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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Mar, pescadores e futuro

No mar não há limites de propriedade.

Não fora a regulamentação internacional a definir zonas económicas exclusivas, limitar o uso das artes de pesca e proteger áreas e espécies marinhas, o mar seria de todos os que nele mergulham ou navegam, levados pelo prazer ou pela necessidade de o atravessar.

Muito antes da gestão política do mar, já os mestres pescadores identificavam lugares de pescaria, "bancos" onde a pesca podia ser mais rentável.

A pesca tradicional assenta nesse saber ancestral, aliado a formas de organização profissional onde a solidariedade se sobrepõe à visão economicista do mérito. Numa companha entram filhos e sobrinhos, tios e cunhados e, no final, retirado o quinhão do mestre, todos repartem o rendimento, sem olhar ao contributo de cada um, mas de forma igual. É injusto!? Talvez! Mas essa é a forma como sempre dividiram o que o mar lhes dá, devolvendo uma parte para a festa do patrono, por quem têm uma enorme devoção.

Todas ou quase todas as embarcações de pesca, das mais pequenas, de boca aberta, às traineiras ou "palangreiras", levam uma ou mais imagens sagradas no seu interior.

A pesca tradicional é feita por pessoas, que vivem em comunidades costeiras, ligadas por laços de parentesco, com quem aprendem a arte de pescar e o respeito pelo mar. Mas, o mar dos pescadores nada tem de lúdico. É um espaço de trabalho, de onde retiram o rendimento diário. Por isso, olham com alguma desconfiança para a denominada pesca lúdica.

Como encarar o futuro das comunidades marítimas? Como transformar a pesca assente em anos de sabedoria, rotinizada em gestos mecânicos que se reproduzem na preparação das gamelas ou no lançar do aparelho?

Todos concordaremos que só pela formação e, sobretudo, pela maior escolarização das gentes do mar, se pode facilitar o acesso e a manipulação de equipamentos sofisticados que as novas embarcações possuem. Equipamentos que garantem a segurança e a eficácia, mas que retiram valor à sabedoria dos velhos homens do mar, conhecedores dos lugares de pesca, sem precisarem de sonares ou cartas marítimas.

Mas e depois! Mais escolarizada, a geração mais jovem poderá manter-se na atividade e pensar o futuro. Mas e os outros? Aqueles que possuem barcos com menos de 12 metros e que toda a vida pescaram a poucas milhas da costa?

A proposta de resgate do governo propõe trinta mil euros para deixar a pesca, exigindo a destruição da embarcação. Significa isso "matar" o barco. Porque, para um pescador, uma embarcação tem vida, foi batizada com nome próprio e deveria morrer de velha.

Porquê exigir a morte do barco, se outras atividades podem ser realizadas com estas embarcações, como a pesca-turismo, que pode ser aliada a outros negócios ligados à gastronomia e ao artesanato local?

A aquacultura não é uma "evolução" para esta pesca tradicional, já que representa a "industrialização" do processo de captura de pescado. Irá precisar de "operários da pesca", não de pescadores.

O futuro do mar, cada vez mais dependente de questões ambientais e da inovação tecnológica, não pode ignorar as comunidades que durante gerações nos alimentaram de peixe.

O mar também é deles.

(texto publicado no Açoriano Oriental de 29 Maio 2018)

 

O futuro do mar, cada vez mais dependente de questões ambientais e da inovação tecnológica, não pode ignorar as comunidades que durante gerações nos alimentaram de peixe.

O mar também é deles.

Vista grossa à ilegalidade

Casas em meio rural, alteadas e acrescentadas, ao sabor das mãos de um qualquer mestre de obras! Obras, sem projeto, nem indicação de licença camarária para realização de obras! A descaracterização do património rural parece escapar ao olhar da fiscalização e de quem devia pugnar pela defesa da cultura local.

O património construído não significa, apenas, edifícios classificados. Uma casa rural, um muro de pedra seca ou um fontanário fazem parte da história do nosso povo. Por isso, qualquer intervenção que descaracterize esse património deve cumprir regras, em harmonia com a história e a identidade coletiva de quem nos antecedeu.

Infelizmente, o poder local, a quem compete fiscalizar, faz vista grossa perante obras abusivas, a exemplo do cimento que está sendo atirado às paredes de um antigo solar nas Capelas, destruindo a traça da sua fachada. Mas, como pode alguém fiscalizar, se não reconhece a diferença entre reabilitação de património construído e recuperação de uma habitação ao gosto de quem o faz?

É importante entregar a tarefa de avaliar as irregularidades, cometidas contra edifícios com história, a quem possui formação específica e pode, em diálogo com os proprietários, zelar pela correta aplicação dos instrumentos legais, projetar intervenções com recurso a materiais adequados, evitando que a volumetria dos edifícios não destrua a nossa paisagem rural.

Somos herdeiros, não apenas de monumentos mas, de habitações rurais, recantos naturais, baías ou zonas verdes, com décadas ou séculos, que deveriam merecer atenção por parte dos eleitos locais.

