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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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25
Set15

Destino

sentirailha

O português sempre gostou de pensar que "o destino marca a hora" e que a vida não dá espaço para quase nada, que não estivesse já previsto, predestinado.

"Foi o destino que quis!", "estava destinada a isso" ou "foi um encontro com o destino", assim se explicam acontecimentos, quando não se encontram outras razões.

O destino aparece mais forte do que a capacidade de cada um para pensar, decidir e sobretudo escolher.

Arrasa com a liberdade individual, põe em causa as vezes que, entre ficar ou partir, foi preciso decidir; desvaloriza o sofrimento e a dúvida quando a decisão foi partir, apesar da vontade de ficar.

Falar de destino é muitas vezes apelar à inércia e um convite a "deitar a toalha ao chão". As vozes mais céticas dirão, tanta luta, tanto trabalho para ficar tudo como sempre foi ou como os outros quiseram que fosse.

Há uma outra forma de olhar a vida e, sem negar as coincidências que pontuam momentos inexplicáveis, podemos agarrar o futuro como um projeto, que se planeia e no qual se investe de forma pensada e estratégica.

Quem decide estudar ou formar-se numa determinada área de saber, certamente que escolhe uma forma de agarrar a vida e de se realizar profissionalmente.

Quem se revê numa relação amorosa e sente que alguém o torna melhor pessoa, companheira ou companheiro, amigo para a vida, certamente que escolhe, entre tantos outros, alguém muito especial.

Assusta ver aqueles que leem a vida como se fora uma carta já escrita. Tudo é monótono, sem graça, sem interesse. Que novidade pode trazer a luta diária, quando alguém já escreveu os próximos episódios da minha própria história?

Fazer da vida um projeto, e não se limitar a pisar uma linha traçada, é uma aventura, que passa por caminhos conhecidos, mas também cruza florestas e lugares inóspitos. Seguindo o curso do sol, guiado por objetivos e valores de referência, o projeto de vida assume-se como uma construção que ganha forma, na medida em que nele investimos, aprendendo com os demais, corrigindo erros e partilhando experiências.

Destino ou projeto, esse é o dilema que nos coloca a vida, o futuro.

Optar pela primeira posição é quase sempre ficar parado, deixar que outros decidam e deixar-se levar, sem contrariar os acontecimentos.

Optar pela segunda é agarrar a vida com as duas mãos, mesmo que em algumas circunstâncias se aproveite a energia das ondas, sem nunca perder a noção do que se quer, para onde se quer ir e, apesar dos riscos, aceitar desafios.

É o fatalismo do destino que dita o abandono de muitos jovens da escola. "Já os pais não estudaram", dirá alguém, "para quê estudar, se não ter emprego", dirão outros.

É o fatalismo do destino que justifica a gravidez precoce de muitas adolescentes, marcadas por famílias para quem a escola não faz falta, quando o destino é cuidar da casa e dos filhos.

Enquanto não educarmos os jovens a pensar na vida como um projeto, estaremos condenados aos números do abandono escolar, que infelizmente se registam não apenas no ensino básico e secundário, mas também no ensino superior.

Desistir de um projeto, a favor do destino, é entregar os pontos, atirar a toalha ao chão, num momento de fraqueza ou de dúvida.

A única certeza que a vida nos dá é que estamos destinados a viver, enquanto lutarmos por isso. E vale a pena fazer a diferença, sendo nós mesmos.

Todos os dias, podemos trocar as voltas ao destino e descobrir o gosto da liberdade.

 (texto publicado a 22 Setembro 2015 no Açoriano Oriental)

 

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