética ou de personalidade, mas de uma capacidade que a exigência do quotidiano acabou por desenvolver em muitas mulheres: fazer zapping entre várias tarefas, algumas realizadas quase em simultâneo.

O dia de trabalho foi longo, as crianças já estão em casa, mas o tempo para apoiar nos trabalhos de casa é curto. Então, a mesa da cozinha transforma-se num espaço multifacetado. Enquanto se prepara os legumes da sopa, ajuda-se a filha nas contas e soletram-se palavras ao filho preocupado com uma Redação sobre "a castanha". No entretanto, a água já ferve na panela e, sem perder a atenção às dúvidas que vão sendo colocadas pelos filhos, aproveita-se para encher a máquina com roupa. Este "corridinho" doméstico é interrompido quando os dois irmãos se desentendem por causa de uma borracha e a mesa da cozinha está quase a tornar-se num campo de batalha.

Segue-se o banho, a arrumação do quarto, preparar a roupa do dia seguinte e assegurar que as mochilas ficam prontas, para que ninguém se atrase, quando for para sair de casa.

Finalmente, o pai chegou e é hora de jantar. Cada um pode contar o dia, as dificuldades ou os sucessos, mas nem sempre há espaço para ficar à mesa, sem preocupações, deixando a conversa fluir. São horas de deitar as crianças, aconchegar os lençóis e contar a história do costume, para logo a seguir estender a roupa, que entretanto já está lavada.

Cansada, a mulher atira-se para o sofá, incapaz de ver a série que tanto gosta sem adormecer, enquanto o marido se instala na poltrona para ouvir as últimas do futebol.

Esta é uma caricatura, uma ficção do que acontece em algumas casas, quando as tarefas do quotidiano são protagonizadas pelas mães, mulheres de sete braços que chegam a tudo em pouco tempo, mantendo uma organização onde a simultaneidade ou a sobreposição parecem a única forma de dar conta dos recados.

No final, resta pouco para si, fica uma nesga de tempo para olhar o espelho e ainda cuidar da pele, antes de adormecer.

A divisão desigual das tarefas domésticas não é um mito. Antes fosse!

É uma realidade quotidiana, na maioria das vezes incorporada nos gestos diários de forma naturalizada, espectável. De outra maneira, "não daria certo", dizem as próprias mulheres e, acrescentam os maridos, "elas são muito melhores a fazer isso".

A questão é que este desgaste diário acaba por pesar na autoestima e tem impacto na vida pessoal e profissional de muitas destas mulheres que, incapazes de por em causa o mundo da família, sempre em primeiro plano, abdicam de oportunidades profissionais, desinvestem na carreira e vão adiando projetos pessoais.

Os tempos atuais, as novas famílias que nascem num contexto de duplo emprego, não são compatíveis com esta desigual partilha das responsabilidades domésticas, mesmo que pareça mais fácil às mulheres, porque sempre foi esse o modelo de referencia, saltitar entre obrigações, como quem faz zapping entre canais de televisão.

Não basta que haja mais mulheres no espaço público, seja no trabalho ou na política, é preciso mais participação dos homens no mundo doméstico.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 13 Novembro 2018)

Duas vezes somos crianças

Nada mais errado do que dizer, "duas vezes somos crianças".

Com base nesta ideia, não se reconhecem capacidades na fase mais avançada da vida e ocupam-se as pessoas mais velhas com atividades de criança: colorir desenhos, recortar formas ou, simplesmente, ficam esquecidas/adormecidas diante de um televisor ligado.

A velhice não é uma segunda infância. É um tempo onde o envelhecimento se manifesta de forma mais evidente, nas perdas auditivas, visuais ou de mobilidade. Mas, nenhuma dessas alterações compromete as memórias, a vontade de viver ou a capacidade cognitiva ou artística.

Cada vez há mais pessoas que chegam a idades mais avançadas. E se pensarmos no futuro, a população portuguesa será ainda mais grisalha, a fazer fé nos números da natalidade e no aumento da esperança média de vida. Chegar aos setenta ou aos oitenta deixou de ser uma "sorte", para passar a desígnio de muitos. Por isso, as instituições, os serviços, que cuidam e atendem pessoas mais velhas, precisam de "reciclar" o conceito de velhice e o modo como, muitas vezes, atendem as pessoas mais velhas.

