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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Lado a lado

Para apregoar o ideal de igualdade, é recorrente os políticos referirem a necessidade de "não deixar ninguém para trás". Sem negar o mérito do propósito, há nesta frase uma segunda leitura, onde alguns, defendendo um determinado ideário ou projeto de sociedade, olham para "trás" e verificam que há quem não os acompanhe ou não tenha meios para atingir os mesmos objetivos. Assim, afirmam-se como os defensores dessas, supostas, minorias. Mas será que alguém perguntou a esses, que ficaram "para trás", se querem, concordam com as estratégias adotadas e/ou pretendem atingir esses objetivos em concreto? Será que alguém construiu esse projeto a pensar neles, nesses que não conseguem acompanhar o passo e manter o mesmo ritmo de passada?

O ideal nas relações não será certamente caminharmos todos ao mesmo ritmo ou orientados da mesma forma para determinados objetivos, mas antes, partilharmos os mesmos valores, no respeito pela liberdade e dignidade de cada um.

Esta frase faz lembrar outra, "por detrás de um grande homem, há sempre uma grande mulher", onde a relação de poder que subalterniza, mantem inalterada as desigualdades de género na vida familiar, no mundo do trabalho e na política.

Se queremos viver melhor nas famílias, nos casais ou na vida pública, não será impondo formas de estar que o vamos conseguir, mas sim quando o poder estiver ao serviço da construção de comunidades, onde todos se sintam parte integrante e possam partilhar e contribuir com o que são e tem de melhor.

Ao apregoarmos que "não deixamos ninguém para trás", assumimos, desde logo, as desigualdades, a distância que nos separa de outros, por vezes mesmo, o fosso que nos divide. Vejam-se os indicadores de pobreza, níveis de rendimento ou educacionais! Não interessa se o rendimento per capita é elevado, se a sua distribuição gera desigualdades profundas. Não interessa a riqueza produzida, se as escolhas económicas e políticas ignoram o impacto gerado no ambiente, na vida local ou no património, como se as populações mais desfavorecidas e os contextos locais fizessem apenas parte do cenário.

Uma visão política, com futuro, não pode apenas reconhecer a desigualdade, mas ter em consideração as razões que a constroem e mantêm como condição estrutural.

Por isso, ao invés de avançarmos, olhando pelo canto do olho "quem ficou para trás" ou pressupondo que alguém na retaguarda irá apoiar quem toma a dianteira, o ideal seria que caminhássemos lado a lado.

Lado a lado, iremos chegar mais longe na construção da democracia. Mais do que igualar, o ideal democrático dá oportunidades a todos, respeitando diferenças, num sentido de equidade.

Lado a lado, não implica pensarmos da mesma forma, mas significa que comunicamos e respeitamos a forma de pensar de cada um, procurando consensos e pontos de força, mantendo a união. Cada um incentivando o outro, quando falta confiança ou motivação, reconhecemos diferenças e encontramos, num projeto comum, a razão de ser para estarmos juntos.

Se esta fórmula dá longevidade às relações conjugais, certamente que também se aplica às sociedades. É bom saber que não queremos "deixar ninguém para trás", mas melhor seria se todos fizéssemos parte da construção, de um projeto que se quer comum.

Lado a lado, respeitamos a individualidade e construímos comunidade.  

(artigo publicado Açoriano Oriental de 9 julho 2019)

Apetece brincar

Apetece estar no exterior, no jardim ou no campo, deixar o dia correr sem pressa e aproveitar a luz do sol, que se põe mais tarde.

Apetece brincar, viver aventuras, livres da pressão da escola e dos deveres, poder imaginar aventuras, fazer de conta e descobrir os segredos da terra que se transforma em ingrediente de cozinha ou material de construção.

Recordo os bichos de conta, no quintal da minha avó, que se transformavam em pacientes de um hospital de campanha ou do baloiço instalado junto à arrecadação, que imaginava povoada de seres medonhos. Entre os desafios e os receios, imaginados, a brincadeira virava aventura e, aos poucos, ia enfrentando os medos do crescimento.

Brincar é muito mais do que passar o tempo entretido. É uma descoberta permanente, onde se desafiam capacidades, se estimula a imaginação e se aprende a enfrentar os limites, ao mesmo tempo que se descobre o sabor da liberdade.

