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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Tão longe e tão perto

Tive o prazer e sobretudo a honra de participar no aniversário da Casa dos Açores da Nova Inglaterra em East Providence.

Estar entre açorianos emigrados foi uma experiência de reencontro com a identidade que partilhamos mas que, tal como a beleza da terra onde vivemos, não vemos, não temos consciência, a não ser quando nos afastamos.

O mundo dos emigrantes açorianos, da primeira ou da segunda geração, passa em grande parte pela partilha da língua e das tradições da terra de onde partiram. Sentem por estas ilhas uma permanente saudade, o que não os impede de viver o quotidiano de trabalho e de luta em terras americanas. Transportam consigo a marca do sotaque, o nome de família, as recordações daqueles que deixaram para trás, em busca de uma vida melhor.

Hoje, dizem alguns, talvez não emigrasse. A vida nas ilhas melhorou muito, não se compara com aqueles tempos. Havia fome, os meus pais não tinham possibilidades de nos por a estudar, a insegurança criada pelo regime de ditadura, nomeadamente a guerra do ultramar onde morreram tantos açorianos, não convidava a permanecer. Face ao futuro incerto, a América surgia como um horizonte de bem-estar, fartura, trabalho e a possibilidade de poupar algum dinheiro que permitisse a compra de uma casa, de um carro e, quem sabe, depois, voltar “para trás”.

Mas para a maioria, nunca mais aconteceu a oportunidade de “voltar para trás”. Os filhos cresceram, nasceram os netos, a vida foi ganhando estabilidade. Apesar de a alma sofrer de desenraizamento, o mundo à volta foi prendendo, impedindo uma decisão de regresso.

Só a açorianidade consegue unir e consolidar a identidade dos emigrantes. Divididos entre o facto de serem portugueses numa terra estranha, foram aos poucos entranhando a condição de americanos, mantendo viva a alma açoriana que os torna diferentes.

Numa terra onde as culturas europeias marcam o comércio, a restauração, o nome das pessoas e das empresas, entre italianos, irlandeses e outras culturas, os açorianos muito têm contribuído para a história recente dos Estados Unidos, particularmente na costa leste onde muitos residem. Fall River é bem o exemplo de uma cidade onde se fala português com sotaque micaelense.

Todo o açoriano que frequenta a Casa dos Açores ou outras associações do género, traz consigo uma história de luta, sofrimento e algumas vitórias. Uma vida inteira, dizia Conceição, para poder construir a casa dos meus sonhos, uma mansão numa zona residencial de prestígio. Uma vida inteira de trabalho árduo.

Passados vinte, trinta anos, muitos só falam português com os companheiros, porque os filhos, esses já só falam inglês e aos poucos vão-se inserindo numa realidade multicultural.

Em casa, os sabores vão-se misturando, a massa sovada dá lugar ao donut e a carne na assadeira de barro alterna com os hamburguers.

A cinco horas de distância, do outro lado do atlântico, a açorianidade une insulares de várias ilhas num sentimento forte de comunidade. Podem não existir pontes de aço que atravessem o oceano, mas a língua portuguesa é sem dúvida uma ponte que liga os emigrantes à terra de onde partiram.

Tão longe e tão perto, a comunidade emigrante transplanta a açorianidade no outro lado do mar, onde a palavra saudade só se diz em português.

(publicado no Açoriano Oriental a 22 Outubro 2007)

Assinar a rogo!

“Importa-se de assinar este documento, a rogo desta senhora?

Assinar como? É que esta senhora não sabe escrever e não lhe podemos dar o dinheiro da pensão se não houver alguém que assine por ela. Infelizmente a senhora não veio acompanhada por um familiar ou pessoa amiga.”

Este pequeno episódio, que vivi recentemente, permitiu sentir o peso do analfabetismo que alguns idosos carregam como um fardo. Com setenta e sete anos, esta senhora, capaz de fazer a sua vida e tratar dos seus assuntos, está limitada nas suas decisões, porque não sabe ler nem escrever. Bem pode usar a marca digital, como prova da sua identidade, mas fica-lhe a faltar a garantia que o nome assegura. Uma simples assinatura, tão fácil de fazer, representaria para esta idosa um enorme poder e um sentimento de autonomia. Insisti que nunca é tarde para aprender, nem é impossível passar a assinar com o seu punho os documentos do banco ou outros.

“Como eu gostaria menina! Mas com esta idade!”