Parece anedota, mas acontece ouvir um empregado num comércio falar mais devagar com um idoso, como se ele não entendesse português ou tivesse dificuldade em acompanhar um discurso normal. Em outras ocasiões, aumenta-se deliberadamente o tom de voz, pressupondo que, se alguém tem mais de 65 anos, já deve ser surdo, esquecendo que muitas dessas pessoas utilizam aparelhos auditivos.

A velhice é cada vez menos um tempo para ser desperdiçado ou mal utilizado. Afinal, se a esperança média de vida, atual, prevê mais 15 anos após a idade da reforma, então há muito tempo para ocupar em novas experiências, manter-se autónomo e realizar sonhos, tantas vezes adiados.

Os idosos gostam de ser a retaguarda dos filhos, quando cuidam dos netos. Mas há que respeitar os seus tempos, as atividades que lhes dão prazer, e não comprometer essa "agenda" com demasiadas obrigações. Afinal, os anos passam a correr e pode acontecer que os últimos até não sejam os melhores, em termos de saúde. Por isso, é importante concretizar projetos, quando ainda se sente forças, vontade e se tem os recursos adequados para tal.

Fazer projetos? Dirão alguns, é coisa de jovens, de quem, supostamente, tem a vida toda pela frente. Não é verdade.

Um projeto não precisa de ser de grande monta; acabar aquela toalha bordada ou organizar a coleção de selos; ler os livros que ficaram na estante ou limpar os canteiros do jardim. Tudo pode ser um projeto. Fazer uma caminhada ou nadar trinta minutos, visitar um amigo ou ir ao cabeleireiro.

A vida só faz sentido quando vivemos cada momento, com significado.

Os mais velhos não perderam esse sentido, antes pelo contrário. Agora que percorrem a última etapa da vida, olham para o caminho com serenidade, recolhem a sabedoria acumulada e, só não a partilham, quando são tratados como crianças ou excluídos das decisões coletivas, supostamente, porque não lhes interessa a atualidade.

Mesmo que voltem às papas, por faltarem os dentes; às fraldas, por estarem incontinentes ou às letras aumentadas, porque a vista não ajuda, nada disso define a velhice.

Apenas o tempo, o saber e o percurso vivido importa.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental a 30 outubro 2018)

Era uma vez...

Assim começa a maioria das histórias infantis! Era uma vez um príncipe, que vivia num grande palácio! Uma pastora, que guardava rebanhos!

Quase todas as histórias para crianças narram situações fantasiadas mas, por serem transmitidas de geração em geração, ganham um lugar de referencia no imaginário coletivo: a Branca de Neve, a Cinderela ou o João Ratão, são figuras que fazem parte desse imaginário, partilhado por crianças e adultos.

Não são apenas personagens que ganham vida no Carnaval, há mensagens e valores em cada uma das histórias, de onde são retiradas. Algumas narrativas reforçam valores de submissão e obediência, outras destacam a coragem e a bravura, outras, ainda, são verdadeiros ensinamentos sobre prevenção e atenção aos burlões e aos riscos que todos os dias corremos.

Sem dúvida que existe um substrato cristão em muitas dessas fábulas. Mas, também são verdadeiras lições sobre direitos humanos e valores éticos que, sendo de raiz cristã, estruturam a nossa a cidadania atual e enformam a cultura em que vivemos.

Veja-se o exemplo da frase, sobejamente utilizada, do "lobo que veste a pele de cordeiro". Esta frase, inspirada no evangelho de Mateus, «Cuidado com os falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores» (Mateus 7:15), deveria ser repetida mil vezes, nestes dias que faltam até às eleições do próximo presidente do Brasil. Ainda há brasileiros que não veem o "lobo" debaixo da "pele de cordeiro" do discurso do candidato Jair Bolsonaro. Vivem na ilusão que o futuro não será homofóbico, xenófobo, racista e misógino, atitudes já manifestadas por este candidato, em outras ocasiões.