Dizem os pedagogos que brincar estimula o desenvolvimento cognitivo e contribui para o aumento da autonomia e da capacidade de resiliência do ser humano.

Sem dúvida que, ativar o corpo e o cérebro imaginando cenas e personagens, transformando aquelas folhas que caíram das árvores em ingredientes de cozinha ou fazendo da caixa de cartão o esconderijo perfeito, só podem libertar a mente de constrangimentos e reforçar a capacidade individual.

Infelizmente, muitos pais transformaram o direito a brincar num dever da escola; ali é que se brinca, nos escorregas do recreio ou no campo de jogos. Chegados a casa, acabou! É o tempo do banho, do jantar e da cama. Nem se dispõem a contar aquela história, onde não faltam cenas inventadas, que acrescentam imaginação ao texto do livro. E esqueceram a canção para adormecer, uma música que, mesmo em adultos, recordarão. Falta tempo para fazer um balanço do dia, onde se reconhecem as dificuldades e se elogiam os sucessos!

Infelizmente, tudo parece resumir-se a isso: falta de tempo, quando na realidade, o tempo é o que dele fazemos.

Nunca como hoje o tempo deu para tanta coisa. Imagine-se o que era antes, quando as comunicações se faziam por carta e era preciso um mês, para ter resposta! Ou então, quando quase tudo era encomendado, não sem antes se esperar o envio das amostras, para se poder escolher. Eram meses de espera até que uma ideia se tornasse em obra, fosse a feitura de um vestido ou a construção de uma casa.

Hoje, basta uma mensagem electrónica, uma videochamada e, na mesma hora, a tarefa fica resolvida. O tempo, hoje, dá para fazer muito mais do que antes.

Falta tempo, onde? Talvez as prioridades sejam outras!

Brincar deixou de ser uma prioridade e a preocupação dos pais é encher o horário dos filhos com inúmeras atividades, formais e organizadas, supostamente propiciadoras de um currículo melhor.

Brincar no exterior passou a ser temido, as crianças são vigiadas a toda a hora, não andam de bicicleta por medo, não sujam as mãos para manterem a imagem impecável, nem dormem em casa dos amigos, porque se receiam as diferenças de hábitos.

E, dessa forma, as crianças tornam-se, mais tarde, adultos imaturos, incapazes de tomar decisões autónomas, assumir responsabilidades ou enfrentar desafios.

Faltam memórias de quando viviam a vida a brincar!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 25 junho 2019)

Insularidade

Nasci numa ilha! Não escolhi nascer aqui, mas não seria tão feliz se tivesse nascido noutro lugar. Provavelmente acabaria por descobrir esta ilha, qual ave de arribação, e aqui faria ninho e me deixaria ficar.

A sorte, a vida, fez com que nascesse na ilha, onde tudo é concentrado e curtas as distâncias, mas onde o mar e a terra casam na perfeição.

Posso não ver o mar todos os dias, mas sinto-o e quase que saboreio o sal no ar que respiro.

As gaivotas esvoaçam nos pastos e nem sempre agoiram mau tempo, como diz o povo. Abrigam-se junto às vacas e transformam a paisagem pintalgando de branco a verde pastagem.

A ilha tem estas vantagens, abraça-nos por terra e por mar e acolhe-nos no seu seio para nos proteger do vento. Há dias que tudo parece querer voar, mas nada tão grave como os alertas que dita a meteorologia. O ilhéu parece estar habituado à música do vento que sopra nas árvores, que verga os troncos mas não quebra a madeira.

Nasci na primavera e, todos os anos, as flores de abril trazem-me aromas de esperança, renovação e beleza. Há sempre uma flor que marca o calendário, as glicínias em março e as frísias em abril, as azáleas em maio e as hortências em junho, depois chegam as conteiras, com seu cheiro adocicado, para logo despontarem as beladonas, anunciando o ano escolar e o fim do verão.

O insular não se cansa da sua ilha, aprende a gostar dos recantos, a descobrir trilhos, praias novas ou lugares na encosta, que nunca viu antes. Há sempre um segredo por descobrir e a ilha, por muito pequena que seja, mostra-se sempre diferente, em cada olhar, em cada passeio ou caminhada.

