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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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26
Fev17

Uma horta faz bem!

sentirailha

Está provado: ter uma horta faz bem!

Desde logo, faz bem à saúde alimentar. Os nutricionistas são unânimes em afirmar que é necessário comer mais produtos hortícolas e frutas, preferencialmente, de produção biológica, sem aditivos.

Mas uma horta faz bem por muitas outras razões.

Aproxima da natureza, faz descobrir o ciclo de crescimento das plantas, desde a sementeira à colheita, passando pelas pragas que as prejudicam. Algumas dessas pragas, tal como acontece com as pessoas, não são externas, mas verdadeiros parasitas que atacam a raiz e retiram-lhe o vigor, como acontece com a Orobanche, que o povo designa por "gigante" ou "rabo de raposa", que mata as faveiras.

Muitas outras pragas e infestantes atacam as hortas, mas isso não faz desistir quem delas cuida. Todos os dias monda, arranca e sacha, para dar espaço e revitalizar as culturas. Aliás, tal como na vida em sociedade, dificilmente podemos evitar todos os contratempos ou mesmo as relações que parecem destinadas a dificultar a concretização do que consideramos fundamental. Sejam relações familiares ou de trabalho, há que estar atento e prevenir, antes que um simples mal-entendido se transforme num conflito.

Mas a horta tem muito mais para nos ensinar. Há plantas que estão no catálogo das infestantes, elementos negativos num campo de cultivo que, afinal, podem ser transformadas em produtos eficazes. Veja-se o caso das beldroegas, cujas folhas são apreciadas nas saladas ou nas sopas. Quem as vê no campo, até fica enfurecido. Crescem no meio das culturas e possuem uma raiz profunda que prejudica o terreno, mas afinal, depois de arrancadas podem ser cozinhadas. Um outro exemplo, são as urtigas, que afastam até ao toque, provocando reações na pele. Há quem as utilize, também na sopa, mas se forem deixadas a fermentar, produzem um chorume que, devidamente diluído em água, serve para combater pragas e doenças.

O difícil na vida não é reconhecermos os erros, é transformá-los em razões de mudança e reorientação de percursos.

Numa horta, aprendemos a ser humildes na vida, porque a natureza é quem nos ensina, nós, somos apenas seus protetores, cuidadores, eternos aprendizes perante a riqueza de informação que, todos os dias, cada planta, um simples pé de salsa ou manjericão, nos ensina.

Alguns dirão nesta altura, que nem todos podemos ter uma horta! É certo!, mas todos podemos ter um vaso, mesmo no parapeito da janela, onde podemos semear, salsa, quem sabe umas alfaces ou até uns pé de couve.

Não são precisos hectares de terreno para se fazer a descoberta da natureza.

É preciso compaixão, no sentido de se deixar apaixonar, ou como diria o Pequeno Príncipe de Saint Exupery, deixar-se seduzir pelas plantas e aprender com elas.

A nossa terra é fértil, rica de sol e chuva mas, infelizmente, fomos esquecendo, abandonando os terrenos de "pão", outrora destinados ao cultivo alimentar. As hortas, os pomares, os jardins, são tão importantes para o equilíbrio da vida, como os espaços de habitação, as estradas ou mesmo as pastagens.

Tudo tem de ser cuidado, mas talvez haja uma diferença quando se tratam as plantas, é que aprendemos com elas, tal como aprendemos com as pessoas.

As hortas e quintas destas ilhas podiam, e deviam, ser de novo espaços de criação de emprego qualificado, tecnicamente evoluído, capaz de devolver a beleza de uma paisagem colorida e de fazer crescer a produção de legumes, frutas e flores, cujos aromas se perderam, mas que a memória registou.

