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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Honrar a promessa feita

Este é o tempo das promessas, uma palavra de duplo sentido. Primeiro, como micaelenses, associamos à imagem das procissões, onde centenas de pessoas levam círios ou simplesmente caminham rezando.

Ali vão "as promessas"! Aquelas pessoas estão "pagando" uma promessa, dizem! Pediram uma graça, num momento de aflição e, agora, vão descalços, levando o peso de uma criança ou, simplesmente, vestindo preto e rezando, como forma de ação de graças.

Um outro sentido para "promessas" é aquele que anima todas as campanhas eleitorais. E, neste momento, a Europa vive mergulhada em discursos partidários que visam captar eleitores, procurando cada candidato, à sua maneira, convencer os indecisos e converter os outros para que acreditem nas suas palavras, nos propósitos que prometem cumprir, se forem eleitos.

Promessas, do verbo prometer, são por isso anúncios, boas intensões, que preanunciam mudanças, ou assim deveria ser.

Uma promessa, mesmo aquela que se faz na relação com o divino, no meio de um momento de aflição, deveria implicar uma revisão de vida, uma alteração de hábitos ou o reatar de uma relação, que entretanto se perdeu, por conflitos não resolvidos.

A promessa, até pode ser paga, cumprida, mas na prática só transforma a vida dos indivíduos ou das comunidades, quando compromete, ou seja, envolve a pessoa, o crente ou o político, a família ou a comunidade, o partido ou a organização.

E comprometer é muito mais do que prometer.

Comprometer significa estar disposto a mudar, a lutar contra as dificuldades que as mudanças exigem e transformar a realidade, a sua vida ou a vida dos outros. Por isso, o compromisso é um ato de honra, de responsabilidade, que implica aquele que se compromete.

Se, por um lado, as promessas podem parecer palavras bonitas, frases feitas, pensadas para agradar, verdadeiros iscos, que mais não fazem do que negociar favores, por outro, os compromissos são contratos, que criam expectativas reais e que, não sendo cumpridos, trazem consequências. Um compromisso não cumprido pode destruir uma relação, enquanto uma promessa, que se esfuma no tempo, acaba esquecida e desvalorizada.

Talvez por isso, vivemos num tempo onde é mais fácil alguém prometer do que se comprometer. Eu prometo que vou tentar, mas não me comprometo em conseguir!

Eu prometo viver contigo, mas não me comprometo que dure para sempre!

Eu prometo defender a tua causa, mas não me comprometo em dar solução ao teu problema!

Não se comprometer é, em muitas situações, uma expressão do individualismo que grassa na nossa sociedade, que não cria laços duradoiros, nem implica as vidas das pessoas nas soluções. É cada vez mais fácil rasgar promessas, muitas até feitas em ocasiões solenes, envoltas em rituais, com juras e juramentos, mas que, não comprometeram quem as proferiu.

Só quando as promessas se transformam em compromissos, se pode aumentar e reforçar a confiança. E isso tem sido evidente no nosso país e até na Europa, onde os índices de confiança nas instituições políticas são, normalmente, baixos.

Conjugar o verbo comprometer implica o prefixo "se", que envolve os atores no compromisso, "eu me comprometo". Prometer, promessas, podem ser apenas palavras.

Comprometer implica honrar a promessa feita.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 14 maio 2019)

Fazendo pontes

O programa "Bridging the Atlantic" liga as duas margens, da América e dos Açores, num intercâmbio de experiências e vivências que, desde há cinco anos, já envolveu mais de uma centena de estudantes de enfermagem.

O Bridging tem recebido apoio do Governo Regional dos Açores e da DeMello Charitable Foundation, nos EUA. Envolve a Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores e o College of Nursing da Universidade de Dartmouth em Massassuchets. Os estudantes, das duas instituições, aprendem a conhecer o sistema de saúde de cada país e descobrem a importância da diversidade cultural para uma prestação de cuidados de saúde, de qualidade.

Este não é apenas um programa de intercâmbio, mas uma oportunidade de descobrir como se pode qualificar o cuidar, em enfermagem, apesar de nem sempre existirem os recursos ideais. O ser humano quando adoece, onde quer que esteja, precisa sempre de alguém que cuide, não apenas do corpo, mas entenda a linguagem da mente, o sentir da alma e acolha a sua história pessoal.