Não é admissível que obras sem projeto se transformem em factos consumados. As autoridades concluem que já nada se pode fazer, paga-se uma multa e fica o assunto arrumado.

A defesa do património construído, seja uma simples casa rural ou um palacete do século XVII, deve merecer o mesmo cuidado, a mesma preocupação. São marcas da nossa história, da identidade do povo a que pertencemos.

No entanto, reabilitar não é regressar ao passado. É possível modernizar sem descaracterizar. Melhorar as condições de conforto e de segurança, não tem de comprometer a história. Moderno e antigo podem conviver num mesmo espaço, numa linguagem que permita reconhecer o que fomos, somos e queremos ser.

As câmaras municipais, supostamente, exigem um letreiro que afixe a autorização de obra, a finalidade da intervenção e a duração da mesma. Bastaria que a polícia municipal, ou quem fiscaliza, verificasse esse requisito e muitas das obras sem projeto seriam interrompidas ou até evitadas.

Mas porque não o fazem sistematicamente? Quando fecham os olhos a uns, acabam por fechar a outros.

O desenvolvimento de um país não se mede por sacos de cimento, apesar de ser um critério utilizado para avaliar o crescimento económico. Mas, desenvolvimento e crescimento não são a mesma coisa.

Se queremos uma região desenvolvida, há que promover a consciência cívica de todos, defendendo o valor das pequenas coisas, das construções mais simples, mas onde a vida do nosso povo aconteceu e acontece. Lugares de vida, trabalho ou natureza, fazem parte do património que vamos deixar por herança às gerações vindouras.

(artigo publicado no jornal Açoriano Oriental de 15 Maio 2018)

 

Trabalho para todos

"As pessoas com deficiência devem ter a oportunidade de ganhar a vida através de um trabalho livremente escolhido ou aceite num mercado de trabalho aberto" (Convenção para os Direitos das Pessoas com Deficiência - artigo 27º).

O texto da Convenção, aprovado em 2007 pelas Nações Unidas, foi ratificado pelo governo português em 2009 (Resoluções nº56 e 57/2009 de 30 de julho).

Mas o que fizemos das orientações, reconhecidas, que incentivam a integração e a inclusão das pessoas com deficiência, em particular, no mercado de trabalho?

A resposta é, muito pouco.

Mas se acreditamos no sentido das leis que aprovamos, há que tomar consciência porque não as concretizamos. Governos, autarquias, mas também escolas, empresas, famílias e cada um de nós, esquecem, excluem e rotulam, todos os dias, pessoas diferentes, sem ter a preocupação de as conhecer.

Segundo dados das Nações Unidas, nos países europeus, 50 a 70% das pessoas com deficiência, em idade adulta, estão no desemprego. E, na maioria dos países, incluindo Portugal, a taxa de desemprego, nestes casos, é duas ou três vezes superior à das pessoas que não têm deficiência.

Falar de pessoas com deficiência significa um leque muito variado de limitações, desde físicas a sensoriais, de natureza mental ou relacional. Infelizmente, como refere a página da Associação Salvador (www.associacaosalvador.com) menos de 2% das pessoas, que mencionam no seu currículo vitae serem possuidoras de uma deficiência, são chamadas para entrevistas de emprego.

O mundo do trabalho fecha as portas a cidadãos, cujo potencial desconhece. E, essa é a primeira medida a tomar: consciencializar. Nesse sentido, saúdo a iniciativa da autarquia da Lagoa, com a organização de ações, durante o mês de abril, sobre o autismo.

É preciso conhecer os cidadãos portadores de deficiência, o seu grau de autonomia e capacidade, as competências, que não revelam numa entrevista, mas demonstram na prática, em condições adequadas às suas limitações.

Veja-se o exemplo dos autistas, cujo leque de perturbações pode ser muito amplo, mas cujas capacidades de organização, atenção ao detalhe e precisão podem ser excecionais. Empresas de sucesso como a Specialisterne (Dinamarca) ou a Green Bridge Growers (E.U. América) empregam mais de 70% de pessoas portadores de Perturbações do Espectro do Autismo (PEA).

Porque não nos Açores? Porque não com as empresas públicas ou privadas da região?

As empresas que abrem portas à inclusão de pessoas portadoras de deficiência não são alternativas menores, mas demonstram um sentido de responsabilidade social e consciência de quem não se fica pelas aparências, mas descobre, em todos os cidadãos, uma mais valia para a concretização dos seus objetivos.

Segundo o fundador da Specialisterne, empresa do ramo da informática, os cidadãos com PEA apenas necessitam de um ambiente calmo, que seja respeitada a sua rotina e lhes sejam dadas orientações precisas.

Em dia do trabalhador, urge tomar consciência do que fazemos (ou não) pelos cidadãos portadores de deficiência, que querem entrar no mercado de emprego e a quem se aponta, como alternativa, o recurso aos apoios sociais.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 1 maio 2018) 

 

 

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