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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Desmanchar é fácil

Todos têm a experiência de como é muito mais fácil desfazer ou desmanchar do que fazer ou construir. Basta lembrar a imagem do castelo de cartas que pode levar uma hora a montar e que num segundo se desfaz, ou então a malha que se tricota durante um serão e que, se puxarmos pelo fio se desmancha num breve instante.

Construir é sempre mais difícil, não porque a estrutura que se ergue ou se monta seja diferente da que se desfaz, mas porque implica planeamento de tarefas, definição de metas, organização e, sobretudo, nasce de muito esforço e empenho. Desmanchar é fácil, pode até ser o resultado de um acto de vandalismo ou vingança. Não importa o trabalho que deu aos outros, não importa a razão porque se ergueu esta estrutura ou o motivo porque se construiu aquela outra, derrubar pode significar, para quem o faz, aniquilar alguém ou evitar uma mudança; descarregar num instante a raiva ou a inveja e quebrar a força e o entusiasmo do outro.

O acto de desmanchar não é apenas físico, de quem amassa um castelo, desfaz uma malha ou destrói um edifício, mas pode também ser verbal ou psicológico. Aliás, o termo “desfeita” é bem sinónimo de atitudes destrutivas, de quem por palavras de maledicência, calúnia ou suspeita, procura retirar credibilidade aos autores, levantar dúvidas sobre as suas intenções e assim prejudicar, nem que seja atrasando, a concretização de projectos de mudança. São as “pedras no sapato” ou “na engrenagem” que é preciso saber tirar para avançar; que importa eliminar, sem nunca desistir.

Construir é um acto de persistência, destruir uma forma primária de desistir e, ao mesmo tempo, de impedir os outros de serem ou fazerem. Ser construtor não é apenas o resultado da prática de quem domina a engenharia ou a construção civil. Assumir-se como construtor depende de um processo de socialização ou aprendizagem; é ser cidadão activo, ter uma consciência cívica e querer ser cooperante no mundo em que se vive.

É necessário ensinar as crianças e os jovens a terem um espírito construtor ou empreendedor. É urgente valorizar o esforço, não apenas como trabalho remunerado, mas como atitude de vida, genuína, voluntária e espontânea. Quando uma criança responde: “quanto é que a mãe me dá para eu lavar a louça?” é sinal que falhou a aprendizagem do sentido cívico da cooperação e da partilha. É urgente educar para a cidadania activa, porque quando este desígnio falha, os sinais são evidentes: passividade, vandalismo gratuito e irresponsabilidade. Nada tem valor para quem desconhece o sentido do esforço e do empenhamento numa construção. Por isso, desmanchar, desfazer ou destruir são apenas expressões de quem julga possuir algum poder sobre o mundo que o rodeia. “Mas isso por ventura é teu, para te preocupares assim tanto?”

Construir, contribuir, participar e todos os verbos que possam significar uma ligação entre os cidadãos e a comunidade, entre as pessoas e o mundo que as rodeia, são expressões claras de quem não vive só por viver, mas assume a sua quota parte de responsabilidade no desenvolvimento da sociedade a que pertence. Não basta pensar “eu” e deixar as sobras para os outros. É importante pensar “nós” e cooperar de forma adequada, para que todos possam sentir-se membros activos e construtores de uma sociedade melhor.

Uma triste frase do passado dizia que se alguém soubesse o que era mandar, preferiria obedecer toda a vida! Hoje, faz todo o sentido dizer que se alguém souber o que custa construir, nunca se atreve a desmanchar.

(publicado no Açoriano Oriental a 30 de Junho de 2008)

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