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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Desencafuar

Nestes dias de confinamento, há tempo para abrir armários, que precisam de arrumação; gavetas onde se guardaram aqueles papeis que exigem uma atenção maior, mas para os quais nunca houve tempo.

Acumulamos tantas inutilidades, objetos sem préstimo, mas que, na hora de deitar fora, nos fizeram pensar, “isto ainda vai dar jeito, pode vir a ser útil, talvez consiga reparar”. O tempo foi passando e o relógio foi substituído, a caneta secou, a roupa deixou de servir ou perdeu cor.

Ficar em casa proporciona um reencontro com o passado, acumulado em gavetas, caixas de roupa, armários onde se foi encafuando o que, talvez um dia, viesse a ser necessário!

Mas, essa vida encafuada, passou à história.

Desencafuar é um ótimo exercício para relembrar, recuperar, reciclar e reutilizar ou, simplesmente deitar fora. O verbo resulta da negação de “encafuar”, que significa meter-se numa cafua, num buraco, esconder. Logo, desencafuar é desocultar.

A vida encafuada está oculta, escondida, acumulando pó. Quando fazemos o exercício de a libertar, damos conta do muito que guardamos, encafuamos, e afinal não era essencial, ao ponto de ficar esquecido; Já nem me lembrava disto? E fui eu comprar outro! Afinal, esta blusa ainda me serve! E quantos cadernos começados que não foram utilizados até à última página! Pois, mas sempre que começava o ano letivo, os filhos pediam novos cadernos com as capas da moda! No fundo do armário foram ficando cadernos encetados!

Desencafuar a vida é libertarmo-nos de excessos, dessa necessidade de comprar, quantas vezes à procura de um prazer instantâneo que, supostamente, a posse de um bem desejado deveria proporcionar. Por impulso, acabamos por juntar tralha, que agora jaz no fundo do armário, acumulada na gaveta, há muito por arrumar.

Aproveitemos este tempo! Já que temos de ficar em casa, é hora de abrir aquele armário alto para onde foi parar o que não tinha destino. E porque não, começar a separar o essencial do desperdício, deitar fora o que não serve e nunca terá reparação e aproveitar o que ainda está em condições e ficou esquecido?

Desencafuar é mais do que uma reorganização do espaço, pode mesmo ser um arrumar da mente! Quando revemos as nossas vidas passadas, inscritas em tantos objetos, podemos reencontrar os fios que tecem o presente e que fazem sentido no futuro. Se desencafuar significa desocultar, então este é um exercício que pode libertar a mente do que, por medo, preguiça ou dúvida, foi posto de lado. “Eu vou tratar disso, um dia, mas não hoje!!!”

Nestes tempos de confinamento, talvez seja hoje o dia! Por em ordem os papeis, dar um destino às roupas que não se usam há mais de um ano, deitar fora objetos partidos, que nunca terão reparação, até porque já foram substituídos.

Aproveitemos, estarmos todos em casa, para cada um encontrar o seu “essencial”. Vamos precisar disso para os tempos que aí vêm. Temos de aprender com este presente, a rever, no passado, o que não queremos para o futuro.

Se continuarmos a encafuar vamos estar, de novo, a nos esconder da vida, por detrás de objetos, de tralha acumulada! E há tanto para fazer e sentir, que agora nos faz falta. Precisamos de tocar a vida, sentir o gosto do mar e o sabor de uma boa conversa!

É hora de (Des)encafuar o que, inutilmente, guardamos.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 28 abril 2020)

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