E, sem dúvida, quando um estudante de enfermagem tem a oportunidade de vivenciar uma experiência em outros contextos culturais, percebe o quão importante é saber comunicar com a pessoa fragilizada e fazer com que recupere as forças do corpo e da mente, agarre a vida e lute contra a doença ou a dificuldade.

Entre os profissionais de saúde, a trabalhar nos Estados Unidos, há descendentes de açorianos. Pertencem a uma nova geração que teve oportunidade de estudar, mas muito devem aos avós e pais que desafiaram a sorte, no dia em que emigraram e procuraram trabalho em fábricas, sobretudo na zona leste, em Massassuchets.

Não é de estranhar que tenha sido aí, junto ao mar, que a comunidade de açorianos cresceu nos Estados Unidos. Vendo o horizonte, imaginando as ilhas do outro lado, ganhou raízes à custa de muito e árduo trabalho e dos filhos, que entretanto nasceram.

Ainda hoje, alguns emigrantes dessa primeira geração, não sabem falar inglês. Para trabalhar, catorze horas por dia, não era necessário. Depois, viviam entre compatriotas, em casas de três pisos, junto de quem lhes tinha enviado a "carta de chamada", irmãos ou pais, mantendo vivas as tradições e o tempero da comida.

Nem tudo foram rosas e, ainda hoje, nem todos vivem sem dificuldades. Ninguém gosta de falar de insucesso, da solidão dos idosos ou dos problemas de quem não tem emprego, documentos e que, por vezes, é apanhado pelas malhas da justiça. Não se julgue que a vida corre de feição para todos. Há quem lute diariamente para conseguir pagar as contas no fim do mês.

Outros, apesar da tranquilidade financeira, continuam sonhando com o regresso à ilha. "Minha rica terra! É na minha terra que eu respiro melhor!"

Lá como cá, a vida dos açorianos mistura sucesso com necessidades, alegrias com sofrimento. O importante é que cada um, na sua área, contribua para, não apenas dar, mas ser resposta a essas necessidades e sofrimentos.

Entre as duas margens do atlântico, os estudantes de Enfermagem, da Escola Superior de Saúde, através do programa Bridging the Atlantic, constroem pontes de cooperação, aprendem a trabalhar em equipa bilingue e dão provas de como o ensino que recebem, em particular, na Universidade dos Açores, os prepara para serem enfermeiros do mundo.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental a 30 abril 2019)

Irmãos romeiros

No adro, junto à porta da igreja, os bordões deitados no chão formavam duas alas. Não é difícil identificar a quem pertencem. Cada um é diferente do outro, ora por ser mais antigo ou por ser feito de um ramo de árvore, simplesmente polido. Quase todos estão encimados com uma cruz e devidamente preparados com uma ponta de metal, para ajudar na caminhada.

Bordões à porta, sinal de que os irmãos romeiros tinham entrado na igreja. Era o último dia da peregrinação, e isso via-se no rosto cansado, nas barbas crescidas, de nove dias de caminhada, à chuva e ao sol, por veredas e estradas, rezando ou cantando a Avé Maria.

Ainda guardavam a cevadeira ou o saco às costas e muitos mantinham os terços pendurados ao pescoço, recordando os milhares de contas que desfiaram entre os dedos, rezando pelo bem de outros ou pela família, pelos doentes e por tantos que, ao longo do caminho, foram pedindo orações aos irmãos romeiros, pedidos que o irmão "encomendador das almas" foi registando no seu rosário, ao mesmo tempo que respondia à pergunta "quantos são, irmão?"

Agora de regresso, é hora do reencontro. Uma criança de dois anos não quer sair do pé do pai, a quem retira do pescoço os terços para colocar em si próprio, voltando a colocar e a retirar. O pai diz-lhe para fazer silêncio e aponta a cruz, dizendo "o Jesus".

A celebração começa, os irmãos romeiros juntam as suas vozes e a igreja enche-se de cânticos no masculino, anulando as vozes habituais das mulheres que ali se deslocaram, mães, esposas e familiares. Só se ouvem os homens em coro, emocionados por terem chegado ao fim da peregrinação.

