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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

16
Jun11

Identidade açoriana

sentirailha

Somos de alguma parte, de uma terra, de um país.

Dentro de nós há um lugar, que surge como um filme que se revê, sempre que fechamos os olhos. Cores, cheiros e até sons ou vozes animam a tela da nossa mente, quando recordamos lugares de infância, a casa dos avós ou a freguesia onde ainda temos família, que agora visitamos nas férias. Um lugar onde aprendemos a ser pessoas e onde, quis o destino, aprendêssemos a falar com um determinado sotaque e onde aprendemos a descobrir quem somos e porque estamos aqui.

Dentro de nós há raízes profundas que nos agarram por dentro e, por mais que viajemos, representam um lugar seguro, onde respiramos melhor e nos sentimos em casa.

A identidade é essa forma própria de ser, que não se molda nem se desfigura, que não se verga nem pode ser destruída, mesmo quando os dramas da história comprometem a sua existência, como aconteceu com comunidades da América latina, exterminadas pela colonização, que hoje sobrevivem no seu património e sabedoria ancestrais.

Dentro dos açorianos, há uma fibra que não se verga, uma rocha que não quebra, um cheiro a mar que não se apaga. Dentro de cada açoriano, há a certeza de pertença a estas ilhas, mesmo quando o destino quis que vivessem longe, em terras da emigração ou no continente. Dentro daqueles que, não sendo açorianos, adoptaram esta terra por sua, há um sentimento de pertença. E não é por acaso.

Viver nestas ilhas cria raízes. É difícil escapar à força desta gente que soube transformar pedreiras em terras de pão, enfrentou baleias em mar alto e se defendeu dos ataques da pirataria.

A identidade açoriana dificilmente pode ser entendida fora do universo de crenças que marca a história deste povo, que viu na natureza a força de um Deus que castigava e na oração um laço que transformava o medo em esperança. As romarias, as coroações, os bodos de leite e as promessas são bem a imagem desse povo crente que, perante a desgraça se volta para o outro, reforça a solidariedade e é capaz de mudar de vida.

Somos um povo de crentes, por isso o Espírito Santo não é apenas mais uma festividade, mas a expressão da própria identidade açoriana. Durante semanas, as famílias que aceitam uma “dominga” nas suas casas, rezam em comunidade; os mordomos que se dispõem a organizar a festa, preparam as pensões, as dádivas e fomentam a partilha.

Em dia de festa, a coroação é sem dúvida o seu momento mais importante, mas quem é coroado é sempre o mais humilde, aquele que se dispõe a aceitar a protecção do divino.

Somos um povo de gente humilde que aprendeu, na adversidade, a partilhar a fartura e a se alegrar com isso. Não se recusam convivas à mesa das sopas e ninguém nega um lance nas arrematações, em louvor do Senhor Espírito Santo.

Somos um povo com raízes. Raízes no mar, mas que identificam e nos prendem a estes pedaços de terra onde nos sentimos em casa, envoltos pelo cheiro do incenso que cobre o chão dos quartos, em dia de festa, e veste as ruas em dia de procissão.

Não há melhor traço para unir os açorianos, onde querem que vivam, do que invocar o Espírito Santo, que o povo aprendeu a venerar, fora e dentro das igrejas.

Por isso, o povo se sente identificado por ser na oitava da festa de Pentecostes que a Região festeja o seu dia e reaviva as suas raízes, que afirmam e distinguem a açorianidade.

(publicado no Açoriano Oriental, a 13 Junho 2011 - Dia dos Açores)

08
Jun11

A meia-idade

sentirailha

Quando alguém nos situa na meia-idade, entre os quarenta e os cinquenta anos, é como se nos dissesse, já só tens a outra metade da tua vida pela frente.

Mas será que a vida é feita de duas metades iguais? É difícil prever. E mesmo que assim fosse, já que a esperança média da vida ronda os oitenta anos, o mais importante nunca serão os anos de vida que temos, mas o que dela fazemos.

Não interessa o tempo, mas a qualidade que lhe imprimimos.

A vida é tão relativa. Podemos viver dez anos, sem que nada nos aconteça de muito relevante, e apenas num mês ou num dia, tudo parece valer a pena. A vida é muito mais do que o tempo que passa. A vida é ligação, aventura, coragem e desafios, que transformam o tempo em experiência.

A vida não devia ser dividida em metades ou em fases porque, na realidade, isso corresponde a muito pouco, se retirarmos o processo normal do crescimento e envelhecimento humano.  

A todo o momento, o importante é ter consciência do que somos e do que podemos dar aos outros, do que ainda não descobrimos ou nos desafia a ir mais além. Pouco importa se temos vinte, trinta ou sessenta. A vida não se esgota na juventude, nem é um privilégio dos mais novos. Quantos não há por aí que, por terem dezoito ou vinte anos, desperdiçam cada dia que passa, por acharem que ainda têm muitos pela frente.

Enganam-se. Ninguém traz o seu prazo de validade à vista. Por isso, quando menos se espera, acontece um percalço, porque se abusou de consumos ou porque não se mediu o risco de um comportamento. A vida prega-nos uma partida.

