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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Apetece brincar

Apetece estar no exterior, no jardim ou no campo, deixar o dia correr sem pressa e aproveitar a luz do sol, que se põe mais tarde.

Apetece brincar, viver aventuras, livres da pressão da escola e dos deveres, poder imaginar aventuras, fazer de conta e descobrir os segredos da terra que se transforma em ingrediente de cozinha ou material de construção.

Recordo os bichos de conta, no quintal da minha avó, que se transformavam em pacientes de um hospital de campanha ou do baloiço instalado junto à arrecadação, que imaginava povoada de seres medonhos. Entre os desafios e os receios, imaginados, a brincadeira virava aventura e, aos poucos, ia enfrentando os medos do crescimento.

Brincar é muito mais do que passar o tempo entretido. É uma descoberta permanente, onde se desafiam capacidades, se estimula a imaginação e se aprende a enfrentar os limites, ao mesmo tempo que se descobre o sabor da liberdade.

Dizem os pedagogos que brincar estimula o desenvolvimento cognitivo e contribui para o aumento da autonomia e da capacidade de resiliência do ser humano.

Sem dúvida que, ativar o corpo e o cérebro imaginando cenas e personagens, transformando aquelas folhas que caíram das árvores em ingredientes de cozinha ou fazendo da caixa de cartão o esconderijo perfeito, só podem libertar a mente de constrangimentos e reforçar a capacidade individual.

Infelizmente, muitos pais transformaram o direito a brincar num dever da escola; ali é que se brinca, nos escorregas do recreio ou no campo de jogos. Chegados a casa, acabou! É o tempo do banho, do jantar e da cama. Nem se dispõem a contar aquela história, onde não faltam cenas inventadas, que acrescentam imaginação ao texto do livro. E esqueceram a canção para adormecer, uma música que, mesmo em adultos, recordarão. Falta tempo para fazer um balanço do dia, onde se reconhecem as dificuldades e se elogiam os sucessos!

Infelizmente, tudo parece resumir-se a isso: falta de tempo, quando na realidade, o tempo é o que dele fazemos.

Nunca como hoje o tempo deu para tanta coisa. Imagine-se o que era antes, quando as comunicações se faziam por carta e era preciso um mês, para ter resposta! Ou então, quando quase tudo era encomendado, não sem antes se esperar o envio das amostras, para se poder escolher. Eram meses de espera até que uma ideia se tornasse em obra, fosse a feitura de um vestido ou a construção de uma casa.

Hoje, basta uma mensagem electrónica, uma videochamada e, na mesma hora, a tarefa fica resolvida. O tempo, hoje, dá para fazer muito mais do que antes.

Falta tempo, onde? Talvez as prioridades sejam outras!

Brincar deixou de ser uma prioridade e a preocupação dos pais é encher o horário dos filhos com inúmeras atividades, formais e organizadas, supostamente propiciadoras de um currículo melhor.

Brincar no exterior passou a ser temido, as crianças são vigiadas a toda a hora, não andam de bicicleta por medo, não sujam as mãos para manterem a imagem impecável, nem dormem em casa dos amigos, porque se receiam as diferenças de hábitos.

E, dessa forma, as crianças tornam-se, mais tarde, adultos imaturos, incapazes de tomar decisões autónomas, assumir responsabilidades ou enfrentar desafios.

Faltam memórias de quando viviam a vida a brincar!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 25 junho 2019)

Insularidade

Nasci numa ilha! Não escolhi nascer aqui, mas não seria tão feliz se tivesse nascido noutro lugar. Provavelmente acabaria por descobrir esta ilha, qual ave de arribação, e aqui faria ninho e me deixaria ficar.

A sorte, a vida, fez com que nascesse na ilha, onde tudo é concentrado e curtas as distâncias, mas onde o mar e a terra casam na perfeição.

Posso não ver o mar todos os dias, mas sinto-o e quase que saboreio o sal no ar que respiro.

As gaivotas esvoaçam nos pastos e nem sempre agoiram mau tempo, como diz o povo. Abrigam-se junto às vacas e transformam a paisagem pintalgando de branco a verde pastagem.

A ilha tem estas vantagens, abraça-nos por terra e por mar e acolhe-nos no seu seio para nos proteger do vento. Há dias que tudo parece querer voar, mas nada tão grave como os alertas que dita a meteorologia. O ilhéu parece estar habituado à música do vento que sopra nas árvores, que verga os troncos mas não quebra a madeira.

Nasci na primavera e, todos os anos, as flores de abril trazem-me aromas de esperança, renovação e beleza. Há sempre uma flor que marca o calendário, as glicínias em março e as frísias em abril, as azáleas em maio e as hortências em junho, depois chegam as conteiras, com seu cheiro adocicado, para logo despontarem as beladonas, anunciando o ano escolar e o fim do verão.

O insular não se cansa da sua ilha, aprende a gostar dos recantos, a descobrir trilhos, praias novas ou lugares na encosta, que nunca viu antes. Há sempre um segredo por descobrir e a ilha, por muito pequena que seja, mostra-se sempre diferente, em cada olhar, em cada passeio ou caminhada.

As distâncias são pequenas, é verdade! Mas as vidas quotidianas também o são. Quando damos por nós, vivemos num circuito fechado entre o trabalho e a casa, entre a escola dos filhos e o supermercado, e isso acontece numa ilha ou num continente. A única diferença é que no caminho para casa ou quando chega o fim de semana, o mar está mesmo ali e o campo a dois passos, onde a tranquilidade do silêncio faz-nos tocar de perto a natureza, para a cultivar, mondar e cuidar, esquecendo as rotinas diárias.

Nasci insular e hoje não gostaria de ser outra coisa.

Aqui aprendi a gostar da vivência interior, a apreciar as tradições do passado que nos recordam o medo de viver longe, isolados e correndo riscos, vindos do mar ou das catástrofes. Mas porque o povo se uniu, rezou e pediu clemência, hoje as ilhas partilham um património religioso comum.

Podemos viver distanciados, mas temos no sangue a garra, o espírito e a fé, que nos faz transcender as limitações do espaço e nos torna irmãos, partilhando a generosidade nas festas do Espírito Santo ou nas romarias da quaresma.

Historicamente voltados para dentro, de costas para o mar, descobrimos no céu o divino e no horizonte a liberdade.

A insularidade não é uma dimensão puramente geográfica, como nos ensinaram na escola: uma porção de terra rodeada por mar. A insularidade é uma forma de vida, que transforma um território limitado, num lugar de enraizamento, deslumbramento e libertação.

Quem vive numa ilha conhece bem o sentido dos verbos partir e regressar.

Mas, por muitos voos que se façam, é aqui, neste lugar, que apetece poisar.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 11 junho 2019)

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