Não é comum ver tantos homens nos primeiros bancos da igreja. Houve mesmo tempos em que ficavam ao fundo, logo à entrada, se não mesmo no adro, enquanto as mulheres, tidas por mais beatas, rezavam e entoavam as orações, com voz estridente.

Talvez por isso, ouvir as vozes masculinas que enchem a igreja emociona e gera um enorme sentimento de respeito e admiração por todos estes irmãos que, dentro ou fora da romaria, continuam a tratar-se de forma fraterna.

Ser irmão romeiro, salvo as devidas evoluções, continua sendo uma experiência de pobreza, no traje e nos recursos, na procura de abrigo em casa de famílias ou em espaços coletivos. Ao longo da estrada, o rancho vai tocando famílias, recolhendo intensões e rezando, cantando, enquanto as contas do terço vão passando pelos dedos. A toada das suas vozes corta o ar, numa musicalidade única, que se perde nos tempos, desde o século XVI.

A tradição das romarias de São Miguel já chegou a outras ilhas e mesmo as mulheres, que a igreja católica afastou desta prática, experienciam ser peregrinas por um dia.

Todos procuram abrir um parêntesis na vida agitada de todos os dias e descobrir como, retiradas as aparências, derrubadas as barreiras e desfeitos os preconceitos e os juízos infundados, podemos ser irmãos. Juntos, somos muito mais fortes, mais capazes de ser solidários e disponíveis para acolher o outro, diferente, sem o julgar.

De regresso à igreja os romeiros dão as mãos, num último cântico. A criança de dois anos também participa; não há filhos nem pais, família ou amigos, são todos irmãos.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 17 abril 2019)

 

Ser vítima ou ter medo?

Quando os noticiários falam de vítimas é porque alguém denunciou ou assumiu uma história de agressões e maus-tratos. Enquanto não se fala, não se sabe ou não se vê, a realidade das agressões é inexistente, aparentemente invisível e até ignorada. É um problema que diz respeito à vida dos outros ou de outras, como acontece na maior parte dos casos.

Mas quem são essas outras? Porque não se libertam de vidas difíceis, porque não procuram ajuda?

Todas as questões que possamos fazer, que tenham como alvo as vítimas, acabam por cair no mesmo, a própria tem de explicar porque é maltratada. Deve ter uma justificação para o que lhe acontece!

Enquanto procurarmos nas vítimas a solução do problema, iremos continuar a ignorar a causa deste fenómeno ignóbil que é a violência doméstica e que reside na forma como são vividas as relações, entre homens e mulheres, particularmente no domínio privado que é a casa, o lar.

Se, por um lado, a lei tem vindo progressivamente a reconhecer que o espaço doméstico está longe de ser um santuário de segurança, por outro continua-se a valorizar a figura do pai, marido ou dono, o homem da casa que, supostamente, paga as despesas, manda e tem autoridade.

A democracia nem sempre está presente na vida doméstica, por isso, qualquer cidadão deve denunciar os atentados à integridade, em particular, quando atingem a vida de uma pessoa, seja homem ou mulher, criança, idosa ou portadora de deficiência, que viva aprisionada, maltratada, explorada debaixo de um teto onde, supostamente, estaria em segurança.

A violência doméstica está longe de ser um problema das vítimas. Enraizada em modelos relacionais, conceitos de poder, autoridade ou masculinidade, tem contornos morais, que a transformam em vergonha e em culpa. O silêncio é muitas vezes a única arma de quem vive, diariamente, humilhações, ameaças, insegurança financeira ou receio pelos danos que possam afetar a família.

A vergonha e o medo são travões à liberdade, que minam a consciência de se ser um cidadão de direitos. A vergonha e o medo transformam a vítima num ser silenciado, aparentemente tolerante, que diariamente equaciona as consequências do confronto com a justiça, não apenas a que se pratica nos tribunais, mas a que molda a sociedade que discute o tema na praça pública, mas ignora os dramas de quem vive na casa do lado ou trabalha na secretária em frente.