A fruta da nossa terra sabe e cheira e os legumes tem outro sabor. Vale a pena ter uma horta!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 7 fevereiro 2017)

 

22
Fev17

Retrocesso na Rússia

sentirailha

 

Retrocesso civilizacional é como podemos classificar as recentes decisões do Estado russo em relação ao crime de violência doméstica (VD), que alteram o artigo 116 do Código Penal. A proposta de revisão da lei, pasme-se, foi defendida por duas mulheres, a senadora Elena Mizulina, ultraconservadora do Partido "Rússia justa" e a deputada Olga Betalina, do Partido Rússia Unida (de Vladimir Putin).

Assim, e de acordo com a decisão do parlamento russo, aprovada no passado dia 7 de fevereiro, é necessário que: os ferimentos sejam suficientemente graves que levem à hospitalização; o ato de agressão seja mais frequente do que uma vez por ano ou a agressão implique faltar ao emprego ou à escola, para que o agressor seja julgado judicialmente. Mesmo assim, a vítima terá de provar essa agressão, recolhendo as evidências necessárias para a constituição do processo de acusação.

Entre os vários argumentos apresentados a favor desta nova lei estão, por exemplo, as afirmações de Mizulina, que declarou ser fraca a condição das mulheres russas, habituadas a serem batidas pelos seus maridos ou companheiros, algo que, segundo esta senadora, faz parte da cultura russa. Esta posição mereceu o apoio da igreja ortodoxa russa, cujo responsável para os assuntos familiares declarou que o estado não se deve imiscuir na vida familiar e que, despenalizar a violência doméstica seria uma imposição ocidental sobre a tradição familiar russa, segundo a qual, a violência praticada sobre a mulher, se for "razoável" e feita "com amor", desde que não provoque danos físicos, é aceitável. O próprio presidente da Rússia considerou "intolerável" prender alguém por dar uma bofetada, e considerou a legislação que protege as vítimas, uma ingerência da justiça nos assuntos da família.

Este é um claro retrocesso civilizacional, uma violação descarada dos direitos humanos, consagrados desde 1948, a partir dos quais muitas outras recomendações e declarações tem sido feitas, como a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de Discriminação contra a mulher (1981) ou a Declaração sobre eliminação da violência sobre as mulheres (1993).

Esta é uma decisão jurídica que esconde a realidade de milhares de mulheres russas agredidas todos os anos. De acordo com os últimos dados do governo russo, que deixou de publicar estatísticas em 2008, seriam então 13.000/ano o número de mulheres mortas por atos de VD.

Para além do femicídio, um fenómeno que, infelizmente, também ocorre em Portugal, em 2015, morreram 29 mulheres às mãos dos companheiros ou cônjuges (428 casos entre 2004 e 2015 segundo a APAV), a violência doméstica reflete, necessariamente, uma sociedade desigual.

A coberto de tradições ou religiões, aceitam-se e aprovam-se relações baseadas no desrespeito pela dignidade humana e no poder masculinizado. Naturaliza-se a força física como linguagem de correção e fecha-se os olhos perante a humilhação, o abuso e a violação dos direitos do outro, a cobro de uma pertença sacralidade da família ou proteção da intimidade e do mundo privado que a definem.

As relações familiares não conferem direitos de propriedade sobre cônjuges ou filhos. São compromissos de cooperação, partilha e proteção mútua.

No entanto, a VD prova que a proximidade familiar pode constituir um risco, principalmente para as mulheres, as crianças, os idosos e as pessoas portadoras de deficiência. Mais do que as agressões físicas, "disfarçadas" ou consideradas como simples "bofetadas", está em causa a integridade emocional e psicológica das vítimas. Os agressores sabem como dominar as vítimas, "sem lhes causar dano físico". Denunciar é a única defesa da vítima. Infelizmente, apesar de em Portugal a violência doméstica ser um crime público desde 2000, a grande maioria das participações são arquivadas por falta de provas (78% dos casos de denúncia em 2015, segundo o relatório do Min. Adm. Interna).

(artigo publicado no A.Oriental de 21 fevereiro 2017)

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