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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Dá-me licença?

Esta é uma das expressões que cedo se aprendem. Faz parte das regras da chamada “boa educação”, associada ao bater na porta antes de entrar, ao “desculpe” se por alguma razão se incomodou ou se receia incomodar.

Pedir licença é sem dúvida um gesto de educação e mais do que isso é um acto de civismo. O mesmo se pode dizer de quem concede essa licença, respondendo, como é habitual, “faça favor”.

Vem esta introdução a propósito de uma situação recorrente no trânsito. Não sendo verbal, o condutor pede licença para entrar na fila. Olha fixamente os condutores que passam na via com prioridade, faz sinal com o pisca-pisca, mas o mais certo é ficar à espera. Passam um, dois, dez carros até que alguém, que só pode ser uma pessoa simpática, abranda para que passe.

Aquela espera estraga-lhe a manhã. Saiu atrasado de casa e bastaram uns minutos para levar o triplo do tempo até chegar ao emprego. Quando se senta à secretária ou surge diante do cliente ao balcão, já vai enervado por ter enfrentado uma série de condutores, de olhos vidrados no vidro, indiferentes aos seus “pedidos de licença” para entrar. Dar a vez? O quê! Eu? Eu tenho prioridade. Espera se quiseres! Parecem murmurar agarrados ao volante.

Custava muito alternar a entrada dos carros? Uma vez de um lado, outra vez do outro? Não, quem circula numa via com prioridade, parece que faz disso um pequenino poder.  

Faça favor! Passe à frente! São gestos de delicadeza que criam um espaço relacional e abrem o nosso mundo aos outros.

Ser capaz de ceder passagem quando nos cruzamos com outros condutores é um acto de cidadania, a expressão de quem, possuindo um direito, reconhece os direitos dos outros.

Ceder nunca foi perder, é sempre sinónimo de partilha, tolerância e sobretudo sentido da cooperação, valores fundamentais à vida em grupo, seja num casal, numa família, numa empresa ou na sociedade em geral.

Não há lugar ao diálogo se não houver cedência, até porque para ouvir, temos de parar de falar.

Sem cedência não há negociação, nem contrato que resista, porque um acordo é sempre a melhor forma de conjugar as diferenças, na busca do que é comum.

Faça favor ou como dizem os mais eruditos “faça o obséquio”, são bem a expressão da humildade, da generosidade que transforma os seres humanos em boas pessoas, consubstanciando gestos simples em “boas acções”; actos de civismo em alimento do espírito de cidadania; transformando o ser humano numa “boa pessoa”.

Voltando ao stress que a espera numa fila de trânsito pode representar, era bom que nas aulas de condução se ensinasse, para além do código da estrada, um conjunto de boas maneiras, entre as quais a cedência da prioridade é bem um exemplo. Temos todos pressa, queremos todos chegar, mas se soubermos dar oportunidade ao outro, estamos a contribuir para a humanização das relações e, quem sabe, ajudar a reduzir o número de pequenos acidentes, choques ligeiros, que esse stress acaba por provocar.

Bom dia! Faça favor! Em que posso ser-lhe útil? Desculpe, dá-me licença? São expressões de boa educação que fazem toda a diferença no atendimento, na relação com o outro, que não conhecemos, mas com quem nos cruzamos na rua, no comércio ou no trânsito!

Dá-me licença!? Sempre ao dispor. Obrigada

 (publicado no Açoriano Oriental a 14 de Abril 2008)

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