Como fica a relação com os filhos? Será que a denúncia levará a um evidente afastamento do agressor? Quantas notícias falam de mortes de mulheres que já se tinham divorciado e continuaram a ser perseguidas, amedrontadas com mensagens e ameaças! E como fica a vida diária, o pagamento de uma renda e demais despesas? Afinal, na maioria dos casos é o agressor que fica na casa e às mulheres oferece-se um abrigo, uma identidade falsa, uma vida na clandestinidade!

Ser vítima é assumir, com coragem, aquilo que a sociedade não quer admitir, o facto de persistirem discursos e práticas misóginas, que dificultam o julgamento dos crimes de género, em particular os de natureza sexual. Nesse sentido, e citando Laborinho Lúcio num excerto do livro de Isabel Ventura, "Medusa no Palácio da Justiça" (2018): "Certamente haverá mais crimes sexuais pelo facto de se ir dizendo sucessivamente que não havia forma de puni-los".

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 2 abril 2019)

Dia do pai

19 de Março, dia de São José, o pai da história cristã que assumiu a paternidade humana de um filho com um projeto divino.

Mas não será esse o sentido da paternidade ou até da maternidade?

Mais do que uma relação biológica, genética, o laço que se cria entre um pai e um filho é de outra natureza. Envolve a capacidade de se dar, atender, acolher e proteger; exige ser um exemplo e uma referência mas, ao mesmo tempo, precisa de companheirismo e amizade para ser próximo e acessível.

Longe vão os tempos dos pais ausentes, vistos como a autoridade máxima, a quem competia julgar as situações mais graves porque, as outras, as mães resolviam à parte, quantas vezes sem que os pais soubessem, "Não digas nada ao teu pai, que eu te deixei fazer isso!".

O pai de hoje quer-se mais próximo, mais presente, mais preocupado com as necessidades dos filhos, desde os trabalhos de casa às namoradas, dando resposta às dúvidas sobre o texto de português ou as escolhas profissionais.

A paternidade é, como todas as relações humanas, construída pelos seus protagonistas. Por isso, é cada vez mais importante, para os homens, reconhecer e assumir o papel de cuidadores e a quota parte de responsabilidade na educação parental. Uma responsabilidade que não é uma obrigação, penosa e difícil, mas uma necessidade intrínseca de querer marcar a vida filhos, desde que nascem.

Não tem sido fácil, e talvez até muito morosa, a libertação do pai da figura secundária que tudo delega numa mãe protetora, única cuidadora, atenta aos pormenores. Por vezes, são as mulheres que os afastam dos cuidados aos mais pequenos: "deixa que eu faço! Isso não é coisa para homem!". E assim, eles vão sendo dispensados de mudar as fraldas, dar biberões, ir à consulta de rotina ou falar com a professora.

A lei vai refletindo, aos poucos, o reconhecimento da paternidade como relação que se constrói no cuidar, na presença diária, na comunicação afetiva.

Ontem, a licença era apenas "maternal", hoje é "parental". Ontem, o pai tinha apenas 5 dias, hoje pode ter até 25, os primeiros 15 obrigatórios, os outros dez, por opção do próprio. Ontem a licença pós-parto era exclusivamente feminina, hoje pode ser partilhada.

Aos poucos, os pais vão assumindo um lugar mais próximo, mais presente desde a primeira hora, em cuidados que partilham com as mães. E, assim, a parentalidade vai sendo construída como vínculo coletivo, transformando o nós casal em nós-família.

É frequente analisar as transformações na família, com base na alteração do papel da mulher, mais ativa profissionalmente, com percurso escolar mais longo e motivada por objetivos de carreira. Mas esta alteração só pode ser incorporada, de forma equilibrada na vida familiar quando, em paralelo, os homens, até ontem ligados ao espaço público, aos lugares de representação e de chefia, reivindicarem o seu lugar na família e assumirem a paternidade como dimensão fundamental da sua identidade. Ser pai não é um acaso da natureza mas, uma escolha relacional que dá direito a estar presente nos pequenos e nos grandes momentos da vida dos filhos.

Ser pai é ser exemplo, porto seguro e ter a mão firme de um amigo.

Agradeço à vida o pai que tive e tenho.

