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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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18
Jun15

Amigo

sentirailha

Por muitos amigos que alguém possa ter, sobretudo se considerar os que acumula nas redes sociais, poucos são aqueles que se choram na hora da partida.

Os amigos não são "conhecidos" que fazem jeitos, emprestam um livro ou nos visitam uma vez por ano, no dia do nosso aniversário.

Os amigos que se choram são de outra espécie. São ligações que nos constroem, fazem parte das nossas vidas e das nossas histórias e, por causa deles, da sua ajuda, do seu apoio e conselho, aprendemos a ser melhores pessoas.

Quando pensamos nessas pessoas vem à memória inúmeros momentos, fotografias a cores que revemos com emoção.

Perdi um amigo esta semana, o Padre José Maria de Almeida. E pelo número de pessoas que lhe prestou homenagem, não fui a única. Muitos mais também sentiram a sua partida.

Era um amigo verdadeiro. Um guia espiritual e um confidente, um confessor para a igreja, mas sobretudo um excelente ouvinte.

Com ele aprendi a refletir, a pensar com o coração, a procurar a humanidade das pessoas e a ser exigente comigo mesma, sobretudo quando está em causa a verdade, a honestidade interior, a honradez e a verticalidade.

O padre José Maria sempre foi um homem simples, que chegava a recusar o conforto se este o fizesse afastar do essencial. Porque, o mais importante estava sempre no sentido mais íntimo do ser pessoa, onde o Espírito atua e transforma.

Com ele aprendi a arrumar a mente e o coração, sempre que os problemas ou as dificuldades me desorganizavam e impediam de ver, de entender a vida, fazendo baixar a minha vontade ou capacidade para os resolver.

O Padre José Maria ouvia, ouvia, diante dos pensamentos enriçados e do turbilhão de emoções. A sua serenidade e simplicidade ajudavam a pegar na ponta certa e as suas palavras inspiradas desenvencilhavam a meada, clarificavam o que até ali parecia confuso e faziam-me reencontrar a vontade perdida.

A sua excecional capacidade de ouvir fez dele um confessor como há poucos. Com ele aprendi o sentido profundo da reconciliação, longe dos confessionários bolorentos onde se perde a humanidade. Com o padre José Maria, a reconciliação era sempre uma conversa com um amigo.

Um amigo e um guia espiritual, um exemplo de juventude de espírito que ajudou muitos jovens, como eu fui, a não ficar parados a olhar a vida, mas a agir. Mas uma ação eficaz, como ele próprio nos ensinava quando foi responsável pela Pastoral da Juventude, nasce de mentes pacificadas, que refletem o sentido da mensagem. Mesmo que se cometam erros, só acreditando na força do Espírito se pode aprender com as dificuldades e as imperfeições.

São poucos os amigos que se choram na hora da partida e que se recordam com saudade, porque fazem falta.

Fazem falta homens simples, guias, orientadores que, sem serem líderes são pastores, sem gritarem são ouvidos, sem ostentações deixam marcas na vida dos outros. O padre José Maria foi um exemplo de quem soube estar ao serviço no dom de ouvir, na procura da compreensão genuína, na descoberta conjunta, que agradecia aqueles que ajudava, por terem partilhado as suas dificuldades, na certeza de que o Espírito está presente, sempre que dois ou três se juntam em seu nome.

Amigo, fazes muita falta, mas o teu tempo chegou ao fim.

Ficou a marca da tua presença nas vidas de todos aqueles que tiveram o privilégio de te conhecer, de aprender contigo e ter como amigo.

Descansa em paz!

(artigo publcado no Açoriano Oriental de 16 Junho 2015).

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