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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Horizonte eleitoral

As eleições aproximam-se! Os mandatos terminam e é tempo de avaliar o trabalho efectuado, contabilizar vitórias, reconhecer as falhas e perspectivar estratégias para enfrentar velhos ou novos problemas.

Em tempo de campanha todos comentam, discutem e opinam sobre o que está bem e o que precisa de ser mudado. É fundamental fazer balanços, que não sejam apenas actos de acusação, mas momentos de reflexão e participação activa, seja por parte de quem foi executivo, eleito, seja por parte de quem elege. Somos todos parte integrante da mesma comunidade e, por esse facto, cada um à sua maneira, é corresponsável pelos resultados das medidas entretanto aplicadas.

Um pouco por todo o lado, começam a surgir os sinais da campanha eleitoral. Frases, que apelam à consciência dos cidadãos, esvoaçam no meio de outras, de cariz mais comercial. Contrastes de ideias e de sentidos, que nos obrigam a reflectir sobre o que realmente pode motivar os eleitores e os faz acreditar no conteúdo dessas frases e nas pessoas que irão surgir em nome de cada um dos partidos.

Com as frases: “Uma nova ambição para os Açores” e “É bom ser Açoriano”, o Partido Socialista arrancou a pré campanha. Por sua vez, o Partido Social-Democrata apostou na expressão “Melhor é possível” associada a frases que tocam as angústias dos potenciais eleitores (listas de espera, desemprego), sentimentos que parecem partilhar os candidatos do PSD, na medida em que afirmam “temos muito em comum”.

Estas frases de campanha parecem configurar duas formas de encarar o futuro: o PS com uma visão positiva e enraizada no que de melhor têm as pessoas, a sua ambição de ser; e o PSD revelando um visão mais pessimista e ensombrada do quotidiano, que reforça a lamúria acomodada. Olhar em frente ou lamentar o presente, atitudes contrárias que fazem a diferença em política. A primeira apela à crença em si próprio e projecta o futuro sem desistir da ambição de construir uma sociedade mais desenvolvida, justa e respeitadora da igualdade de oportunidades e do bem comum. A queixa e a justificação permanente para os insucessos; a lamúria e o queixume mostram uma outra forma de fazer política, que se alimenta da crítica fácil, sem provocar a mudança. Identifica os efeitos secundários de medidas eficazes, realçando as dificuldades, sem reconhecer as transformações estruturais.

A política, como a vida, não é compatível com derrotismos e visões dramáticas e angustiadas da realidade.

Sem negar os problemas, há que os encarar com realismo e agir de forma a tocar a sua raiz. Porque a superficialidade até pode ficar bem, mas é cosmética que ilude e nada resolve.

Eleições! De novo confrontados com uma escolha. Pela leitura dos cartazes que começam a aparecer, uma conclusão podemos tirar: podemos escolher entre a esperança e a ambição de ser e de conseguir ou o pessimismo acomodado e a queixa de não ter conseguido.

(publicado no Açoriano Oriental de 25 Agosto 2008)

Promessas

Quantas promessas nascem de pedidos? “Se Deus, se tudo se resolver, eu mudo…”. Esperando passivamente que outros façam ou resolvam, dispõe-se a “pagar essa promessa” com sacrifícios e até mudar de vida; depois, só depois do “milagre” acontecer.

Promessas fazem outros, que apesar de conscientes das dificuldades que existem para resolver uma situação, iludem quem neles acredita. Fazem promessas para empatar. Mas “para a semana fica resolvido”.

Prometer só é válido na medida em que for comprometer, quando me envolver e envolver os outros na solução dos problemas. Em geral quem espera ver uma promessa cumprida, quer respostas concretas e é intolerante aos adiamentos sucessivos. Se a questão é económica, espera um aumento de recursos, quase imediato; se o problema for desentendimento familiar, por exemplo a eminência de um divórcio, é no entendimento e na reunião que vê a promessa cumprida.

Dificilmente alguém considera que a concretização de uma promessa possa não ser uma resposta positiva. Como pode a permanência de uma situação de carência ser resposta? Como ver no desentendimento de um casal uma oportunidade para o reencontro?