(Texto publicado no jornal Açoriano Oriental, 19 março 2019)

 

Carnaval

Terça-feira gorda! Gorda de fritos, de excessos e de fantasia. Gorda de folia e diversão. Segundo a Antropologia, o carnaval é tempo de transição que liberta os fantasmas, guardados no sótão das comunidades, escondidos nos bastidores das vidas organizadas. Como diz o povo, "é carnaval, ninguém leva a mal!" Porque, levar a mal seria julgar segundo normas e expectativas habituais. Mas, no Carnaval a regra é outra, a da expressão exagerada das emoções e até da crítica social, com efeito terapêutico sobre o stress, a contenção e algum individualismo que isola e afasta.

Basta olhar as culturas que mais intensamente vivem este tempo, como no Brasil, e ver o povo na rua, dando asas à emoção, nem sempre controlada, porque demasiado contida e massacrada pelas vidas difíceis e sofrimentos diários.

O carnaval é um tempo entre tempos, que marca no calendário o fim do inverno e antecede a chegada de um novo ciclo natural.

Sempre ouvi dizer que neste dia devemos podar roseiras e videiras. Podar é essencial para reorientar o crescimento das plantas, devolver-lhes vigor e eliminar galhos desnecessários que acabam por enfraquecer a estrutura central e não contribuem para a floração e a frutificação.

Ao mesmo tempo que a terça feira de carnaval liberta as emoções, despenaliza as transgressões, simboliza a possibilidade de regenerar a vida. O ser humano precisa dessas transições para reencontrar sentido, vigor, e ser capaz de enfrentar um novo ciclo na sua existência.

É carnaval, do fundo das arcas e dos armários saem as fantasias de princesa e de polícia, as vestes de palhaço ou as figuras da banda desenhada. As máscaras são mais uma oportunidade para libertar emoções. Escondidos por detrás do disfarce, vestidos de um "outro qualquer" fica mais fácil gritar, rir e até dançar. Os tímidos tornam-se extrovertidos, os medos são exorcizados e os corpos movimentam-se, sem receio, ao som do batuque de um samba, que ecoa por todo o lado.

A própria palavra carnaval tem origem na junção de duas palavras "carne" e "levar", ou melhor dizendo, "adeus à carne", lembrando a abstinência que marca o dia seguinte, quarta-feira de cinzas.

Estão reunidos os ingredientes que fazem do Carnaval um tempo diferente: o excesso, a folia, a máscara e a inversão de regras e papéis. Ao mergulhar no outro lado da existência, os adultos retomam o espírito das crianças, aliás testemunhado na frase "brincar ao carnaval", e afastam-se dos seus papéis diários, encarnando a pele de outros personagens e exorcizando alguns fantasmas ou frustrações.

Há muito que a sociologia encontrou no teatro e na definição de papel uma perspectiva de análise do quotidiano. Na prática, todos os dias encarnamos papéis, fazemos por vezes "de conta" e, nem sempre, integramos esses disfarces de forma coerente e saudável. Há mesmo quem passe a vida a mostrar quem não é, a fazer de conta que é feliz, quando preferia estar noutro lugar ou posição.

O Carnaval pode reconciliar a sociedade consigo própria. Libertando tensões, cria um tempo de catarse, que depois dá lugar ao recomeço. Alguns terão de aproveitar para podar aqueles galhos inúteis, libertar a vida do desnecessário, para melhor fortalecer a pessoa que são, ou querem ser, no novo ciclo que se aproxima.

Bom carnaval!

(publicado no jornal Açoriano Oriental 4 março 2019)

Mulheres

São 50% da população mundial e 52,7% dos portugueses mas, por vezes, são tratadas como se fossem uma "minoria", desvalorizadas e injustamente remuneradas, realidade demonstrada em diferentes estudos sobre igualdade de género. A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) acaba de divulgar mais um, "As mulheres em Portugal, hoje", coordenado por Laura Sagnier, cujos resultados revelam algumas das contradições que estruturam a vida das mulheres portuguesas, particularmente as que tem entre 18 e 64 anos e vivem numa relação conjugal.