Mas voltemos ao papel das histórias infantis, cuja função está muito para além do entretenimento das crianças. Contadas pelos pais, na hora de adormecer ou em contraponto aos jogos virtuais que as isolam do convívio familiar, podem ser verdadeiros momentos de aprendizagem de valores.

Cada história infantil, particularmente aquelas que nos ensinaram quando éramos pequenos, serve para questionar atitudes e comportamentos, descobrir valores ou contestar falsas moralidades.

As histórias tradicionais são um importante meio de comunicação entre adultos e crianças e não deveriam ser esquecidas, por vivermos no tempo dos "tablets" ou dos canais de televisão especializados.

Retomando a história do "lobo com pele de cordeiro", ao contar como o lobo se infiltrou no rebanho, fazendo-se passar por cordeiro, os pais tem a oportunidade de ensinar o que é a confiança, a integridade e a honestidade. O lobo tinha outra intensão, que escondeu para enganar o pastor. E esta procura da verdade, do que cada um de nós quer ser perante os outros, é um exercício fundamental para a formação cívica das novas gerações.

A educação é um processo complexo de aprendizagens que interliga os mundos familiar e escolar, os modelos parentais e tantas outras referencias. Mas, no essencial, a criança vai descobrindo as traves mestras do ser humano, também nas histórias, tantas vezes recontadas pelo pai ou pela mãe, ou até pelos avós, aconchegados no sofá da sala ou sentados na beira da cama.

Era uma vez...

 (texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 16 de outubro 2018)

Uma justiça injusta

No passado dia 21 de setembro o tribunal do Porto ilibou dois indivíduos acusados de violação de uma jovem de 26 anos, que ocorreu nos sanitários de uma discoteca em 2016, alegando ter havido "sedução mútua", apesar de o texto do acórdão referir que os arguidos estavam cientes do estado de inconsciência da vítima.

A conclusão a que chegaram os juízes foi de não existir ilícito elevado por não terem ocorrido danos físicos, nem violência, uma vez que, estando inconsciente, a vítima não reagiu às agressões. Nas palavras da Secretária Geral da Associação dos Juízes " Quando não se demonstra a existência de violência, não podemos entrar no crime de violação."

Como pode haver sedução quando alguém está inconsciente? O que se entende por violência? Brutalidade!? Força física!? E, violentar sexualmente alguém inconsciente, só porque não ofereceu resistência, não é violação?

Os argumentos utilizados neste acórdão revelam um país que ainda não saiu, totalmente, da visão retrógrada de que à mulher cabe servir o homem, mesmo contra vontade.

Neste caso, a situação agrava-se por se tratar de um estabelecimento noturno, onde as mulheres são "isco" para atrair clientes masculinos e o assédio ou o abuso sexual são naturalizados, espectáveis. Cabe às mulheres, sobretudo as mais jovens, que frequentam esses espaços, moderar os seus consumos, se querem manter a sua respeitabilidade e feminilidade.

No que toca aos homens, os excessos de linguagem, de consumo e de comportamento são permitidos e até estimulados. Esta é uma das conclusões do estudo que está a ser realizado pela socióloga Cristiana Pires (Univ. de Coimbra). Às raparigas exige-se que se auto-protejam, evitem andar sozinhas, não consumam em excesso, nem usem roupa que possa ser considerada mais provocante porque, se algo lhes acontecer, serão rapidamente consideradas como as únicas ou principais responsáveis.

No espaço noturno, como refere a autora, o bar é dos homens, a pista de dança, das mulheres.

A vida noturna, à luz destes padrões de comportamento, reflete uma sociedade desigual. No entanto, este duplo padrão moral, do que se aceita para o homem e não se aceita para a mulher, não pode ser transposto para os tribunais.

O discurso dos magistrados, mesmo que dificilmente seja neutro, não pode por em causa direitos de cidadania, direitos humanos, respeito pela dignidade. A função de um juiz é defender quem é vítima de crimes, em particular, quando estes refletem abuso e dominação de pessoas em situação de vulnerabilidade, como foi o caso da violação da jovem inconsciente numa discoteca do Porto.

A justiça tem de pautar-se pela defesa dos direitos de todos, independentemente do sexo, da condição ou da situação.

Infelizmente o acórdão do tribunal do Porto é mais um, entre muitos outros, que reproduz desigualdade de tratamento de homens e mulheres perante a lei.

