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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

27
Out11

Autoridade com responsabilidade

sentirailha

Não há autoridade sem responsabilidade, ou então, estaremos a falar de autoritarismo, exercício do poder pela força, imposição de vontades.

É a responsabilidade que constrói e confere conteúdo, razão de ser à autoridade, que permite reconhecer, em alguém, o poder para mandar, orientar, ensinar ou repreender. Um reconhecimento que não é sinónimo de sujeição mas respeito, que não se baseia no medo, mas na consciência de que um direito é sempre a outra face de um dever.

Apesar de ainda haver quem pense que a autoridade, por exemplo de um polícia, está no cassetete ou que a cadeira onde o juiz se senta na sala de audiências lhe confere poder, ou ainda, que um pai que não bata nem grite com os filhos, não faz valer a sua autoridade. Na realidade, o que afirma a autoridade de alguém é o facto de esta lhe ser reconhecida, porque vive, com responsabilidade, uma determinada posição ou relação.

A autoridade está para a responsabilidade, como a verdade está para a consciência. Se quem julga ter autoridade não for responsável, ou seja, não der exemplo, não assumir os erros que comete e não tiver por isso capacidade para compreender os outros, aqueles que supostamente estão na sua alçada de poder, perde toda e qualquer autoridade. Poderá manter o poder, mas certamente que o irá exercer de forma autoritária. Diante de si, terá súbditos, pessoas que se ajoelham perante o receio das consequências, que têm medo do chefe, do professor ou do pai e que, se calhar, recordarão os tempos de infância quando lhe falavam do polícia, se não comesse a sopa.

Essa não é a autoridade de que carece o nosso país, nem mesmo as empresas, demais instituições ou até as famílias. Não é por ter mecanismos de repressão que se reforça o poder de persuadir. A persuasão é uma consequência da convicção, consegue-se pelo facto de se acreditar no que se transmite e, por essa via, se consegue levar os outros a pensar de outro modo, sejam eles cidadãos, alunos ou filhos.

A tão apregoada necessidade em mudar mentalidades é exigente e não depende da violência com que se aplicam as regras. Exige uma adesão aos valores que as suportam, ou seja, depende mais da mudança de pensamento do que das alterações aparentes do comportamento.

Um país que quer fazer crescer a economia de forma responsável, não precisa de aumentar meia hora para que se produza mais, mas antes tem de incentivar a que se qualifiquem as horas de trabalho.

A autoridade ganha-se com o reconhecimento do sentido de responsabilidade de quem a exerce. Quando se perde esse reconhecimento, fica a obediência e o medo, perde-se a esperança e o respeito, e destrói-se um valor fundamental da democracia, o direito a ter voz e a ser ouvido.

É triste ouvir algumas vozes do povo acharem que se vivia melhor quando o país estava sujeito a um ditador, apesar do analfabetismo, da revolta silenciada, da obediência cega e da ausência de direitos sociais. Porventura, quem assim fala sente-se órfão, desprotegido na sua fragilidade, incapaz de levantar a cabeça, face ao jugo das dificuldades e das imposições de austeridade.

O exercício da autoridade é exigente. Exige responsabilidade de quem a exerce.

(publicado no Açoriano Oriental, de 24 de Outubro 2011)

20
Out11

Sacrifícios, para quê?

sentirailha

Vivemos tempos difíceis, muito difíceis. Mas será que as medidas que nos estão sendo impostas nos irão tirar desse sufoco?

O governo da República, por querer cumprir com os compromissos internacionais, carrega na austeridade, mas não para todos. Infelizmente, quem trabalha na base da administração pública, e são muitos, fica sempre na linha de mira.

Em 2012 e 2013, vão retirar os subsídios de natal e de férias a quem recebe mais de 1000 euros por mês, congelar as pensões e aumentar o IVA para 23% em produtos alimentares, ditos não essenciais, como o leite achocolatado ou as pizzas, mas não tocam no vinho, supostamente para defesa da vinicultura portuguesa. Ficarão mais caras as idas ao restaurante, cinema e outras fontes de lazer de carácter cultural.

O quadro que o primeiro-ministro pintou para os próximos anos mostra um povo a viver com muito menos, a pagar muito mais e, ainda por cima, a desistir de procurar no lazer, seja em férias mou numa ida ao restaurante ou teatro, qualquer forma de compensação para o desgaste vivido. Ao que parece, só se for com um copo de vinho português! Triste compensação, para um país com tão graves problemas de alcoolismo.

Com estas medidas, dizem os economistas, o país vai entrar ou agravar o fenómeno de recessão, ao que podemos acrescentar, e terá um grave problema de saúde mental. Vão aumentar o número das depressões, das rupturas familiares e das fugas para o estrangeiro, particularmente daqueles que, até agora, viveram numa situação de grande controlo e contenção das suas despesas.

Fala-se em sacrifícios por parte de todos os portugueses mas, na realidade, as medidas mais gravosas que foram anunciadas recaem, sobretudo, na classe média deste país, que nunca foi muito afortunada, porque vive do seu ordenado mas que, de alguma forma, dinamiza o comércio e investe na formação e qualificação dos jovens e dos activos.

