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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Não há longe nem distância

Este é o título de um pequeno livro de Richard Bach, onde se conta a história de alguém preocupado em fazer uma longa viagem para poder estar na festa de aniversário de uma amiga, que está a crescer, e a quem quer entregar uma prenda.

Mas o que queres dizer com festa, aniversário, amiga que cresce ou prenda? perguntam as aves a quem o narrador pede ajuda para atravessar os quilómetros que o afastam dessa pessoa. Nenhuma percebe o propósito, a não ser a Gaivota que se presta a ajudar na viagem, que acaba por se transformar numa aprendizagem do sentido profundo da amizade e do amor.

Afinal porque insistimos em estar ao lado, presentes fisicamente, quando o mais importante é que sempre estivemos e estamos no coração de quem amamos?

Porque insistimos em transformar esse amor em objetos, quantas vezes mal escolhidos, comprados à pressa ou apenas para fazer vista!?

O mais importante nas relações não se pode quantificar ou transformar em presentes ou mesmo em presença física. Como diria a Gaivota, não precisas de prendas de metal ou de vidro para falares da verdade do que sentes. Não precisas de estar ao lado de alguém para o veres crescer, isso não depende de ti. Mas, o que não podes deixar é de partilhar a alegria de viver, essa sim, encurta a distância e faz-te presente.

Não há longe nem distância, quando o que nos une são afetos sinceros, amor, amizade, cumplicidade vivida que se recorda. Bastam alguns minutos, três palavras numa conversa, hoje mediada pelas novas tecnologias, e validamos essa presença, reconfirmamos a confiança que nos une, a cumplicidade com que olhamos a vida.

É urgente redescobrir o valor da amizade, sem precisar para isso de a transformar em prendas ou objetos; é fundamental perceber a intensidade do amor, o valor da confiança e da entreajuda, sem ter de tocar ou estar ao lado de quem se ama. Esta é uma aprendizagem que amadurece a vida emocional e espiritual.

Não é fácil e muito menos isento de sofrimento, mas crescer por dentro ou amadurecer traz tranquilidade e cria espaço para a felicidade interior.

A posse é muitas vezes contrária à felicidade. Quanto mais nos agarramos aos bens, às pessoas, fazendo depender o sentimento de felicidade dessa posse, mais infelizes nos tornamos, mais sozinhos ficamos. Afinal, ninguém é dono de ninguém e mesmo os objetos são transitórios, ficam fora de moda, perdem valor de mercado.

Se o mais importante os olhos não veem, é porque está dentro das pessoas, de cada um de nós. Só se vê de verdade com o coração e isso implica confiança "cega", abertura total e muita humildade para sentir a vida nos seus detalhes e pormenores.

Retomando a viagem da Gaivota, descobrimos que o mais importante não é estar nos aniversários, nem a ver crescer aqueles que amamos, porque onde estiver o nosso coração ai estaremos nós.

Não há longe nem distância quando se trata de amor ou amizade. Nem há prendas ou dádivas que possam mostrar, melhor do que nós mesmos, o que sentimos verdadeiramente pelos outros.

A confiança não é um atestado carimbado com selo de garantia e muito menos é o resultado do cumprimento de um protocolo de boas maneiras. Quem confia não precisa de etiquetas ou de maneirismos, sente. Quem confia não está sempre validando razões ou pedindo justificações, aceita, reconhece, porque antes mesmo do outro se explicar é capaz de o compreender.

Não há longe nem distância para quem estiver onde está o seu coração.

(artigo publicado no Açoriano Oriental, 20 Outubro 2015)

 

Tempo

O tempo é imaterial na sua essência, mas o ser humano precisou de medir a sua passagem em formato de horas, dias, anos ou estações.

O calendário, o horário, são organizadores do tempo que condicionam o nosso quotidiano. Há um tempo para cada atividade, um dia que reservamos ao descanso ou uma data especial para festejarmos a vida.

Apesar desta forma organizada como gerimos o tempo, e que se repete todas as semanas ou todos os anos, o certo é que o tempo escapa aos horários e às folhas de um calendário, e nada é igual entre um ano e o outro. O que ficam são marcas que não se apagam nem se podem substituir. Na pele que perde vitalidade, nos cabelos que embranquecem ou nos ossos que se descalcificam, nas árvores que crescem e ganham diâmetro, o tempo torna-se realidade.

Podemos encarar o tempo como se fosse uma conta bancária, de onde tiramos uma porção todos os dias, sem saber qual o saldo da conta, mas isso não significa que o tempo seja forçosamente sinónimo de perda, desgaste ou envelhecimento.

O tempo é sobretudo vida vivida.

Basta olhar a natureza e ver o crescimento das plantas, o aparecimento de folhas num galho que se julgava seco ou o brotar de um fruto numa árvore que estava destinada a ser cortada.

O tempo é vida, energia que se manifesta quando nos propomos senti-la e transformá-la em obras, iniciativas, ocupações.

Quem nunca sentiu o tempo passar rápido quando está ocupado, entusiasmado, focado na realização de uma atividade. Ao contrário, os momentos de espera ou de inatividade parecem uma eternidade. Quando nada temos para fazer ou quando estamos doentes, acamados, o tempo ganha dimensões estranhas, contraditórias; limitados na ação, sentimos o peso das horas que levam mais tempo a passar.

O tempo é o que dele fazemos, essa é a conclusão que podemos tirar.

Não se trata de viver mais ou menos anos, de ter mais ou menos dias de férias, mas antes como vivemos cada dia que passa.

Um dia pode ser um tempo imenso, quando acordamos com objetivos e os cumprimos. Um dia pode ser um marco nas nossas vidas, quando acontece terminarmos um projeto ou sentimos ter cumprido uma missão, ou ainda, porque nessa hora iniciamos uma nova etapa, que irá ser determinante no amadurecimento das nossas competências profissionais ou académicas.

Não há tempos mortos, a não ser que desistamos de viver. E mesmo quando julgamos estar parados, porque lemos um livro, escrevemos uma carta ou admiramos o horizonte debaixo de um castanheiro, também aí a vida nos é dada a conhecer na sua essência, como se fosse uma pausa, um parêntesis que abrimos na frase escrita, uma meditação, que aprofunda o conhecimento e intensifica as emoções.

Não há tempos vazios, a não ser que desistamos de escrever na tela dos dias, emoções e palavras, partilhadas com outros.

O tempo até pode ser medido em horas ou dias, mas nada substitui as vivências como medida real do tempo que passa. Podem ser poucos os anos que vivemos, ou que temos os filhos por perto, mas nada substitui ou apaga a intensidade da vida partilhada, as emoções vividas, as palavras trocadas.

Podemos não ter muitas horas para estar com alguém mas, se vivermos cada momento, então o tempo será imenso, deixará uma marca e transformar-se-á em memória, recordação.

E não há melhor forma de relembrar o tempo passado, que olhar as marcas que deixamos na vida dos outros ou que nos fazem ser quem somos.

 (texto publicado no Açoriano Oriental a 6 de Outubro 2015)

 

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