As distâncias são pequenas, é verdade! Mas as vidas quotidianas também o são. Quando damos por nós, vivemos num circuito fechado entre o trabalho e a casa, entre a escola dos filhos e o supermercado, e isso acontece numa ilha ou num continente. A única diferença é que no caminho para casa ou quando chega o fim de semana, o mar está mesmo ali e o campo a dois passos, onde a tranquilidade do silêncio faz-nos tocar de perto a natureza, para a cultivar, mondar e cuidar, esquecendo as rotinas diárias.

Nasci insular e hoje não gostaria de ser outra coisa.

Aqui aprendi a gostar da vivência interior, a apreciar as tradições do passado que nos recordam o medo de viver longe, isolados e correndo riscos, vindos do mar ou das catástrofes. Mas porque o povo se uniu, rezou e pediu clemência, hoje as ilhas partilham um património religioso comum.

Podemos viver distanciados, mas temos no sangue a garra, o espírito e a fé, que nos faz transcender as limitações do espaço e nos torna irmãos, partilhando a generosidade nas festas do Espírito Santo ou nas romarias da quaresma.

Historicamente voltados para dentro, de costas para o mar, descobrimos no céu o divino e no horizonte a liberdade.

A insularidade não é uma dimensão puramente geográfica, como nos ensinaram na escola: uma porção de terra rodeada por mar. A insularidade é uma forma de vida, que transforma um território limitado, num lugar de enraizamento, deslumbramento e libertação.

Quem vive numa ilha conhece bem o sentido dos verbos partir e regressar.

Mas, por muitos voos que se façam, é aqui, neste lugar, que apetece poisar.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 11 junho 2019)

Honrar a promessa feita

Este é o tempo das promessas, uma palavra de duplo sentido. Primeiro, como micaelenses, associamos à imagem das procissões, onde centenas de pessoas levam círios ou simplesmente caminham rezando.

Ali vão "as promessas"! Aquelas pessoas estão "pagando" uma promessa, dizem! Pediram uma graça, num momento de aflição e, agora, vão descalços, levando o peso de uma criança ou, simplesmente, vestindo preto e rezando, como forma de ação de graças.

Um outro sentido para "promessas" é aquele que anima todas as campanhas eleitorais. E, neste momento, a Europa vive mergulhada em discursos partidários que visam captar eleitores, procurando cada candidato, à sua maneira, convencer os indecisos e converter os outros para que acreditem nas suas palavras, nos propósitos que prometem cumprir, se forem eleitos.

Promessas, do verbo prometer, são por isso anúncios, boas intensões, que preanunciam mudanças, ou assim deveria ser.

Uma promessa, mesmo aquela que se faz na relação com o divino, no meio de um momento de aflição, deveria implicar uma revisão de vida, uma alteração de hábitos ou o reatar de uma relação, que entretanto se perdeu, por conflitos não resolvidos.

A promessa, até pode ser paga, cumprida, mas na prática só transforma a vida dos indivíduos ou das comunidades, quando compromete, ou seja, envolve a pessoa, o crente ou o político, a família ou a comunidade, o partido ou a organização.

E comprometer é muito mais do que prometer.

Comprometer significa estar disposto a mudar, a lutar contra as dificuldades que as mudanças exigem e transformar a realidade, a sua vida ou a vida dos outros. Por isso, o compromisso é um ato de honra, de responsabilidade, que implica aquele que se compromete.

Se, por um lado, as promessas podem parecer palavras bonitas, frases feitas, pensadas para agradar, verdadeiros iscos, que mais não fazem do que negociar favores, por outro, os compromissos são contratos, que criam expectativas reais e que, não sendo cumpridos, trazem consequências. Um compromisso não cumprido pode destruir uma relação, enquanto uma promessa, que se esfuma no tempo, acaba esquecida e desvalorizada.

Talvez por isso, vivemos num tempo onde é mais fácil alguém prometer do que se comprometer. Eu prometo que vou tentar, mas não me comprometo em conseguir!

Eu prometo viver contigo, mas não me comprometo que dure para sempre!

Eu prometo defender a tua causa, mas não me comprometo em dar solução ao teu problema!