A confiança nos tribunais exige que estes atuem com justiça, defendam quem é vítima e saibam punir quem desrespeita os direitos humanos.

De cada vez que um juiz iliba um agressor, a confiança na Justiça fica mais débil e aumenta o receio de denunciar.

Uma sociedade que tem medo de denunciar é uma sociedade injusta.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 2 Outubro 2018)

Começou um novo ano escolar

O primeiro dia de aulas traz sempre um misto de nervosismo e alegria, vontade de descobrir e aprender misturada com saudade das férias. Na mochila pesam os livros novos e os cadernos por estrear. Felizmente para alguns, agora, são gratuitos. E ainda bem, deveria ser para todos!

Quase todos os anos, por esta altura, o custo dos livros escolares é motivo de notícia.

Sem por em causa as reais dificuldades de algumas famílias, esta reação dos pais perante o preço dos manuais reflete alguma resistência das famílias em investir na educação. Nunca se ouviu alguém reclamar do custo do televisor que comprou para ver jogos do mundial de futebol.

Quando se trata da educação escolar, mais facilmente se nivela por baixo.

E, em parte, esta atitude explica o facto de, em 2017, 70% da população açoriana com mais de 15 anos não tinha atingido o ensino secundário e 28% dos jovens entre 18 e 24 anos estavam fora da escola, sem terem cumprido a escolaridade obrigatória. Apesar da diminuição significativa que se verificou nos Açores entre 2011 (40%) e 2017 (28%), há ainda demasiados jovens a abandonarem a escola, sobretudo rapazes.

Nem sempre quem abandona a escola o faz por ter insucesso ou incapacidade para aprender. Nessa decisão, pesam mais a pressão familiar e a ilusão de que, um emprego, mesmo que precário, trará autonomia e sentido de responsabilidade.

No entanto, está mais do que provado que, um baixo nível escolar significa um salário médio mais baixo e um risco acrescido de ficar no desemprego.

Mas, estudar não é apenas ter acesso a um mercado de emprego qualificado. Significa, também, colocar a si próprio desafios, metas. Neste sentido, alcançar um diploma transforma-se numa razão para investir e ter gosto em saber mais sobre uma determinada área de conhecimento. Para além disso, estudar favorece uma maior capacidade de autorreflexão; sobre medos, competências, relação com os outros e capacidade de trabalho e cooperação.

Cada vez mais, os estabelecimentos de ensino estão longe de ser lugares de memorização de conhecimentos. Proporcionam um tempo de descoberta e, no caso das universidades, transformam os jovens em adultos, reforçando a sua autonomia e o sentido de responsabilidade.

Porquê estudar? Porque melhora o acesso ao mercado de emprego mas também porque aumenta o espírito crítico, a capacidade de pensar e de fazer escolhas, o empreendedorismo e, sobretudo, a realização e a satisfação pessoal.

Começou um novo ano letivo e, nalgumas famílias, começou a correria entre atividades extraescolares. Apesar dos benefícios que todas essas atividades podem trazer, nem sempre a criança é ouvida. Em muitos casos, o seu quotidiano fica sobrecarregado com demasiadas obrigações extraescolares, restando pouco tempo para brincar, para se divertir e conviver.

Chegados à universidade, alguns desistem de todas essas atividades o que acaba por ser contraproducente. Um jovem que saiba conciliar uma área de interesse, seja a prática desportiva ou a música, as artes plásticas ou a dança, está mais preparado para conciliar a vida pessoal com as exigências do estudo.

Um novo ano escolar começou. Às universidades portugueses chegaram menos jovens do que em anos anteriores, talvez por terem sido aliciados, em particular os rapazes, para aceitarem um emprego pouco qualificado. As raparigas, essas continuam a encher os bancos das universidades e hoje representam 60% dos diplomados do ensino superior.

Este é um desequilíbrio que urge corrigir. Precisamos de reforçar a qualificação das novas gerações, aumentando a presença de rapazes e de raparigas em todas as áreas de formação.

O ano escolar começou, mais uma etapa no percurso, de cada estudante, na busca de novos horizontes de conhecimento.

