Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Dia do pai

19 de Março, dia de São José, o pai da história cristã que assumiu a paternidade humana de um filho com um projeto divino.

Mas não será esse o sentido da paternidade ou até da maternidade?

Mais do que uma relação biológica, genética, o laço que se cria entre um pai e um filho é de outra natureza. Envolve a capacidade de se dar, atender, acolher e proteger; exige ser um exemplo e uma referência mas, ao mesmo tempo, precisa de companheirismo e amizade para ser próximo e acessível.

Longe vão os tempos dos pais ausentes, vistos como a autoridade máxima, a quem competia julgar as situações mais graves porque, as outras, as mães resolviam à parte, quantas vezes sem que os pais soubessem, "Não digas nada ao teu pai, que eu te deixei fazer isso!".

O pai de hoje quer-se mais próximo, mais presente, mais preocupado com as necessidades dos filhos, desde os trabalhos de casa às namoradas, dando resposta às dúvidas sobre o texto de português ou as escolhas profissionais.

A paternidade é, como todas as relações humanas, construída pelos seus protagonistas. Por isso, é cada vez mais importante, para os homens, reconhecer e assumir o papel de cuidadores e a quota parte de responsabilidade na educação parental. Uma responsabilidade que não é uma obrigação, penosa e difícil, mas uma necessidade intrínseca de querer marcar a vida filhos, desde que nascem.

Não tem sido fácil, e talvez até muito morosa, a libertação do pai da figura secundária que tudo delega numa mãe protetora, única cuidadora, atenta aos pormenores. Por vezes, são as mulheres que os afastam dos cuidados aos mais pequenos: "deixa que eu faço! Isso não é coisa para homem!". E assim, eles vão sendo dispensados de mudar as fraldas, dar biberões, ir à consulta de rotina ou falar com a professora.

A lei vai refletindo, aos poucos, o reconhecimento da paternidade como relação que se constrói no cuidar, na presença diária, na comunicação afetiva.

Ontem, a licença era apenas "maternal", hoje é "parental". Ontem, o pai tinha apenas 5 dias, hoje pode ter até 25, os primeiros 15 obrigatórios, os outros dez, por opção do próprio. Ontem a licença pós-parto era exclusivamente feminina, hoje pode ser partilhada.

Aos poucos, os pais vão assumindo um lugar mais próximo, mais presente desde a primeira hora, em cuidados que partilham com as mães. E, assim, a parentalidade vai sendo construída como vínculo coletivo, transformando o nós casal em nós-família.

É frequente analisar as transformações na família, com base na alteração do papel da mulher, mais ativa profissionalmente, com percurso escolar mais longo e motivada por objetivos de carreira. Mas esta alteração só pode ser incorporada, de forma equilibrada na vida familiar quando, em paralelo, os homens, até ontem ligados ao espaço público, aos lugares de representação e de chefia, reivindicarem o seu lugar na família e assumirem a paternidade como dimensão fundamental da sua identidade. Ser pai não é um acaso da natureza mas, uma escolha relacional que dá direito a estar presente nos pequenos e nos grandes momentos da vida dos filhos.

Ser pai é ser exemplo, porto seguro e ter a mão firme de um amigo.

Agradeço à vida o pai que tive e tenho.

(Texto publicado no jornal Açoriano Oriental, 19 março 2019)

 

Carnaval

Terça-feira gorda! Gorda de fritos, de excessos e de fantasia. Gorda de folia e diversão. Segundo a Antropologia, o carnaval é tempo de transição que liberta os fantasmas, guardados no sótão das comunidades, escondidos nos bastidores das vidas organizadas. Como diz o povo, "é carnaval, ninguém leva a mal!" Porque, levar a mal seria julgar segundo normas e expectativas habituais. Mas, no Carnaval a regra é outra, a da expressão exagerada das emoções e até da crítica social, com efeito terapêutico sobre o stress, a contenção e algum individualismo que isola e afasta.

Basta olhar as culturas que mais intensamente vivem este tempo, como no Brasil, e ver o povo na rua, dando asas à emoção, nem sempre controlada, porque demasiado contida e massacrada pelas vidas difíceis e sofrimentos diários.

O carnaval é um tempo entre tempos, que marca no calendário o fim do inverno e antecede a chegada de um novo ciclo natural.

Sempre ouvi dizer que neste dia devemos podar roseiras e videiras. Podar é essencial para reorientar o crescimento das plantas, devolver-lhes vigor e eliminar galhos desnecessários que acabam por enfraquecer a estrutura central e não contribuem para a floração e a frutificação.

Ao mesmo tempo que a terça feira de carnaval liberta as emoções, despenaliza as transgressões, simboliza a possibilidade de regenerar a vida. O ser humano precisa dessas transições para reencontrar sentido, vigor, e ser capaz de enfrentar um novo ciclo na sua existência.

É carnaval, do fundo das arcas e dos armários saem as fantasias de princesa e de polícia, as vestes de palhaço ou as figuras da banda desenhada. As máscaras são mais uma oportunidade para libertar emoções. Escondidos por detrás do disfarce, vestidos de um "outro qualquer" fica mais fácil gritar, rir e até dançar. Os tímidos tornam-se extrovertidos, os medos são exorcizados e os corpos movimentam-se, sem receio, ao som do batuque de um samba, que ecoa por todo o lado.

A própria palavra carnaval tem origem na junção de duas palavras "carne" e "levar", ou melhor dizendo, "adeus à carne", lembrando a abstinência que marca o dia seguinte, quarta-feira de cinzas.

Estão reunidos os ingredientes que fazem do Carnaval um tempo diferente: o excesso, a folia, a máscara e a inversão de regras e papéis. Ao mergulhar no outro lado da existência, os adultos retomam o espírito das crianças, aliás testemunhado na frase "brincar ao carnaval", e afastam-se dos seus papéis diários, encarnando a pele de outros personagens e exorcizando alguns fantasmas ou frustrações.

Há muito que a sociologia encontrou no teatro e na definição de papel uma perspectiva de análise do quotidiano. Na prática, todos os dias encarnamos papéis, fazemos por vezes "de conta" e, nem sempre, integramos esses disfarces de forma coerente e saudável. Há mesmo quem passe a vida a mostrar quem não é, a fazer de conta que é feliz, quando preferia estar noutro lugar ou posição.

O Carnaval pode reconciliar a sociedade consigo própria. Libertando tensões, cria um tempo de catarse, que depois dá lugar ao recomeço. Alguns terão de aproveitar para podar aqueles galhos inúteis, libertar a vida do desnecessário, para melhor fortalecer a pessoa que são, ou querem ser, no novo ciclo que se aproxima.

Bom carnaval!

(publicado no jornal Açoriano Oriental 4 março 2019)

Mais sobre mim

imagem de perfil

Visitantes

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D