Não se comprometer é, em muitas situações, uma expressão do individualismo que grassa na nossa sociedade, que não cria laços duradoiros, nem implica as vidas das pessoas nas soluções. É cada vez mais fácil rasgar promessas, muitas até feitas em ocasiões solenes, envoltas em rituais, com juras e juramentos, mas que, não comprometeram quem as proferiu.

Só quando as promessas se transformam em compromissos, se pode aumentar e reforçar a confiança. E isso tem sido evidente no nosso país e até na Europa, onde os índices de confiança nas instituições políticas são, normalmente, baixos.

Conjugar o verbo comprometer implica o prefixo "se", que envolve os atores no compromisso, "eu me comprometo". Prometer, promessas, podem ser apenas palavras.

Comprometer implica honrar a promessa feita.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 14 maio 2019)

Fazendo pontes

O programa "Bridging the Atlantic" liga as duas margens, da América e dos Açores, num intercâmbio de experiências e vivências que, desde há cinco anos, já envolveu mais de uma centena de estudantes de enfermagem.

O Bridging tem recebido apoio do Governo Regional dos Açores e da DeMello Charitable Foundation, nos EUA. Envolve a Escola Superior de Saúde da Universidade dos Açores e o College of Nursing da Universidade de Dartmouth em Massassuchets. Os estudantes, das duas instituições, aprendem a conhecer o sistema de saúde de cada país e descobrem a importância da diversidade cultural para uma prestação de cuidados de saúde, de qualidade.

Este não é apenas um programa de intercâmbio, mas uma oportunidade de descobrir como se pode qualificar o cuidar, em enfermagem, apesar de nem sempre existirem os recursos ideais. O ser humano quando adoece, onde quer que esteja, precisa sempre de alguém que cuide, não apenas do corpo, mas entenda a linguagem da mente, o sentir da alma e acolha a sua história pessoal.

E, sem dúvida, quando um estudante de enfermagem tem a oportunidade de vivenciar uma experiência em outros contextos culturais, percebe o quão importante é saber comunicar com a pessoa fragilizada e fazer com que recupere as forças do corpo e da mente, agarre a vida e lute contra a doença ou a dificuldade.

Entre os profissionais de saúde, a trabalhar nos Estados Unidos, há descendentes de açorianos. Pertencem a uma nova geração que teve oportunidade de estudar, mas muito devem aos avós e pais que desafiaram a sorte, no dia em que emigraram e procuraram trabalho em fábricas, sobretudo na zona leste, em Massassuchets.

Não é de estranhar que tenha sido aí, junto ao mar, que a comunidade de açorianos cresceu nos Estados Unidos. Vendo o horizonte, imaginando as ilhas do outro lado, ganhou raízes à custa de muito e árduo trabalho e dos filhos, que entretanto nasceram.

Ainda hoje, alguns emigrantes dessa primeira geração, não sabem falar inglês. Para trabalhar, catorze horas por dia, não era necessário. Depois, viviam entre compatriotas, em casas de três pisos, junto de quem lhes tinha enviado a "carta de chamada", irmãos ou pais, mantendo vivas as tradições e o tempero da comida.

Nem tudo foram rosas e, ainda hoje, nem todos vivem sem dificuldades. Ninguém gosta de falar de insucesso, da solidão dos idosos ou dos problemas de quem não tem emprego, documentos e que, por vezes, é apanhado pelas malhas da justiça. Não se julgue que a vida corre de feição para todos. Há quem lute diariamente para conseguir pagar as contas no fim do mês.

Outros, apesar da tranquilidade financeira, continuam sonhando com o regresso à ilha. "Minha rica terra! É na minha terra que eu respiro melhor!"

Lá como cá, a vida dos açorianos mistura sucesso com necessidades, alegrias com sofrimento. O importante é que cada um, na sua área, contribua para, não apenas dar, mas ser resposta a essas necessidades e sofrimentos.

Entre as duas margens do atlântico, os estudantes de Enfermagem, da Escola Superior de Saúde, através do programa Bridging the Atlantic, constroem pontes de cooperação, aprendem a trabalhar em equipa bilingue e dão provas de como o ensino que recebem, em particular, na Universidade dos Açores, os prepara para serem enfermeiros do mundo.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental a 30 abril 2019)

Irmãos romeiros

No adro, junto à porta da igreja, os bordões deitados no chão formavam duas alas. Não é difícil identificar a quem pertencem. Cada um é diferente do outro, ora por ser mais antigo ou por ser feito de um ramo de árvore, simplesmente polido. Quase todos estão encimados com uma cruz e devidamente preparados com uma ponta de metal, para ajudar na caminhada.