Setenta e sete anos, sem saber ler ou escrever porque alguém lhe negou essa possibilidade, quem sabe para que ficasse em casa cuidando dos irmãos, ajudando a mãe, trabalhando a terra ou simplesmente, esperando que um namorado aparecesse para casar e passar a cuidar da sua própria família. Não é um caso raro, se tivermos em conta que em 1940 a taxa de analfabetismo entre as mulheres portuguesas era de quase 60%. Passados 61 anos, o recenseamento de 2001 regista uma taxa de 12% de mulheres portuguesas analfabetas. É sem dúvida uma grande diminuição, mas infelizmente, ainda não nos coloca ao nível de outros países europeus. A herança do analfabetismo que os governos democráticos receberam após 1974 não foi completamente ultrapassada. E, infelizmente, ainda hoje, muitas jovens abandonam a escola sem terem atingido o que a legislação considera de escolaridade básica.

Se é importante e fundamental investir na promoção da escola junto da população jovem, é um desafio ainda maior levar o saber ler e escrever aos mais idosos. Provavelmente tal ganho teria repercussões na saúde mental daqueles que vivem sozinhos, e passam o tempo recordando com mágoa as oportunidades que lhes foram negadas. Mais autónomos para ler uma receita do médico, o folheto de um medicamento ou terem acesso à informação impressa, idosos que sabem ler e escrever são por ventura mais felizes.

Mas, voltando ainda à senhora com setenta e sete anos, “porque não trouxe ninguém?”. Sabe, as minhas netas estão estudando, uma tem dezassete e a outra quinze. Não as quero prejudicar nos estudos.

A solidariedade entre gerações é importante, mas como em outras áreas, ser solidário é sempre um acto de cumplicidade entre quem dá e quem recebe, num gesto desinteressado de quem recebe dando.

Quem sabe, se os mais novos, esses netos de avós analfabetas, não se dispõem a um gesto de solidariedade e lhes ensinam a escrever, pelo menos o nome. Em troca, talvez, fiquem a saber alguma receita antiga, aprendam um ponto de croché ou simplesmente recebam um conselho sábio de quem já viveu muito tempo e sofreu na pele os efeitos de um país que, no passado, não investia nas competências das pessoas.

(Publicado no Açoriano Oriental a 15 Outubro 2007)

Humanizar o poder judicial

Tem sido notícia a entrega, por ordem do tribunal, de uma menina de seis anos ao pai biológico, depois de sempre ter vivido com os pais adoptivos.

Um caso entre muitos outros, que veio despertar na opinião pública o debate sobre a adopção e, sobretudo, abriu um pouco as portas dos tribunais que muitas vezes decidem sobre a vida das famílias.

Protegidos pela lei, por artigos de um qualquer código, os juízes interferem não apenas no destino de crianças, pais e famílias inteiras, como condicionam modelos culturais, alguns contestados pela própria sociedade, mas ainda sem reflexo na lei.

Escolher entre os laços de sangue ou os laços afectivos; privilegiar o pai ou mãe na relação parental; aceitar o acolhimento da madrinha ou da avó, são decisões que por vezes competem aos juízes, nem sempre suportadas por pareceres fundamentados de especialistas em ciências humanas e sociais. Não esqueçamos que na formação universitária de um jurista não abundam disciplinas científicas destas áreas, lacuna que pode contribuir para o distanciamento com que por vezes aplicam a lei. Alguns terão mais sensibilidade do que outros, mas a compreensão da dimensão psicossocial dos casos não pode depender do senso comum do juiz.

Parafraseando uma frase bíblica, o homem não foi feito para a lei, mas esta sim, deve servir e organizar a vida humana. Quando a lei revela ser desajustada é porque os homens e a sociedade mudaram e certamente os modelos de referência são outros.

Por exemplo, se considerarmos as sentenças em situações de divórcio, é recorrente o juiz dar a tutela parental à mãe, com visitas periódicas ao pai que deverá, para além disso, entregar uma pensão de alimentos. A inversa acontece, mas é raro e quase sempre implica uma luta judicial por parte dos pais que querem ficar com a guarda dos seus filhos. 

Em casos de adopção, a questão é outra, para além da dimensão materna, valorizada como uma relação de valor superior a todas as outras, a tendência do poder judicial é a de sobrevalorizar os laços de sangue aos laços afectivos.

