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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Carta ao Menino Jesus

Meu Menino Jesus, imagino o teu espanto quando, deitado nas tuas palhinhas, vês as crianças preocupadas apenas com as prendas que rodeiam a árvore, onde brilham milhares de lâmpadas, sem sequer olharem para ti. Não conhecem a tua história, ninguém lhes disse que este é o teu aniversário e que estás deitado na manjedoura de um abrigo de pastores, porque ninguém quis dar guarida à tua mãe, quando chegou a hora de nasceres.

Acabaste por vir ao mundo num estábulo, ajudado pelo pai José e aquecido por uma vaca e o burro, que ali descansavam. Este acontecimento, retratado no presépio, revela como o Amor só encontra espaço na simplicidade e humildade, e sempre que nos despojamos de supérfluos ou adereços de circunstância.

Na tradição do nosso povo açoriano sempre tiveste o lugar central. Em muitas das nossas casas há quem ainda te faça um altar, decorado com as frutas da época, laranjas e tangerinas. Mais frequente é teres, à tua volta, pratinhos com ervilhaca e trigo, que trazem ao presépio uma vida verdejante. Assim se repete um gesto do passado, quando a terra era fonte de sobrevivência e, desta forma, se esperava que protegesses as culturas do ano seguinte.

Tu, Menino Jesus, és o mais importante desta festa, por isso, era de ti que se dizia que vinham as prendas, e era a ti que se pediam desejos. Mas foste rapidamente ultrapassado por uma figura vinda do mundo comercial, um velhinho de barbas brancas que, supostamente, fabrica brinquedos num lugar de fantasia e entra pelas chaminés, para encher a vida das crianças com objetos.

Mas voltemos ao lugar que sempre ocupaste nas famílias açorianas. Ficarás espantado com a pergunta, "o Menino mija?", mas é assim que os visitantes, familiares, amigos ou vizinhos, questionam o dono da casa, esperando provar os licores e as iguarias que, habitualmente, são postas na mesa durante esta quadra.

Este é um tempo bom, saboroso e quente, porque apetece estar com quem amamos e sentimos pena dos que não o podem fazer.

Nestes dias, dói saber que há famílias divididas, pais que não aceitam os filhos com dificuldades, porque tem uma orientação sexual diferente, estão presos a dependências ou desorientados na vida.

Nestes dias ficamos mais emotivos e gostaríamos de acabar com todas as dificuldades, sobretudo, as que afligem os mais pobres. Mas sabemos que essa emoção tem muito de "peso de consciência". Quem vive na pobreza não fica melhor por lhe darmos um cabaz ou uma qualquer esmola. No dia seguinte as agruras estão lá e até mais duras, porque tiveram a oportunidade de saborear um pouco de fartura.

Menino Jesus, seria bom poder tornar tudo mais fácil, libertar as pessoas do individualismo, que isola as famílias dentro de casas iluminadas, onde não há presépios.

Por isso, neste Natal, gostava que as crianças olhassem para ti e descobrissem a fraternidade, antes da competitividade; os pais vissem o presépio como exemplo de simplicidade, e o mundo, mesmo aquele que não acredita na tua mensagem, reconhecesse na Paz, a única plataforma de diálogo.

Menino Jesus, obrigada por (re)nasceres todos os anos e alimentares a esperança de que podemos fazer e ser diferentes, depois do Natal!

(texto publicado no Jornal Açoriano Oriental a 24 dez. 2019)

Humanizar a humanidade

É uma contradição e uma realidade. É preciso humanizar a humanidade! Relembrar e reavivar a essência dos Direitos Humanos, a dignidade, esquecida e ultrapassada por outros interesses, bem mais materialistas e individualistas.

Dotados de inteligência, os seres humanos julgaram, erradamente, que isso lhes bastaria para garantir a felicidade.

Enquanto homo, duas vezes, sapiens, esqueceram que a evolução, o desenvolvimento, dependem de uma outra dimensão, fundamental, a afetividade. Só pela afetividade e emotividade, conseguimos recordar, fazer memória, sentir e compreender.

Não basta sermos inteligentes! Se não tivermos em conta os afetos, corremos o risco de desumanização, sobretudo, perante os avanços da tecnologia dotada de inteligência artificial. Em que sociedade esperamos viver, quando tudo se basear num qualquer algoritmo, que calcula a melhor resposta, antecipa as músicas que gostamos de ouvir ou determina o diagnóstico que nos levou à urgência do hospital?

Sem afetividade, a inteligência pode destruir, artificializar a existência e instrumentalizar as relações.

O que nos distingue dos outros seres vivos não é apenas o facto de sermos animais dotados de inteligência ou racionalidade, mas pessoas de afetos e emoções, que precisam de proximidade, intimidade e sensibilidade para serem felizes e usam essa afetividade com inteligência.

São os afetos que nos ligam aos outros, é no cuidar que manifestamos atenção, carinho e capacidade de compreensão da diversidade do mundo que nos rodeia.

A vida não pode ser gerida apenas por critérios económicos, custos e ganhos, perdas e lucros. O ser humano é muito mais do que esta contabilidade, sobretudo, quando descobre que há prendas caras que não valem tanto quanto um abraço sentido, afetos que não se obtém nas amizades virtuais.

Razão e afeto são as bases da humanidade. Quando as dissociamos, desumanizamos. Ora porque escondemos as emoções e tratamos a vida a partir de uma folha de cálculo, ora porque não sabemos priorizar e exageramos na exteriorização de emoções, de forma desajustada.

Se tudo for racionalizado, não faz sentido ter idosos dependentes em casa, perder tempo a brincar com os filhos ou sentar-se diante do mar, só para ouvir o marulhar das ondas. Mas se exagerarmos nas emoções, também corremos o risco de tratar os idosos como incapazes, trazer ao colo crianças que sabem andar ou chorar por tudo e por nada, sem compreender a realidade ou descortinar soluções para os problemas que nos afligem.

Precisamos de descobrir o valor do cuidar, para aprender a gerir os afetos com inteligência. Mas, atenção! Cuidar, nada tem de feminino, como alguns ainda teimam em julgar.

Cuidar é ser Humano, o mesmo é dizer feminino e masculino ao mesmo tempo. É ser capaz de associar a sensibilidade e a atenção ao outro, consideradas competências de mulher, com a força da decisão e o poder de influência, traços vistos como masculinos.

Para integrarmos essas facetas há que educar rapazes e raparigas na arte de cuidar, e deixar de dizer que "um homem não chora" ou que "o poder não fica bem à mulher".

Precisamos de cuidar do bem comum, com afeto e inteligência, se queremos defender a humanidade e não mais dizer que é necessário a humanizar.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 10 dez 2019; dia internacional de aniversário da Declaração dos Direitos Humanos).

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