Uma primeira contradição é revelada quando se cruza a resposta das mulheres à questão sobre qual a faceta da vida que mais lhes traz felicidade? Apesar de, a grande maioria referir os filhos como a principal fonte de felicidade, quando se analisam todas as facetas da vida (emprego, casa e família) a correlação faz-se com o parceiro. É este quem exerce mais influência no sentimento de felicidade ou infelicidade que sentem.

Como explicar esta contradição?

Na realidade, com estas respostas, as mulheres revelam que, se por um lado, os filhos são uma fonte inesgotável de felicidade, elas precisam de uma relação de companheirismo, alguém com quem possam dividir dificuldades e alegrias do quotidiano, para poderem se sentir totalmente felizes.

Assim, o sentimento de infelicidade aumenta sempre que a mulher não tem um companheiro com quem possa dividir as tarefas domésticas, alguém que a oiça, que lhe dedique o máximo do tempo disponível e seja carinhoso e atencioso. E esse desejo feminino decorre do facto de, dois terços das tarefas domésticas e dos cuidados aos filhos menores serem assegurados pelas mulheres. Seja a cozinhar ou a lavar roupa, a ajudar nos trabalhos escolares ou a ir ao médico com os filhos doentes, as mulheres asseguram essas tarefas três vezes mais do que os seus companheiros. Exceções há mas, até nesses casos, há homens que preferem dizer que vão levar o carro ao mecânico só para que o chefe e os colegas não lhe digam: "não tens a tua mulher para tratar disso?".

Uma segunda contradição que este estudo revela situa-se ao nível do mundo do trabalho e da desigualdade que, infelizmente, ainda marca os rendimentos de homens e mulheres em Portugal. Ao contrário da realidade europeia, em Portugal as mulheres, na sua grande maioria, trabalham a tempo inteiro e, como vimos, ainda asseguram um conjunto de tarefas não pagas, quando regressam a casa.

Apesar de cada vez mais escolarizadas, ganham em média menos 15 a 20% do que os seus colegas homens e, no estudo da FFMS, 43% das mulheres recebem menos do que os seus companheiros. Mas, pasme-se, quando se trata das despesas familiares, contribuem com 50% dos gastos, parte do seu salário vai para a dispensa, a roupa dos filhos ou o material escolar. Tem pouco tempo para si próprias e poucos recursos.

De acordo com o estudo, poder conciliar a vida familiar com o emprego traria felicidade a muitas das mulheres/mães que trabalham.

Mas será esta é uma questão feminina? Não seria mais fácil se a construção da felicidade fosse feita a quatro mãos e, na casa como no emprego, houvesse espaço e tempo para que cada um/a se sentisse feliz?

Já agora, o que pensam e sentem as mulheres açorianas, hoje? Talvez fosse tempo de estudar 50,7% dos residentes nesta região.

(artigo publicado no Açoriano Oriental de 19 Fevereiro 2019)

2022, em Portugal

Foi assim, no final das Jornadas Mundiais da Juventude no Panamá. O Papa Francisco anunciou as próximas em Portugal, a 2022.

Que importância tem o anúncio destas Jornadas?

Mais turismo? Grupos internacionais de jovens católicos a rumarem à capital do país? Mais negócio para empresas de construção civil e outros serviços? A certeza de encher pousadas, hostels e alojamentos locais na zona do “parque das nações”? Ou até, uma oportunidade para o Presidente da República se colar à iniciativa e “prenunciar" uma recandidatura?

Essas não são certamente as principais e mais importantes consequências deste evento, criado em 1986 por João Paulo II, que movimenta milhões de jovens em todo o mundo.

O mais importante destas Jornadas é que apelam para a atualidade e a juventude da mensagem cristã. A Bíblia pode ter dois mil anos, os textos que congrega estão datados no tempo e nas suas circunstâncias. Mas, o que a torna atual não está nesses contextos, mas na força espiritual da mensagem e na capacidade de desassossegar, desinstalar e desafiar o ser humano ao radicalismo do amor. Todos os povos o reconhecem, mesmo os que não são cristãos, que é no amor que o ser humano consegue aproximar-se da perfeição e da paz.

E os jovens precisam de modelos radicais.

