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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Mendicidade

Olhamos de lado, fazendo por parecer que não vimos, evitando a mão estendida, o olhar perdido, a conversa fabricada em torno da fome, da falta de dinheiro, para pagar uma garrafa do gás ou a água, que vão cortar no dia seguinte.

São sempre argumentos válidos, aqueles que se apresentam quando alguém pede! Na grande maioria das vezes quem dá, nem os ouve, apenas põe a mão ao bolso para tirar umas moedas e desembaraçar-se deste encontro, num "vai lá! Olhe que isto não é para o álcool!".

Pois, a questão está precisamente aí, os gestos de mendicidade não deviam ser moralizados, como se a troco de umas moedas, aquela pessoa tivesse a obrigação de mudar de vida. Como se mudar de vida, quando se chegou ao ponto de pedir esmola, fosse apenas uma questão de vontade, uma decisão simples, que só não tomam os preguiçosos e os párias da sociedade.

Mas, é essa mesma sociedade que os esquece, lhes vira as costas e os abandona.

Não vale a pena elencar culpas e apontar o dedo. Quando se rompem relações, a responsabilidade é sempre mútua. E, o fenómeno da mendicidade, é sempre o reflexo de uma sociedade que se tornou individualista! O resultado de uma série de abandonos, de afastamentos que se tornaram crónicos.

Do lado de quem pede, há uma clara perda de autoestima, por isso, para essas pessoas pouco importa se não tem a estima dos outros, se os olhares são atravessados ou evitados.

A mendicidade é um subproduto da sociedade que somos, o resultado do subdesenvolvimento a que chegamos, em termos das relações humanas.

Não se trata apenas de um teto, apesar de os mendigos serem rotulados de sem-abrigo. É mais fácil pensarmos que o problema se resolve apenas com tetos, quando o que falta a estas pessoas são relações. É claro que se, associado ao teto, existirem formas de reatar laços, com a vida, a saúde, a natureza, o trabalho e, sobretudo, consigo próprio, o problema do abandono poderá ser ultrapassado.

De outro modo, a rua e as solidariedades, criadas entre pessoas com histórias dramáticas, tornam-se acolhimento.

Cada mendigo, cada sem-abrigo tem uma história de ruturas afetivas para contar.

Ainda há pouco tempo, ficamos a saber que um português de 35 anos morreu encostado às paredes do metro de Londres, mesmo em frente ao parlamento. Um deputado trabalhista reagiu, o Presidente da República portuguesa agradeceu a mensagem ao deputado, e apareceram flores no local onde esse jovem se apagou. Diz a imprensa que era talentoso, um artista, que chegou a ser modelo e tinha procurado emprego, dias antes.

O certo é que a sua vida se apagou como chama de vela que não resiste ao vento.

A mendicidade é o fim da linha, o último episódio de muitas histórias, onde se perdeu o fio à meada da vida. Aos poucos, vão se acumulando derrotas, insucessos e perdendo o apoio daqueles que, supostamente, deviam lá estar para ajudar.

Depois, vem a solidão, o mundo imenso de dificuldades emaranhadas, a saúde que retira a força, a falta de força que mata a motivação, os consumos que apagam o sofrimento, mas retiram a atenção e, essa onda de desespero que se agiganta, cada vez que se procura levantar a cabeça.

E tudo parece ser mais fácil, quando se estende a mão e se diz umas frases, mais ou menos feitas, que pegam, porque ninguém realmente está atento ao que é dito.

Perante o anúncio de um novo Plano, urgente, para combater a mendicidade, fica o sentimento que alguém se esqueceu de um capítulo na Estratégia de Combate à Pobreza e Exclusão social, e que urge sanear o espaço público, para agradar aos turistas e des(incomodar) a sociedade.

Quem vive na/da rua tem uma história, que não se apaga por estar escondida. O difícil, mas possível, é (re)construir o presente com cada um/a, para que essa história possa ter futuro.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 22 Fev. 2018)

Memória

A memória não é um segredo guardado apenas na mente de quem viveu experiências, construiu edifícios, protagonizou momentos históricos ou conheceu pessoas relevantes. Essa memória dificilmente sobrevive se não forem preservados lugares, casas, objetos, registos escritos ou orais, que transformem essas vivências em realidades partilhadas.

De que serve a minha memória individual, se ninguém for capaz de entender o sentido do que transmito? Mesmo que o tempo seja outro, que alguém fale, por exemplo da guerra do ultramar ou mesmo da revolução de abril de 74, os outros entendem ou aprendem a conhecer, se esses acontecimentos fizerem parte de uma história comum. E, se as memórias forem mais privadas e fizerem referencia à história da família, também nesses momentos, em que alguém conta ou se conta, há um reforço dos laços, sobretudo entre gerações.

A memória é, sem dúvida, um cimento que estrutura as relações que constroem as sociedades, as famílias, os grupos ou organizações.

Sem memória, tudo parece feito ontem, renovado não se sabe porquê, e os que nos antecederam apagam-se, esfumam-se como se não tivessem importância.

Por isso, é muito importante cultivar a memória, não para ser saudosista, mas para conhecer a sua própria identidade.

No caso das famílias, um dos lugares de memória são os álbuns, cada vez menos presentes, já que as fotos ficam esquecidas nos cartões de "memória" das máquinas fotográficas. Mas, até esses álbuns só ganham vida quando alguém, protagonista desse tempo, conta as histórias que envolvem as pessoas ou os acontecimentos retratados.

Precisamos, por isso, que alguém nos conte a história, nos faça mergulhar num outro tempo e nos leve a descobrir o percurso vivido, que entretanto passou.

Recentemente, estando em Brest, uma cidade da Bretanha francesa, arrasada na segunda guerra mundial e reconstruída nos anos cinquenta, descobri que um dos lugares com interesse cultural é a rua Saint Malot, que sobreviveu à reconstrução e recorda a cidade, antes da guerra.

Apesar da carga histórica que esta rua representa, o poder local preferia expandir a cidade, nesse local, construindo edifícios em altura.

Mas, contrariando essa intensão, um grupo de cidadãos organizou-se em associação, alguns até vivem nas poucas casas que aí restam, e transformaram o local num museu vivo, onde a história da cidade de Brest se conta de forma diferente. Ali, restam os muros de uma antiga prisão de mulheres, as casas de pedra e alguns pequenos jardins. À volta, a cidade fala de construção naval, marinha de guerra, edifícios de linhas direitas e não existem praças circulares ou lugares comunitários. Tudo parece ter sido redesenhado a régua e esquadro.

A memória faz-se por camadas. Quando destruímos as mais antigas, outras irão ocupar o seu lugar, nem sempre pelas melhores razões. Quando se nega ou se tenta esquecer um determinado passado, quando se apagam os vestígios do que se foi, a memória acaba por enterrar essa camada e, aparentemente, a história parece só ter começado mais tarde.

Isto acontece com as cidades como com as pessoas ou famílias.

Há quem enterre o passado, por não ser capaz de o enfrentar. Mas, quando menos espera, ele surge à superfície, como magma que fura o vulcão, e dá sentido a um objeto ou escrito, torna-se presente numa palavra ou recordação, que escapou a esse controlo que tenta silenciar o passado. Tal como a rua de Brest, reduto de uma outra cidade, antes da reconstrução.

Um bom exercício para recuperar a memória e reforçar a coesão de grupo, seja uma cidade ou uma família, é mergulhar nos álbuns de fotografias, ou descarregar os cartões de memória, e contar às gerações mais jovens, as histórias aí gravadas.

 (texto publicado no Jornal Açoriano Oriental - de 6 fevereiro 2018)

 

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