 

piedade.lalanda@sapo.pt

Futebol de primeira

Os Açores estão de novo representados na primeira liga de futebol, modalidade que recolhe a maior adesão de apoiantes, quando comparada com outras, por ventura mais exigentes do ponto de vista físico ou até técnico.

Este é um desporto popular, cuja arbitragem é hoje assessorada por meios técnicos, podendo o árbitro parar o jogo, quando tem dúvidas. Para tal desenha no ar um quadrado e todos ficam a saber que foi consultar o vídeo-árbitro.

Nas bancadas do estádio, milhares de olhos seguem a bola, gritam nomes, barafustam contra as decisões tomadas, apontam estratégias e opinam como se fossem treinadores.

Um jogo de futebol é um acontecimento cada vez mais participado, mas é também uma oportunidade para descarregar tensões, criticar em voz alta, envolver-se como anónimo numa massa que se comporta em uníssono, nos cânticos, nas palmas e no apoio à equipa local.

O Santa Clara permitiu trazer aos Açores equipas da primeira divisão e gerou-se uma maior expectativa quanto à sua capacidade para se manter entre os melhores clubes do país.

O estádio de S. Miguel ainda não tem todas as condições, mas ninguém ali entra, sem antes ser revistado.

Tampas de garrafas de água são retiradas, metais detectados e a segurança foi reforçada. Só há um aspecto que não mudou e talvez não mude.

Ninguém detecta, à entrada do estádio, as línguas afiadas e as palavras mais ordinárias.

Nas bancadas, o entusiasmo e a paixão parecem maiores do que a educação ou o saber estar.

Ainda num destes jogos, atrás de mim estava um avô com um neto. O neto, entusiasmado, repetia as frases de incentivo que ouvia. Só que o entusiasmo foi se transformando em raiva contra o adversário e começaram os palavrões.

O avô, atento, ralhou com o neto. "Tu não dizes palavrões, podes gritar pelo clube, mas é só!"

O neto, consciente de que outros, por perto, não tinham esse cuidado, insistiu: "avô, mas nem um só palavrão, um só!?"

Contrastando com o cuidado deste avô, outras vozes adultas, não se coibiram de gritar toda uma coleção de palavrões, dirigidos à equipa dos jogadores visitantes e ao árbitro da partida. A adrenalina parecia uma nuvem em volta destes adeptos, que se levantavam, batiam palmas, levados por um efeito multidão contagiante. À entrada tinham todos passado pelo detetor de metais, mas ninguém os impediu de entrar no campo, com frustrações, raivas contidas, vontade de descarregar a tensão e uma necessidade de sentir o gosto da vitória. Não é apenas a equipa que festeja quando ganha, milhares de adeptos saem do estádio a sorrir, satisfeitos, como se também eles tivessem ganho.

O futebol pela sua história, funciona como catalisador da identidade de localidades, vilas e cidades.

E não se julgue que gostar de futebol é apenas um assunto masculino. As mulheres estão, cada vez mais, a interessar-se e a praticar a modalidade e não precisam de "borlas" para acorrerem ao estádio.

O que talvez incomode é ouvir vozes desbragadas, gente que retira o freio e dá largas à língua, ao insulto e ao palavrão, como se não tivessem crianças por perto.

O futebol é um fenómeno de massas, mas o "fair play" que hoje se exige a todos os intervenientes diretos, tem de contaminar os adeptos nas bancadas e fora do estádio.

(texto publicado no jorna Açoriano Oriental de 4 setembro 2018)

A era do turismo

O aumento exponencial de turistas na região tem tido um impacto direto na vida dos insulares. Ficamos todos muito contentes, porque a economia beneficia destes fluxos; há muitos negócios e empregos que se criam. Mas, não podemos ser acríticos e baixar a cabeça, para não ver os efeitos secundários desta vaga, intensa, de visitantes.

Abrimos a porta das nossas ilhas a quem agora nos descobre com entusiasmo, e isso é positivo.

Mas há que estar atento à forma como recebemos, nos inúmeros "AL" (alojamento local), que apareceram como cogumelos nas cidades e nas zonas rurais, e observar a forma como servimos na restauração, por exemplo, com empregados de mesa que não falam, pelo menos, um mínimo de inglês.