Mergulhados numa sociedade tecnológica, perdidos no meio de tantas solicitações, sentem-se divididos entre sucesso material e felicidade interior. No mais profundo de si mesmos, procuram um sentido coerente em todas as escolhas que tem de fazer.

Se há jovens que reagem contra os abusos de poder, outros parecem desejar o regresso do autoritarismo! Talvez porque, apesar de terem nascido em sociedades livres, não reconhecem nos adultos exemplos a seguir, em termos de uso da liberdade.

São ambiciosos, ao apostarem na formação qualificada, quando outros se acomodam com pouco, indiferentes ao esforço e ao sacrifício de quem luta por ideais.

Ambivalências, dúvidas, sempre foram características da juventude. Mas, no fundo, em todos os tempos e gerações, os jovens precisam de metas, objetivos, pelos quais faça sentido viver. Precisam de modelos, ideais, que inspirem a construção de uma sociedade melhor.

O Papa Francisco no Panamá trouxe o tema das redes sociais para o discurso. Afinal, é aí que muitos jovens navegam, comunicam, procuram amigos ou alguém que os escute. Nem sempre correspondidos, decepcionados com as “amizades” das redes sociais, são influenciados e influenciáveis. E Francisco reconhece esse fenómeno, quando apela para que, em vez de influenciados, os jovens passem a influenciar pela positiva. Porque, as ferramentas nunca foram um problema para a humanidade, mas sim o uso que delas fazemos. Procurar afeto e companhia, de forma solitária, partilhando mensagens ou fotografias, pode levar a que se evitem os contactos face a face, fundamentais nas relações humanas.

Não basta ter centenas de amigos virtuais, para não estar sozinho. É preciso mais do que dois cliques num écran para chegar ao outro. O encontro, o diálogo e a partilha de emoções, ao vivo, são essenciais para se fazer comunidade.

Em 2022, Lisboa ficará mais jovem ao acolher as Jornadas Mundiais.

(texto publicao no jornal Açoriano Oriental de 5 fevereiro)

 

A raiz da pobreza

A pobreza é uma condição, não é castigo ou destino, é o resultado de uma grave situação de carência, incapacidade, falta de recursos ou motivação para lutar. Por vezes é uma herança familiar, outras é a consequência de guerras, conflitos, onde muitos são vítimas de decisões políticas.

A pobreza não se deseja, mas não é fácil desconstruir, tantas e tão variadas são as causas que a explicam.

As estatísticas nacionais dizem-nos que as famílias em maior risco de pobreza são as que agregam dois adultos com três ou mais crianças, 31,6% segundo o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (INE, 2018), seguidas das famílias com um adulto com, pelo menos, uma criança, 28,2%. Infelizmente não existem dados regionais que permitam tipificar as famílias em risco de pobreza nos Açores, mas sabemos que atinge 31,4% dos residentes, segundo o mesmo Inquérito.

No entanto, se considerarmos as famílias que beneficiam do Rendimento Social de Inserção (RSI), então veremos que os baixos salários ou o desemprego, aliados a outras faltas de recursos enraízam famílias, mais numerosas ou monoparentais, num emaranhado de dificuldades estruturais. Que fatores justificam essas dificuldades?

A pobreza enraíza-se quando o salário mínimo não chega para fazer face às necessidades de uma família com crianças pequenas; mas também se enraíza quando os apoios sociais somados são superiores ao salário mínimo, gerando dependência e reduzindo a autonomia e a capacidade de esforço.

A pobreza enraíza-se em famílias onde as mulheres são vítimas de violência, sujeitas a uma sobrecarga de trabalhos, cuidadoras de doentes e idosos, de filhos portadores de deficiência, incapazes de se autonomizarem por via de um emprego, quantas vezes enfrentando sozinhas todos esses problemas.

A pobreza enraíza-se quando a escola fica distante da motivação e do interesse, das expectativas e das estratégias de longo prazo, porque os pais vivem o dia a dia, incapazes de ver no estudo uma forma de libertação dos constrangimentos e das dificuldades. A pobreza também ganha mais força quando, apesar das dificuldades, se incentiva os filhos a estudar mas, porque se vive com pouco mais do que o salário mínimo, se perde o direito à bolsa ou aos apoios da ação social escolar.