A meia-idade pode ser um tempo fantástico, desde que tenhamos consciência de que o mundo só cresce com a partilha de experiências. Quando ouço alguém dizer “isto agora é para os novos”, sinto que saiu de terreiro e quer que a geração mais jovem assuma uma responsabilidade, sem lhe dar referências, exemplos.

A vida é um desafio permanente e, cada vez mais, não há idades tabu para quem deseja experimentar novas formas de vida, decide investigar ou procurar saber e, sobretudo, sente que pode contribuir para tornar os outros mais felizes.

Não podemos negar que, muitas vezes, o corpo dá sinais de desgaste. Afinal, a menopausa altera o equilíbrio hormonal, a idade afecta a visão e a audição, mas tudo isso tem bom remédio e pode ser compensado. O que não se receita é espírito de luta, motivação, curiosidade ou vontade de partilhar com os outros a experiência de vida.

É um facto que nessa idade, que alguns teimam em dizer que está a meio da curva, o sentimento de estar entre duas gerações, uma jovem e outra mais velha, é evidente. Há quem tenha apelidado esse tempo de sanduíche, porque os jovens reclamam dos pais de meia-idade, apoio, orientação e muitas vezes sustento e, do outro lado, os mais velhos requerem mais atenção, presença e colaboração.

Mesmo assim, condicionado pelas gerações que antecedem ou estão à espera de testemunho, viver a meia-idade não é estar impedido de realizar sonhos. Porventura, é a idade certa para não perder tempo, evitar o desperdício e dar valor a cada dia que passa.

A idade é tão relativa. Não se mede em anos, mas em experiências de vida. Por isso, estar a meio, a três quartos ou a vinte por cento do tempo máximo é algo que, em bom rigor, não conhecemos. O que sabemos é que o dia de hoje deve ser vivido da melhor forma.

(publicado no Açoriano Oriental de 6 de Junho2011)

07
Jun11

Podemos fazer milagres

sentirailha

Somos um povo de tradições, de velhos hábitos e crenças, mas nem sempre esta fé que nos move, nos faz ser proactivos em matéria de cidadania. Se, ao nível da fé, podemos acreditar que Deus se manifesta de modo extraordinário na vida das pessoas, quando se trata de trabalhar pela comunidade, de lutar por mais justiça ou defender os mais pobres, os milagres que tornariam a humanidade melhor, dependem da acção de todos nós.

Não há milagres sem trabalho e compromisso, nem as injustiças ou a violência terão um fim, se não forem denunciadas. Não há milagres se as pessoas forem egoístas, individualistas e puserem os seus interesses, antes do bem comum. Só pela colaboração e cooperação, o mundo pode ser melhor.

Somos todos chamados a fazer o milagre da paz, fazendo da interdependência um modo de vida, elegendo a solidariedade como tarefa de todos, transformando as famílias, as associações ou as empresas em unidades onde se aprende a respeitar a diferença.

Um povo que se entrega ao destino, dificilmente verá algum milagre acontecer. Mesmo aqueles que vieram agradecer ao Senhor Santo Cristo o que de bom lhes aconteceu na vida, ou pedir que Ele interceda no alívio das dificuldades, reconhecem que isso também exigiu ou exige, fazer a sua parte do milagre. Como se diz na anedota, não basta pedir “que me saia o totoloto ou o euromilhões”, é preciso pelo menos jogar.

Somos todos chamados a participar, a dizer “presente”, sempre que alguém precisa de ajuda, mesmo que lhe falte coragem para a pedir. Faltam pessoas que digam “podes contar comigo” a qualquer hora, nem que seja para uma palavra, um abraço. O pessimismo torna as pessoas egoístas, porque as centra apenas nas suas dificuldades, no lado negro da vida, incapazes de ajudar os outros, preocupadas que estão em resolver os seus próprios problemas.  

Só há uma forma de fazer acontecer o milagre de podermos viver numa sociedade melhor, mais igualitária e mais justa, é sermos pessoas de esperança, com força de vontade e que, mesmo na adversidade, não desistem.

Porque os milagres acontecem, quando se tem consciência de que dependem da nossa acção e participação. Não temos de ser perfeitos, irrepreensíveis, porque os erros também fazem parte da construção. O que não pode faltar é a firmeza com que defendemos a dignidade das pessoas e a solidariedade que transforma as diferenças em unidade. Se perdermos essa força, então daremos lugar às divisões e aos conflitos.

Não é utopia pensar e acreditar que podemos viver melhor.

Os milagres acontecem, dependem apenas de nós e do espírito optimista com que encararmos as adversidades. A cada um de nós cabe uma parte na construção deste mundo, desistir de a fazer é comprometer o futuro. Se formos essa peça do puzzle, o milagre da imagem que nele se vai formando, acontece.

Ninguém pode dizer, eu não sou necessário ou não faço falta.

Porque é nessa hora, quando somos tomados pelo pessimismo e desistimos de lutar, que comprometemos a possibilidade dos milagres acontecerem.

(publicado no Açoriano Oriental de 30 Maio 2011)

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