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SentirAilha

Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

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Viva! Este é um espaço de encontro, interconhecimento e partilha. Sentir a ilha que cada um é, no mar de liberdade que todos une e separa... Piedade Lalanda

Envelhecer num Lar

Os “lares de idosos”, passaram a ser designados “estruturas residenciais para pessoas idosas”. Talvez o legislador tenha considerado que a palavra “Lar” é emocionalmente forte. Está ligada à intimidade, aos afetos, ao convívio e, sobretudo, às memórias pessoais e a uma história familiar. “Estrutura residencial” é, por ventura, uma designação mais neutra.

No entanto, a legislação em vigor (Portaria n.º 67/2012, de 21 março que altera o Despacho normativo nº 12/98 de 25 de fevereiro), que também se aplica à Região Autónoma dos Açores,  manteve os mesmos objetivos: “Prestar serviços permanentes (alimentação, higiene e conforto, higiene dos espaços, animação sociocultural); b) Contribuir para a estimulação de um processo de envelhecimento ativo; c) Criar condições que permitam preservar e incentivar a relação intrafamiliar e d) Potenciar a integração social.”

No âmbito da saúde, apenas consta a “Administração de fármacos, quando prescritos.”

Com este enquadramento legal, percebe-se que os Lares de idosos não foram pensados para dar resposta adequada às necessidades de saúde, decorrentes de doenças crónicas ou incapacidades físicas. A lei prevê que os utentes sejam pessoas, com alguma autonomia, que têm falta de suporte familiar ou de vizinhança.

Os lares construídos não possuem “enfermarias” ou “espaços de isolamento profilático”.

O poder político sempre esteve mais preocupado com o número de camas e dificilmente encontraremos um “ginásio” ou outro espaço de estimulação criativa num Lar.

Quando não estão nos quartos, a maioria dos idosos institucionalizados ocupa uma grande sala, chamada de convívio, mas que é sobretudo para “estar” num cadeirão, enfileirado com outros, a olhar para ontem, dormitando sob o efeito da medicação ou da inatividade.

Esta é a imagem que nos incomoda, mas que logo se compreende, quando se olha o número de funcionários e a sua formação. A grande maioria são auxiliares, contratados para cuidar da higiene do espaço, da alimentação, da roupa e ajudar alguns utentes nas atividades de vida diária.

Se, na década de 90, muitos destes idosos eram relativamente autónomos, hoje, os que entram nos Lares são cada vez mais velhos e com problemas de saúde associados.

A Covid19 veio acordar a sociedade para esta realidade e abriu as portas a algumas destas estruturas residenciais onde depositamos a velhice dependente.

De repente, os políticos descobriram que tinham legislado, sem ter em conta que a população com mais de 65 anos iria envelhecer dentro do lar. Esqueceram a dimensão da Saúde e não dotaram estes equipamentos com o quadro de pessoal de enfermagem necessário.

É certo que foram criados outros serviços, as enfermarias de “cuidados continuados”, que, na prática, vieram substituir as “enfermarias de retaguarda” e libertar camas hospitalares.

Se há alguma lição a retirar do impacto que a Covid19 provocou em vários Lares de idosos, é a de que não os soubemos projetar de forma adequada, ao sobrevalorizar a dimensão “residencial”, esquecendo todas as outras necessidades da pessoa idosa, sobretudo, as que permitem um “envelhecimento ativo e saudável”.

Infelizmente, há quem julgue que os idosos só precisam de “descansar”, esquecendo que isso significa, para muitos, “esperar a morte”.

A velhice é um tempo de vida para ser vivido, com emoções, prazer e experiências.

A pessoa idosa tem o direito ao presente e não se resume à sua história passada.

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 18 de agosto 2020)

 

Aproveite o Verão

Roubaram-nos o sabor da primavera, o cheiro das flores, as temperaturas amenas e os fins de tarde frescos. Não tivemos a possibilidade de semear e plantar, o que era próprio da época, e não houve tempo para podar as árvores em março.

Neste ano, que a História irá classificar como pandémico, a primavera foi sinónimo de clausura, confinamento, casa. Só o ciclo da natureza permaneceu intacto, as ervas daninhas não deixaram de crescer e as árvores de fruto floresceram e frutificaram, mesmo não tendo sido cuidadas.

Agora, o verão está aí e apetecia dizer-lhe para esperar um pouco por nós, enquanto nos preparamos para o receber. Precisamos de tempo! Mas não, o sol brilha, as temperaturas aumentam e as pessoas, sedentas de estar no exterior, procuram as praias e os lugares de lazer. As estradas enchem-se de piqueniques e convívios à volta de uma churrasqueira ou debaixo de um toldo. Chegou o tempo das idas à praia em família, das festas ao ar livre, dos jantares que se prolongam noite dentro, porque está muito calor e só se consegue dormir de janela aberta.

Não há distanciamento físico que resista, quando a população está exausta de tanto isolamento forçado. Estamos muito cansados de “ficar em casa”. Uns, porque estiveram em teletrabalho, ganharam a forma da cadeira, diante do computador. Outros, ainda esperam o regresso ao serviço e queimam os dias, enquanto a economia não desperta do torpor da doença. E depois há as crianças, que antes brigavam por uma hora ao computador e agora choram para estar no exterior, na praia ou no jardim.