O caso que tem sido notícia é bem disso exemplo. Depois de abandonada pelo pai e entregue para adopção pela mãe, eis que a justiça entende ser adequado que esse pai, que não cuidou da filha, tenha uma segunda oportunidade, porque apesar de tudo é o genitor.

Referem os juízes que está em causa o “superior interesse da criança”, mas muito fica por dizer quando esses juízes procuram dar sentido ao que entendem ser esse interesse da criança, raramente ouvida, ao sentido de superior, que implica hierarquizar necessidades e, sobretudo, quando decidindo em nome da criança valorizam as condições e os pressupostos dos adultos.

Os tribunais quando confrontados com casos de adopção, regulação do poder paternal, entre outros domínios que afectam as relações familiares, têm de ser humanizados, ou seja, não bastam as leis para se fazer justiça, é cada vez mais importante saber contextualizar e basear a sua aplicação numa análise psicossocial e cultural da realidade em que se inserem as famílias. Em alguns casos é a própria lei que deve ser revista, à luz dos novos papéis e das novas relações que constroem as famílias actuais.

(Artigo publicado no Açoriano Oriental, 8 Outubro 2007)

Famílias recompostas

“Tu não mandas em mim porque não és o meu pai!”

Esta é por ventura uma frase que muitos padrastos já ouviram.

Padrastos? Sim, porque em português é a única designação formal que existe para quem casa com uma mulher que já tem filhos de uma relação anterior.

Apesar da carga negativa que a palavra comporta, sobretudo quando é dita no feminino, madrasta, hoje em dia há cada vez mais famílias onde um dos cônjuges não é o pai ou a mãe das crianças.

São as chamadas famílias recompostas. O casal ou os pais vivem neste contexto uma relação complexa que pode envolver crianças, a quem designam de meus, teus ou nossos filhos. As crianças descobrem que, para além dos irmãos, têm meios-irmãos e quase irmãos, estes últimos filhos do amigo da mãe ou da amiga do pai e que, por esse facto, não têm com elas qualquer laço de sangue.

Nas famílias recompostas, os afectos sobrepõem-se às questões do sangue. A partilha de uma vida em comum é mais importante do que a biologia. Mas, porque nada está definido à partida, a vida numa família recomposta é certamente mais complexa do que num qualquer outro tipo de família.

Se, por um lado, as crianças mantêm os laços com os seus avós paternos e com o pai biológico, por outro, a mãe, que entretanto voltou a casar, traz para a vida dessas crianças um novo grupo de pessoas e de relações familiares. Desde logo o padrasto ou o namorado ou amigo da mãe, quase sempre tratado pelo nome próprio, que altera e redefine o próprio papel da mulher. Ao mesmo tempo, mãe e esposa de alguém que não é o pai dos seus filhos, cabe-lhe a tarefa de gerir um conjunto alargado de relações, por vezes conflituosas.

Nas famílias recompostas a vida quotidiana é uma permanente construção na busca do equilíbrio e do bem-estar de todos. É certo que o divórcio resulta de uma relação conjugal que termina, mas quando existem filhos, também é certo que dificilmente se podem cortar os laços que unem as crianças aos seus familiares de sangue, que fazem parte do seu mundo de referências culturais e sobretudo, afectivas.

Por razões diversas, os tribunais conferem em geral às mães o poder paternal, o que limita de forma clara o contacto diário com os pais. Apesar disso, as crianças necessitam de equilíbrio emocional e meios de sobrevivência mesmo que tenham de viver em dois quartos de cama, duas casas e por vezes duas famílias, a da mãe e a do pai.

Não é fácil, mas é necessário, criar espaço para todos, criar condições para que cada individualidade se desenvolva e transformar a circulação das crianças entre a casa do pai e a da mãe, num enriquecimento afectivo e não numa fonte de conflito e competição.

Famílias recompostas, designação sociológica que enquadra um fenómeno recente, mas cada vez mais frequente, de famílias de divorciados com filhos.

Como em qualquer outro tipo de família, não são os laços de sangue que garantem os afectos, mas sim a partilha de uma vida quotidiana, a cooperação na resolução de dificuldades e o convívio entre todos que proporcione bem-estar. Não é o tecto que define a família mas a proximidade entre os corações daqueles que se consideram como tal.

Como refere a socióloga Cristina Lobo, quando se entra numa família recomposta é como quem começa a ler um livro pela metade. Um novo capítulo começa, mas o presente escreve-se com a história passada.

(publicado no Açoriano Oriental, 1 de Outubro 2007)

piedade.lalanda@sapo.pt

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