Apetece perguntar a este governo, o que pretende? Encher os cofres do Estado, para pagar a dívida e, ao mesmo tempo, destruir a motivação e a esperança de quem irá contribuir para esse pagamento? Será que se recolhe mais receita da restauração ou das indústrias culturais, reduzindo o número de consumidores e encerrando muitos desses estabelecimentos?

O país não pode continuar a ouvir falar de austeridade em discursos inflamados que, ao contrário de congregarem o espírito patriótico de quem quer contribuir e ajudar, apenas conseguem fazer com que deixemos de acreditar no futuro.

Todos sabemos da capacidade do ser humano em se sacrificar, mas isso só acontece quando existe um propósito, uma razão. Pedir às famílias, particularmente aos funcionários públicos, que já vivem dificuldades, que empobreçam para que os cofres do estado se encham e, ao mesmo tempo, cortar nos apoios e incentivos à qualificação, aumentar a carga horária dos trabalhadores e dificultar o acesso a benefícios sociais, é injusto e não tem explicação possível.

Há que contrabalançar, austeridade com estímulo ao desenvolvimento; perda de rendimento, com segurança e aumento do mercado de emprego; redefinição de prioridades, com maior investimento nas capacidades humanas, no potencial intelectual e inovador das pessoas.

O país precisa de ter esperança e acreditar em si mesmo.

Que futuro se perspectiva para um país empobrecido, que pagou as contas, mas desistiu de acreditar no futuro?

Os sacrifícios são necessários, mas só fazem sentido se forem contrabalançados com razões de esperança.

(publicado no Açoriano Oriental, 17 Outubro 2011)

11
Out11

Cortar o cordão umbilical

sentirailha

No parto, alguém se encarrega de nos separar do filho que acolhemos durante a gestação. E, ao fazê-lo, inicia-se um processo de crescimento acompanhado, marcado por essa individualização necessária. Cada ser humano é um projecto próprio, que exige protecção, apoio, mas que só se descobre quando encontra o seu próprio espaço, enfrenta as suas lutas e aceita os desafios que a vida lhe oferece.

O apoio de que precisa para sobreviver, após o nascimento, vai se esbatendo à medida que se afirmam as próprias cores. As figuras que lhe indicavam o caminho, pegavam ao colo na hora do sono ou decidiam por ele na dúvida, vão se afastando desses papéis até não serem mais do que sombras, presenças, pontos de apoio, referências.

Na hora de soltar a mão e deixar seguir, como que se corta esse cordão, que há muito deixou de existir, mas que a vontade de proteger pode levar alguns a reconstruir, numa ânsia de viver a vida dos outros.

Cada ser humano constrói um percurso, que se cruza com outros, que se interliga e forma uma rede de amor, solidariedade, interdependência, mas que não se confunde. E, por mais que achemos que o caminho dos outros está mal trilhado ou podia ser melhor percorrido, não nos cabe a nós vivê-lo ou por eles tomar decisões.

Cortar o cordão umbilical no acto do nascimento é um sinal de desprendimento e autonomia. “Ninguém é de ninguém”, nem mesmo aqueles que apelidamos de “nossos”. Por isso, devíamos ser capazes de nunca nos apropriarmos da vida dos outros, em particular dos filhos. Na realidade não são, nem nunca foram, “nossos”, no sentido em que não nos pertencem. Não são propriedade que compramos ou alugamos, nem estão cotados em bolsa para que tomemos decisões de investimento à espera de lucro.

Quando os filhos nos dizem “adeus” num cruzamento da vida, fica a dor de os ver divergir, seguindo um caminho que é só deles, aliás, que sempre foi. Tivemos a ilusão de, até ali, ter estado na mesma estrada, quando na realidade seguíamos caminhos próprios, apesar de juntos.

Não é uma despedida, nem mesmo uma partida, apenas a afirmação individual de cada vida, que continuamos a acompanhar. Umas vezes mais próximos, noutras olhando à distância, umas vezes na sombra, noutras de mão dada, apoiando de forma directa, incentivando ou até dando aquele colo de outros tempos.

É nos cruzamentos, momentos de transição, que se toma consciência de como viver em comunidade, família, é reconhecer esta rede de caminhos que se cruzam, que não têm de estar distantes, mas que são diferentes, próprios.
Prendê-los é condicionar a liberdade de cada um, é limitar a capacidade de descoberta e afirmação que torna única a marca de uma pessoa.

Mesmo que não seja fácil dizer “adeus” no cruzamento, fica a certeza de que a união não anula a individualidade e a parceria não destrói, antes se enriquece com, a diferença.

Cortar o cordão umbilical é o primeiro acto de afirmação da liberdade individual do ser humano e a dádiva maior que se recebe dos que nos amam. Um gesto necessário para que cada um possa ser autónomo, mesmo que interdependente e possa ser livre, sem prescindir de apoio.

(publicado no Açoriano Oriental de 10 de Outubro 2011)

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