Arco-íris
Alguém, em Itália, lembrou-se de associar a frase “vamos todos ficar bem” à imagem de um arco-íris, poisado em duas nuvens brancas.
Uma imagem alegre, que muitas crianças pintaram para por nas janelas das suas casas e até idosos o fizeram nos centros de dia. Animados pela esperança de que tudo iria ficar bem, o arco-íris apareceu como símbolo da mudança.
É isso que acontece habitualmente, chove, mas logo a seguir vem o sol! E, no céu, abre-se um arco de cores, que na escola nos ensinam serem a decomposição da luz branca.
Dizem que são sete, do amarelo ao lilás, passando pelos tons quentes do vermelho, do laranja, sem esquecer o amarelo, o verde, o azul e o azul indigo.
Mas será que o arco-íris é sempre esse sinal positivo de mudança?
Este arco-íris, cheio de cor e esperança, afinal pode significar dificuldades. Porque a mudança nem sempre é “para ficar tudo bem”, mas para “enfrentar um mal”, como aliás estamos todos a viver neste momento.
Isso não significa que seja pior, por vezes, essas mudanças que nos confrontam com as dificuldades são necessárias. Até então, dávamos por garantida a segurança, a paz, a saúde e, de um momento para o outro, tudo se transforma.
O símbolo do arco-íris tem muito mais leituras do que este duplo sentido, de mudança para melhor ou de dificuldade acrescida.
No universo de várias culturas e religiões, o arco-íris simboliza a ligação da terra com o sobrenatural.
Quem nunca ouviu falar do “arco-da-velha”? Uma expressão que significa espanto, incredulidade. Isto é “do arco-da-velha”! dizemos nós, perante o que parece impossível ou de difícil explicação. Na realidade esta é uma forma reduzida de dizer “arco da lei velha”, por referência ao texto bíblico do Genesis, onde o arco-íris surge como símbolo da aliança entre Deus e o mundo dos seres vivos: “Toda a vez que o arco-íris estiver nas nuvens, olharei para ele e me lembrarei da aliança eterna entre Deus e todos os seres vivos de todas as espécies que vivem na terra.” (Gênesis 9, 16).
Não é só o cristianismo que faz referência ao arco-íris. No budismo, é descrito como a escada de sete cores que Buda terá descido para chegar à terra. No Taoismo, representa a união perfeita do ying e o yang.
Cada cor tem o seu significado e todas juntas constituem a perfeição que se obtém quando se liga, a coragem à energia, a harmonia à disciplina, a esperança à espiritualidade e se projeta a vida de forma transparente e voltada para a eternidade.
O arco-íris é então, mais do que um sinal de mudança depois da tempestade, é um símbolo de aliança entre a força e a fragilidade, entre o poder e a derrota. Talvez por isso, tenhamos todos sido tocados pela frase “vai ficar tudo bem”, recordando as palavras que ouvimos em criança, quando os pais nos asseguravam, que podíamos confiar neles e que as dores iam passar.
Vai ficar tudo bem!? Se acreditarmos que este mundo, nas suas vitórias ou catástrofes, depende, sobretudo, de cada um de nós. Olhando as cores do arco-íris, podemos ler esta mensagem: reconhece a força do amor (vermelho), encara a vida com entusiasmo (laranja), aprende a discernir as melhores opções (amarelo), defende e protege a natureza (verde), vive com calma e serenidade (azul), aposta no conhecimento (azul indigo), sem esquecer a espiritualidade, o essencial da vida (lilás).
(texto publicado no jornal Açoriano Oriental de 29 setembro)