É inacreditável ouvir alguém dirigir-se a uma mesa de estrangeiros, dizendo "my colleague, já tomou nota do vosso pedido?" ou usando uma mímica, atabalhoada, para explicar que havia peixe fresco e perguntar o que queriam beber.

O serviço de mesa-bar é objeto de formação profissional e, é importante, que os empresários desta área contratem esses diplomados e valorizem os conhecimentos que lhes foram transmitidos.

Não podemos continuar a dar emprego ocasional, mal pago e precário, a quem precisa de uns trocos no verão, sob pena de termos visitantes que não vão falar de forma positiva da experiência vivida.

Afinal, o que é que temos de melhor?

Sem dúvida que são os nossos produtos, o peixe e a carne, as frutas e os legumes, os temperos e as tradições gastronómicas, simples, mas cheias de sabor.

Destruir esse património, com um mau serviço e falta de rigor na apresentação, é matar a "galinha dos ovos de ouro" que o turismo pode ser para a região.

Não basta ter voos, nem ter hotéis ou mesmo AL, é preciso receber com profissionalismo, manter elevados níveis de higiene, cuidar e criar limites no acesso ou na utilização de recursos naturais.

Ninguém gasta a paisagem por olhar para ela, mas tudo muda quando olhamos o lixo no chão por não haver recipientes por perto, ou triplicamos o número de viaturas, agravando a poluição do ambiente. Já agora, alguém sabe quantas empresas e viaturas de aluguer circulam durante o verão nas ilhas? Que impacto tem esse parque automóvel, junto com o dos residentes, no nosso ambiente?

O turismo pode ser importante para a economia da região, mas há que pensar na sustentabilidade dessa atividade e avaliar as alterações, boas e menos boas, que este sector tem provocado.

A história económica dos Açores conta-se por ciclos/épocas: ao milho seguiu-se a laranja, depois veio a vaca e agora é o turismo. E, de todas as vezes, não soubemos planear e gerir o território, da forma mais adequada. Já não temos produção de milho e os moinhos estão abandonados ou a ser destruídos, por exemplo, para dar lugar a uma via marginal na Ribeira Grande; escasseiam no mercado as laranjas regionais "de umbigo" e só com muita dificuldade se está a sair da monocultura da vaca para uma agricultura, que não seja só pecuária, integrando a horticultura e a fruticultura.

Somos uma terra fértil, um pequeno paraíso onde ainda se pode ver as estrelas no céu, mas temos de cuidar deste frágil ecossistema. De nada vale ganhar muito hoje, se amanhã ficarmos arruinados.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 21 de Agosto de 2018) 

piedade.lalanda@sapo.pt

www.sentirailha.blogs.sapo.pt

Palavra (marca) Açores e Desporto

A palavra Açores não tem género, feminino ou masculino. É mãe da açorianidade e lugar de afeto para quem aqui vive ou se reconhece açoriano ou açoriana.

Mas, a marca Açores é outra coisa, um selo de autenticidade atribuído a produtos, mercadorias e atividades económicas, que promovam os Açores como região de excelência. Nesse sentido, foi entendido que os clubes, participantes em campeonatos nacionais ou internacionais, contribuem para essa promoção e, por esse motivo, anualmente, é-lhes atribuído um apoio financeiro para que utilizem esta "marca" nas camisolas.

Os critérios estão definidos em resolução do Conselho do Governo (71/2016 de 1 abril). E, para além do destaque dado ao futebol e ao automobilismo, não há referências sobre montantes de valor diferente para praticantes homens ou mulheres. O artigo nº 2, alínea e) diz o seguinte: "Nos campeonatos nacionais das modalidades de Andebol, Basquetebol, Hóquei em Patins, Voleibol, Ténis de Mesa e Futsal só serão celebrados contratos, em cada modalidade, com o clube desportivo açoriano cuja equipa, quer ao nível masculino, quer ao nível feminino, participe no nível competitivo mais elevado e tenha obtido a melhor classificação na época desportiva anterior, independentemente da competição ser ou não de nível profissional".