Bordões à porta, sinal de que os irmãos romeiros tinham entrado na igreja. Era o último dia da peregrinação, e isso via-se no rosto cansado, nas barbas crescidas, de nove dias de caminhada, à chuva e ao sol, por veredas e estradas, rezando ou cantando a Avé Maria.

Ainda guardavam a cevadeira ou o saco às costas e muitos mantinham os terços pendurados ao pescoço, recordando os milhares de contas que desfiaram entre os dedos, rezando pelo bem de outros ou pela família, pelos doentes e por tantos que, ao longo do caminho, foram pedindo orações aos irmãos romeiros, pedidos que o irmão "encomendador das almas" foi registando no seu rosário, ao mesmo tempo que respondia à pergunta "quantos são, irmão?"

Agora de regresso, é hora do reencontro. Uma criança de dois anos não quer sair do pé do pai, a quem retira do pescoço os terços para colocar em si próprio, voltando a colocar e a retirar. O pai diz-lhe para fazer silêncio e aponta a cruz, dizendo "o Jesus".

A celebração começa, os irmãos romeiros juntam as suas vozes e a igreja enche-se de cânticos no masculino, anulando as vozes habituais das mulheres que ali se deslocaram, mães, esposas e familiares. Só se ouvem os homens em coro, emocionados por terem chegado ao fim da peregrinação.

Não é comum ver tantos homens nos primeiros bancos da igreja. Houve mesmo tempos em que ficavam ao fundo, logo à entrada, se não mesmo no adro, enquanto as mulheres, tidas por mais beatas, rezavam e entoavam as orações, com voz estridente.

Talvez por isso, ouvir as vozes masculinas que enchem a igreja emociona e gera um enorme sentimento de respeito e admiração por todos estes irmãos que, dentro ou fora da romaria, continuam a tratar-se de forma fraterna.

Ser irmão romeiro, salvo as devidas evoluções, continua sendo uma experiência de pobreza, no traje e nos recursos, na procura de abrigo em casa de famílias ou em espaços coletivos. Ao longo da estrada, o rancho vai tocando famílias, recolhendo intensões e rezando, cantando, enquanto as contas do terço vão passando pelos dedos. A toada das suas vozes corta o ar, numa musicalidade única, que se perde nos tempos, desde o século XVI.

A tradição das romarias de São Miguel já chegou a outras ilhas e mesmo as mulheres, que a igreja católica afastou desta prática, experienciam ser peregrinas por um dia.

Todos procuram abrir um parêntesis na vida agitada de todos os dias e descobrir como, retiradas as aparências, derrubadas as barreiras e desfeitos os preconceitos e os juízos infundados, podemos ser irmãos. Juntos, somos muito mais fortes, mais capazes de ser solidários e disponíveis para acolher o outro, diferente, sem o julgar.

De regresso à igreja os romeiros dão as mãos, num último cântico. A criança de dois anos também participa; não há filhos nem pais, família ou amigos, são todos irmãos.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 17 abril 2019)

 

Ser vítima ou ter medo?

Quando os noticiários falam de vítimas é porque alguém denunciou ou assumiu uma história de agressões e maus-tratos. Enquanto não se fala, não se sabe ou não se vê, a realidade das agressões é inexistente, aparentemente invisível e até ignorada. É um problema que diz respeito à vida dos outros ou de outras, como acontece na maior parte dos casos.

Mas quem são essas outras? Porque não se libertam de vidas difíceis, porque não procuram ajuda?

Todas as questões que possamos fazer, que tenham como alvo as vítimas, acabam por cair no mesmo, a própria tem de explicar porque é maltratada. Deve ter uma justificação para o que lhe acontece!

Enquanto procurarmos nas vítimas a solução do problema, iremos continuar a ignorar a causa deste fenómeno ignóbil que é a violência doméstica e que reside na forma como são vividas as relações, entre homens e mulheres, particularmente no domínio privado que é a casa, o lar.

