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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Circular na Rua dos Mercadores

 

Não passo de carro na rua dos Mercadores. Não é proibido, nenhum sinal de trânsito o impede, mas o bom senso e, sobretudo, o respeito pelo trabalho dos calceteiros que durante semanas construíram e embelezaram o piso daquela via, impede-me de o fazer.
A rua dos Mercadores foi certamente uma das mais importantes no comércio da cidade, no tempo em que esta actividade acontecia em torno da igreja Matriz.
Mais tarde, apesar da extensão dos comerciantes a norte e sobretudo a poente do centro da cidade, a rua manteve um conjunto de lojas, algumas das quais já abandonaram esta via.
Recentemente a Rua foi calcetada, julgava eu e imagino muitos mais, para ser devolvida aos peões. Sem passeios, poderia ser um incentivo à fixação de novas empresas, nomeadamente do ramo da restauração, instalando esplanadas e espaços de convívio.
Infelizmente, o executivo municipal entendeu que a via deveria manter-se aberta ao trânsito, não apenas para descargas e em horário limitado, mas a qualquer hora do dia.
Os carros atravessam o espaço, por vezes em velocidade excessiva, cabendo ao peão estar atento ao som, isso se não for surdo, para evitar um atropelamento.
Não faz sentido. A joga de mármore que forma os desenhos geométricos da calçada começa a revelar marcas de poluição e pneus das viaturas, sem respeito pelo trabalho aturado de quem lapidou pedra a pedra aquela calçada.
Apesar de sermos tentados a levar o carro para todo o lado, é urgente libertar a nossa cidade da pressão que as viaturas impõem, aumentando o ruído, a poluição, quantas vezes formando verdadeiras barreiras à mobilidade dos cegos, dos deficientes motores ou, simplesmente, dos mais pequenos que viajam em carrinhos de bebé ou pela mão dos seus pais.
Até pode ser permitido, mas os habitantes de Ponta Delgada deveriam evitar passar nesta rua histórica com viaturas motorizadas, a não ser os moradores ou em situação de descarga, como ocorre em outras vias pedonais.
A Rua dos Mercadores deveria ser transformada num novo espaço de convívio urbano, já que se trata de uma via onde a história da cidade se conta nos seus bonitos edifícios.
(publicado no Açoriano Oriental de 27 de Julho 2009)

Ser mordomo do Espírito Santo

 

 
 
 
 
 
Os antropólogos há muito que identificaram uma forma ritualizada de afirmação social, designada por potlatch, termo que significa Dar. Ao invés do prestígio social que se obtém pela acumulação de riqueza, no potlatch é a dádiva e o despojamento que conferem esse prestígio.
Nas Festas do Espírito Santo encontramos na figura do Mordomo ou do Imperador, alguém que, ao organizar a festa, assume as despesas, garante a distribuição das “pensões” pelos irmãos e proporciona um tempo de fartura e exaltação do culto.
No fim da festa, feitas as arrematações das oferendas, os irmãos sorteiam, entre os que a isso se dispõem, quem será o mordomo no ano seguinte e distribuem as sete “Domingas” que precedem a festa por outras tantas casas.
Este ritual confere ao tecido social de uma comunidade de vizinhança uma estrutura dinâmica, que não depende de cargos públicos ou de competências previamente determinadas, mas do espírito de entrega e despojamento de quem aceita ser mordomo e, por esse facto, acolhe na sua casa os símbolos maiores da festa, a bandeira e a coroa.
Em cada ano esse poder simbólico, porque transitório, muda de mãos e ganha um novo centro, uma nova morada, onde se levanta o altar, se enfeita um quarto e se recebe os vizinhos, em momentos de oração e de partilha.
As festas do Espírito Santo são a expressão mais genuína de um tecido social comunitário, que ainda hoje marca o mundo rural açoriano e se manifesta em algumas pequenas comunidades urbanas, uma rua, um bairro, onde a rede de relações próximas se transforma em irmandade.
A partilha da carne, do pão, da massa e do vinho, que foram antes abençoados na casa do mordomo e constituem as “pensões”, faz-se no espaço da família ou na via pública, onde todos têm lugar à mesa. Ninguém se atreve a desperdiçar esta dádiva, que é para muitos sagrada.
O povo açoriano tem pelo Senhor Espírito Santo um profundo e sentido respeito. E, apesar de reconhecer o prestígio que é devido ao mordomo, não aceita que alguém organize a Festa, que não seja para servir os irmãos, porque tal como no Potlatch, o importante é mostrar capacidade para dar.
(publicado no Açoriano Oriental de 20 de Julho 2009)
 

Desigualdades sociais

Somos todos iguais perante a lei, mas as desigualdades sociais permanecem.