A pobreza arrasta para a dependência aqueles que se afundam diariamente no álcool ou na droga, comprometendo os recursos familiares, a esperança dos pais ou até dos avós, incapazes de lidar com a adição doentia dos jovens.

A pobreza corrói a vontade, a motivação e mata a esperança quando, em vez de um emprego as portas se abrem apenas para experiências de formação ou ocupação, quantas vezes distantes das competências acumuladas ao longo de uma vida.

Lutar contra a pobreza é o desafio de todos os tempos, que tem inspirado o mundo a delinear medidas. Primeiro foram as metas do Millenium que deveriam ter sido concretizadas até 2015. Agora são os Objetivos para um Desenvolvimento Sustentável que o mundo se propõe concretizar até 2030.

Apesar dos avanços, a luta contra a pobreza e a exclusão social continua a mover governos e associações, porque não basta mudar as aparências, da fome ou da falta de higiene. É preciso arrancar as razões que enraízam a pobreza e a reproduzem através gerações.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 22 janeiro 2019)

 

As Sufragistas

Nem sempre a História soube reconhecer o mérito de quem lutou, com a própria vida, para que outros tivessem direitos consagrados em lei, particularmente, quando essas lutas foram e são protagonizadas por mulheres.

Recordo ouvir dizer "tem um ar sufragista", para rotular uma mulher que punha em causa o estereótipo da esposa submissa, dedicada aos outros, que se apaga para que a família tenha conforto e comida na mesa.

Longe dessa imagem de mulher fria e distante, as sufragistas recordam uma página da história europeia, de luta por um estado de direito, com base no sufrágio universal, prenúncio de muitas outras reivindicações, em diferentes países, por sociedades mais igualitárias e justas.

Infelizmente, a luta pela igualdade de género continua a fazer sentido no séc. XXI, quando governos, como no Brasil, pretendem combater a "ideologia de género" e pintar o país de azul e cor de rosa, o mesmo é dizer, institucionalizar a separação de papéis, funções e direitos em função do sexo.

Nunca é demais recordar que a igualdade de género é uma face da democracia. Não se trata de reivindicar direitos para as mulheres, mas alterar a relação entre homens e mulheres, seja no mundo da casa ou do trabalho, da política ou das profissões, denunciando a desigualdade de poder, a violência ou a exploração.

Mas porque é tão difícil afirmar a democracia?

A história das mulheres que lutaram, nas primeiras décadas do século XX, pelo sufrágio universal é bem demonstrativo dessa dificuldade*.

Não se trata apenas de mudar a lei, mas de transformar a própria estrutura da sociedade, formas de pensar, significados associados ao que é ser homem ou mulher, papéis atribuídos, tarefas tidas por serem próprias do feminino ou do masculino, inculcadas no pensamento e no comportamento desde a infância, condicionando escolhas, limitando relações e, sobretudo, formatando o exercício do poder.

Falar de igualdade de género, não é apenas, pretender mudar a sociedade, mas transformar a sua forma de pensar. Não se trata de defender uma minoria que, na realidade não existe, já que o mundo se divide em partes, quase iguais, de homens e mulheres. Mas fazer um exercício de democracia, enquanto partilha de opiniões, construção de soluções na partilha do poder, diálogo e reconhecimento da diferença.

Sem extremismos, estão em causa direitos humanos e o reconhecimento de que o mundo é melhor quando todos temos acesso à palavra e podemos, em cooperação, construir uma sociedade mais justa e livre.

Porque é de liberdade que se trata.

Se a igualdade de género é uma face da democracia, sem sombra de dúvida que é, também, uma expressão da liberdade de ser, estar e participar.

Num mundo cada vez mais global, onde as tecnologias da comunicação abrem estradas de descoberta, nascer mulher não deveria ser uma condenação, como infelizmente ainda acontece, quando as mulheres são reduzidas à sua função reprodutiva, objeto de exploração ou discriminação.

A luta pelo sufrágio universal marcou o século XX, mas outros desafios se colocam no século XXI, em defesa da dignidade e de uma sociedade plural.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 8 janeiro 2019)

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