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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Escárnio e Maledicência

Quem não se lembra das "cantigas de escárnio e maldizer" das aulas de Português?

Mesmo não conhecendo o que significa "escárnio", o simples pronunciar desta palavra faz sentir a força negativa que transporta.

Escarnecer é "fazer pouco de alguém" através de conversas dissimuladas, muitas vezes em forma de gozo, onde se ridiculariza ou despreza uma pessoa ou um grupo/comunidade.

Nas "cantigas de escárnio" os autores falavam mal de forma encoberta, dissimulada, enquanto nas "cantigas de maldizer", a acusação era evidente e feita às claras.

A coberto ou às claras, ainda hoje o ser humano serve-se da maledicência para (se)desfazer de outrem, que não lhe agrada ou incomoda. Alguém que, por mérito próprio, lhe pode "roubar" uma posição na empresa ou na política, um adversário que não se consegue vencer no combate "às claras".

O escárnio e a maledicência, muitas vezes descarregadas em cartas anónimas ou em falsos perfis das redes sociais, são as armas dos fracos e dos medíocres que, não tendo mérito pessoal, científico ou técnico, montam esquemas para afastar quem os ultrapassa nestes critérios.

Quase ninguém escapa a esta teia do "falar mal", "denegrir" ou "escarnecer".

Bastaria ler as revistas de grande divulgação, que vendem tanto mais quanto maior for o "enredo", e cobram fortunas por exclusivos de fotografias cujo impacto atinge a dignidade de figuras públicas ou de referência.

Há sucesso garantido nesse tipo de notícia, porque há muitos praticantes da má-língua, que anseiam por conhecer pormenores, detalhes, sobre determinados outros, e assim poderem distribuir, em episódios de conversa, ao maior número de pessoas, num frenesim que lhes provoca uma verdadeira adrenalina: "já ouviste o que se diz de fulano?". "Ah não! Então é bom que estejas sentada, porque vou te contar...".

E assim começa uma tarde de amigas ou amigos.

Esta prática do maldizer tem outras ligas. É como no futebol, há quem ainda agora se iniciou e depois há os peritos, que não "brincam em serviço", para quem estes conhecimentos permitem urdir teias de poder. Um poder paralelo, desconhecido da maioria daqueles que se limitam a cumprir regras e a estar bem com a sua consciência.

Se mergulharmos nas relações humanas de uma grande organização, seja uma empresa ou um partido político, uma escola ou uma fábrica, rapidamente se perceberá que existem dois sistemas de poder: o formal, cujo conhecimento é imediato e que pode ser estudado através da hierarquia de posições; e o informal, perceptível a quem escute conversas de café ou de corredor e esteja atento às atitudes dos que, não tendo poder formal, influenciam mais que as chefias.

Como conseguem? Muito deste poder informal decorre dessa capacidade de "estar informado", que manipula dados pessoais, explora fraquezas e alimenta virtudes, quantas vezes não comprovadas, colocando quem lhe interessa em posições chave da empresa ou organização ou, pelo contrário, afastando determinadas pessoas desses lugares.

O escárnio e a maledicência só se evitam se os maledicentes forem deixados a falar sozinhos. Mas, há sempre quem dê ouvidos "às novidades"; quem compra a revista ou o jornal que traz na capa uma notícia "escaldante".

Qual grafiti pintado a spray na parede de um prédio, o escárnio ou a maledicência deixam marcas, que alguns nunca esquecem.

Escárnio, ao contrário da crítica, não esclarece e muito menos constrói relações saudáveis, seja na família ou na empresa.

A maledicência, que é prima da corrupção e filha da inveja, só se vence com informação objetiva e interconhecimento.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental, de 19 Setembro 2017)

O género da polémica

Que a natureza integra o feminino e o masculino e que estas duas dimensões estão na origem do processo reprodutivo, de quase todos os seres vivos, ninguém o nega. Mas, que essa diferença, complementar, se transforma em desigualdade social, nem todos o admitem. A desigualdade de género, não sendo natural, acaba por ser ensinada desde o berço e infiltra-se nas relações e no quotidiano, de tal forma, que dificilmente nos apercebemos o quanto está impregnada nas nossas vidas.

É preciso olhar com detalhe, rever comportamentos habituais para reconhecer o modo como, ainda agora, se educam os meninos e as meninas de forma tão diferente. Uma diferença que está para além da questão sexual, mas que determina os papéis que lhes atribuímos. Seja nos brinquedos ou nas brincadeiras, nas tarefas domésticas ou na decoração dos quartos, há uma imagem fabricada e reproduzida, do azul e cor de rosa, dos carrinhos e das bonecas, do futebol e do ballet.

Mais do que imagens, que dividem materiais escolares, pintam as capas dos cadernos e separam os brinquedos dos catálogos comerciais, o que constrói a desigualdade são as relações entre homens e mulheres e o modo como estruturam a identidade dos jovens, que não tardam a ser adultos.

É importante que nos preocupemos com essa educação, com o facto de o ensino secundário ser frequentado por mais raparigas do que por rapazes, e as universidades estarem dominadas por estudantes do sexo feminino.

Olhemos o modo como alguns pais "castigam" um filho, que "não dá nada na escola", "é preguiçoso" ou "voltou a chumbar", com um trabalho de verão, "para aprender o que custa a vida!"; enquanto se for uma filha, impõem-lhe as limpezas da casa.

O mundo da casa e os cuidados à família continuam a ser ensinados como "obrigações" femininas, enquanto os jovens rapazes são orientados para empregos "com barba", longe das preocupações familiares.

O género está demasiadamente impregnado na língua portuguesa, para que o combate à desigualdade se possa vencer com debates a propósito de "cadernos de exercícios, azuis e cor-de-rosa" ou do recurso à designação "chefe de família" de uma candidata autárquica.

A paridade não se alcança nesses debates de pormenor, nem o conceito de género alguma vez significou anulação de diferenças.

A questão central reside no facto de a condição biológica, de quem nasce masculino ou feminino, não determinar as ambições pessoais ou sociais, nem definir graus de inteligência ou aptidões.

Os exemplos são cada vez mais frequentes, sobretudo, porque os lugares onde se investe nas competências, escolas e universidades, estão a ser deixados às mulheres. E isso não é salutar, nem positivo, sobretudo, quando há quem considere a qualificação no feminino "complementar", desvalorizada no acesso ao mercado de emprego, enquanto no masculino continuar a ser um "passaporte" para empregos de sucesso, bem remunerados.

Uma sociedade que promove igualdade de género dá espaço aos jovens, rapazes e raparigas, para que se descubram como pessoas, pouco importa se é cor-de-rosa ou azul, e possam livremente escolher áreas de formação e empregos, ditos de homem ou mulher.

A reflexão que importa fazer e a mudança a concretizar, estão na forma como bloqueamos a livre expressão e realização do ser humano, reféns de modelos acabados, inadequados e impostos, do que "deve ser" um homem e uma mulher.

Enquanto pensarmos que a vida social se determina à nascença, a injustiça associada à desigualdade de género será uma realidade e as relações entre homens e mulheres serão palco de conflitos, tensões, porque incapazes de harmonizar a diferença num projeto comum.

 (artigo publicado no Açoriano Oriental de 5 Setembro 2017)

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