Se, por um lado, a lei tem vindo progressivamente a reconhecer que o espaço doméstico está longe de ser um santuário de segurança, por outro continua-se a valorizar a figura do pai, marido ou dono, o homem da casa que, supostamente, paga as despesas, manda e tem autoridade.

A democracia nem sempre está presente na vida doméstica, por isso, qualquer cidadão deve denunciar os atentados à integridade, em particular, quando atingem a vida de uma pessoa, seja homem ou mulher, criança, idosa ou portadora de deficiência, que viva aprisionada, maltratada, explorada debaixo de um teto onde, supostamente, estaria em segurança.

A violência doméstica está longe de ser um problema das vítimas. Enraizada em modelos relacionais, conceitos de poder, autoridade ou masculinidade, tem contornos morais, que a transformam em vergonha e em culpa. O silêncio é muitas vezes a única arma de quem vive, diariamente, humilhações, ameaças, insegurança financeira ou receio pelos danos que possam afetar a família.

A vergonha e o medo são travões à liberdade, que minam a consciência de se ser um cidadão de direitos. A vergonha e o medo transformam a vítima num ser silenciado, aparentemente tolerante, que diariamente equaciona as consequências do confronto com a justiça, não apenas a que se pratica nos tribunais, mas a que molda a sociedade que discute o tema na praça pública, mas ignora os dramas de quem vive na casa do lado ou trabalha na secretária em frente.

Como fica a relação com os filhos? Será que a denúncia levará a um evidente afastamento do agressor? Quantas notícias falam de mortes de mulheres que já se tinham divorciado e continuaram a ser perseguidas, amedrontadas com mensagens e ameaças! E como fica a vida diária, o pagamento de uma renda e demais despesas? Afinal, na maioria dos casos é o agressor que fica na casa e às mulheres oferece-se um abrigo, uma identidade falsa, uma vida na clandestinidade!

Ser vítima é assumir, com coragem, aquilo que a sociedade não quer admitir, o facto de persistirem discursos e práticas misóginas, que dificultam o julgamento dos crimes de género, em particular os de natureza sexual. Nesse sentido, e citando Laborinho Lúcio num excerto do livro de Isabel Ventura, "Medusa no Palácio da Justiça" (2018): "Certamente haverá mais crimes sexuais pelo facto de se ir dizendo sucessivamente que não havia forma de puni-los".

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 2 abril 2019)

Dia do pai

19 de Março, dia de São José, o pai da história cristã que assumiu a paternidade humana de um filho com um projeto divino.

Mas não será esse o sentido da paternidade ou até da maternidade?

Mais do que uma relação biológica, genética, o laço que se cria entre um pai e um filho é de outra natureza. Envolve a capacidade de se dar, atender, acolher e proteger; exige ser um exemplo e uma referência mas, ao mesmo tempo, precisa de companheirismo e amizade para ser próximo e acessível.

Longe vão os tempos dos pais ausentes, vistos como a autoridade máxima, a quem competia julgar as situações mais graves porque, as outras, as mães resolviam à parte, quantas vezes sem que os pais soubessem, "Não digas nada ao teu pai, que eu te deixei fazer isso!".

O pai de hoje quer-se mais próximo, mais presente, mais preocupado com as necessidades dos filhos, desde os trabalhos de casa às namoradas, dando resposta às dúvidas sobre o texto de português ou as escolhas profissionais.

A paternidade é, como todas as relações humanas, construída pelos seus protagonistas. Por isso, é cada vez mais importante, para os homens, reconhecer e assumir o papel de cuidadores e a quota parte de responsabilidade na educação parental. Uma responsabilidade que não é uma obrigação, penosa e difícil, mas uma necessidade intrínseca de querer marcar a vida filhos, desde que nascem.

Não tem sido fácil, e talvez até muito morosa, a libertação do pai da figura secundária que tudo delega numa mãe protetora, única cuidadora, atenta aos pormenores. Por vezes, são as mulheres que os afastam dos cuidados aos mais pequenos: "deixa que eu faço! Isso não é coisa para homem!". E assim, eles vão sendo dispensados de mudar as fraldas, dar biberões, ir à consulta de rotina ou falar com a professora.