A atribuição destes apoios rege-se por esta Resolução e é suposto cumprir com o Regime Jurídico dos Apoios ao Movimento Associativo (DLR 21/2015/A de 3 setembro) onde, inclusive, se prevê uma majoração do apoio mínimo anual para clubes que mantenham atividade formativa de atletas do sexo feminino (artigo 20º nº 6, alínea a).

Como explicar o texto da resolução do conselho do governo nº91/2018 de 2 de agosto, que diferencia os apoios às equipas com melhor classificação na época desportiva anterior, consoante serem praticadas por atletas femininas ou masculinos?

Há mesmo um clube, o Juncal, em ténis de mesa, que recebe 1600,34 euros para a equipa feminina, metade do valor atribuído à equipa masculina (3168,67 euros).

As equipas femininas de voleibol e basquetebol, cuja excelência e mérito ficaram demonstrados ao longo da temporada, recebem apoios equivalentes a 30% (38.408,10 euros) do valor atribuído às congéneres masculinas (126.520,80 euros). No total, e somando todas as modalidades, o governo decidiu investir em publicidade da "marca Açores", a ser impressa nas camisolas dos atletas de clubes açorianos, 1.852.359,61 euros, dos quais 4,2% a equipas femininas.

É absurdo, vergonhoso e inexplicável. Mesmo que se retire o milhão de euros, atribuído ao futebol da 1ª liga e o apoio destinado aos ralis, as atletas femininas recebem apenas 9,8% dos apoios atribuídos aos outros clubes desportivos, aparentemente, por não "contribuírem para a notoriedade dos Açores". Pergunta-se, como foi medido esse contributo?

 

Por falar de notoriedade, um atleta de doze anos, da ginástica desportiva, recentemente, foi medalha de ouro num campeonato mundial!

A justiça como a igualdade não são princípios naturais. Necessitam de ser instituídos, dependem de decisões políticas, que os reconheçam como valores.

Logo, a promoção dos Açores, associada à excelência desportiva, deve refletir esses valores, porque a palavra "Açores" é muito mais do que uma marca.

(texto pubicado no Açoriano Oriental de 7 Agosto 2018)

Faltam açorianos

A leitura das estatísticas sobre a população residente nos Açores confronta-nos com uma nova realidade. Para além da diminuição da taxa de natalidade, de 14,8 em 1996 passou para 9,2 em 2016, e do índice de envelhecimento que passou de 54,8 em 1996 para 85,6 em 2016, em termos de crescimento efetivo da população, assistimos desde 2013 a valores negativos. Significa isto que o número de pessoas que residem nestas ilhas, face às que vão saindo, por morte ou migração/emigração, é cada vez menor. Em 2016, a taxa de crescimento efetivo foi de - 2.

A Região está a perder população e, sobretudo, está a perder jovens.

Neste contexto há que ser prudente na leitura de indicadores como a taxa de desemprego, porque a sua diminuição não resulta, apenas, de um eventual aumento do número de ofertas de emprego, mas reflete o número cada vez menor de jovens que procuram emprego, sobretudo, se atendermos aos jovens qualificados. Com dados do Inquérito ao Emprego (SREA), em 2013 os residentes com idades entre 15 e 34 anos representavam 30% da população total mas, em 2017, esse valor passou para 27,7%.

Quantos jovens saíram dos Açores, rumo a que regiões ou países? Todos ouvimos falar de enfermeiros, médicos, engenheiros ou arquitetos que, levados por fatores de conjuntura nacional e regional, optaram por emigrar em busca de emprego.

É importante que o Serviço Regional de Estatística (SREA) nos mostre esta realidade. Quem pesquisar dados sobre Emigração na página do SREA, nada encontra. Por sua vez o portal do Governo publica informação atualizada sobre o número de emigrantes para os EUA, Canadá e Bermuda, o que está longe de corresponder à totalidade dos que saem da região para viver/trabalhar no estrangeiro.

Não basta reconhecer que temos de acolher quem nos visita, é importante acarinhar quem pensa em sair, por falta de oportunidades. A região precisa de todos os seus jovens, em particular aqueles que estudam na Universidade dos Açores ou em outros estabelecimentos de ensino superior do país.