E infelizmente há todos os outros que sofreram física e mentalmente com este tempo de isolamento forçado, para quem a casa é um lugar inseguro, violento e opressor da sua liberdade de ser e sentir. Para estes, sair e falar com outros, pode ser a única forma de esperança e respeito pela dignidade perdida, numa relação que há muito deixou de ser afetuosa e positiva.

O verão está aí, para todos, o sol brilha e o céu está azul.

Mas, ao contrário de outros anos, vamos ter de ser rápidos a gozar o tempo de férias. O recomeço do trabalho já espreita e não nos vai dar descanso. Ainda agora, acabamos um ano de trabalho, os jogadores pousaram as chuteiras e, infelizmente, um terço do Verão, já passou, sem esperar por nós.

Agora, é correr atrás, viver intensamente cada dia, fazer o que mais nos apetece e encher os pulmões de energia e de coragem.

Precisamos de vitamina D, de descanso e de muita vitamina C, de convívio.

Com tantos dias fechados, a pele ficou macilenta e os corpos parecem não responder ao desafio de uma caminhada. A nossa saúde agradece este tempo de exterior.

Este vai ser um verão atípico, como agora se classifica o tempo atual, a tal “nova normalidade” que mais não é do que uma nova adaptação, comportamento intrinsecamente humano. Somos seres adaptáveis até às piores circunstâncias. A arte de viver nunca esteve em ter as melhores condições, mas em saber aproveitar os momentos, o agora, por vezes até o instante.

Por isso, aproveitemos o que nos resta de verão, para que o outono e o inverno não nos saibam, de novo, a clausura e perda.

Vamos abrir as janelas da vida, gozar uns dias de férias e sentir o calor do sol, que ainda nos resta neste verão. Depois!? só para 2021, ano de todas as nossas esperanças!

 (texto publicao no jornal Açoriano Oriental de 3 agosto 2020)

 

Morte evitável

Este é o título que todos queremos ler, por ventura, pensando que algum investigador, num qualquer laboratório, descobriu a fórmula secreta da longevidade.

Desenganem-se, essa fórmula não existe e a mortalidade continuará a fazer parte do ciclo de vida, como condição humana, exigência de renovação das espécies, que faz o ecossistema funcionar.

Mas se não temos o elixir da longevidade, não faltam certezas científicas sobre as causas de morte que podem ser evitáveis. Como?

Tão simplesmente através da prevenção, dos estilos de vida, do acesso generalizado aos cuidados de saúde e da melhoria das condições de vida das populações.

E isso significa que está nas nossas mãos, e na forma como estiver organizado o sistema de saúde, evitar uma morte antecipada.

A este ponto da leitura, há ainda quem esteja cético, descrente, embrenhado no dramatismo dos números da covid19, fechado em casa à espera de uma vacina; esquecendo que, mais de 90% das mortes que ocorreram no mês passado não foram causadas pela pandemia. Pois é, estamos de tal maneira preocupados em não sermos contagiados pelo vírus, que nos esquecemos do muito que podemos fazer para evitar outras causas de morte.

De acordo com os resultados sobre o Estado de Saúde, publicados no primeiro, e até agora único, Inquérito Nacional de Saúde com Exame Físico (INSEF, 2017), somos a região do país onde se registavam as maiores percentagens de: homens que fumam diariamente (40,5% contra 28,3% - país); população com atividades sedentárias (53,4% contra 44,8% - país). Somos, ainda, a região portuguesa com menor percentagem de consumo diário, de frutas (70,9% contra 79,3% - país) e de vegetais e saladas (59,5% contra 70,9% - país).

Alguns dirão, mas o que tem isso a ver com mortalidade evitável? Tudo!

As doenças que mais matam na região são, sobretudo, as do aparelho circulatório, e tem causas evitáveis, como a obesidade ou mesmo a diabetes, cuja prevalência nos Açores está acima da média nacional. E, falar de obesidade ou diabetes é falar de estilos de vida, excessos alimentares, hábitos tabágicos ou sedentarismo.

Durante estes últimos meses, fomos bombardeados com o número de mortes por causa da Covid19, que nos faz sentir impotentes. Infelizmente as autoridades da Saúde não nos informaram quantos morreram, diariamente, de outras causas, evitáveis, contra as quais podemos lutar.

Só agora, com a vaga de calor a acontecer no continente português, a Direção Geral de Saúde alerta para a importância da proteção e hidratação, particularmente das pessoas idosas. Mas onde está a preocupação com as condições dos lares, em termos de ar condicionado e ambientes arejados?

E as outras mortes, evitáveis, de doentes crónicos que não tiveram consultas de vigilância, canceladas devido à Covid19, ou que interromperam práticas habituais de manutenção da sua saúde? Para não falar de todos aqueles que, ansiosos, agravaram a sua saúde física e mental, consumindo calorias em excesso, sentados no sofá, agarrados ao comando da televisão!

Importa agora recuperar a acessibilidade de todos aos serviços de saúde e tomar consciência que, não basta usar máscara ou desinfetar as mãos, temos de lutar contra as causas de morte evitáveis, optando por hábitos, que nos deem mais Vida!

(texto publicado no jornal Açoriano Oriental, de 23 Julho 2020)

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