A lei vai refletindo, aos poucos, o reconhecimento da paternidade como relação que se constrói no cuidar, na presença diária, na comunicação afetiva.

Ontem, a licença era apenas "maternal", hoje é "parental". Ontem, o pai tinha apenas 5 dias, hoje pode ter até 25, os primeiros 15 obrigatórios, os outros dez, por opção do próprio. Ontem a licença pós-parto era exclusivamente feminina, hoje pode ser partilhada.

Aos poucos, os pais vão assumindo um lugar mais próximo, mais presente desde a primeira hora, em cuidados que partilham com as mães. E, assim, a parentalidade vai sendo construída como vínculo coletivo, transformando o nós casal em nós-família.

É frequente analisar as transformações na família, com base na alteração do papel da mulher, mais ativa profissionalmente, com percurso escolar mais longo e motivada por objetivos de carreira. Mas esta alteração só pode ser incorporada, de forma equilibrada na vida familiar quando, em paralelo, os homens, até ontem ligados ao espaço público, aos lugares de representação e de chefia, reivindicarem o seu lugar na família e assumirem a paternidade como dimensão fundamental da sua identidade. Ser pai não é um acaso da natureza mas, uma escolha relacional que dá direito a estar presente nos pequenos e nos grandes momentos da vida dos filhos.

Ser pai é ser exemplo, porto seguro e ter a mão firme de um amigo.

Agradeço à vida o pai que tive e tenho.

(Texto publicado no jornal Açoriano Oriental, 19 março 2019)

 

Carnaval

Terça-feira gorda! Gorda de fritos, de excessos e de fantasia. Gorda de folia e diversão. Segundo a Antropologia, o carnaval é tempo de transição que liberta os fantasmas, guardados no sótão das comunidades, escondidos nos bastidores das vidas organizadas. Como diz o povo, "é carnaval, ninguém leva a mal!" Porque, levar a mal seria julgar segundo normas e expectativas habituais. Mas, no Carnaval a regra é outra, a da expressão exagerada das emoções e até da crítica social, com efeito terapêutico sobre o stress, a contenção e algum individualismo que isola e afasta.

Basta olhar as culturas que mais intensamente vivem este tempo, como no Brasil, e ver o povo na rua, dando asas à emoção, nem sempre controlada, porque demasiado contida e massacrada pelas vidas difíceis e sofrimentos diários.

O carnaval é um tempo entre tempos, que marca no calendário o fim do inverno e antecede a chegada de um novo ciclo natural.

Sempre ouvi dizer que neste dia devemos podar roseiras e videiras. Podar é essencial para reorientar o crescimento das plantas, devolver-lhes vigor e eliminar galhos desnecessários que acabam por enfraquecer a estrutura central e não contribuem para a floração e a frutificação.

Ao mesmo tempo que a terça feira de carnaval liberta as emoções, despenaliza as transgressões, simboliza a possibilidade de regenerar a vida. O ser humano precisa dessas transições para reencontrar sentido, vigor, e ser capaz de enfrentar um novo ciclo na sua existência.

É carnaval, do fundo das arcas e dos armários saem as fantasias de princesa e de polícia, as vestes de palhaço ou as figuras da banda desenhada. As máscaras são mais uma oportunidade para libertar emoções. Escondidos por detrás do disfarce, vestidos de um "outro qualquer" fica mais fácil gritar, rir e até dançar. Os tímidos tornam-se extrovertidos, os medos são exorcizados e os corpos movimentam-se, sem receio, ao som do batuque de um samba, que ecoa por todo o lado.

A própria palavra carnaval tem origem na junção de duas palavras "carne" e "levar", ou melhor dizendo, "adeus à carne", lembrando a abstinência que marca o dia seguinte, quarta-feira de cinzas.

Estão reunidos os ingredientes que fazem do Carnaval um tempo diferente: o excesso, a folia, a máscara e a inversão de regras e papéis. Ao mergulhar no outro lado da existência, os adultos retomam o espírito das crianças, aliás testemunhado na frase "brincar ao carnaval", e afastam-se dos seus papéis diários, encarnando a pele de outros personagens e exorcizando alguns fantasmas ou frustrações.