Não basta existir o "Estagiar L" se esses "estágios" não estiverem dotados de orientadores ou mentores qualificados. Há quem seja admitido em instituições onde ninguém tem competência para integrar o estagiário na profissão e quando este propõe medidas inovadoras, nem sempre são bem aceites pela entidade empregadora, mais preocupada em ter mão-de-obra "barata" e qualificada. O Estagiar L deveria, obrigatoriamente, conduzir à empregabilidade dos melhores, dos mais empreendedores, dos jovens qualificados com ideias, que necessitam de estabilidade financeira para acreditarem que vale a pena ficar na Região.

Insistir no trabalho precário a "recibo verde", partindo da ideia de que, quem tem 20 a 30 anos tem toda a vida pela frente para fazer uma carreira, é esquecer o investimento académico desta geração, na sua grande maioria, mais qualificada que os seus pais.

O futuro da região depende de mais natalidade, mais rendimento per capita e, sobretudo, empregabilidade qualificada. Por isso, urge fixar jovens, a começar por aqueles que terminam as suas licenciaturas na nossa universidade.

Faltam açorian@s, faltam jovens açorian@s.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 23 julho 2018)

Tempo de férias

O Verão está aí, o mar e o sol convidam ao descanso! As crianças, libertas da escola e dos "deveres" reclamam o direito à brincadeira, ao lazer, ao convívio descomprometido.

Este é o tempo de férias, um período que exige às famílias reorganização do quotidiano, nem sempre fácil, quando os pais não tem dias de descanso coincidentes com as férias dos filhos. Para algumas crianças, isso significa ficar mais tempo com os avós, o que não deixa de ser importante para sedimentar a relação com a geração mais velha.

Para outros pais, a opção passa por colocar os filhos em campos de férias, centros de atividades de verão ou outras iniciativas de ocupação dos tempos livres, e desta forma proporcionar outras experiências de aprendizagem e diversão.

As férias não são para serem passadas a dormir, mesmo que o sono também seja uma forma para retemperar forças. É importante transformar esse tempo de descanso, em memória agradável, depois recordada, revisitada, quando vier, de novo, o tempo das aulas e do trabalho.

Este é um tempo para cada um fazer o que gosta, mas é também um tempo para se reencontrar, consigo e com os outros. Por isso, os pais que trabalham, deviam poder reservar, pelo menos, uma semana, para estarem juntos com os filhos. Uma semana em que possam sentir, partilhar e descobrir o que cada um é, fora das rotinas do dia a dia. Juntos nas idas à praia, nos almoços ao ar livre, nos passeios à descoberta de recantos da ilha, nos jogos de cartas ou nas conversa de fim de dia, depois de um grelhado feito por quem, habitualmente, não cozinha.

Tudo são bons pretextos para juntar e fazer família.

Quando privamos uma criança ou um adolescente destas experiências comuns, estamos a comprometer a sua identificação familiar. A família não é um nome que se carrega ou um teto debaixo do qual se dorme. Ser família implica interagir e dar tempo para se descobrir, na relação com o outro.

A falta destas relações significativas conduz ao egoísmo e acaba por autocentrar cada membro da família no seu próprio mundo, desligado dos outros, indiferente às suas necessidades. Enfiados nos horários, separados por telemóveis e televisões instaladas nos quartos, estas famílias não sabem aproveitar o tempo de férias. Os pais, confrontados com este tempo acrescido de convívio, rapidamente ficam saturados: o que faço às crianças, onde as vou colocar? Isto das férias escolares é muito tempo, a escola devia começar mais cedo! Alguns até programam viagens, mas sem os filhos, para não atrapalhar!

O Verão é um tempo diferente, a natureza canta, os pássaros chilreiam contentes e, logo cedo, a luz do dia convida à atividade!

Este é o tempo de organizar, limpar, sem a preocupação de produzir. Até a terra agrícola pede descanso, desde que não lhe falte a água para fazer crescer o que foi plantado na primavera.

Assim acontece com as pessoas. Precisamos de uma pausa, uma paragem, para podermos apreciar o que temos, quem somos e sentirmos com mais intensidade os outros com quem vivemos.

Este é o tempo para nos encontrarmos, acolhermos e apreciarmos a presença dos outros, escutando as suas histórias e aventuras.

Férias, um tempo saboroso, que nos convida a fazer e a viver em família.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 10 julho 2018)

 

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