Temos todos, direito à saúde, à educação, ao emprego, mas na realidade, as desigualdades persistem e marcam as relações humanas. Há quem espere por um exame médico no sistema público, por não poder pagar a um privado; há quem interrompa o percurso escolar quando atinge os 15 anos, por falta de motivação e incentivo familiar e muitos aceitam empregos precários, por terem fracas qualificações.
A desigualdade existe e seria uma ilusão pensar que alguma vez deixará de marcar as relações sociais, desde logo porque a idade, o sexo e o contexto familiar são factores de diferenciação. Por exemplo, a taxa de risco de pobreza é superior entre as mulheres e agrava-se no caso dos agregados com mais de três filhos ou em idosos isolados.
A questão fundamental é perceber porque razão determinadas condições sociais encerram e limitam a vida de alguns actores sociais, ao ponto de não conseguirem, poderem ou até mesmo quererem libertar-se desses constrangimentos?
A desigualdade social até pode explicar as diferenças no sucesso escolar, os níveis de criminalidade numa determinada comunidade, as taxas de desemprego ou o grau de iletracia mais elevados em alguns grupos sociais. Mas, se explica nunca pode justificar atitudes de descriminação e abandono. “Não vale a pena”, “não se pode esperar mais daqueles miúdos”, “coitados”.
Sempre que alguém esquece os que menos possuem ou menos conseguem, agrava as desigualdades sociais e transforma as dificuldades inerentes ao baixo nível de informação, qualificação ou educação, em fronteiras quase intransponíveis que encerram pessoas em guetos, destroem os sonhos das crianças e enquadram um destino limitado.
Somos todos responsáveis pela manutenção ou pela redução das desigualdades sociais.
Não basta dizer que somos todos iguais perante a lei, se ainda há quem desista de investir nos alunos problemáticos ou desvalorize as condições de trabalho dos que desempenham funções menos qualificadas.
Reconhecer a desigualdade social não deveria significar criar turmas de elite ou serviços de primeira e de segunda. Antes, deveria motivar uma acção mais consertada e integrada da comunidade. Olhando o sistema educativo, deveríamos saber romper com o determinismo da origem social. Como referia o Prof. David Justino, quando a escola pratica a “teoria da mochila”, pressupõe que o aluno é aquilo que transporta às costas. Este raciocínio determinista impede a saída desse ciclo vicioso, que reproduz dificuldades. “Já os pais não deram nada na escola”. Querer estudar, quando se vive numa família carenciada, é escolher um caminho diferente, difícil, exigente e nem sempre reconhecido. Por isso, é fundamental estimular, incentivar e sobretudo, compreender, no sentido sociológico deste verbo, ou seja, ter capacidade para contextualizar as dificuldades de um aluno e até dos pais, num universo de desigualdades sociais.
Perante situações de desigualdade social é urgente abandonar os rótulos que descriminam e, antes, estimular os percursos individuais que podem ser histórias de sucesso e de integração.
(publicado no Açoriano Oriental a 29 de Junho 2009)

Entre o silêncio e o grito, o diálogo

 

Quando se analisam os comportamentos de homens e mulheres perante a violência, emerge um duplo padrão educativo. Aos rapazes ainda é incentivada uma atitude reactiva, do género “quem vai à guerra dá e leva” e às raparigas, uma atitude mais contida, “isso não fica bem a uma menina”.
Entre o grito ou o levantar da voz como forma de afirmação de poder e o silêncio que cala como estratégia de resolução de conflitos, o diálogo é sem dúvida o modo mais correcto e adequado de conciliar diferenças e contradições. Infelizmente, essa nem sempre é regra.
O diálogo implica ouvir o outro, argumentar, ceder e, sobretudo, dar lugar à expressão livre de todos, apesar de diferentes, favorecendo o convívio num mesmo espaço, casa de família, local de trabalho, escola ou em qualquer outro contexto. Dialogar é dar e receber, é trocar, sem que isso signifique vencer o outro ou ficar por cima.
As referências que muitos jovens recebem da educação familiar estão longe de se aproximar desta forma educada, democrática e cívica de estar em comunidade.
Perante o contraditório, elevam a voz, falam grosso para se impor e procuram pela força, dos argumentos ou dos gestos, abafar os menos destemidos. Recorrem à agressividade dos termos para provocar os outros, que vêem sempre como adversários e não como interlocutores.
Na inversa, falar baixo e sobretudo calar, é ainda tido como uma forma de fazer a paz, de não levantar ondas perante as injustiças, escondendo sentimentos e pensamentos.
Quando se olham os modos preferenciais como homens e mulheres reagem à agressividade dos outros, emerge este modelo desigual de relacionamento, onde a força física, o grito e o levantar da voz, ainda são tidos como atributos de afirmação masculina, que dominam o espaço da casa e calam as vozes femininas, habituadas a silenciar, a carregar a dor e a calar as agressões. “Afinal ele é o pai dos meus filhos”, justifica para muitas mulheres a humilhação e o desrespeito de que são vítimas.
A violência nunca faz sentido e não há desculpa para que se tolerem, diariamente, actos agressivos, humilhações, controlo excessivo e obsessivo por parte do ou da companheiro/a, ciúme doentio, imposições ao nível da vida sexual e muitos outros, que constroem um malha relacional onde as vítimas se habituaram a tecer o seu quotidiano, triturando a auto-estima e perdendo aos poucos o sentido da vida, “para quê lutar! É o destino, a pouca sorte”.
Mulheres que dedicam as suas vidas à família, secundarizando o emprego, uma carreira profissional, as distracções ou os lazeres, mas que são sistematicamente martirizadas e humilhadas no lar, onde supostamente, todos deveriam encontrar um refúgio.
Entre o grito e o silêncio, a única forma adequada de prevenir a violência é o diálogo, uma forma de comunicar que se educa, fomentando o encontro entre pessoas diferentes, que decidiram cooperar, partilhar uma casa, uma família, um projecto.
Entre o grito e o silêncio, é na partilha de género, igualdade na diferença, unidade feita de respeito mútuo, que se combate a violência doméstica, declarada ou ainda silenciada.
(publicado em versão reduzida no Açoriano Oriental de 6 de Julho 2009)

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