Uma promessa é antes de mais um contrato, um compromisso de intenções entre diferentes partes. Ninguém pode prometer sem envolver os outros, nem ninguém pode esperar ver uma promessa cumprida sem participar na sua concretização. Se a questão é financeira, familiar ou outra, é fundamental saber ler as causas e os entraves à sua resolução. Qual é a minha parte na alteração da situação? Que oportunidades não aproveitei ou que expectativas exageradas deposito nos outros? O que fazer quando não puder evitar ou alterar um problema?

Em campanha eleitoral fazem-se promessas, porque ninguém pode apresentar um programa ou um projecto político ao eleitorado, sem afirmar o que pretende concretizar numa legislatura; sem dizer que está disposto a pôr em prática essas ideias. Mas, os eleitores, quando confiam nas pessoas, quando votam, não podem desresponsabilizar-se da realização desse projecto. São parte integrante do sucesso dessas medidas. Votar favoravelmente um determinado projecto político é afirmar: podem contar comigo para a sua concretização.

Prometer mais habitação, melhor emprego ou mais educação, sem considerar a responsabilidade das famílias, a reorganização dos estilos de vida, a crença no esforço pessoal e a definição de metas, aspirações que representem investimentos no futuro, é fazer “falsas promessas”. É ser demagogo e estar à espera que o comodismo em que se instalam os descontentes os faça acreditar em discursos vazios. É pura demagogia chegar a épocas pré eleitorais e criticar o governo por não ter conseguido (ou prometer) combater a fome, a doença, o analfabetismo, o alcoolismo e a violência, como se estes problemas fossem pó que se pode varrer, nem que seja para debaixo do tapete.

Se queremos ser objectivos, realistas, olhemos estes flagelos a partir da realidade concreta da sociedade e da nossa própria vida, assumindo-os como problemas para os quais também contribuímos, quantas vezes aceites e dissimulados no quotidiano das pessoas.

A melhor forma de pagar ou cumprir uma promessa é dar de si, é dar-se, para que a mudança aconteça.

(publicado no Açoriano Oriental de 18 Agosto 2008)

Escutar é aprender

A experiência ensina que podemos aprender muito mais depressa se estivermos atentos, se escutarmos o que os outros falam, se nos concentramos nas explicações que nos são dadas ou simplesmente se formos armazenando informação.

Escutar é mais do que ouvir, é entender e abrir a nossa mente à novidade, ao momento. É deixar-se surpreender e não ter ideias feitas que nos impeçam de apreender os conteúdos que os outros nos transmitem.

Escutar é um dom, mas não é um privilégio dos ouvintes, porque não depende apenas do ouvir. Implica entender diferentes linguagens: a dos gestos, dos sinais, das posturas, das cores ou mesmo das tonalidades da natureza. Apesar dos sons serem fundamentais na construção dos ambientes, escutar difere do simples ouvir, desde logo pela atitude de quem o faz. Não se escuta se não se pára, se não se tira tempo para sentir, para estar.

Escutar é fundamental para conhecer. Logo, quem não o faz, é mais ignorante. Quem não se dispõe a ouvir as vozes e a procurar entender os significados, constrói um mundo de conceitos mais pobre, define os limites do possível de forma restrita.

Escutar abre as fronteiras do conhecimento e do pensamento e enriquece as relações. Entre pais e filhos, se os primeiros não escutarem os segundos, é muito provável que vivam numa ilusão de serem pessoas felizes. O silêncio, aparentemente sagrado, que rodeia essas relações extremadas, é um sinal de que ninguém se conhece, porque ninguém escuta o sentir do outro.

Entre governantes e cidadãos, detentores do poder, seja a que nível for e governados, se não houver lugar e espaço para a escuta, ou como juridicamente se diz, para as audições, o desconhecimento vertido em lei, em decreto, toma o lugar da realidade, rodeando o poder de defesas intransponíveis, alimentando os mitos como verdades absolutas.

Escutar só enriquece, só aumenta a capacidade de entender e de decidir. Escutar é, por isso, a expressão de quem tem a noção de que não é infalível, nem sabe tudo. Sem perder a sua condição e posição, seja como Presidente da República, director de uma empresa, pai ou simples cidadão, quem se dispõe a escutar o outro, contribui para melhorar a qualidade das relações, da democracia e sobretudo, é mais justo e pode pronunciar-se com mais propriedade sobre a realidade dos outros.