Há muito que a sociologia encontrou no teatro e na definição de papel uma perspectiva de análise do quotidiano. Na prática, todos os dias encarnamos papéis, fazemos por vezes "de conta" e, nem sempre, integramos esses disfarces de forma coerente e saudável. Há mesmo quem passe a vida a mostrar quem não é, a fazer de conta que é feliz, quando preferia estar noutro lugar ou posição.

O Carnaval pode reconciliar a sociedade consigo própria. Libertando tensões, cria um tempo de catarse, que depois dá lugar ao recomeço. Alguns terão de aproveitar para podar aqueles galhos inúteis, libertar a vida do desnecessário, para melhor fortalecer a pessoa que são, ou querem ser, no novo ciclo que se aproxima.

Bom carnaval!

(publicado no jornal Açoriano Oriental 4 março 2019)

Mulheres

São 50% da população mundial e 52,7% dos portugueses mas, por vezes, são tratadas como se fossem uma "minoria", desvalorizadas e injustamente remuneradas, realidade demonstrada em diferentes estudos sobre igualdade de género. A Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) acaba de divulgar mais um, "As mulheres em Portugal, hoje", coordenado por Laura Sagnier, cujos resultados revelam algumas das contradições que estruturam a vida das mulheres portuguesas, particularmente as que tem entre 18 e 64 anos e vivem numa relação conjugal.

Uma primeira contradição é revelada quando se cruza a resposta das mulheres à questão sobre qual a faceta da vida que mais lhes traz felicidade? Apesar de, a grande maioria referir os filhos como a principal fonte de felicidade, quando se analisam todas as facetas da vida (emprego, casa e família) a correlação faz-se com o parceiro. É este quem exerce mais influência no sentimento de felicidade ou infelicidade que sentem.

Como explicar esta contradição?

Na realidade, com estas respostas, as mulheres revelam que, se por um lado, os filhos são uma fonte inesgotável de felicidade, elas precisam de uma relação de companheirismo, alguém com quem possam dividir dificuldades e alegrias do quotidiano, para poderem se sentir totalmente felizes.

Assim, o sentimento de infelicidade aumenta sempre que a mulher não tem um companheiro com quem possa dividir as tarefas domésticas, alguém que a oiça, que lhe dedique o máximo do tempo disponível e seja carinhoso e atencioso. E esse desejo feminino decorre do facto de, dois terços das tarefas domésticas e dos cuidados aos filhos menores serem assegurados pelas mulheres. Seja a cozinhar ou a lavar roupa, a ajudar nos trabalhos escolares ou a ir ao médico com os filhos doentes, as mulheres asseguram essas tarefas três vezes mais do que os seus companheiros. Exceções há mas, até nesses casos, há homens que preferem dizer que vão levar o carro ao mecânico só para que o chefe e os colegas não lhe digam: "não tens a tua mulher para tratar disso?".

Uma segunda contradição que este estudo revela situa-se ao nível do mundo do trabalho e da desigualdade que, infelizmente, ainda marca os rendimentos de homens e mulheres em Portugal. Ao contrário da realidade europeia, em Portugal as mulheres, na sua grande maioria, trabalham a tempo inteiro e, como vimos, ainda asseguram um conjunto de tarefas não pagas, quando regressam a casa.

Apesar de cada vez mais escolarizadas, ganham em média menos 15 a 20% do que os seus colegas homens e, no estudo da FFMS, 43% das mulheres recebem menos do que os seus companheiros. Mas, pasme-se, quando se trata das despesas familiares, contribuem com 50% dos gastos, parte do seu salário vai para a dispensa, a roupa dos filhos ou o material escolar. Tem pouco tempo para si próprias e poucos recursos.

De acordo com o estudo, poder conciliar a vida familiar com o emprego traria felicidade a muitas das mulheres/mães que trabalham.

Mas será esta é uma questão feminina? Não seria mais fácil se a construção da felicidade fosse feita a quatro mãos e, na casa como no emprego, houvesse espaço e tempo para que cada um/a se sentisse feliz?

Já agora, o que pensam e sentem as mulheres açorianas, hoje? Talvez fosse tempo de estudar 50,7% dos residentes nesta região.

(artigo publicado no Açoriano Oriental de 19 Fevereiro 2019)

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