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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

O Natal que eu não gosto

Nem tudo no Natal me agrada.

Desculpem, mas há uma pressão, uma insistência no brilho, um exagero de luzes, de enfeites e de consumo, que não me agradam no Natal.

O Natal que me faz vibrar é feito de coisas muito simples: um presépio, uma lamparina de azeite acesa, um menino deitado nas palhinhas e um cheiro a cedro de uma árvore enfeitada com bolas e fitas.

Há coisas no Natal que me incomodam. O excesso de luzes nas ruas, as músicas que se repetem e os pais natais que tanto atraem as crianças como as assustam.

Na minha memória no Natal não pode faltar os pratos de ervilhaca, de trigo e de alpista, transformando o presépio numa paisagem natural, miniatura da ilha verde, rica da fartura que se espera.

Não cabem no meu Natal as compras avultadas, os brinquedos que são desejos de adulto e que as crianças abandonam, para se deixarem cativar por um brinquedo simples com o qual fazem de conta que são reis e senhores, ou então fantasiam uma cena doméstica, onde brincam aos pais e às mães, aos comerciantes e aos clientes.

No Natal é preciso tão pouco para sentir a união, o aconchego e a partilha. É preciso tão pouco e tudo à nossa volta parece ser tão exagerado. Alguns parecem viver este tempo como um concurso onde cada um tenta iluminar a sua casa mais do que a do vizinho. É ver os veados a saltar, os pais Natal pendurados em varandas e nos telhados. Um concurso que por vezes se estende às prendas, que se querem maiores e mais caras.

No meu Natal, aquele que me faz sentir criança de novo, há velas acesas, lamparinas de azeite que brilham no escuro do quarto, onde um menino Jesus aguarda a oração da família.

No meu Natal até podia não haver uma árvore, mas não faltaria o presépio.

Porque o Natal deveria ser um tempo de verdade, de sincera solidariedade, de tomada de consciência e sobretudo de encontro. Um tempo para despir máscaras, abandonar o brilho das aparências, deixar-se de falsos sorrisos e hipocrisias e procurar dentro de si os sentimentos mais profundos.

Neste tempo de balanço de um ano que termina, é sempre hora para deitar fora as raivas e abraçar os afectos mais positivos, aqueles que nos reaproximam de amigos afastados, nos leva a visitar familiares sozinhos e nos anima a dizer, “boas festas e um bom ano”, convictos desses votos, porque ditos com o coração.

O Natal da minha memória é partilha, simplicidade e não combina com excessos e acumulação. Faltam poucos dias para a festa e este é o tempo da preparação, não apenas para fazer as limpezas gerais, mudar as cortinas ou as colchas da cama. Este é o tempo para lembrar os que amamos, os amigos e aqueles a quem há muito não falamos. Uma palavra, um telefonema podem ser suficientes para fazer deste Natal um tempo diferente. Mas, se ainda não recebeu essa mensagem amiga, aqui ficam algumas palavras de calor.

 Neste Natal não me esqueci de si, sobretudo se está sozinho, doente ou longe dos que mais ama. Há um lugar diante do presépio também para si!

No meio das luzes e dos enfeites, são para si os sorrisos das crianças e a magia daquela vela acesa que ilumina o rosto do Menino Jesus. Afinal é do aniversário dele que se trata; pode sempre lhe cantar parabéns!

(publicado no Açoriano Oriental de 15 Dezembro 2008)

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