Em qualquer situação ou circunstância, são sempre várias as vozes e sobretudo diferentes as interpretações que podemos fazer de uma mesma realidade. Por isso, se queremos conhecer o mundo e as pessoas, se queremos descobrir uma terra ou um povo, não basta dizer, “eu já passei por lá”, é preciso ficar. Não basta dizer “eu já ouvi isso”, é preciso escutar novamente. Não basta dizer, “eu já sei o que vai dizer”, é preciso dar espaço ao outro e escutar os significados que se escondem detrás das suas palavras.

O dever de escutar é próprio da cidadania e não devia ser entendido como uma obrigação legal: políticos, agentes de segurança, professores e todos os profissionais que estão ao serviço das populações deveriam escutar mais; não por obrigação mas como exigência e necessidade. Porque só aprende e, logo, só conhece, quem se dispõe a escutar.

(publicado no Açoriano Oriental de 11 de Agosto 2008)

De férias

As estatísticas não referem quantos portugueses entram de férias no mês de Agosto, mas pelo que nos apercebemos um pouco por todo o lado, parece que metade do país não está ao serviço.

Em Agosto, as fábricas param, dizem-nos nos armazéns; só podemos fazer as encomendas para Setembro. Nem vale a pena encomendar nada neste mês. É um mês desejado por quase todos os funcionários, públicos ou privados, e em algumas empresas quando se gozam férias em Agosto, só passados vários anos se pode voltar a fazê-lo.

Agosto é um mês para descansar ou, se calhar, nem tanto. Há tantas pessoas nas praias, nos parques de campismo e nas festas, que acontecem um pouco por todas as freguesias, que por vezes o descanso acaba por ser um bem raro. E depois há sempre o telemóvel a tocar, os amigos a convidar para mais uma jantarada. Afinal estamos de férias, é tempo para as refeições abundantes, os convívios, os passeios e sobretudo, é tempo para não viver em função do relógio. Se há coisa que não precisamos nas férias é de horários rígidos, refeições sempre ás mesmas horas e sempre iguais.

Variar, mudar, fazer diferente; dormir até mais tarde e deixar-se levar pela leitura de um bom livro, sem ter a preocupação em limpar o pó da estante ou em lavar os vidros das janelas.

Há mulheres trabalhadoras que fazem do mês de férias um tempo de intensos trabalhos domésticos: reviram as casas, fazem limpezas em armários, arrumam estantes e dão óleo na mobília. Mandam os filhos para a praia e deixam-se ficar em casa, de lenço amarrado à cabeça, pano de pó numa mão e vassoura na outra.

Férias é tempo para se olhar para si, para gozar o descanso merecido e intensificar o convívio e o lazer. Depois de um ano de trabalhos, que só se quebram ao fim-de-semana, um mês de férias não é nada. Já agora, se Agosto foi o mês escolhido ou que lhe calhou na rifa, porque não aproveitar para viver de forma diferente. Há quem aproveite para fazer campismo ou então descubra um recanto desconhecido da ilha. E felizmente, há sempre lugares que nem uma vida inteira nestas ilhas, nos permitiram conhecer. Quem sabe, ir de barco até outra ilha, para melhor sentir o que é ser açoriano?

Nas férias é sempre bom ler um livro ou mais, porque nessas horas de pausa, é a imaginação que se alimenta. A leitura de um bom livro é como uma viagem virtual que se faz sem sair de casa. A leitura alimenta o espírito e refresca a mente, tal como a água que banha o corpo quando se mergulha no mar.

Agosto, mês de férias que quase faz parar o país. Um pouco por todo o lado organizam-se festas e arraiais e os que estão há muitos anos longe, em países de emigração aproveitam para “voltar à terra” para matar saudades. Saudades dos produtos que as grandes cidades há muito deixaram de produzir; memórias de sabores e de cheiros que as férias ajudam a retemperar.

Se está de férias, aproveite. Se não, não desanime, dê um mergulho ao fim da tarde! O contacto com o mar que refresca, traz o sabor das férias! O importante é conseguir cortar com a rotina e criar alguns momentos de silêncio, de reencontro consigo.

As férias, mesmo num mês como Agosto, em que todos parecem desejar o mesmo, não trabalhar, devem ser momentos de paragem, reflexão e renovação. Parar não significa regredir, desperdiçar mas antes é condição para se poder rever e renovar. E as férias devem ser esse tempo para carregar baterias!

(publicado no Açoriano Oriental de 4 Agosto 2008)

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